1994

RInconPela primeira vez em dezessete anos o Palmeiras iniciaria uma temporada como campeão, sem o peso da fila que foi ficando cada vez mais terrível com o passar do tempo. Os títulos paulista, do Rio-SP e do Brasileirão deram ao Verdão a tranquilidade para iniciar uma temporada trabalhando “apenas” com a pressão natural que a camisa alviverde traz. A perspectiva de jogar uma Libertadores pela primeira vez em quinze anos era algo que encantava a torcida.

O time havia fechado a temporada de forma tão perfeita que era difícil imaginar onde caberiam reforços. A diretoria trouxe o meia colombiano Freddy Rincón, destaque da seleção que encantava o mundo ao lado de Asprilla e Valderrama. Em princípio, Vanderlei Luxemburgo o escalaria como meio-campista, empurrando Mazinho de volta para a lateral direita. Mas Gil Baiano e depois Cláudio entravam e davam conta do recado, fazendo com que Mazinho permanecesse como segundo volante. Isso fazia com que faltasse uma vaga no time: entre Edílson, Edmundo, Rincón, Evair e Zinho, alguém ficaria no banco.

Numa época em que, mesmo num meio profissional, o futebol era muito mais “raiz” e as coisas muitas vezes se decidiam no grito, o ambiente ficou pesado e difícil de administrar. As vitórias encobriam, mas o vestiário estava quente. O Paulistão, jogado por pontos corridos por 16 clubes, ia sendo bem administrado: o Verdão liderava tranquilo e só foi perder a primeira partida na décima rodada, para o SPFC de Telê Santana, numa tarde em que Luxemburgo foi mal taticamente. Após esse jogo, Edmundo teve uma lesão misteriosa anunciada. Houve três versões: tendinite, inflamação agravada por infecção dentária, e lesão muscular na coxa. E havia também os rumores de afastamento por indisciplina.

O time seguiu jogando bem e fez um de seus maiores jogos da década enfiando 6 a 1 no Boca Juniors no Palestra, numa noite em que Mazinho obrigou o técnico Parreira, da Seleção, a convoca-lo para a Copa do Mundo. Enquanto isso, Edmundo, aflito, era esquecido.

Palmeiras 6x1 Boca JuniorsO Verdão perdeu um Derby na reta final do turno e mais uma vez houve consequências. Luxa foi mal de novo e a pressão aumentou. Nos seis jogos seguintes, foram quatro derrotas, sendo três pela Libertadores. Sérgio falhou feio e entregou o resultado no final na Bombonera e a crise se instalou. A maratona de jogos cobrava o preço no físico dos jogadores – no fim de março, já haviam sido jogados 24 partidas.

A entrada do paraguaio Gato Fernández e a volta de Edmundo coincidiram com a recuperação do time, que voltou a engatar uma boa sequência no Paulista. O time precisava vencer o Vélez Sarsfield na última rodada da fase de grupos, e se impôs com um grande 4 a 1. A paz estava de volta – ao menos, momentaneamente.

O Verdão sustentava a liderança no segundo turno e restavam cinco jogos para o fim. Mas antes havia o primeiro jogo das oitavas-de-final da Libertadores, exatamente contra o SPFC, no Pacaembu. O Palmeiras massacrou o adversário, mas parou em Zetti, em noite inspiradíssima. Para tentar chegar à vitória, Luxemburgo trocou Edmundo por Edílson. O camisa 7 saiu esbravejando; Luxemburgo não gostou e precisou ser contido. Edmundo acabou afastado, desta vez pública e oficialmente por indisciplina.

Sem Edmundo, o Palmeiras voltou a enfrentar o SPFC quatro dias depois, pelo estadual. Uma vitória aproximaria demais o Verdão do título, mas o SPFC tinha um time muito competitivo. O jogo foi disputado sob a comoção do anúncio da morte do ídolo nacional Ayrton Senna, pela manhã, na Itália.

SPFC 2x3 PalmeirasEuller abriu o placar de cabeça aos 24, Edilson empatou aos 28 e Müller, aos 35, fizeram os gols da primeira etapa. O resultado parcial aproximava os donos da casa do Palmeiras na tabela. A torcida estava apreensiva e Rincón fazia uma partida apática, sem fibra. Luxemburgo mandou Maurílio para a beira do campo e todos esperavam a saída do colombiano.

Quando subiu a placa indicando a saída do lateral Cláudio, o que empurraria Mazinho para a lateral, a torcida vaiou muito a substituição. Em seu primeiro toque na bola, Maurílio faria o gol de empate aproveitando sobra de escanteio. Luxemburgo se virou para a torcida e a desafiou, entendendo que a vaia havia sido para a entrada de Maurílio. Em meio a tudo isso, Evair fez o terceiro, em cobrança de falta perfeita, e o Verdão ficou muito perto do título paulista.

A conquista veio no dia 12 de maio, em Santo André, na mesma noite em que o SPFC perdia mais um ponto ao tropeçar diante do Novorizontino no Morumbi, em jogo que começou uma hora antes. Diante deste resultado, bastava ao Verdão vencer o jogo para se sagrar campeão com uma rodada de antecedência.

