A Lei Pelé e as aberrações do futebol
11 de abril de 2010 por @parmerista
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O fim do vínculo dos atletas com os clubes, determinado pela Lei Zico, que depois virou Lei Pelé, e que teve seu texto original bastante modificado, alterou radicalmente o panorama do futebol brasileiro. A principal mudança foi a liberdade que os atletas ganharam para, ao final de seus contratos, negociarem com qualquer clube as sequências de suas carreiras.
Na teoria: lindo, maravilhoso. Atletas como Marcos, do Palmeiras, e Ricardinho, hoje no Atlético-MG, são os responsáveis por seus contratos e pelo seguimento de suas carreiras. Mas na prática, as brechas deixadas pela redação da Lei permitem que surjam verdadeiras aberrações no futebol. Agressões à cultura nacional. A atividade de agente de jogadores passou a ser não apenas extremamente lucrativa, como muito poderosa, capaz de decidir os rumos de times inteiros.
O efeito pretendido na redação inicial da lei, a de dar liberdade aos jogadores e extinguir o vínculo com os clubes, não funcionou na prática. Os atletas, que não se sentem seguros ao serem responsáveis por negociar seus próprios contratos, assinam procurações com empresários “do ramo”. A maioria deles usam empresas que quase sempre se chamam alguma coisa Sports.
Temos desde grandes tubarões, como Traffic (J. Hawilla), Juan Figger e Wagner Ribeiro, até novatos como Pepinho e Marcio Rivellino, determinando o rumo do futebol brasileiro. Hoje, eles tomaram o lugar dos clubes no tripé de comando, que também conta com a CBF e federações estaduais, e com as televisões. Os clubes hoje são meros CNPJs, necessários para que o negócio prospere, mas absolutamente substituíveis – principalmente os pequenos.
E o futebol no Brasil, desde o tempo do amadorismo, passando pela profissionalização, na década de 30, atravessou todo o século 20 baseado em uma dúzia de camisas de times das capitais que moveram multidões – coadjuvadas por times menores, principalmente no âmbito estadual, que representavam suas cidades. Temos times seculares, importantíssimos. Só para citar alguns no estado de São Paulo: Ponte Preta e Guarani, de Campinas; Botafogo e Comercial, de Ribeirão Preto; América, de Rio Preto; São Bento, de Sorocaba; Noroeste, de Bauru; Ferroviária, de Araraquara; Marília; os XVs de Piracicaba e de Jaú; entre outros. Todos apoiados pelas comunidades locais, com sedes e estádios próprios, e muita tradição. Uma camisa em campo faz parte de uma fotografia, povoa os sonho das crianças, que crescem e continuam apaixonados por futebol. Claro, sempre movidos pela paixão por seus times, alimentados pelas rivalidades com os outros times grandes, mas temperados pelas pequenas rivalidades com os tradicionais pequenos.
As cidades do interior hoje não se preocupam mais em manter um clube de futebol, na essência da expressão. Para uma cidade ter um time, hoje, basta se associar a um agente de futebol em ascensão. Os jogadores da Ferroviária, por exemplo, não são mais jovens revelações de Araraquara e das cidades vizinhas. São ativos de algum agente, que usa a tradicionalíssima camisa grená como vitrine, para tentar conseguir algum grande contrato para os destaques do time. Foi o que restou aos clubes pequenos, já que não terão mais a receita da venda dos jogadores aos grandes, como há algumas décadas. Os clubes do interior não têm como sustentar uma estrutura permanente e todos os encargos decorrentes, que dure ano após ano. Só lhes resta a opção de alugar a camisa a algum agente ao início do campeonato, e desmontar a estrutura ao final dele.
Os clubes grandes, como são obrigados a manter a estrutura permanente porque jogam o ano todo, ainda se preocupam em manter suas categorias de base, exatamente para não terem que recorrer exclusivamente ao relacionamento com os agentes para montar seus times. Mesmo assim, todos fecham acordos com esses agentes mais poderosos, que detêm os direitos dos jogadores mais importantes, que fornecem majoritariamente seus atletas a determinados clubes. É o caso do Palmeiras com a Traffic; do Inter com o Grupo Sonda, do Corinthians com Carlos Leite, do São Paulo com Juan Figger, e assim por diante.
O Rio Claro, clube do interior paulista fundado em 1909, mas que nunca teve a competência de se estabelecer entre os interioranos porque nunca teve uma estrutura de formação de destaque, neste novo cenário conseguiu acertar o modelo, e associou-se a agentes que o alçaram à Série A. Em 2010, associado a César Sampaio, sucumbiu e volta à Série B. Mas o ciclo segue.
