Sem transparência, reforma estatutária será votada no dia 31

Maurício Galiotte
César Greco / Ag.Palmeiras

O Conselho Deliberativo do Palmeiras vai votar, no próximo dia 31, propostas para mais uma reforma estatutária no clube. O edital de convocação foi publicado no último domingo e pegou de surpresa boa parte dos conselheiros progressistas do clube.

Os itens da nova proposta foram reescritos em meio a um histórico conturbado. Em 2013, Paulo Nobre formou uma comissão com 30 conselheiros, contemplando todas as alas políticas do clube.

Através de um processo cuidadoso, o novo estatuto seria refeito por completo e a meta inicial era que fosse enviado para votação até agosto de 2014, por ocasião do centenário do clube. O texto final demorou demais para sair, diante da complexidade do projeto, mas enfim passou pela consultoria de um renomado escritório de advocacia. Por “defeitos técnicos” o texto final foi misteriosamente rejeitado e a comissão, dissolvida. O trabalho foi totalmente descartado; tempo e dinheiro foram jogados no lixo. A demora no processo e a incapacidade em concluí-lo pode ser considerada o maior fracasso da gestão Paulo Nobre.

Vitalícios: uma praga eterna

Mustafá Contursi
Keiny Andrade/Folhapress

Uma segunda comissão foi formada em meados deste ano com apenas oito conselheiros, em sua maioria leais a Mustafá Contursi. O novo texto, entre várias mudanças, suprimiu um item fundamental da proposta anterior: a redução do número de conselheiros vitalícios, dos 148 atuais para “apenas” 100.

A figura do conselheiro vitalício é uma instituição que visa manter no Conselho personalidades importantes no clube, com conhecimento profundo da História e valores palmeirenses; pessoas que devem ser consultadas sempre que assuntos sensíveis venham à tona. Qualquer clube necessita ter essas referências. Mas em qualquer análise, 148 cadeiras vitalícias é claramente um exagero que torna o Conselho um órgão enviesado.

A proposta anterior, que reduzia o número de vitalícios para 100, ainda não chegava a um número razoável, mas é o que fazia com que a proposta fosse considerada politicamente viável. Só que a eleição de vitalícios, que substituem os que vêm a falecer, é um dos maiores instrumentos políticos de Mustafá Contursi, que melhor consegue manter sua enorme influência no Conselho e consolidar seu poder quanto maior for esse número.

Transparência zero

A proposta anterior, que foi inutilizada, na prática diminuía a influência de Mustafá no clube, limitando o poder do COF, onde ele reina soberano, e reesquematizando a estrutura organizacional, tornando-a muito mais enxuta com a redução do número de diretorias. O número de diretores é outra moeda de troca importante no jogo de poder de Mustafá, e enxugar a estrutura seria um golpe duro em seu modus operandi.

A nova proposta é considerada um golpe pela ala progressista do clube. O processo anterior foi lento e cauteloso para que as novas propostas fossem exaustivamente debatidas entre os conselheiros, que se reuniam com a comissão do estatuto em grupos de 50 para debater todos os pontos – as chamadas “reuniões setoriais”.

A nova proposta foi redigida a toque de caixa, sem que nenhuma setorial fosse feita, o que caracteriza o que popularmente se chama de “empurrar goela abaixo”. O processo, ao contrário do anterior, foi conduzido a portas fechadas, sem nenhuma transparência.

Emendas, para tentar reverter a situação

Um grupo de conselheiros, descontentes com a situação, deve apresentar uma proposta de emendas, na inglória tarefa de tentar reverter a manobra.

Para que aconteça uma alteração no estatuto, um novo texto deve ser aprovado ou reprovado por inteiro, os conselheiros votam “sim” ou “não”. A estratégia que resta é tentar mudar o texto que será votado, e para isso uma comissão paralela deve se reunir em regime de urgência para tentar reescrever a proposta.

As emendas então serão avaliadas; os itens que entram em conflito com a proposta atual serão votados sob o comando do presidente da casa, Seraphim Del Grande, o que deve fazer da sessão do dia 31 uma das mais tumultuadas dos últimos tempos. Del Grande, que em outros tempos foi um feroz opositor de Mustafá, hoje lhe é absolutamente leal e deve conduzir a sessão de forma a garantir os desejos de seu comandante.

