A história de um juiz
2 de maio de 2011 por @parmerista
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A história a seguir é absolutamente verídica – o “eu” do texto sou eu mesmo. Foi publicada pela primeira vez no dia 9 de novembro de 2009, no blog Parmerista!, que foi desativado pelo surgimento do Verdazzo. A motivação para escrevê-la foi a partida entre Fluminense x Palmeiras, no Maracanã, em que Carlos Simon nos roubou vergonhosamente.
O tempo passa, mas certas coisas continuam iguaizinhas.
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Eu era “cunhado” do sujeito. Namorava com sua irmã. Ele não gostava muito da idéia, mesmo eu sendo um cara legal. A menina era um tanto quanto sentimental, e tinha momentos de instabilidades emocionais agudas por pouca coisa. Mas para o irmão protetor, isso era apenas um detalhe. O fato é que provavelmente eu era o causador de todo o sofrimento por que a garota passava nesta e por que passaria na próxima encarnação. Embora não houvesse um grama de verdade nessa conclusão, não o condeno por pensar assim.
Humilde, embora já estivesse na faixa dos 30, 32 anos, ainda morava com os pais, na edícola da casa, para ter o mínimo de privacidade que um sujeito nessa faixa de idade precisa. Formado em Educação Física, palmeirense, amante do futebol, ele inventou sabe-se lá por que motivo abraçar a carreira de árbitro. Nunca consegui perguntar a razão, até pela própria distância que ele procurava manter.
Era um árbitro bastante promissor. Isto significa dizer que tecnicamente o cara era bom, bom demais. Errava muito pouco. Mesmo sendo lacônico comigo por causa da irmã, passei a nutrir uma admiração pelo cara. Apitava jogos da série A3 do Paulista. Eu chegava a assistir às peladas na Rede Vida só para vê-lo apitando. Apitar bem uma partida de A3 requer a mesma capacidade de apitar bem uma final de Copa. E ele era bom mesmo.
Tão bom que chegou a apitar jogos da primeira divisão. Mas não durou muito. Cometeu dois pecados em sua curta passagem pela Série A1: expulsou Marcelinho Carioca numa partida do Corinthians, e numa partida do São Paulo foi violentamente criticado por Rogério Ceni ao final do jogo por sua arbitragem tê-lo desagradado de alguma forma. E olha que eu vi as fitas dos jogos em questão. Não por ser palmeirense, a arbitragem nas duas partidas foi perfeita. Chegou a apitar jogos do Palmeiras também. O time ganhou, empatou e perdeu mais ou menos na mesma proporção histórica.
Mas depois de ter sido criticado por Ceni, pegou uma geladeira. E nunca mais o tiraram de lá. Voltou para a A3, e foi sumindo, sumindo, sumiu.
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Este é um exemplo perfeito do que acontece com um juiz de futebol de acordo com suas posturas técnicas e morais no futebol brasileiro.
Existem postulantes à carreira que são bons tecnicamente, e os ruins. Como em toda carreira, a maioria que vingou foi devido à competência, e sabe o que e como fazer dentro das normas técnicas. E como em toda carreira, existem as exceções que por alguma outra razão acabam ingressando no ramo mesmo sem estarem capacitados.
A maioria absoluta dos árbitros, quando quer, apita uma partida direitinho. Vai cometer um ou outro erro sem importância. Vez ou outra, vai cometer um erro grave. Mas isso é perfeitamente normal. Antes do início da era das transmissões com 10, 12 câmeras, os árbitros não eram tão crucificados exatamente porque, a olho nu, sem replay, era impossível cravar se houve erro ou não. Com esse monte de câmera, o juiz passou a ser o grande vilão. Com o passar do tempo os consumidores de futebol passaram a tolerar os erros milimétricos, entendendo que o recurso eletrônico é uma covardia contra os juízes em muitos lances. O que no fundo só aumentou o valor do árbitro que erra pouco. Lembrando sempre do grifo: erra pouco, quando quer.
Existem as exceções, como Djalma Beltrame, que erra sempre porque é ruim, não sabe apitar. Mas a grande maioria sabe apitar, e muito bem. Carlos Simon, Marcio Rezende, Wilson Mendonça, Leonardo Gaciba, Paulo Cesar Oliveira, Heber Lopes, Salvio Spinola Fagundes, Wilson Seneme, Alicio Pena, Cleber Abade, entre tantos outros, sabem exatamente como conduzir uma partida de futebol. São ótimos árbitros. Até o Edilson, que virou sinônimo de ladrão, sabia apitar um jogo muito bem. Quando queria.
Mas para ser árbitro, e continuar sendo, além de ser bom, é preciso fazer parte do establishment. É preciso obedecer vez ou outra a algumas determinações.
E nosso personagem da história se recusou a isso. Preferiu entrar em casa, olhar o pai e a mãe nos olhos e não decepcioná-los. E seguir em frente, em direção à edícola, enquanto seus colegas da escola de árbitros já ostentavam carrões do mesmo quilate dos que os jogadores desfilam, e moravam em casas bastante confortáveis.
Concluam como quiserem. A minha conclusão, mesmo fechando os olhos durante tanto tempo e tentando me enganar, finalmente tirei.
Só não sei como vou lidar com ela.


