POR Conrado Cacace 30/11/2016 - 10h23

Até logo, Cuca. Mas quão logo?

Ainda tentando curar as profundas feridas causadas pela tragédia ocorrida na Colômbia, o planeta tenta reencontrar seu eixo para seguir dando voltas em torno do sol. E no campeão brasileiro, a primeira notícia revela uma grande dificuldade: Cuca, segundo o jornalista Paulo Vinicius Coelho revela em seu blog, não deve seguir à frente da equipe em 2017, por razões familiares.

Antes de qualquer coisa, é dever da coletividade palmeirense agradecer ao profissional pelo brilhante trabalho. Cuca pegou o time desfigurado taticamente, com dificuldade de trocar três passes. Com os reforços de Roger Guedes, Tchê Tchê e Mina, mais a recuperação clínica de Moisés, então lesionado, conseguiu remontar a equipe e, depois de um período jogando muito bem mas com fragilidades defensivas que custaram alguns pontos, desenvolveu um time cascudo, eficiente ao extremo, quase imbatível.

Além da reconstrução tática, Cuca recuperou alguns jogadores que estavam em franco declínio – o principal deles foi Dudu. Encaixou Gabriel Jesus no time de forma perfeita, em duas funções. Além disso, extraiu o máximo de atletas de quem pouco se esperava, como Thiago Santos. Estabeleceu a química entre a maior dupla de volantes do Palmeiras dos últimos 20 anos, desenvolveu uma coleção de jogadas ensaiadas, e conduziu o Verdão a uma campanha que culminou com a conquista do Brasileirão após 22 anos.

Sua saída deixará, sem dúvida, uma enorme lacuna – e também uma grande interrogação, já que a informação corrente é que o treinador precisa de seis meses para recompor sua vida pessoal para então retornar ao futebol. E de acordo com o remodelado calendário de 2017, só teremos disputas decisivas a partir de julho, com exceção do campeonato paulista.

Uma das opções da diretoria seria deixar Alberto Valentim e/ou Cuquinha como comandantes interinos até junho, sob “supervisão à distância” de Cuca, que poderia então retomar suas atividades em julho, já para a disputa dos mata-matas da Copa do Brasil e da Libertadores, bem como as importantes rodadas do Brasileirão, ainda no primeiro turno.

O lado positivo desta solução seria a aposta na continuidade. A atual comissão técnica tem pleno conhecimento do elenco e dos esquemas e variações utilizados por Cuca. Valentim tem aspirações a se tornar treinador e essa pode ser sua primeira grande chance. Os reforços serão integrados já seguindo um modelo implantado, tornando a adaptação mais fácil. Por outro lado, a comissão interina seria “indemitível”, à espera de Cuca, e em caso de resultados ruins será criada uma situação de enorme pressão, sobretudo por causa da fase de grupos da Libertadores, que poderia ficar em risco.

A segunda opção seria virar a página e seguir em frente, trazendo um novo treinador. O mais cotado é Roger Machado, que fez uma boa campanha no Grêmio, mas a diretoria também pode recorrer a outros profissionais como Abel Braga, Diego Aguirre ou Eduardo Baptista – ou outra opção que nós nem imaginamos. O novo treinador terá liberdade para começar o trabalho do zero ou do ponto que desejar, decidindo se aproveita ou não a base tática deixada por Cuca. Jogadores com enorme potencial como Arouca e Barrios, que ficaram em segundo plano nesta temporada, podem ser recuperados e render bastante. De qualquer forma, a mudança exigirá um considerável período de tempo para adaptação de todos, com garantia mínima de bons resultados.

Cuca conseguiu uma enorme façanha nesta passagem pelo Palmeiras: sairá por cima e deixará a porta da frente escancarada para sua volta, seja num futuro breve ou mais distante. Unanimidade numa torcida que costuma chamar o treinador de burro antes do primeiro mês de trabalho ser completado, o treinador campeão brasileiro será um fantasma que involuntariamente assombrará qualquer comandante que se sente em nosso banco de reservas, como aconteceu com Felipão após sua primeira passagem. Sempre que o time oscilar, o burro da vez ouvirá a torcida clamar por Cuca em meio aos xingamentos.

Seja quem for o próximo treinador, que a diretoria defina logo. Não temos tempo a perder.



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