1993

Edmundo, Edilson, Roberto Carlos e Antônio CarlosApesar das decepções de dezembro de 1992, o projeto de cogestão com a Parmalat seguia promissor. Os reforços mais importantes do ano anterior foram mantidos, como Zinho e Mazinho. As saídas de Toninho Cecílio, Dida, Cuca e Carlinhos foram repostas em nível estelar: em janeiro, foram apresentados Antônio Carlos, Roberto Carlos, Edílson e Edmundo. O técnico Otacílio Gonçalves, mantido no cargo, tinha um material humano espetacular para tirar o Palmeiras da fila.

A campanha começou de forma muito positiva, com vitórias nos clássicos contra Santos e SCCP e uma goleada sobre a Portuguesa no Pacaembu que foi a primeira demonstração real do que aquele time poderia fazer. Houve uma pequena oscilação ao fim do primeiro turno, com uma sequência de cinco jogos com apenas uma vitória. Em seguida, vieram sete vitórias seguidas e tudo parecia ter voltado aos trilhos, mas aquela oscilação havia plantado sementes difíceis de reverter.

Em pleno segundo turno, o Palmeiras acabou perdendo a partida de ida da segunda fase da Copa do Brasil para o Vitória. No jogo seguinte, veio um revés para o Mogi Mirim de Válber e Rivaldo. O gol de Leto decretou a derrota do Palmeiras e a demissão de Otacílio. Uma terceira derrota ainda viria sob o comando interino de Raul Pratalli, contra o SPFC. Mas uma grande virada estava por vir: o Palmeiras acertou a contratação de Vanderlei Luxemburgo, campeão paulista três anos antes com o Bragantino e que fazia um bom trabalho na Ponte Preta.

Nas mãos de Luxa, a base do trabalho de Chapinha foi mantida, os ajustes foram certeiros e o time começou a engrenar. Logo de cara, a classificação para jogar as quartas da Copa, após reverter a situação frente ao Vitória. Um excelente jogo diante do Guarani embalou time, mas logo veio mais um banho de água fria: uma derrota por 3 a 0 num Derby para quase 90 mil pessoas no Morumbi.

Era o auge da fila e da pressão. Dezessete anos sem ganhar um título e qualquer oscilação tinha o efeito de um terremoto. Luxemburgo conseguiu controlar a ebulição que vinha de fora e também os problemas internos. Diante de tantos astros, o ambiente no vestiário não era exatamente de harmonia. Felizmente os incêndios diários eram apagados e o time conseguia, sabe-se lá como, manter o foco na competição.

A Copa do Brasil ainda era um torneio de pouco prestígio e o Palmeiras foi decidir a vaga nas semifinais em Porto Alegre, depois de empatar a ida contra o Grêmio por 1 a 1 em casa. O Verdão até saiu na frente no Olímpico, com um gol de Tonhão, mas o Grêmio empatou e a decisão foi para os pênaltis – César Sampaio errou a oitava cobrança e o time gaúcho avançou.

A eliminação acabou sendo boa para que o time, prestes a entrar no quadrangular semifinal, focasse totalmente na disputa do Paulistão. Diante de Rio Branco, Guarani e Ferroviária, a máquina engrenou de vez. Logo de cara, um 6 a 1 no Rio Branco. Edmundo brilhou em Araraquara e o time nem sentia a falta de Evair, lesionado desde o último jogo sob o comando de Otacílio Gonçalves. Foram seis vitórias em seis jogos e a vaga na final, diante do SCCP, que passou por um grupo bem mais difícil, com SPFC, Santos e Novorizontino – com uma bela ajuda da arbitragem, diga-se.

O time do Palmeiras era absurdamente superior, mas o peso da fila e a mística dos Derbies acabaram equilibrando as coisas. Os dois times se enfrentaram no jogo de ida no domingo, 6 de junho, para quase 94 mil pessoas. Num lance improvável, Viola abriu o placar aos 13 minutos: ele se atirou numa bola alçada na área, que fatalmente sairia pela linha de fundo, e com quase nenhum ângulo, conseguiu escorar para o gol. Na comemoração, imitou um porco chafurdando na lama.

