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Em 1976, Jorge Mendonça começava a se destacar pelo Palmeiras
13 de maio de 2012 por @parmerista
Por Thell de Castro*
Na semana passada, trouxemos um perfil de Edu Manga, craque que se destacou no Palmeiras dos anos 1980, mas não conquistou títulos com a camisa do time. Hoje vamos falar de outro grande craque, Jorge Mendonça, que foi faturou o Campeonato Paulista de 1976 e só não fez chover em grandes jogos com a camisa do Palmeiras, onde ficou até 1980.
A revista Placar, então semanal, de 10 de setembro de 1976, trazia em sua capa uma foto de Jorge Mendonça comemorando um gol e o título: “O Verdão pede mais gol”.

Vamos relembrar boa parte da reportagem de José Maria de Aquino:

É o Jorginho sensação
Para Dudu, muito preocupado com o todo, com o conjunto, tentando a todo custo evitar o estrelismo no time, manhoso, tarimbado, macaco velho, conhecer profundo dessa gangorra que às vezes coloca o jogador lá nas alturas e que no dia seguinte pode afundá-lo completamente, para o velhinho ranzinza, até poucos dias seu companheiro de time, agora seu técnico, sempre aconselhando todos eles a falarem pouco e a jogadores muito, Jorge Mendonça é um jogdaor de futuro.
- Se ele continuar sendo obediente, humilde, cuidadoso como é. E se continuar treinando sério, querendo aprender todos os truques e todos os segredos da profissão, melhorando os chutes e a pontaria, subindo mais, cabeceando melhor, não se descuidando das orientações que recebe nos vestiários, gravando definitivamente que a função exercida pelo terceiro homem é uma das mais penosas e difíceis, se Jorge Mendonça continuar assim e conseguir essas coisas, acho que ele vai se tornar um bom jogador de futebol. Um grande jogador.
O BOM MENSAGEIRO
Exagero. Excesso de cuidado. Preocupação profunda de quem ainda é um pouco jogador, muito amigo, tudo isso misturado com a dedicação natural de um técnico e com o cuidado de um espírita, presidente do sindicato dos jogadores.
Para o goleiro Leão, ele é o tipo do atacante que quer ver sempre do seu lado, fazendo gols para seu time.
- Ele é do tipo traiçoeiro. Desses que a gente não percebe correndo, entrando pelo lado, longe de onde a jogada está sendo desenvolvida. Ele é do tipo que pisa macio, um tipo muito perigoso.
Para o centroavante Toninho, sem ciúme pelos gols que Jorge Mendonça vem fazendo – dez no último Campeonato, quarto colocado, atrás de Sócrates (15), Iaúca (14) e Enéias (13), sem jogar todas as partidas – ele é o próprio mensageiro da tranquilidade.
- É bom. É muito bom de bola. A gente não precisa olhar para o outro lado porque ele sempre está entrando, fazendo a minha sombra, preocupando ainda mais a defesa, aproveitando os centros que eu não consigo alcançar, ou ajeitando a bola. Durante algum tempo, aqui no Palmeiras, eu senti a falta de um companheiro mais presente, que não deixasse eu me sentir tão isolado, muito sozinho. Com ele do lado, a carga fica muito mais leve.
Ademir da Guia, amigo e identificado com Dudu, responde qualquer pergunta sobre Jorge Mendonça com um sorriso de tranquilidade. Fala das passadas largas que ele desenvolve pela direita, lembra de maneira simples e escondida que tem de correr e de entrar por qualquer dos lados e de entrar por qualquer dos lados e, por achar desnecessário, não faz comparações com seu antigo companheiro, Leivinha.
- Gosto muito do jeito dele jogar. Acho que já está quase no ponto, quase que totalmente entrosado com o time, e que poderá render ainda mais.
Para alguns torcedores, o grupinho mais fanático, frequentador de treinos, pedidos de autógrafos e criador de apelidos, ele já é o máximo. Pula tão bem quanto Leivinha, vai fazer muitos gols de cabeça, não pode ficar fora das próximas seleções, foi um dos maiores negócios que o Palmeiras já fez, é isso e é aquilo.
