Depois do Talleres, três recados precisam ser dados

Diego Souza

O SPFC foi eliminado ontem da Copa Libertadores da América, em casa, pelo Talleres, décimo-terceiro colocado no campeonato argentino. Após duas partidas, o time do Jardim Leonor ficou sem marcar um mísero gol, levou dois no jogo de ida e foi despachado com direito a uma expulsão bizarra – Everton deu uma solada na cara de um argentino e deveria ir direto do estádio para a delegacia, se este fosse um país sério.

A lista de vexames recentes do time da camisa cheia de cores ganhou mais uma linha. O Eduardo Luiz, do PTD, a mantém atualizada no Twitter, em mais um ótimo serviço da mídia palestrina.

A eliminação tira do SPFC a chance de disputar a Libertadores e também a Sul-Americana – resta a eles na temporada apenas o paulista, a Copa do Brasil e o Brasileiro. A diretoria investiu pesado no elenco para a disputa da Libertadores e o retorno, se vier, terá que ser das competições que restaram. Um desastre completo. Diante desta pequena tragédia (para eles), três recados precisam ser dados.

Para a torcida do Palmeiras

Não podemos cair na mesma armadilha que a torcida deles caiu nas décadas de 90 e 2000. Eles se auto-intitularam “soberanos”, se acharam invencíveis.

Num cenário em que o profissionalismo no futebol ainda era tema de roteiro de ficção científica, beneficiados por um absurdo hábito de Palmeiras e SCCP de mandar clássicos e até jogos comuns em seu estádio, levaram vantagem financeira e ganharam vários títulos.

O comportamento da torcida do SPFC foi patético. Subiram no salto de maneira ridícula. Rebolaram em cima dos troféus conquistados e passaram a desprezar e a humilhar os clubes que, por tantos anos, deram-lhe surras e mais surras dentro de campo. Só que as fontes secaram e o cenário político por lá é caótico. Não há, no curto prazo, perspectiva de sair do buraco administrativo e técnico.

Nossa torcida não pode fazer a mesma coisa. Temos que manter a dignidade e a esportividade nas vitórias. Hoje, estamos por cima. Amanhã, não sabemos. Tirar sarro é uma coisa, virar um pavão e comer canapés de soberba é outra completamente diferente, que não pertence ao futebol. Que isso passe longe daqui.

Para a diretoria do Palmeiras

Mustafá Contursi
Keiny Andrade/Folhapress

O que o SPFC está vivendo hoje, nós conhecemos muito bem. Depois de amealhar a maioria dos troféus disputados no futebol brasileiro por muitos anos, sendo incomodados apenas pelo Santos na década de 60, o Palmeiras foi vítima de seus próprios quadros a partir do meio da década de 70.

A ascensão de Mustafá Contursi arruinou a hegemonia do Verdão no futebol nacional. Um modelo de compadrio e troca de favores na política do clube transformou o maior papa-títulos do Brasil num saco de pancadas que acabou rebaixado duas vezes.

A grandeza do Palmeiras, no entanto, manteve a entidade viva, e da força de nossa gente veio a semente do renascimento. Nos reinventamos, crescemos e voltamos a ser protagonistas do futebol brasileiro e sul-americano.

Que nossas diretorias, hoje e nos próximos anos, não deixe que a pequena política volte a se instalar pelas alamedas. Que os erros do SPFC, que são os mesmos cometidos por nós mesmos por mais de três décadas, não se repitam. Que o jogo de poder que se pratica nos clubes de futebol do Brasil seja jogado, mas mantendo nossos alicerces intactos. Lutamos por anos para erradicar o mustafismo e voltar a liderar o cenário. Não podemos retroceder de novo, de jeito nenhum.

Para a comunidade do SPFC

Com exceção dos meus verdadeiros amigos que fizeram a escolha errada quando crianças, quero dizer que sinto um enorme prazer em ver esse sofrimento dos sãopaulinos. Um clube que não tem honra – nunca teve, desde seus primórdios. Em tempos de boi do Piauí, continuam não tendo.

A História está aí, documentada, para quem quiser conhecer. Recomendo sempre o melhor livro sobre o Palmeiras já escrito: 1942 – O Palestra vai à Guerra, do meu amigo Celso de Campos Jr, com magnífico projeto gráfico de Gustavo Piqueira. Leiam esta obra-prima para nunca se esquecer do que se trata essa instituição de três cores.

Apenas cinco anos se passaram desde que Carlos Miguel Aidar comeu uma banana numa coletiva e, em mais um arroubo de soberba, zombou do Palmeiras, que naquele momento já estava com o processo de reconstrução a plena força, mas a ponta do iceberg ainda estava submersa, invisível aos olhos externos.

