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O jogo inesquecível da carreira de Evair
20 de maio de 2012 por @parmerista
Por Thell de Castro*
Aqui no Verdazzo, temos, todos os sábado, a seção do Partidazzo, onde os palmeirenses contam quais foram seus jogos inesquecíveis.
Seguindo a mesma linha, a coluna de hoje traz o jogo inesquecível da carreira de Evair, o matador, o eterno craque da camisa 9 do Palmeiras.
A revista Placar, quando já era mensal e temática, fez, em julho de 1993, um especial sobre o jogo inesquecível de diversos craques. Entre os entrevistados estavam Evair e Ademir da Guia – o depoimento do Divino nós traremos no próximo domingo.

Evair, é claro, elegeu como jogo inesquecível da carreira uma partida realizada um mês antes, no dia 12 de junho de 1993, contra o SCCP, onde saímos da fila após 16 anos sem título. Trata-se de um depoimento emocionante – e escrevo a coluna revendo a partida completa no YouTube.

De alma lavada
Chegamos ao Morumbi com os brios remexidos. Sofremos uma semana de provocações, críticas e muitas, muitas cobranças. Não de conselheiros, no Parque Antártica, como costumava acontecer anteriormente. Mas do nosso técnico e principalmente de nós mesmos, os jogadores. Até nos momentos que antecederam nossa saída da concentração, o diretor de esportes José Carlos Brunoro e o técnico Vanderlei Luxemburgo nos cobravam.
Apresentaram um vídeo que mostrava nossa vitória de 2 x 0 contra o SCCP, no primeiro turno, a comemoração do Viola no primeiro jogo da decisão, vencido pelo SCCP por 1 x 0, e uma série de outras cenas editadas. Tudo para nos motivar e acabar com a má imagem da derrota no domingo anterior.
Aliás, aquele jogo me fez ser alvo de gozações até dentro de casa. Na segunda-feira, quando entrei no elevador do meu prédio, vi um rapaz, com a camisa do SCCP, se aproximando. Educadamente, esperei por ele. Era um vizinho, com quem tenho pouco contato. Ele estava louco para tirar um sarro! Acho que lhe faltou coragem enquanto estava ao meu lado, mas, ao deixar o elevador, começou a gritar Viola. Que absurdo!
Eu, porém, tinha um problema mais sério além da gozações: provar para mim que podia jogar os noventa minutos (ou 120) no mesmo nível dos meus colegas, pois voltava de uma contusão.
Só teria certeza disso quando a bola começasse a rolar. Os ônibus entraram juntos no estádio e pudemos presenciar a festa dos jogadores deles.
Estava nos provocando de novo. Não bastava já terem feito tudo o que fizeram no domingo anterior, incluindo aquela comemoração do Viola, que ele chamou de Gol Porco.
Um dos corintianos, que prefiro não citar o nome, fazia gestor irônicos na nossa direção. O olhar deles dizia: “Vocês não têm chance. Serão vice-campeões”.
O nosso olhar, no entanto, era mais forte, e afirmava: “Vamos ganhar a qualquer custo!”.
Não dava para entender porque festejavam tanto. Só venceram o primeiro jogo por causa daquele gol do Viola. Um gol achado! Na segunda partida seria diferente.
Quando entramos no gramado, a emoção foi mais forte. É impossível não se empolgar vendo aquele povo pintando um lado inteiro do estádio de verde e branco e gritando seu nome, como fizeram comigo.
Puxa, é demais! Você se desdobra em campo para alegrar aquela torcida. Principalmente sabendo que, do outro lado, está o SCCP. E que ganhar o título depois de dezesseis anos, contra ele, é o sonho de todos que estão nas arquibancadas.
Bastou o juiz apitar o início do jogo para cada torcedor perceber que nossa determinação não era conversa fiada. A única dúvida que restava continuava sendo sobre a minha atuação.
A primeira bola que tocasse me daria a respostsa, se estava ou não estava bem.
É sempre muito importante o início da partida. Então, recebi, na altura do meio-campo, pelo lado direito.
A bola veio alta, e de primeira, lancei o Edílson em velocidade. Ainda tomei a falta e o zagueiro Henrique levou o cartão amarelo. Não tinha dúvidas. O jogo era nosso, e eu iria atuar muito bem.
Um minuto depois, dei aquele toque de calcanhar para o Roberto Carlos, que cruzou para o Edmundo chutar para fora. Pensei no perigo que corríamos perdendo um gol logo no início. Mas logo nos acalmamos. Em nenhum instante fomos inferiores ao SCCP.
Então veio o lance do gol. Toquei para o Zinho, que invadiu a área e chutou rasteiro, no canto direito do Ronaldo. Não vi mais nada na minha frente. Só pensava em Deus. Na torcida. Na vitória!
Só tínhamos que manter a cabeça no lugar. Sabíamos disso, porém às vezes é difícil. Quando o Edmundo deu aquela entrada no Paulo Sérgio, cheguei nele e pedi calma no mesmo instante. Acho até que não fez a falta. Na verdade, o Edmundo nem relou no Paulo Sérgio. Mas o juiz podia tentar equilibrar as coisas, expulsando um jogador nosso. Deu medo!
Eu precisava também vencer a marcação individual feita pelo Marcelo. Onde eu ia, ele ia atrás. Até na hora que o Edmundo veio jogar do lado esquerdo e eu caí pela direita, o zagueiro corintiano saiu no meu encalço. Estava cansativo. E não dava para parar.
Com 1 x 0 e o SCCP com um homem a menos, tentei descansar no fim do primeiro tempo. Para isso, deixei de marcar homem a homem para fazer esse trabalho a partir do meio-campo. Mas veio a voz do banco de reservas: “Vamos pegar na saída da bola, para não dar espaço”, gritava o Luxemburgo.
Eu me superei. No segundo tempo fiz o gol, e novamente não via nada na minha frente. Só a alegria.
Então veio a hora do pênalti, já na prorrogação, depois de termos vencido no tempo normal por 3 x 0.
Caminhei em marcha à ré até encontrar César Sampaio.
Não bato pênaltis sem falar com ele. Sabendo disso, veio até meu ouvido e disse baixinho: “Vai em paz, em nome de Jesus Cristo”. Aí corri tranquilo e bati. Goleiro num canto, a bola no outro.
E eu correndo para a torcida. Mas naquela hora, me disseram, ainda houve uma coisa mais bonita. A torcida toda de mãos dadas, nas arquibancadas, fazendo uma corrente de fé pela vitória. Confesso que não vi. Mas acho lindo!
Com o pênalti convertido, era só comemorar. Puxa, falei tanta coisa, que nem lembro mais!
Era a hora do desabafo. Lavei minha alma!
Aliás, como toda a nossa torcida. Prometi que até mataria um boi para um churrasco junto dos meus amigos em Ouro Fino, onde tenho um sítio. Não foi preciso, porque fizeram em meu lugar. Mas eu mataria mesmo um boi pela vitória!
O único problema gerado por esse jogo foi que não o gravei e agora vou precisar correr atrás de uma fita.
Mas meus amigos de Crisólia, minah terra natal, já me garantiram que me presentearão com a gravação da partida.
Afinal, é uma partida para guardar e, sempre que sobrar um tempo, rever no videocassete.
E, daqui a alguns anos, é claro, mostrar para os meus filhos o dia em que ajudei o Palmeiras a ganhar o título. Com 4 x 0 contra o SCCP.
Creio que não seja preciso escrever mais nada, o depoimento de Evair já disse tudo.
Só digo uma coisa: queremos o nosso Palmeiras, o Palmeiras que conhecemos, de volta. E pra já!


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