- Ele é ótimo e já devia estar no time há muito mais tempo. Só Dino não soube ver isso. Ele é legal. Ri e brinca com todo mundo. No Campeonato Brasileiro nós vamos chamá-lo só de Jorginho Sensação.
Para o próprio Jorge Mendonça, 23 anos (6-6-1954), 1,77 metro, 83 quilos, ponta-de-lança goleador, sorriso franco, olhar um pouco desconfiado, é apenas um principante querendo continuar no time, tentando ser definitivamente titular.
- Por enquanto, tudo vai indo bastante bem, mas não posso bobear. Eu ainda nem sou um titular absoluto. Sinto que vou bem. Sei que ainda preciso e posso melhorar, mas não vou entrar nessa de a camisa é minha e o boi não lamber. Erb está aí mesmo, esperando uma outra chance. Tem outros jogadores brigando por uma vaga no time e eu sei que Dudu não é de dar moleza a ninguém. Da mesma maneira que ele me deu uma chance e acreditou em mim, ele é capaz de me barrar, colocando outro que esteja melhor. Nada disso. Gramei um pouco no início, senti alguns problemas, perdi um pouco a confiança, esperei, recuperei e agora quero me firmar no time.
Mais uma qualidade e mais uma razão para continuar no time dirigido por Dudu. Jorge Mendonça cada dia mais está monstrando que não só tem assimilado as orientações do técnico Dudu como tem escutado e seguido os conselhos e os desejos do amigo Dudu.
- É, eu o escuto mesmo. Todo mundo diz que, se conselho fosse bom, seria vendido e não dado, mas eu ainda penso um pouquinho diferente. Não custa nada a gente ouvir o que os mais velhos e mais experientes têm a dizer. O que a gente deve fazer é seguir o que é bom, o que vale a pena, e jogar fora o que não presta. Sempre se aproveita alguma coisa, e o que vem do Dudu a gente aproveita quase tudo. Ele diz para a gente não falar muito, não ficar mascarado, não dar entrevistas a toda hora, mas eu não sou caladão assim só por esses motivos, só pelo que ele falou. Eu já era meio trancado antes mesmo de vir pra cá. Longe da imprensa, só no meio da turma, sou bem mais descontraído. Pego no pé de todo mundo.
SIMPLES E ALEGRE
E pega mesmo. Brinca muito com Alexandre, um dos administradores do clube, sempre usando o telefone de sua sala, falando e escutando os conselhos do pai, Niltro Mendonça, ainda em Silva Jardim, cidadezinha do Estado do Rio de Janeiro, onde passou sua infância e onde foi descoberto por Eusébio de Andrade, ex-presidente do Bangu. Fala constantemente com seu padrinho de casamento, no Recife, escutando mais conselhos e pedindo para que mesmo lá de longe ele dê uns puxões de orelha no amigo Vasconcelos, um pouco impaciente e desanimado com a reserva. Atende os torcedores, promete um presente para Diva, uma antiga torcedora, muito ligada aos jogadores, chama o ex-juvenil Gilvã para almoçar em sua casa. Mudou-se com mulher e filho para uma casa em Pirituba, longe do luxo da cidade, de alguns bairros procurados por outros companheiros, não fuma, não gosta de beber e no joguinho de baralho, na concentração, quase sempre ganha de todo mundo.
- Estou mais preocupado em guardar um bom dinheiro, comprar algumas propriedades (já comprei um apartamento em Niterói), em cuidar do físico para poder jogar mais uns doze anos, e depois voltar para Silva Jardim. Lá é que a vidinha é boa e tranquila. A pracinha, as mangueiras, o apito do trem, o Dinho, o Tomate, o Batata, a Pafumo, o Carlão, o Ferrugem, a turma dos tempos de pelada, que vivia pegando coco verde na roça, é disso que eu sinto saudade.