Quem se apequena dia após dia agora são vocês, e ainda é pouco. Os poderosos Talleres, Colón e Defensa Y Justicia são clubes que já passam por vocês sem muitos problemas. Vocês caminham para onze anos sem comemorar um apito final para levantar um troféu – e ao que parece, esse número ainda vai crescer bastante.

Vocês merecem.


O Verdazzo é um projeto de independência da mídia tradicional patrocinado pela torcida do Palmeiras.

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Quem é que apequenou mesmo?

ApequenouEm abril de 2014, depois de uma manobra infeliz do então presidente Paulo Nobre no processo de renovação do contrato de Alan Kardec, o SPFC atravessou a negociação e contratou o atacante, que à época era um dos principais jogadores de nosso elenco. Em coletiva, o presidente do clube Carlos Miguel Aidar, confrontado publicamente por Nobre, disse que aquilo tudo acontecera porque o Palmeiras estava se apequenando.

Passados três anos, o episódio já pode perfeitamente entrar para a lista das maiores patacoadas da História do Futebol. Na verdade, Aidar fez a declaração tentando desviar o foco da imprensa para o Palmeiras, que atravessava um momento difícil, se recuperando de administrações calamitosas e de um rebaixamento, quando na verdade o próprio SPFC dava sinais inequívocos de que estava numa crise muito maior que a nossa.

Desde que o time chegou ao tricampeonato brasileiro em 2008, quando se autointitulou “soberano”, o time da Vila Sônia passou muita vergonha dentro e fora de campo. A eliminação da Copa Sul-Americana ontem pelo modestíssimo Defensa Y Justicia, da Argentina, pode até parecer o fundo do poço, mas pelo jeito ainda vamos nos divertir muito nos próximos anos.

Histórico

A derrocada bambi que Aidar tentava esconder traz uma série de vexames. Tinham acabado de se salvar do rebaixamento no Brasileiro de 2013, já no bico do corvo. Eliminações para o Avaí (Copa do Brasil 2011), Coritiba (Copa do Brasil 2012), Bragantino (Copa do Brasil 2013), Ponte Preta (Sul-Americana 2013), Penapolense (Paulista 2014) e Audax (Paulista 2016) foram entremeadas com goleadas acachapantes, como a que sofreram na última rodada do Brasileirão de 2015 por 6 a 1, dos reservas do SCCP.

Fora de campo, o time se afunda política e financeiramente. Carlos Miguel Aidar foi chutado do clube, num vergonhoso processo de impeachment que ele mesmo tratou de interromper para tentar diminuir o constrangimento – o caso envolveu desvio de dinheiro através de sua namorada. No ano passado, em mais um surto de arrogância, o clube gastou cerca de $25 milhões numa operação obscura por um zagueiro mediano na ilusão de vencer uma Libertadores. Seus cardeais resolvem as coisas no braço, CEOs são contratados e demitidos conforme o clima e o clube mais moderno do país, o modelo a ser seguido, o soberano, ao que parece era só maquiagem mesmo.

Nenhuma luz no fim do túnel

Forrada de patrocínios de produtos de segunda linha, a camisa do time parece um balcão de armazém de bairro. O técnico é Rogério Ceni, que deu a entrevista mais arrogante da História ontem após a eliminação, peitando a imprensa e dizendo que está tudo sob controle, que as três eliminações sofridas pelo clube em 22 dias estão dentro da normalidade. A culpa é do calendário, da falta de sorte, e seus 59% de aproveitamento são muito bons. OK!

Perdido, sem comando, o clube tenta se apoiar sobre o suposto moral de um ex-atleta que se mostra uma verdadeira piada como técnico. A soberba do profissional se confunde com a do clube, que o mantém não em nome da confiança e da continuidade do trabalho, mas apenas porque precisam dele como pára-raio.

O elenco é patético, o desempenho em campo é risível, os gols por cobertura abundam. Neste Brasileirão, são seriíssimos candidatos ao rebaixamento e completarão ao final do ano a décima temporada com apenas um título – a insossa conquista da Sul-Americana de 2012, em que não houve disputa do segundo tempo da final porque o adversário foi ameaçado até com arma de fogo no vestiário. E não há nada que indique que uma virada está por vir.

Quem mesmo?

Nossos inimigos, o clube que tentou roubar nosso estádio e que se aproveitou de um conflito mundial para marginalizar e levar vantagem sobre uma comunidade de descendentes de imigrantes – a mesma que os ajudou a se salvarem da falência anos antes – está acertando as contas com a história. Enquanto isso, o Palmeiras, com muita competência, mas sem soberba, volta a enfileirar troféus e hoje é o protagonista do futebol brasileiro. Quem é que apequenou mesmo?