Palmeiras 3×2 Sertãozinho
9 de março de 2010 por @parmerista
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O jogo a ser relatado é um retrato muito real de tudo o que envolve torcer pelo Palmeiras em dias de hoje. São dois fatores distintos, e igualmente importantes, que ficaram evidenciados nesta noite de segunda-feira: a) a absoluta fragilidade desse grupo e a incapacidade de apresentar sequer um ameaço de bom futebol; e b) como essa camisa é gloriosa, maravilhosa, e capaz de nos levar ao paraíso mesmo em situações tão pequenas.
O jogo era com o Sertãozinho. Adiado, e levado para Barueri, a cerca de 25 km de distância do habitat palmeirense. Mesmo chegando 40 minutos antes do jogo, só consegui entrar no estádio aos 30 minutos de bola rolando – num jogo com 3 mil pagantes. Ouvi o gol de Lenny do lado de fora – não pela vibração da torcida, insuficiente até para passar pelo concreto, mas pelo pessoal que estava com o radinho. E não fiquei feliz. Ao contrário, fiquei transtornado. Afinal, eu estava lá para ver o gol, e não para ouvir. A organização da venda dos ingressos, cuja responsabilidade deve ser do Palmeiras, da FPF e da Futebol Card, foi digna dos piores momentos da BWA. O que já fez com que, num jogo aparentemente simples, este parmerista entrasse no estádio com os nervos à flor da pele.
Muito bem, já dentro da arena, vejo um Palmeiras absolutamente acéfalo. As jogadas não fluem. Antes de criticar a falta de capacidade técnico-tática dos jogadores, temos que ressaltar a fragilidade emocional desse time. A bola queima demais nos pés. A camisa está pesando não uma, mas duas toneladas. Junte isso a um grupo desfalcado, e com uma torcida exigente, e temos uma tragédia em potencial a cada jogo, não importa se é o lanterna ou o líder. Some-se a essa fragilidade emocional a inexistência de um esquema tático e a limitação técnica dos reservas. #meudeus!
Sinceramente, não sei como o Palmeiras conseguiu fazer 1×0. Vendo o video, passe longo do Pierre, Lenny dominou, sem marcação forte, cortou e chutou. Sei que dos 30 minutos pra frente, o time não apresentou nada, contra um adversário que não conseguia trocar dois passes. De repente Marcio Araujo errou um no meio de campo. O Sertãozinho veio com três jogadores, até bola nas canetas do Pierre teve, e Mendes acertou um balaço que, convenhamos, só se acerta contra o Palmeiras, empatando o jogo. Vamos pro vestiário com 1×1.
Admito que ainda estava com o coração batendo forte, de raiva, pelo que passei antes de entrar. Afinal, são alguns litros de gasolina, mais alguns reais de estacionamento, mais a entrada, e ver que os responsáveis pela bilheteria de um estádio de futebol não conseguiram administrar a entrada de pouco mais de três mil pessoas. Perdi um terço do que me propus a ver. Mas é claro, um terço do ingresso eles não me devolvem.
Com a volta dos times para o segundo tempo, a cabeça começou a entrar no clima do jogo, e nem deu tempo de tentar enxergar algum desenho tático do Palmeiras: logo aos 3 minutos, no único ataque do Sertãozinho em todo o jogo, Marcos defendeu uma bola chutada pelo ponta que recebeu por trás de Wendel, e foi pro rebote. Não houve absolutamente nada na jogada, a bola foi pela linha de fundo na disputa, mas o juiz decidiu parcar pênalti contra o Palmeiras.
Aqui entra outro aspecto que temos que bater forte: mesmo não sendo no Palestra, o mando era nosso, e em jogo de mando do Palmeiras contra time do interior, nem o adversário nem o juiz podem achar que tá tudo certo. Eles têm que morrer de medo do Palmeiras. Adversário, tentar lance na caneta do nosso jogador, nunca. Juiz, em lance duvidoso, marcar contra nós, nunca. Porque com time grande é assim. Com nossos inimigos é assim. O que acontece é que o Palmeiras já não está sequer conseguindo exigir o respeito natural que essa camisa deveria impor. E a bola foi pra cal, 2×1 pro lanterna.
Daí era um tal de tentar uma jogada, e não ter pra quem passar. Os jogadores do Verdão se escondiam. Os poucos que tentavam algo, esbarravam nas próprias limitações. Não havia escape pelas laterais. Não se agredia o adversário. O Palmeiras foi criar um lance agudo apenas aos vinte e poucos minutos: Robert foi lançado, matou a bola errado – mais uma vez. Mas, como deve fazer um centroavante, tentou o arremate do jeito que deu, e teve que ser de bicicleta. Claro que não ia entrar.