Grande derrotado: Maurício Galiotte

Parte da base de apoio a Maurício Galiotte está nessa ala progressista que não concorda com a manobra de Mustafá e deve acontecer uma pressão para que o presidente se mantenha firme em favor das mudanças propostas originalmente, que devem voltar nas propostas de emendas. Se atender aos insatisfeitos, pode perder o apoio de Mustafá, pelo qual comprou tantas brigas em nome da governabilidade. Se pender para o lado de Mustafá, pode assistir parte de seus apoiadores migrarem de vez para uma  coalizão política que já desponta como nova oposição, e que tende a apoiar a volta de Paulo Nobre.

Além do Palmeiras, o grande derrotado desse novo episódio político do Palmeiras é Maurício Galiotte, que ficou vendido em mais uma manobra daquele que faz do Palmeiras seu grande playground político.

Gilto Avallone: o “homem-bomba” está de volta

Gilto AvalloneO Conselheiro Gilto Avallone voltou a colocar as manguinhas de fora. Depois de muitos anos quietinho, viu na gestão atual a cordialidade perfeita para cravar suas unhas, sempre em busca de holofotes para satisfazer sua sanha pela popularidade.

Em seu blog pessoal, o Conselheiro, que também é membro do COF, divulgou informações confidenciais do contrato de Felipe Mello com o Palmeiras, ato que gerou que o clube fosse notificado extra-judicialmente pelos representantes do atleta e que pode causar severos prejuízos à entidade.

Recentemente, um grupo de conselheiros redigiu um documento pedindo ao presidente do Conselho Deliberativo, Seraphim Del Grande, que instaure procedimento disciplinar contra Avallone, a fim de verificar se sua atitude pode ser tipificada como infração e assim punir o conselheiro pelo vazamento.

Histórico

Gilto Avallone militou na década passada na UVB, legenda que historicamente representava a oposição ao mustafismo e foi eleito conselheiro. Foi visto dizendo impropérios dignos de arquibancada referindo-se a Mustafá Contursi nas reuniões do grupo político, com o qual posteriormente rompeu durante a segunda gestão Della Monica. Curiosamente, foi se aninhar exatamente sob as asas de Mustafá, que o aceitou prontamente.

Foi um dos mais ferrenhos opositores à construção do Allianz Parque – felizmente, foi derrotado. Em 2011, foi objeto de uma reportagem no portal da RGT, na qual foi chamado de “homem-bomba” do Palmeiras. Na matéria, assume o gosto por divulgar para a imprensa tudo o que sabe sobre o clube.

Hoje, Gilto e a UVB estão novamente do mesmo lado, bebendo do mesmo vinho servido a Mustafá Contursi. Enquanto isso, alguns resilientes conselheiros tentam encerrar de uma vez por todas essa sangria de informações.

Processo

O requerimento, antes de ser enviado ao presidente do CD, precisa conter a assinatura de 50 conselheiros. Uma vez coletadas as assinaturas, aí o processo poderá ser validado por Seraphim Del Grande, que define a pauta de cada reunião do Conselho. Se Seraphim não quiser (leia-se: se Mustafá não deixar), o processo não caminhará um centímetro sequer. A tarefa é árdua.

Cabe à comunidade palmeirense pressionar os conselheiros conhecidos para que assinem o requerimento para que sejam juntadas as assinaturas necessárias. O segundo passo será pedir com bastante insistência ao presidente do Conselho para que faça seu dever que dê início à avaliação. Se Gilto não fez nada de errado, não tem nada a temer.

Sendo a infração tipificada ou não, o Palmeiras precisa de uma vez por todas tratar as informações com mais carinho. De “homem-bomba”, Gilto não tem nada – todas as vezes em que ele resolve detonar algo, sai ileso; só o Palmeiras é quem é bombardeado e precisa contornar os efeitos das crises por ele causadas.

Em 2011, quando Gilto gostava de brincar de X9 para a imprensa, o Palmeiras tinha um orçamento que mal ultrapassava os 100 milhões de reais ao ano – e já não era pouco. Agora essa cifra está quase cinco vezes maior e não comporta mais em hipótese alguma esse tipo de molecagem. Acabar com esse comportamento é dever de todas as esferas de poder do clube, em respeito ao patrocinador e aos milhares de sócios-torcedores que mensalmente fazem seus pequenos sacrifícios para engrandecer o Palmeiras.