O Palmeiras venceu com mais um gol de Evair e comemorou a conquista, que foi consagrada na última rodada com um Derby no Pacaembu, em que o Verdão venceu de novo para não deixar nenhuma sombra de dúvida, recebendo o troféu e as faixas. Este jogo não foi disputado no Morumbi porque o campo amanheceu esburacado misteriosamente na sexta-feira. O time do Jardim Leonor não estava suportando ver o Palmeiras erguer tantas taças em seu estádio.

A Copa do Mundo se aproximava e o futebol oficial no país daria uma pausa. Torneios amistosos começaram a ser jogados. Depois de empatar por 0 a 0 em Fortaleza com o Ceará, pela Copa do Brasil, o Palmeiras jogou um torneio com participação do Santos e da Lazio. Em meio a esse desvio de foco, veio o jogo da volta e o Palmeiras empatou de novo contra o Ceará, desta vez por 1 a 1, e acabou eliminado pelo gol qualificado. Um descuido lamentável.

Entre 9 e 22 de junho, o Verdão foi à Colômbia, onde enfrentou a seleção local, e depois à Espanha, onde jogou contra o Deportivo La Coruña, para depois, sob o comando do preparador físico Walmir Cruz, emendar um giro pela Rússia, onde jogou seis vezes em sete dias – algumas das partidas foram reduzidas, com 40 minutos de duração. Mas daria tempo de retornar e descansar para a decisão pela Libertadores.

Mas o presidente Mustafá Contursi acabou arrumando mais uma excursão, desta vez ao Japão, com mais cinco jogos entre os dias 9 e 19 de julho. O time chegou ao Brasil esbagaçado e o jogo contra o SPFC foi no dia 24. Com dois gols de Euller, o adversário levou a melhor por 2 a 1 e o Palmeiras teve adiado o sonho da Libertadores.

Depois da patética Copa Bandeirantes, invenção da FPF que o Palmeiras jogou com os reservas dos reservas, ainda havia o desafio de manter o título do Brasileirão. Para isso, foi necessário cobrir a saída de Rincón, negociado com o Real Madrid, e de Mazinho, que foi para o Celta. Rivaldo, emprestado do Mogi Mirim ao SCCP, foi aprovado por nossa diretoria e trazido na imposição, atropelando as pretensões do rival. Flávio Conceição e Amaral cresceram de forma impressionante para jogar ao lado de César Sampaio, e o time ficou mais forte ainda do que no primeiro semestre.

O Verdão engoliu o Brasileirão, disputado por 24 times. O regulamento era ordinário: na fase 1, quatro grupos de seis, ida e volta dentro dos grupos – 10 partidas; passavam os quatro melhores de cada grupo. O Verdão atropelou seu grupo, com nove vitórias e um empate.

Os 16 times classificados foram divididos em duas chaves de oito, mas jogavam todos contra todos em turno único, primeiro dentro das próprias chaves, depois contra a outra chave. Um sistema feito por engenheiros da NASA definiria os oito classificados para um mata-mata. O Palmeiras se classificou com muita antecedência e nitidamente tirou o pé nos últimos jogos, ainda mais com Edmundo suspenso após provocar uma enorme briga em jogo contra o SPFC.

Na chave final, o primeiro adversário foi o Bahia, e o Verdão venceu os dois jogos por 2 a 1. Na semifinal, uma disputa dura contra o Guarani, que tinha perdido Amoroso por lesão, o grande jogador do time bugrino no campeonato e artilheiro da competição. O Verdão seguia sem Edmundo. Após as duas partidas, o Verdão se classificou para a final com vitórias por 3 a 1 e 2 a 1.

Guarani 1x2 Palmeiras

As finais, mais uma vez, seriam contra o SCCP. Pela primeira vez o Brasileirão seria definido com dois Derbies, ambos no Pacaembu. Mais uma vez, o SPFC forçou a retirada dos jogos de seu estádio, desta vez se auto-denunciando ao Contru (órgão municipal que fiscaliza instalações e segurança de edificações), que interditou o estádio.

No primeiro jogo, com mando do SCCP, nossa torcida viu do tobogã um show de Edmundo e Rivaldo. Com muita facilidade, o Verdão abriu 3 a 0 e acabou tomando um gol de Marques no segundo tempo. No jogo da volta, com o Pacaembu tomado pela torcida alviverde, sob um calor infernal, o SCCP ainda fez o primeiro logo a três minutos, mas precisava de mais dois, não teve forças diante de um Palmeiras que controlava a bola mesmo com o placar adverso, e viu a torcida do Verdão comemorar o oitavo título brasileiro com o gol de Rivaldo, aos 36 do segundo tempo. Uma conquista extremamente saborosa, com todos os elementos que fazem a torcida do Palmeiras cantar e vibrar: vitórias acachapantes, grandes ídolos, polêmicas, e vitória sobre o rival em duas finais sensacionais.

O fim do ano só não foi perfeito porque já na semana do Natal a diretoria anunciou a venda de Evair, César Sampaio e Zinho para o Yokohama Flügels, do Japão. Pelo visto, a viagem ao Japão no meio do ano rendeu mais do que alguns trocados.

Campeão Brasileiro 1994

Jogos no ano de 1994

Jogadores no ano de 1994