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Em 1979, Palmeiras humilha o Flamengo no Maracanã
15 de abril de 2012 por @parmerista
Por Thell de Castro*
Dezembro de 1979. O Palmeiras, que não ganhava nada desde 1976, mas tinha chegado na final do Brasileiro de 1978, fazia excelente campanha no Campeonato Brasileiro e podia até empatar com o Flamengo, no Maracanã, para se classificar para a semifinal da competição, que era chamada de Copa Brasil.
Só que o clima na imprensa era de “já ganhou” para o Flamengo. Mas não somente na imprensa, mas, principalmente, no próprio Flamengo.
O maior exemplo disso é uma das chamadas de capa da Folha de S. Paulo do dia do jogo, 09 de dezembro de 1979. “O Palmeiras vai a campo contra a vitória certa”. Precisava falar mais alguma coisa?

Leia na íntegra a reportagem da Folha que contava tudo sobre o jogo:
Palmeiras contra um sonho carioca
O Palmeiras que não se iluda com as vantagens que tem no jogo de hoje, às 17h no Marcanã (com transmissão direta por todos os canais de televisão), vantagens que começam pelo saldo de gols (marcou nove e sofreu um, enquanto o Flamengo marcou seis, não sofrendo nenhum). Por isso, o empate basta para levá-lo às semifinais da Copa Brasil. Os dois têm quatro pontos ganhos. O Flamengo venceu ao São Bento por 4 a 0 e ao Comercial por 2 a 0; o Palmeiras fez, nas mesmas equipes, 4 a 0 e 5 a 1, respectivamente. O Palmeiras não deve se iludir porque embora a arbitragem do gaúcho Carlos Rosa Martins se antecipe como segura, há na própria tabela desta fase um indício de que o Rio de Janeiro espera que o título seja decidido pelo Flamengo, que nunca disputou a Taça Libertadores.
Simples: o jogo é no Maracanã, onde não há rival para o Mengo, tratando-se de equipes cariocas; assim, seus sonhos imediatos fora do Rio são a Taça Libertadores e a Copa Intercontinental. (Aliás, foi ontem no Rio que o Vasco enfrentou o Operário, o que significa duas decisões de vaga marcadas em campos cariocas, envolvendo equipes cariocas. No Rio, esperava-se ontem uma vitória do Vasco sobre o Operário para que a final da Copa possa ser brevemente Vasco x Flamengo).
Quem vencer hoje deverá enfrentar o Internacional, de Porto Alegre, pois o Atlético Moineiro, segundo comentários na CBF, manteve a sua posição de não jogar contra o time gaúcho, hoje no Beira-Rio, mesmo sabendo que perderá os pontos por WO e estando sujeito a punições. Se isso confirmar-se, o Inter será o vencedor do grupo R.
Na mesma página, outras reportagens sobre a partida. Em uma delas, o técnico do Palmeiras, Telê Santana, disse que era o jogo do ano. Ele temia, por exemplo, o conjunto do Flamengo.
Outra reportagen destacou que 10 mil palmeirenses iriam para o Rio de Janeiro, através das torcidas Grêmio Alviverde, TUP, Império Verde e Mancha Verde.
Já o atacante Vavá foi ao Parque Antártica desejar boa sorte aos atletas e disse que a teoria não vence, cutucando o técnico do Flamengo, Cláudio Coutinho.
O que chamou mesmo a atenção foi outra reportagem, “Para Márcio Braga, derrota será a maior zebra da Copa“.

A frase do presidente Márcio Braga afirmando que “uma vitória do Palmeiras será a maior zebra do ano”, define bem o ambiente de total otimismo e confiança existente no Flamengo para o jogo de hoje. (…) Já o técnico Cláudio Coutinho acrescenta que nem a vantagem do empate do Palmeiras assusta o Flamnego:
“O Flamengo vale pela experiência e entrosamento de seus jogadores. Estamos acostumados a jogar em condições adversas e alcançar a vitória com méritos”.
(…)
Cláudio Coutinho confirma que o Palmeiras não é mais a temível “Academia” comandada por Dudu e Ademir da Guia.
(…)
Só supervisor Domingos Bosco é que parece ver conchavos entre os paulistas:
“Estranho. O Palmeiras goleou duas equipes que tiveram um jogador expulso e isso quando os jogos estavam em 0 a 0. Assim foi contra o Comercial e depois contra o São Bento. Mas no Maracanã não haverá chance de aprontarem essa mutreta”.
Meu Deus, quanta bobagem!
Para todos os parágrafos dessa matéria, aconteceu exatamente o que eles pensavam que não seria feito, inclusive a goleada…
Veio o jogo e o Palmeiras destroçou o Flamengo, em pleno Maracanã, vencendo por 4 a 1.
Na capa da Folha de S. Paulo do dia seguinte, 10 de dezembro, a manchete resumiu o que aconteceu: “Palmeiras arrasa o tricampeão” (o Flamengo era tricampeão carioca).