Os dezessete anos desabaram em cima de nossos jogadores enquanto o limitado time adversário tocava a bola empurrado por sua massa de torcedores. A metade verde do estádio seguia aflita, mas confiante, cheia de fé – que aumentou muito quando Evair saiu do banco no segundo tempo, quase dois meses após a lesão. O Palmeiras sufocou o adversário nos minutos finais, mas o primeiro jogo acabou mesmo 1 a 0.

Uma estranha sensação de alento tomou conta de nossos torcedores enquanto o outro lado, inebriado pela vitória, projetava o troco de 1974. A semana foi longa, interminável. A pressão da imprensa e dos adversários era grande, mas nossa torcida mantinha a força e a esperança, apoiada na volta do matador Evair. A imagem recorrente de Viola comemorando o gol foi nosso alimento naqueles seis dias.

Chegou enfim o sábado, 12 de junho. Ao Palmeiras, era necessária uma vitória por qualquer placar no tempo normal para provocar uma prorrogação, com o placar zerado – pela melhor campanha, um empate no tempo extra nos bastaria. Ao SCCP, bastava empatar nos 90 minutos – caso perdesse, precisaria vencer a prorrogação.

Frio na capital paulista. Quente, muito quente, estava a alma da cidade. Um jogo de arrebentar. E o Verdão entrou em campo completo, com meias brancas, lembrando a conquista do último título, em 1976.

O nervosismo inicial foi dando lugar a um toque de bola magistral de nossa equipe. Zinho era o maestro do meio-campo; Edmundo era pura energia e Evair o pilar de classe e inteligência no ataque.

O Palmeiras pressionou, pressionou e chegou ao gol aos 36 minutos, com Zinho. De pé direito. A explosão do lado verde do estádio foi algo que jamais será visto novamente. Pela primeira vez em dezessete anos bastava ao Palmeiras não sofrer nenhum gol para ser campeão. Certamente mais da metade da torcida nunca tinha provado aquela sensação antes. E o adversário sentiu o golpe, e muito – ainda mais depois da expulsão do zagueiro Henrique.

O técnico adversário mexeu errado, trocando o ponteiro Adil pelo místico, porém ineficiente meia Tupãzinho. Um time que precisava de um gol estava reforçando o meio-campo – uma mexida que aumentou ainda mais nossa confiança e fez a torcida adversária se encolher de medo.

O segundo tempo foi um baile. Parecia que havia 20 palmeirenses em campo e 300 mil nas arquibancadas. O goleiro adversário, Ronaldo, fugiu do jogo forçando sua expulsão ao agredir Edmundo, que arrancava em direção ao gol – o árbitro nos prejudicou muito ao também expulsar Tonhão, que apenas havia chegado no bolo para tirar nossos jogadores do empurra-empurra. Os gols de Edilson e Evair apenas coroaram a maiúscula vitória no tempo normal, num campo cheio de espaços – eram 10 contra 9.

Luxemburgo 1993

O Verdão sobrou na prorrogação, mas o fantasma da fila deu seu último uivo ainda no primeiro tempo: uma arrancada de Neto no campo ofensivo provocou alguns mini-AVCs em nossa torcida. Era uma jogada despretensiosa e nossa defesa estava totalmente armada, o lance não deu em nada, mas bastava um gol do adversário para tudo desmoronar. O peso dos dezessete anos era inacreditável.

Aos dez minutos, Ricardo cometeu pênalti em Edmundo; Ezequiel foi expulso por reclamação e o título finalmente começou a se desenhar em cores vivas. Com dois jogadores a mais, bastava ao Palmeiras converter o pênalti e não sofrer dois gols em vinte minutos.

