O balanço, nossa saúde e o resto

* por Savério Orlandi

Balanço negativo

A Sociedade Esportiva Palmeiras apresentou na última sexta-feira, dia 30 de abril, seu Relatório da Administração, incluindo o Balanço Patrimonial e suas demonstrações financeiras relativas ao exercício encerrado em 31/12/2020, marcado pela excepcionalidade imposta pela crise sanitária mundial.

O material foi publicado com a observância dos prazos legais aplicáveis, sendo certo que, em razão das atuais circunstâncias, não pode completar seu ciclo de validação com o debate e a aprovação pelo CD, contando tão somente com a recomendação favorável de cerca de 60% dos membros do COF que, para tanto, ainda se reuniu às vésperas da última restrição determinada no Plano SP quanto a este tipo de reunião presencial.

A propósito, e como tem sido recorrente na coletividade após a publicação, a indagação se poderia ou não ter sido promovida sua discussão na forma virtual, a exemplo de outras agremiações esportivas: sim, seria totalmente viável; contudo, não tem sido o padrão da SEP quanto às deliberações dos seus dois órgãos cujas composições são “multipartidárias”, e mesmo não sendo tal fato o tema em análise, cumpre mencioná-lo para fins de registro. Entendo que teria sido possível e efetivo, porém respeito, ainda que não compreendendo, quem considera inadequado adotar a reunião online.

Um resultado negativo neste exercício “ferido de morte” pela pandemia, mesmo de elevada monta como no caso, há de ser admitido e enfrentado com tranquilidade. Ao Palmeirense que arrepia e logo pensa “será que a SEP está quebrada?” – longe disso. Apesar de ter flertado com um estado de insolvência na metade da década passada, os fundamentos econômicos atualmente são sólidos, expressivos e correntes, bem como a instituição detém consideráveis ativos que lhe rendem uma condição de regularidade econômica e patrimonial, sendo também verdade o comprometimento do seu fluxo financeiro em razão do estrangulamento no caixa, o que lhe traz como consequência a dificuldade de cumprir integralmente com as suas obrigações e a incapacidade para investimentos, em especial no futebol. 

Detalhando o balanço

Em termos e números absolutos, como se depreende da peça contábil, a SEP obteve uma receita operacional bruta de 558M “contra” despesas da ordem de 649M no exercício 2020, gerando um déficit operacional de 91k ao qual, acrescidas despesas financeiras, atinge o total de 151M.

Comparativamente, as rubricas de receitas com saldo negativo foram a TV (de 34% em 19 para 30% em 20), Bilheteria (9/2) e Avanti (7/4), enquanto Vendas de Atletas (17/27), Patrocínio (19/21) e premiações resultaram em saldo positivo, com o clube social perdendo 17% de sua arrecadação.

Já quanto às despesas, a elevação foi de 580M em 2019 para 623M em 2020. Somente o futebol, com suas rubricas de Direitos de Imagem, CLT e Amortizações (leia-se luvas, comissionamentos e direitos econômicos de atletas), ultrapassou os 500M no período.

Além disso, compõem o déficit aferido as provisões de dívidas judiciais avançadas, as obrigações com o patrocinador por força dos contratos de empréstimos e a prorrogação de compromissos com os atletas e seus representantes – o que ocorrera já em 2019 e vimos noticiado por ocasião das duas operações que envolveram os atletas Dudu e Gustavo Gomes (empréstimo do primeiro, aquisição dos direitos do segundo), onde a Diretoria admitiu o adiamento de pagamentos vencidos em 2019 – o que não se sabe se foi também extensivo a outros atletas e/ou por novos períodos durante o ano inicial do evento pandêmico.

Antes de avançar, importante consignar que é impossível examinar o ano de 2020, mesmo com o advento do Coronavírus, de forma dissociada do exercício anterior, onde, em situação de absoluta normalidade, já era vista certa “perda de controle” (aumento mal dimensionado na folha em função dos excessos nos anos de 2018/19) e corrosão de fundamentos econômicos como o Avanti que ali já agonizava e bilheteria que experimentava a pior frequência da era Allianz Parque, vide o modesto superávit de 2019 da ordem de 1,7M.     

