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A bengala do time
10 de dezembro de 2010 por @parmerista
O Palmeiras que jogou o Brasileirão 2010 – e também a Sulamericana – foi um time com pouca inspiração ofensiva. Kleber, na maioria das vezes, ficou isolado na frente, dependendo da aproximação de laterais, volantes e meias para poder fazer o pivô. Muitas vezes, isso não acontecia, e ele tentava girar para algum lado para tentar a conclusão. Com o caminho fechado, acabava caindo para as pontas e tentava o cruzamento, pra ninguém.
Felipão começou a montagem do time como manda o manual: pela defesa. E depois de tentar alguns esquemas, optou pelo 4-4-1-1, com duas linhas de quatro, sendo a mais adiantada composta por quatro volantes. Tinga ou Marcio Araujo faziam o da direita, Luan ou Rivaldo o da esquerda, e Edinho e Marcos Assunção faziam os internos. Um esquema bastante sólido, que resultou numa das melhores defesas do campeonato e na melhor defesa do Palmeiras na história dos pontos corridos – e poderia ter sido melhor ainda se o time tivesse jogado pra valer até o fim.
Após arrumar a defesa, começa-se a pensar em como fazer o time marcar gols. Mas não deu tempo, o ano acabou. O Palmeiras não conseguiu colocar Valdivia em campo, Lincoln insistiu em jogar avançado demais, e não fez a ligação como seria necessário. O time viveu de bolas esticadas para o Kleber e de uma ou outra estilingada do Tinga. Além das bolas paradas.
E Marcos Assunção tornou-se então uma espécie de muleta do time. Ou bengala, como queiram. Com o time sem alternativas de jogadas de ataque, seu desempenho na bola parada foi a tábua de salvação da equipe, foi o que garantiu vários pontos no Brasileiro e todos os avanços de fase na Sulamericana. Os gols e as assistências de Marcos Assunção deram-lhe status de intocável. E isso não é bom.
A função primordial de Marcos Assunção é marcar. Volante de contenção, precisa de mobilidade para cobrir os espaços, e velocidade para chegar no tempo certo na jogada e cometer poucas faltas. E isso vai ser mais necessário ainda caso Felipão decida montar o time de 2011 valorizando os potenciais de Vítor e Gabriel Silva, liberando-os para jogarem como alas. Mesmo com três zagueiros atrás, a dupla de volantes vai precisar mostrar muito mais serviço. Não se viu em 2010 esse desempenho em Marcos Assunção. Nem perto disso. Se com a bola parada ele foi um monstro, com a bola rolando ele deixou muito a desejar. Apesar do esquema defensivo bem montado, muitas vezes vimos buracos em seu setor, com Edinho, Danilo, e até Luan tendo que se desdobrar para cobri-los.
Na saída de bola, outra das funções que deve desempenhar, Assunção está longe de ser um bom passador. Limita-se a passes curtos, de dois metros. Se for preciso pegar uma bola e inverter o jogo rápido, que ninguém espere que ele vá fazer isso. Na verdade, Marcos Assunção tem ocupado uma das onze posições do campo com a única função: especialista em bolas paradas. No resto do tempo, fica por ali, tentando ocupar o espaço.
Alguém pode perguntar: se tivéssemos ali um volante mais participativo, será que Luan não poderia jogar mais adiantado, e assim Kleber não teria ficado tão isolado? Como se trata de Luan, talvez não fizesse muita diferença. Num time manco como o do Palmeiras, uma muleta como Marcos Assunção até tem sua razão de existir. Mas e num time que está saindo do zero, como o de 2011? Justifica manter um jogador com esse comportamento em campo por causa de seu desempenho nas bolas paradas?
Os goleiros já estão manjando suas cobranças. Na reta final, viveu do chute no Serra Dourada e só, e foi de bola rolando, pegando Harlei um pouco adiantado e desatento. O Palmeiras vai precisar de um volante muito mais participativo ao lado de Edinho em 2011, para voltar a ser um time com padrão ofensivo, com equilíbrio entre os setores, e não apenas defensivo como em 2010. Marcos Assunção até pode ser esse cara. Seria ótimo se ele se convertesse nesse tipo de jogador, porque aí suas cobranças de falta seriam seu diferencial, e não sua única virtude. E depende dele. Resta saber se seu desempenho sofrível em 2010 está relacionado com alguma limitação física, causada pelo peso da idade, ou se foi apenas uma questão pontual, que seja possível corrigir.
O fato é que Marcos Assunção, jogador experiente e inteligente, percebeu o moral que adquiriu com a torcida e com a imprensa com seu desempenho nas bolas paradas. Já andou querendo dar lição de moral em diretor. Passou uma reprimenda em Wlademir Pescarmona, dizendo que assuntos internos tem que ser resolvidos internamente. Mesmo estando corretíssimo no conceito, falou isso publicamente, quebrou a hierarquia praticando exatamente o contrário do que pregou. E já andou ouvindo propostas do Santos para romper o contrato com o Palmeiras, que vai até julho.
Se Marcos Assunção chegar para a diretoria pedindo aumento, com o moral adquirido com as bolas paradas numa mão, e a proposta do Santos na outra, acredito que a resposta certa seja liberá-lo na hora.
O Palmeiras precisa de comprometimento. Jogadores com o foco no crescimento do grupo, que pensem em acrescentar mais ao coletivo se desenvolvendo tática e tecnicamente; correndo mais, marcando melhor, ocupando mais espaços para não sobrecarregar os companheiros e para que o time não pareça que tem um a menos. E não sugando mais os recursos, que não são exatamente abundantes. O Palmeiras não pode se planejar para 2011 para ser novamente um time que precisa de uma bengala em campo. Queremos o Marcos Assunção atleta, não um mero cobrador de faltas e escanteios.
A não ser que o elenco do ano que vem seja igual ou pior que o deste ano. Daí, é rezar para que as faltas de Kid Bengala continuem entrando, mesmo cada vez mais manjado.
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