AC Zago fez tentativas estranhas para ganhar o jogo. Primeiro tirou Wendel e colocou Ivo, mandando Eduardo pra direita. Ivo ficou de ponta-esquerda, já que o Sertãozinho não atacava pela sua direita. Se eu fosse o Comelli, botava o tal de Maranhão em cima do Ivo e ganhava o jogo. Mas ele botou o cara no miolo, e pra nossa sorte não deu em nada.
Em seguida, para espanto geral, “Armero” foi para a beira do campo. Mas cazzo, vai tirar quem? Só se tirar o Marcio Araujo, e colocar o Ivo mais pro meio. Mesmo assim, nesse caso, tira o Marcio Araujo e não põe ninguém, que é melhor que por o Armero. Felizmente não era o Armero, e sim seu filho Daniel Lovinho. E AC Zago tirou Lenny, o famoso troca seis por meia dúzia.
Lovinho é muito fraco, e nem vontade transparece. Taticamente não mudou quase nada, a não ser que ele ficou um pouco mais aberto pela direita. Em cima do Rubens Cardoso. Sério, o Palmeiras perdia e sofria diante de um time cujo lateral-esquerdo (reserva, o titular estava sem condições de jogo) era simplesmente o penta-rebaixado Rubens Cardoso.
Lá pelos 35, a TUP perdeu a paciência e começou uma saraivada de coros contra o time e a diretoria. Não esperou o fim de jogo, não quis passar mais vontade. Difícil recriminar. Eu estava ali do lado e tentei demovê-los, gritei pro Litrão, pedi para esperarem mais dez minutos. Com a Mancha punida, a TUP passou a ser a nossa voz organizada mais forte. E pior, ela foi acompanhada por quase todos os 3 mil pagantes. Nada indicava que o time iria conseguir a reação. Se a bola queimava nos pés dos caras sem protestos – a pequena torcida até então apoiava a plenos pulmões – com coros ofensivos é que nada iria acontecer mesmo.
E não ia acontecer. Só aconteceu sei lá por que. Porque a bola estava na ponta direita, e Lovinho perdeu mais uma. Por muita sorte, a bola ainda sobrou pro Léo – ok, nada pode ser perfeito. Mas não é que ele acertou o centro? Exatamente na cabeça de Robert? Não, de CleitonX, o pior em campo até então (junto com Sá-Cone). Tudo errado. Enfim, deu certo: aos 39, 2×2.
De uma forma impressionante, a torcida, que estava toda contra, passou a jogar ao lado do time. Cada bola disputada em qualquer pedaço do gramado era uma batalha épica. E o Sertãozinho, finalmente, sentiu o golpe. Do nada, o Palmeiras renasceu no jogo. E isso só acontece porque a camisa, a mesma que pesa duas toneladas quando a coisa está feia, é forte demais e amedronta qualquer adversário quando mostra que está viva. E Lovinho acertou sua primeira jogada como profissional, ao receber um passe pela direita e cruzar certinho para o meio da área. A defesa do Sertãozinho estava apavorada e mal posicionada, o cruzamento, rasteiro, passou por todos e achou Danilo quase na risca da pequena área, bem de frente. Era escolher o canto e correr pro abraço. Robert chegou na corrida, com tudo, em iguais condições de arremate. Só serviu pra atrapalhar. Danilo foi quem acabou batendo, e perdeu o gol mais feito da história do universo. Um banho de água fria em todo o estádio, que já estava vendo a virada desenhada. isso aos 43 minutos.
O lance foi suficiente para todos os presentes jogarem a toalha. Um gol desses não se perde. Não fez esse, não faz mais nenhum. Subiu a placa de 4 minutos, e o filme da noite começou a passar: o deslocamento até Barueri, mais de uma hora de fila, perder um terço do jogo, ver uma exibição ridícula – mais uma, e começar a pensar no Santos, já pensando qual será o tamanho da tragédia.
De repente, já aos 49, Eduardo – o segundo pior do jogo – pega uma bola no meio de campo, dá três ou quatro passos e dá um balão pra área. Robert raspa, a bola sobra pra CleitonX que matou a criança, pôs no chão e fuzilou o canto do goleiro, enfim decretando a virada. Como assim???