Vejamos: voltando às receitas de 2020, o produto da soma do Avanti e da Bilheteria decaiu 10%. Todavia, já vinham transportadas de 2019 com viés negativo e dificuldade de reversão; a maior fonte de receita (TV) também teve impacto significativo, com menos 10%, em um ano que deve servir de alerta à SEP (e demais atores) sobre os breves e futuros novos meios para comercialização; assim, a compensação parcial foi obtida especialmente com operações envolvendo direitos de atletas, incluindo-se o empréstimo do Dudu contabilizado parcialmente até dezembro, e premiações galgadas no curso das competições (sempre bom lembrar que as premiações vão se performando com a superação das fases, não é “única bolada” que vem após uma conquista) e, adicionalmente, pelo bônus contratual por resultado ajustado com o patrocinador, o que se vê no aumento da rubrica deste.   

De outra banda, tratando das despesas, apesar da mudança conceitual no futebol (menos investimento, ascensão da base) o grosso das obrigações decorre de contratos longos e onerosos em vigência, as quais, adiadas ou não, impactam direta e negativamente no resultado e não tem margem de redução (salvo com a saída de atletas), situação que deverá ser, no curto e médio prazo, trabalhada de modo cirúrgico, sobretudo na transição deste atual elenco com muitos contratos a vencer nos anos de 2022 e 2023.

O passivo total da SEP encerra 2020 em 622M, quase metade lastreado (parcelamentos REFIS, ativos /atletas no caso do empréstimo da Crefisa), além de valores relacionados a obrigações “a vencer” no curso de 2021.

Outros indicativos que reclamam atenção são o retorno ao PL (patrimônio líquido) negativo e a baixa amortização da dívida CREFISA no exercício de 2020, reduzida só de 172M em 2019 para 161M em 2020, ainda que tenham ocorrido no exercício vários negócios envolvendo atletas como Antonio Carlos, Juninho, Bruno Henrique, Carlos Eduardo (não contando a “baixa” do Guerra), e o sinal de alerta para a proximidade quanto a imposição dos pagamentos das condenações judiciais nos casos Wesley e Samsung.

Enfim, é necessário desmistificar um pouco o entendimento das coisas. É verdade que o resultado negativo nos preocupa, mas não é por si só nem ao menos indicativo de abalo à solidez alcançada pela SEP nestes últimos anos. Vale dizer, é claro que a SEP não “está quebrada”, mas sua situação já demandava atenção e manobra mesmo antes da COVID.

Por outro lado, vencidas as atuais circunstâncias, impõe-se a recomposição da geração de nossas receitas com a recuperação daquelas já “dantes deterioradas”, especificamente através da remodelação do Programa Avanti, de tal sorte a torná-lo uma experiência; do incremento da afluência de público quando for permitido, inclusive para jogos de menor interesse e/ou dobrados com a TV; criação de novas fontes (a diversificação dos meios de transmissão, o mercado de apostas em normatização; E-Sports com sua capacidade de fidelizar adeptos da nova geração; licenciamentos e direitos ainda não performados), além da racionalização de despesas ordinárias em especial no departamento de futebol – e aqui cabe esclarecer que a estratégia a perseguir não se trata do infame “bom e barato”, mas sim da adoção de medidas que se traduzam na prática em GASTAR com eficiência!

As demonstrações financeiras estampadas no Balanço 2020 indicam que a SEP tem uma trabalhosa lição de casa pela frente, qual seja, agora recobrada do susto, é hora de mitigar indefinições ainda pendentes no curto prazo, partir para a correção das distorções destes últimos anos visando o reequilíbrio financeiro, promover de forma criteriosa a futura transição do elenco, inclusive com a realização parcial dos ativos da base performados, e perenizando esse atual modelo de formação, consolidando um processo que conta com mais de década no aprimoramento da categoria menor.

Não é preciso ter receio da nossa saúde financeira, nem tampouco dúvida quanto à grandeza da SEP e à capacidade de honrar com todos os seus compromissos, o que sempre a caracterizou mesmo nos piores momentos vividos sem o vírus. No entanto, nossa aparente excelência hoje, festejada e propalada como sendo referência de administração, ainda há de se forjar, cumprindo melhores práticas de transparência e governança, maior participação e fortalecimento econômico, agora que findo o exercício atípico e prejudicado, mas esportivamente muito exitoso!

* Savério Orlandi é advogado, membro do CD e do COF da SEP e associado à ABEX Futebol; escreveu este post a convite do Verdazzo