O buraco é mais embaixo
7 de maio de 2010 por @parmerista
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O problema existe há muito tempo, mas sempre achamos que a camisa do Palmeiras falaria mais alto e ajudaria a superar as dificuldades, enquanto o trabalho de renovação, que é lento, de paciência, vai se desenvolvendo. Mas quem apostou nisso, e me incluo entre eles, errou.
Hoje, se o Palmeiras contratar um combinado com o que há de melhor no Barcelona, Internazionale, Bayern, Manchester United e Chelsea, fica em quinto lugar no Brasileirão, perdendo as chances da vaga no penúltimo jogo ao empatar em 1×1 com o Fluminense em casa. O problema no Palmeiras é rigorosamente estrutural.
Vamos começar pela Diretoria de Futebol. Gente muito decente, e competentes, mas não o suficiente. Cipullo sabe montar um time, e sabe negociar. Sustento o que sempre disse, minha opinião quanto a isso não muda com os resultados: o time é bom, o elenco é bom. Faltam duas ou três peças, claro, óbvio. Mas o que a torcida poderia entender é que a dificuldade em se conseguir fechar essas contratações vem da falta de dinheiro, e isso é consequência de uma postura agressiva tomada no ano passado para assegurar a conquista do Brasileiro. E o título não veio. E a sequência foram uma campanha desastrosa no Paulista e a eliminação pelo CAG na Copa do Brasil. Aí eu sou obrigado a rever meus conceitos.
O maior pecado da atual Diretoria de Futebol não é na formação do elenco. Não é na infra-estrutura. É na blindagem aos jogadores. A nossa camisa é pesada, mas não pode ser tanto assim. É um elenco de bons jogadores, mas com os nervos à flor da pele. Vejam como fomos eliminados pelo CAG. Lembrem-se de Obina x Mauricio. Recentemente, de Diego Souza. O Palestra é nitroglicerina.
Eles até tentam. O Gerente Administrativo de Futebol, Sergio do Prado, é praticamente persona-non-grata no clube por fazer o que pode para barrar o acesso de conselheiros insistentes, que teimam em estar presentes na Academia de Futebol para acompanhar os treinos, não só dos profissionais, mas principalmente da base. O interesse que certas figuras têm nos jovens é uma coisa comovente, como amam o esporte juvenil…
A torcida é absolutamente neurótica. E vamos falar em termos gerais, mesmo sabendo que há vários grupos distintos: bate em jogador com frequência, sempre nos melhores – não vão atrás dos ruins. Arruma confusão nos aeroportos. Jamais deixou nenhum treinador em paz nos jogos no Palestra: nem Oswaldo Brandão, nem Felipão, nem o papa tiveram sossego nos bancos de reservas do Jardim Suspenso, durante os jogos sempre tem uma dezena de imbecis fazendo o que podem para aparecerem para a numerada e então voltarem para casa orgulhosos, contando para os tios e primos que a substituição que o técnico fez foi por causa deles.
A imprensa também faz sua parte, ao achar sangue onde não existe, ao lançar factóides, e ao promover supostas negociações que não existem, às vezes a mando de agentes, às vezes sendo inocentes úteis e repetindo uma papagaiada que não tem fundo de verdade; fazendo perguntas maldosas e/ou estúpidas, muitas vezes desrespeitosas. E fazem isso não só no Palmeiras, mas em todos os clubes – a intensidade é que pode ser discutida. Os jornalistas que cobrem o futebol sofrem preconceito na própria classe, de que seriam o que há de pior dentre os que saem dos bancos da escola – e boa parte dos rapazes e moças que trabalham no meio ajudam o preconceito a se transformar num sólido conceito. Basta ver os Twitters desse pessoal e ver que há vários que não sabem nem usar essa ferramenta e acabam revelando quem relmente são quando não estão com o microfone na mão com frases comprometedoras. Pobre minoria decente, honesta e que ama o futebol.
Alguns dizem que isso é reflexo da grandeza do Palmeiras. Em parte estão certos. Mas o Palmeiras, com toda sua grandeza, tem esses graves problemas em proporção muito maior aos clubes com quem se equipara em tamanho. Essa carga é muito grande, mesmo ponderando com a importância do clube. Existem problemas inerentes ao próprio Palmeiras.
Há pouco mais de 30 anos deixou de existir uma escola de dirigentes no clube. A Sociedade Esportiva Palmeiras virou refém de um grupo de cartolas que não acompanhou a evolução do futebol. É necessário frisar que os cabeças da atual gestão também faziam parte desse grupo, mas se rebelaram em 1995, quando o rodízio e a renovação foram deixados de lado, e a ditadura foi imposta. Foi o fim de qualquer esperança, no curto prazo, de que o Palmeiras poderia reconstruir sua base, já carcomida, mas que à época ainda podia ser recuperada.
A ditadura que se instalou, acompanhada da alteração do Estatuto Social, fez do clube um feudo, repleto de vassalos facilmente corruptíveis, baratos, que serviram de sustentação para esse modelo por muito tempo, até que o soberano resolveu alçar vôos maiores e colocou um homem de sua confiança para continuar tocando o barco. Seu homem de confiança, entretanto, adorava futebol e rompeu com a política reinante de tocar o time como se toca uma padaria, visando resultado financeiro positivo ao final dos períodos.