Não há palavras para descrever a emoção, me perdoem pelo chavão. De repente olhar para aqueles 3 mil palmeirenses, aquele som, os jogadores sendo recompensados pela luta, mesmo contra um adversário extremamente fraco, foi uma das melhores sensações que eu tive num estádio. E olha que já são mais de 30 anos de janela. Eu teria ficado muito triste se não tivesse estado lá. Aquilo compensou cada segundo de frustração, raiva e impotência vividos nas duas horas anteriores. Obrigado Deus, por ter me feito palmeirense.
***
Passada a adrenalina, pés no chão. Foi mais uma atuação tenebrosa. Um time sem apoio pelas laterais, sem criatividade, errando passes e que tomou dois gols em dois ataques do adversário. Esse é o retrato do Palmeiras hoje, resultado de uma série de desfalques, de uma tensão monstruosa e que tem que agradecer aos céus que o adversário era o pior do torneio. Não é a toa. Qualquer outro time teria vencido, como fizeram o São Caetano e o Santo André.
Por outro lado, a vitória achada no finalzinho pode ser aquele impulso de quando se chega no fundo do poço. Que era onde estávamos até os 38 do segundo tempo. A partir dessa reação o time pode iniciar um processo de recuperação da confiança. E no próximo jogo, temos um clássico, contra o time que está sobrando no campeonato. Não tenho dúvidas que eles vão vir metendo uma mala monstruosa. E em clássico, isso na maioria das vezes é fatal.
Que voltem os desfalques, não só os de hoje, mas os que estão morando no DM. Há uma previsão de volta de Gabriel Silva e Mauricio Ramos, estréia de Lincoln e se o registro for feito no BID, Ewerthon, além da volta dos suspensos Edinho e Diego Souza. Com muito mais peças à disposição, sendo alguns deles jogadores que não trazem essa carga negativa sobre os ombros, o time pode ser outro, bem diferente, na Baixada. Não se trata nem de pensar em conquistar o Paulista, mas sim de viver jogo a jogo e de recuperar o moral o mais rápido possível. Afinal, estamos apenas no começo de março.
Atuações:
Marcos: tomou dois gols sem chances de defesa, na outra bola chutada a gol, numa falta, fez ótima defesa. 8
Wendel: já sabemos que é fraco e limitado, esperamos pouco. Só que hoje ele não fez nada. 2
Danilo: o gol que ele errou, mesmo atrapalhado pelo Robert, foi um absurdo. Envolvido nos contra-ataques do Sertãozinho que resultaram os gols. Mas a sua reação após o lance bizarro mostra um comprometimento que a esta altura tem que ser valorizado. Leva um 6
Leo: lento e mal posicionado. Estava na ponta direita e aproveitou uma bola espirrada pra fazer a assistência do segundo gol. Que sorte. 5
Eduardo: já deu pra ver que não tem o menor futuro. Joga de cabeça baixa. Pelo cruzamento do gol da virada, leva 4
Pierre: voltou a cair de produção, e hoje fez uma partida lamentável. Temo que nosso guerreiro esteja com o prazo de validade bem perto do fim. 3,5
Marcio Araujo: desta vez foi escalado certo, como reserva, em sua posição. Errou os passes que se esperava que fosse errar, e mais aquele que ninguém esperava: gol dos caras. 3
Deyvid Sá-Cone: horroroso. Nervoso, fominha, errou tudo o que tentou. ZERO
CleitonX: outro que jogou pedrinha. Mas foi o herói do jogo. Então, DEZ
Lenny: não jogou nada também, mas se salvou pela jogada do primeiro gol, apesar de não ter sido das mais difíceis tamanha a “resistência” dos zagueiros adversários. 6,5
Robert: vou contra a maré. Pode até ser grosso, mas a partir do momento que sabemos disso, e que ele pelo menos vai fazendo seus golzinhos – inclusive dois contra o bambi – devia gozar de mais crédito com a torcida. OK, hoje foi mal demais, se tinha crédito, hoje queimou. Pela luta, 5
Ivo: entrou pelo lado esquerdo e foi muito mais incisivo e objetivo que Wendel e Eduardo juntos, embora não tenha produzido nada concreto. 6
Lovinho: coitado, até que tentou, mas esbarrou, como sempre, na própria ruindade. Na única que acertou, viu a lambança de Robert com Danilo. 4,5
AC Zago: já está devendo. As mexidas foram pouco ousadas e surtiram pouco efeito. Um time tão frágil como o Sertãozinho tinha que ter sido muito mais agredido do que foi. 3