Na capa do caderno de esportes, em letras garrafais, a manchete era mais dramática: “Foi o mesmo silêncio de 50”, remetendo à perda da Copa de 1950 para o Uruguai.

Palmeiras brincou com o Flamengo no Maracanã
O Palmeiras, com bom jogo de conjunto, desmanchou os riscos e traçados do Flamengo, deixou no Maracanã um grito sufocado na garganta, ontem à tarde, e goleou o time carioca, com displicência (é bom destacar), por 4 a 1, ganhando o direito de ser um dos quatro finalistas do Campeonato Brasileiro.
O Palmeiras chegou ao Rio massacrado por frases espalhafatosas de Cláudio Coutinho, Zico e Márcio Braga (este o cartola-mor dos clubes cariocas), que se entalaram com os primeiros passos do jogo. Passos e passes, que o tecnocrata Coutinho não soube como desarmar.
O Flamengo organizou apenas um jogo tático por setor. A geometria coutiniana, no entanto, não foi suficiente para sufocar o jogo de conjunto orientado pelo técnico Telê Santana – treinador mais cauteloso, experiente e eficiente.
Por isso, o Palmeiras não se assustou com as primeiras pressões do Flamengo, que necessitava da vitória porque o empate classificaria o Palmeiras. Teoricamente – imaginou Coutinho – o time paulista armaria forte bloqueio defensivo. Engano.
(…)
Muitos flamenguistas, das arquibancadas, não chegaram a ver o fim do grande show no Maracanã. Foram embora mais cedo, sem a chance de verem o time na Libertadores, como sonhavam Cláudio, Coutinho, Zico, Márcio Braga… e até Beijoca! (Nailson Gondim)
Estádio: Maracanã. Juiz: Carlos Sérgio Martins (RS). Renda: Cr$ 8,277,830,00, com público de 112.047 pagantes. Gols: Jorge Mendonça, aos 13′ do 1º tempo; Zico, aos 10′ (de pênalti), Carlos Alberto, aos 24′, Pedrinho, aos 31′, e Zé Mário aos 45′, todos na fase final.
Palmeiras: Gilmar; Rosemiro, Beto Fuscão, Polozi e Pedrinho; Pires, Jorge Mendonça e Mococa; Jorginho (Carlos Alberto), César (Zé Mário) e Baroninho.
Flamengo: Cantarele; Toninho, Manguito, Dequinha e Júnior; Carpegiani, Adílio (Beijoca) e Zico; Reinaldo (Carlos Henrique), Cláudio Adão e Tita.
Ocorrência: Beijoca foi expulso, por agressão ao adversário.
Na mesma página, uma crônica de Aroldo Chiorino, com o título “Uma pergunta para Coutinho responder agora”.

Leia um trecho:
E agora, Cláudio Coutinho? Como é que ficam as suas afirmações de que o time do Palmeiras era fraco e inexperiente? E você também disse, antes do jogo, que o Palmeiras poderia tremer no Maracanã, principalmente porque tinha alguns jogadores inexperientes. Isto tudo prova, depois da goleada que o seu time sofreu ontem, em pleno Maracanã, que você, como técnico permanente da Seleção do Brasil, tinha total desconhecimento das reais possibilidades técnicas do time do Palmeiras e em especial de alguns dos seus jogadores.
Lamentável, porque você como técnico da nossa seleção, deveria ter conhecimento do que está acontecendo no País em termos de futebol e não ficar limitado ao futebol do Rio de Janeiro, que não reflete a realidade.
O desprezo que você teve para com o time do Palmeiras é uma prova do seu desconhecimento das coisas que andam acontecendo.
É isso. Jogo não se ganha de véspera.
Ainda mais jogo contra o Palmeiras.
* Thell de Castro é jornalista e publica todas as semanas uma coluna contando algum trecho da História do Palmeiras.
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