O pior é o surgimento de times artificiais. O sucesso temporário desses times é o começo de uma tendência muito perigosa, e que precisa ser revertida com ajustes na legislação que surgiu para proteger os atletas de abusos na relação com os clubes. O Ipatinga até 1998 era um time amador da cidade. Com a nova lei, associou-se a empresários, montou bons times, e foram apoiados pela prefeitura local que construiu um estádio de grandes proporções. Ganhou um Campeonato Mineiro, chegou às semifinais da Copa do Brasil e disputou até a Série A do Brasileiro.
O Barueri foi fundado em 1989 com o nome de Roma, sempre apoiado pela Prefeitura local, que ainda vai construindo um estádio moderno, e bancado por um grupo de empresários, trilhou uma trajetória semelhante ao Ipatinga, mas no mercado paulista, bem mais disputado que o mineiro – e teve sucesso: ganhou uma Copa São Paulo de Juniores, e conquistou em 2008 uma vaga na Série A do Brasileiro. Num determinado ponto da história, surgiram dificuldades no relacionamento com a prefeitura da cidade. Nada que uma prosaica mudança para a longínqua Presidente Prudente não resolvesse. Outra cidade, mas também com um estádio grande. E o Roma/Barueri passou a se chamar Grêmio Prudente da noite para o dia. Manteve o CNPJ – e a vaga na Série A. Teremos em 2010 na primeira divisão do campeonato brasileiro o clássico Grêmio Prudente x Grêmio-RS.
Outra aberração é o Votoraty, de Votorantim, cidade colada em Sorocaba. Fundado em 2005 por empresários, a “estrutura” já visava exclusivamente ser uma vitrine. Foi subindo da Série B do Paulista até chegar à Série A2. O CNPJ foi “comprado” pelo Grupo Olé Brasil, junto com ele, a vaga na Série A2 e na Copa do Brasil. Em 2009, conseguiu uma vaga na Copa do Brasil deste ano e chegou à segunda fase, sendo eliminado pelo Grêmio (o legítimo, gaúcho), ao mesmo tempo que não chegou à fase final do Paulista A2 para tentar o acesso à A1. Terminada a expectativa de resultados este ano, o CNPJ fez as malas e foi para a cidade-sede de seus proprietários, Ribeirão Preto, que agora conta com três times. E o pessoal de Votorantim, que começava a achar que tinha um time na cidade, volta a ter que torcer por São Bento ou por outra aberração, o Atlético Sorocaba – ou contra eles, pela rivalidade entre as cidades.
Quando os clubes eram, antes de tudo, escolas de futebol, as camisas tinham identidade. O Palmeiras, refinado, equilíbrio entre força, tática e técnica – a Academia. O Corinthians, sempre na raça, liderado por um ou dois ídolos carismáticos. O São Paulo, correria. Os gaúchos, força. Os cariocas, extremamente técnicos. Hoje, todos os times jogam praticamente igual, e as camisas são de aluguel. Não só a dos pequenos, mas de certa forma, a dos grandes também.
Esse desvirtuamento não se reflete só dentro de campo. Na torcida, temos a geração PlayStation. Os clubes grandes de hoje, por terem tão menos apelo que tinham antes, competem com times europeus pela preferência das crianças. Os Chelseas da vida, além de serem os principais times nos videogames, podem ser vistos na TV quase tanto quanto os grandes do Brasil, e têm ídolos de apelo muito maior. Quando se chega para uma criança e lhe pergunta para que time ela torce, a resposta poderá ser “Txelsi”, “Real”, “Milan”, “Barcelona”, tanto quanto Palmeiras, São Paulo ou Corinthians. É um absurdo. Uma aberração.
Nem tanto pela tradição das camisas, que é um componente especial, mas muito mais pela volta dos pólos de surgimento de jogadores, que faz com que o nível técnico dos campeonatos sejam maiores: os clubes grandes têm que lutar fazer ajustes na chamada Lei Pelé. Em tempos de eleição para o Clube dos 13, a politicagem deveria ser a última das prioridades. Os clubes deveriam fechar com quem terá reais compromissos com o futebol brasileiro. Mas nem Fabio Koff, nem Kleber Leite parecem ter uma pauta nesse sentido. Eles estão muito mais preocupados em fechar alianças com grupos de televisão concorrentes, e medir forças no final.
Enquanto não forem feitos ajustes na Lei Pelé, de forma que os clubes voltem a dar as cartas no futebol, dado que são os agentes mais importantes do espetáculo depois dos jogadores, que via de regra abriram mão do direito que lhes foi dado de escolherem seus futuros; enquanto não regulamentarem o direito de disputar um campeonato e a lei permitir o surgimento de aberrações na cultura do futebol brasileiro como esses times intinerantes, essas camisas multi-coloridas e mudernas que não têm a menor identificação com nenhuma torcida e só satisfazem a meia dúzia de bolsos; enquanto não voltar a existir um ambiente onde os clubes do interior tenham que se preocupar em ser novamente celeiros de craques, não sei não… Não quero ser nenhum profeta do apocalipse, mas que o caminho está esquisito, isso está.