(…)
E as coisas começaram a ir bem para Jorge Mendonça quando o Palmeiras trocou Dino Sani por Dudu. Jorge não consegue, ou finge não conseguir, lembrar-se de muitos detalhes – datas, casos, fatos – relacionados com sua vida, mas esse ele não esquece. Não esquece e chega a deixar um pouco de lado os conselhos de Dudu, quando fala dele.
- Foi contra o Guarani, no primeiro turno. No tempo de Dino, eu já tinha entrado algumas vezes no time, mas nunca me sentia bem, solto, confiante. Nunca conseguia jogar os 90 minutos nem dois ou três jogos seguidos. Era sempre na base do quebra-galho, para tentar virar um jogo praticamente perdido, ou era na base do favor, pegando um jogo decidido apenas para ganhar bicho integral. E eu não gosto de nada disso. Nenhum jogador deve gostar ser escalado no meio do jogo para fazer os gols que o outro não fez, nem deve aceitar ser escalado de favor ou por proteção.
Com a simples troca de técnicos, sem que por isso o time mudasse radicalmente sua maneira de jogar, as coisas passaram a correr bem para os lados de Jorge Mendonça. O time estava concentrado, Jorge conversava tranquilamente com Samuel, seu companheiro de quarto, e Dudu não gastou mais que 2 minutos para lhe dar o aviso que estava esperando.
- Prepare-se. Você amanhã vai entrar jogando e eu não pretendo sacá-lo do time antes do final. Só se você pedir ou só se você não conseguir mostrar o futebol que tem. E, se mostrar pelo menos a metade, vai continuar no time. Tchau.
(…)
Apenas gostou e ficou esperando a hora de o jogo começar. Foi no dia 9 de maio, não marcou nenhum gol no empate de 2 a 2 contra o Guarani, mas sentiu-se tranquilo e feliz. Jogou os 90 minutos e sabia que continuaria no time. À noite, depois do jogo, pegou a mulher e saiu para jantar num restaurante da cidade.
(…)
Fez dois gols contra o Botafogo (4 a 0), no domingo seguinte, e garantiu, ainda mais, sua condição de novo dono da camisa 8, que antes era de Leivinha. Fez mais outros, sempre ajudando o time a chegar ao título, fez o gol que decidiu tudo e que antecipou a conquista, contra o XV de Novembro de Piracicaba, quando as coisas já não pareciam tão fáceis e logo depois de ele perceber que o goleiro Doná estava saindo em falso nas bolas altas centradas para a área. E fez os dois gols (2 a 1) que derrotaram o SCCP no último jogo do Campeonato Paulista, quando tudo já estava decidido mas ainda se esperava pelo carimbo na faixa de campeão. Mais que dez gols que marcou e que o fizeram artilheiro do time no Campeonato, na frente de Toninho e de Ademir da Guia (sete gols cada), Jorge Mendonça fez gols importantes, decisivos e bonitos. Gols mais ou menos raros, depois que Pelé parou.
Na reportagem, pelo menos nessa época, Jorge Mendonça parecia estar com a cabeça no lugar. Mas em 1979, por exemplo, teve uma briga com o técnico Telê Santana e, no ano seguinte, deixou o Palmeiras. Jogou em outras equipes, teve grande fase no Guarani, mas nunca mais repetiu os bons tempos alviverdes.
Ainda na matéria, é citado que o jogador não bebia. Não podemos afirmar sobre aquela época, mas Jorge Mendonça teve problemas sérios de alcoolismo, além de dificuldades financeiras, contando com a ajuda de locutores e ex-jogadores.
Faleceu, devido a problemas cardíacos, aos 51 anos, em 17 de fevereiro de 2006.
Esse foi o perfil de Jorge Mendonça, mais um grande nome que vestiu a camisa da Sociedade Esportiva Palmeiras.

* Thell de Castro é jornalista e publica todas as semanas uma coluna contando algum trecho da História do Palmeiras.
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