Evair tomou distância. Enquanto procurava o parceiro de fé César Sampaio para uma palavra final, todo o lado verde do estádio deu as mãos, numa gigantesca corrente de esperança e pensamento positivo. As passadas do Matador foram, como sempre, lentas e ritmadas. Wilson tentou adivinhar o canto e Evair só rolou para o outro, correndo com os braços abertos com a certeza de que tinha feito o maior gol do mundo. E tinha mesmo.

Os 20 minutos que se seguiram até o apito final foram uma mistura de ansiedade e alegria. Nenhum palmeirense ousou soltar o grito antes da hora, mas todos já tinham a certeza que o troféu viria. Enquanto o time tocava a bola, colocando o SCCP na roda, os 17 anos de sofrimento passavam na cabeça de nossa torcida como num filme.

Ao apito final do árbitro, o Brasil se pintou novamente de verde e branco. Depois de 5 meses e 38 jogos – ou melhor, depois 16 anos, 9 meses e 25 dias, após 1151 partidas, o Palmeiras era novamente campeão.

Um mar alviverde tomou conta das ruas da cidade e a comemoração naquele sábado, dia dos namorados, varou a noite. Uma euforia que traduzia sentimentos de alegria, alívio e vingança. Viola e seu porquinho foram muito lembrados nos cantos de comemoração. E a lembrança de 1974 permaneceu viva, 19 anos depois.

***

Três semanas depois, teve início o Torneio Rio-São Paulo. O Palmeiras estava desfigurado – primeiro, porque a ressaca da conquista ainda estava presente, e depois porque a Copa América desfalcou demais nosso time, levando cinco titulares. O Verdão encarou a disputa com um mistão, mas o embalo era forte: após um mês de competição, o time chegou novamente á final, e de novo contra o SCCP, desta vez, em dois jogos no Pacaembu.

No jogo de ida, o reencontro com os rivais nas arquibancadas foi delicioso. Envergonhados, mesmo como mandantes, os adversários deixaram seu espaço quase às moscas. E o Palmeiras se impôs. Na verdade, Edmundo ganhou o jogo praticamente sozinho: marcou dois gols no primeiro tempo e foi expulso ao dar uma bicuda em Marcelinho Paulista. O Palmeiras segurou o placar; e no jogo da volta apenas tocou a bola mais uma vez, mantendo o resultado de 0 a 0, para comemorar mais um título sobre o rival.

***

Após mais essa conquista, o time saiu para uma excursão à Europa – em Cádiz, o Verdão venceu o SPFC de Telê Santana mais uma vez, após uma estada em Parma, para um torneio com Peñarol e Boca Juniors, também patrocinados pela multinacional italiana. O passeio, merecido, durou quase duas semanas.

Era hora de voltar ao trabalho sério e veio a disputa do Brasileirão. O Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo foi mais reforçado ainda. Para os lugares de João Luís e Daniel Frasson chegaram Cláudio e Flávio Conceição. Mazinho foi deslocado para volante e nosso meio-campo virou uma máquina.

O regulamento previa 4 grupos de oito clubes, com jogos dentro da mesma chave. Após 14 jogos, o Palmeiras terminou como líder do Grupo B com 10 vitórias, e avançou para os quadrangulares semifinais.

Nosso grupo tinha o SPFC, o Guarani e o Remo. O Verdão mais uma vez não tomou conhecimento dos adversários, conseguindo a classificação á final com uma rodada de antecedência – na partida-símbolo, o Verdão ganhou do SPFC no Morumbi com um golaço de César Sampaio.

O adversário nas finais seria o surpreendente Vitória, que passou por um grupo em que o favorito era o SCCP. Mais uma vez, o goleirão Ronaldo entregou a paçoca e forçou a expulsão. No confronto, o Verdão passeou. A vitória por 1 a 0 na Fonte Nova deu o tom. Na volta, para cerca de 90 mil palmeirenses no Morumbi, Evair e Edmundo fizeram os gols do sétimo título nacional, para fechar o ano mais verde da História do Futebol.

Jogos no ano de 1993

Jogadores no ano de 1993