Isso rendeu uma nova reviravolta política, mas a base, carcomida, depois de tanto tempo, já havia ruído. O Palmeiras virou terra de ninguém. Todos já foram do mesmo lado, mas poucos se mantiveram leais a ideais genuinamente alviverdes. A cultura que se arraigou, abrigada sob um estatuto forjado no fogo do inferno, fez do clube um ninho de parasitas, fortemente unidos por uma política toma-la-da-ca; com bravos e resistentes, porém quixotescos, oposicionistas – que agora têm a chance de voltar a comandar o clube, mas esbarram nessa estrutura apodrecida, a política das carteirinhas. O homem de confiança, que traiu seu mestre por amor ao futebol, hoje, por alguma razão, reconquistou sua confiança, voltou para o lado de onde saiu e hoje passeiam felizes pelo bosque.
É isso que não dá tranquilidade ao grupo que hoje tem a difícil missão de comandar o futebol do Palmeiras. Esbarra-se em todo o tipo de dificuldade política. Até a Arena os inimigos querem melar – não porque não seja boa para o clube, mas porque a placa da inauguração não terá o nome deles. A energia que se gasta para apagar os incêndios causados por essa gente mina os esforços que deveriam estar direcionados exclusivamente ao futebol. A atual diretoria tem todas essas dificuldades, e ainda têm que trabalhar para viver, pois, como foi dito, é gente honesta, decente.
E é isso que faz com que as falhas aconteçam. As atuais pessoas que lá estão, em especial Gilberto Cipullo, não tem condições para suportar a carga de uma vice-presidência, mais a Diretoria de Futebol, mas suas obrigações pessoais, diante de uma estrutura política tão pútrida e diante de pessoas tão inescrupulosas. E hoje, diante de tantos resultados ruins, tenho que admitir isso. Ele não pode continuar nessa função. Sua saída é o começo da solução para agora, pensando em 2010. Só que temos que achar uma saída maior, para resolver de vez os maiores problemas do clube.
Essa saída passa obrigatoriamente pela reforma estatutária. Extinção natural das cadeiras dos vitalícios, o símbolo da estrutura feudal. Vitalício morreu, a cadeira morre junto. Reduzindo o número de conselheiros pela metade, e fazendo com que todos tenham obrigatoriamente que concorrer a reeleições, diminui o compadrio e aumenta a necessidade de mostrar trabalho. As eleições para presidente, via voto direto do associado, desde que haja algum tipo de proteção para impedir que algum paraquedista com grande poderio econômico “compre” os votos necessários, e desde que haja uma reforma na categorização dos sócios, dando poder aos sócio-torcedor, aquele que valoriza sobretudo o futebol, é outro ponto fundamental.
Mas isso é missão para o próximo presidente. Para já, para evitar que nossos jogadores apenas lutem para fugir do rebaixamento no Brasileirão – algo que suas capacidades estão muito além – não basta afastar Cipullo e seus adjuntos, porque quem entrar no lugar deles, na mesma estrutura, vai padecer do mesmo mal. A mudança deve ser drástica, e exige acompanhamento de perto full-time, com cobranças constantes e metas a serem cumpridas – e isso só se consegue com profissionais remunerados. Aliás, podem traçar um paralelo com as diretorias financeiras e de marketing, que sofrem com o mesmo problema.
O apelo ao presidente Belluzzo é que vá por esse rumo, que altere radicalmente o comando do futebol, não só os nomes, mas a estrutura, de forma a ter mais condições de vencer os inimigos, que dormem em casa. Com profissionais remunerados, as decisões impopulares não precisam temer o ônus político. Só o Sérgio do Prado não dá conta de levar tanta bordoada sozinho, e ainda ser constantemente desautorizado. É preciso gente que acompanhe constantemente o grupo. Chefe por perto o dia todo, produtividade aumenta. Jogador fica com frescura, chama na salinha e bota o dedo na cara. Os jogadores são como crianças: no fundo, querem ser protegidos e repreendidos; precisam de alguém para impor-lhes os limites. E mais: repórter mal-intencionado vai pensar duas vezes. Conselheiro folgado vai bater com a cara na porta.
O diretor adjunto Savério Orlandi poderia perfeitamente continuar a exercer sua valiosa colaboração na elaboração e acompanhamento de contratos, sem se envolver nos outros aspectos do departamento que causam tanto desgaste. E Cipullo poderia colaborar na reconstrução da base do clube, na reforma estatutária, e na formação de novos diretores. Presidente, realoque todo mundo. Seja o senhor mesmo o Diretor de Futebol de direito, e contrate profissionais para exercerem as funções de fato, e cobre-lhes os resultados. A pouco mais de seis meses do fim do mandato, não há mais nada a perder. Seria uma tacada ousada, difícil, mas que pode dar certo e seria, de fato, um grande feito desta gestão.
E nós? o que podemos fazer? Ora, se uma reforma na base do clube é necessária, o que nós podemos fazer? Amigos, quando eu me refiro à “base”, estou falando sobre gente. A base de um clube são as pessoas que o compõem. Se precisamos renovar a base, é com pessoas novas, que amem esse clube com toda a força da alma. Sem vocês aqui dentro, o esforço será em vão. O jogo hoje tem uma regra, temos que jogá-lo: fiquem sócios, e juntem-se aos palmeirenses que estão tentando fazer a diferença, lutando contra essa porcaria de estatuto e tentando fazer o possível e o impossível.
Mais uma vez, peço que acessem o site do grupo Fanfulla, que é formado por esse tipo de palmeirenses. Entrem no site, participem do fórum, informem-se o que é preciso para ficarem sócios e engrossarem esse coro. O Palmeiras vai sobreviver, de uma forma ou outra, a essa tempestade, porque é grande demais. Ainda é. Mas a areia está caindo e precisamos reforçar a base. Não adianta só trocar o técnico e o diretor de futebol. Precisamos ter gente para ajudar a conduzir o clube com seriedade daqui a 10, 20, 30, 50 anos. O buraco, como puderam ver, e com o perdão do clichê, é bem mais embaixo.

