Desafios do futebol frente aos tempos difíceis

Por Savério Orlandi

A sociedade experimenta angustiada o ineditismo de uma situação onde se encontra com protagonismo no desenrolar de uma página dentro da história da humanidade, para a qual a responsabilidade de cada um de nós se traduz em fazer a sua parte e somar esforços, pois não há espaço para divisão, caracterizada por qualquer diferença, que possa ser conjugada em circunstâncias como as atuais.

O mundo em compasso enfrenta aturdido a crise diante de um cenário que põe todos no mesmo barco, tornando os entes civis ao mesmo tempo credores e devedores de direitos e obrigações. 

O abalo no negócio dos esportes será da ordem de U$ 15 bilhões, segundo estudo da Sports Value, sendo certo que o futebol, levado à reboque ao encontro de tempos mais do que difíceis, se verá confrontado por problemas de diversas ordens, urgência no reposicionamento de médio e longo prazo em face da nova realidade inimaginável e de consequências ainda incalculáveis, e também sugerindo, ainda que supletivamente, a identificação de algumas oportunidades.

Enfim, o momento reclama muita sabedoria. Nenhuma demanda ordinária do mal estruturado futebol brasileiro tem lugar nesse momento. Não há nada de “dantes” que importe agora. Os debates sobre o calendário, a adoção do “fair play” financeiro, modelos para clubes empresa, ficam temporariamente sobrestados em face dos desafios prementes, afinal, muitas questões mediatas, das mais variadas espécies recorrentes no dia a dia dos cubes, hão de ser solvidas.

Os clubes que dispõem de equipamentos e atividades sociais, tem por um lado a necessidade de considerar o seu custeio, contudo, não se esquecendo do impedimento quanto à fruição plena pelos seus membros associados, o que poderia garantir a possibilidade de adesão a diferimentos de contribuições sociais com alguma carência, além de forma e data para retomada dos pagamentos razoavelmente determinada, pensando ainda em eventual redução para todos os associados por breve hiato temporal, aderentes ou não, para compensar a suspensão do uso.

Programas de “sócio torcedor” dos clubes podem ser até um fator de reação, as coletividades em geral, se convocadas, buscarão como sempre meios para responder, devendo para tanto serem contemplados diferimentos e benefícios, seja na manutenção como na adesão dentro de um período futuro a ser estipulado; pela via oblíqua, cria-se a oportunidade para o incremento ou resgate de programas repaginados que possam se revelar, na prática, em verdadeiro “jogo de ganha-ganha”, sentido existencial dessa natureza de relacionamento. 

Questão complexa envolverá a afluência do torcedor, seja quanto ao consumo de produtos dos clubes que será diretamente impactado, como especialmente no tocante a situações derivadas da diminuição de bilheteria e a forma da futura precificação adotada no retorno, que devem ser previamente imaginadas pelos gestores considerados os dados objetivos já existentes como a evidente redução do número de jogos e a evasão de presença como consequência de questões econômicas e preventivas relacionadas à saúde, e também quanto às variáveis, entre elas a eventual originação, ainda que transitória, de um novo meio social que imponha, por exemplo, a limitação do número de espectadores por partida e, via de consequência, do público pagante. 

Um aspecto que notadamente afetará de modo negativo os clubes de futebol serão os contratos em geral derivados dos relacionamentos “comerciais” em sentido amplo, neles incluídos os seus patrocinadores, a televisão, as competições, entre outros… as relações no Brasil, em sua quase totalidade, são muito verticais, deixando pouca margem de manobra, devendo se priorizar as negociações em bloco perante os entes federativos e os detentores dos direitos de transmissão, tratando-se em separado os ajustes individuais com os respectivos patrocinadores, a quem se recomenda aos dirigentes deles pleitear a sempre manifestada condição de “parceiro do clube”.

Naquilo que se relaciona às obrigações fiscais e trabalhistas em geral, como nem poderia ser diferente, os administradores e suas assessorias certamente hão de se valer dos atos normativos que vem sendo (e ainda serão) publicados em profusão, destinados às várias regulamentações necessárias para ultrapassar um quase estado de exceção, excluindo-se aqui, a título sugestivo, os “contratos especiais de trabalho” dos jogadores profissionais de futebol.

Efetivamente, trata-se de um tema bastante espinhoso, a uma porque os encargos com o elenco compõem a principal rubrica de despesa dos clubes e, a duas, pela sensibilidade necessária para construir um entendimento com os jogadores sem ferir direitos e/ou suscetibilidades entre as partes… ouve-se, isoladamente e a distância, a alegada disponibilidade do atleta, que entende estar apto à entrega da sua parte, impedido porém pelas circunstâncias; ora, será esse conceito absoluto ou deve (e pode) ser relativizado? Apresenta-se neste aspecto, a ideia que sim, o que permitiria, dando legitimidade, as reduções de vencimentos por determinado lapso temporal.

Como já temos visto em casos análogos ao redor do mundo e em alguns por aqui, não aparenta qualquer desacerto se tentar trilhar consensualmente esse caminho até o alcance de acordo coletivo validado, sendo imperioso às duas partes da relação contratual, neste momento, ter a convicção de que a redução configura solução justa, oportuna e adequada à hipótese.

Contratos, em sua essência, materializam a parte instrumental de uma operação econômica servindo-lhe como veículo, e justamente por externar seu conteúdo, se baseiam em sua origem no equilíbrio das prestações que através deles são e serão devidas, bem como na previsão das margens de ganho e perda para cada qual dos contratantes.

Assim, o equilíbrio contratual pode ser rompido pela frustação da previsão inicial tornando uma prestação de obrigação, no momento da execução, flagrantemente mais gravosa do que era no momento em que surgiu, o que academicamente se denomina “onerosidade excessiva”, desde que por consequência de fato superveniente à formação do contrato, de caráter extraordinário e imprevisível à conjugação das partes no momento em que se deu a contratação, evidenciando o fato que a doutrina caracteriza como teoria da imprevisão, vale dizer, exatamente a “curva” em que tais contratos se encontram hoje.

Nesta condições, revestidos de legitimidade técnica e moral que permitem confortável modo de aplicação, pode então ser idealizados os modelos para redução, por exemplo, “fechada” para os clubes onde não exista grandes distorções salariais, ou então não lineares para os clubes onde se verifique tal disparidade, casos em que uma opção razoável poderia ser a elevação gradual dos percentuais com observância da capacidade contributiva de cada atleta, de forma crescente e escalonada em relação aos valores dos seus vencimentos.

Existem as alternativas, ainda que sobrem as contingências; o quadro requer massa pensante, exigindo das diretorias serenidade, inteligência e adoção coordenada de muitas providências. Que tenham coragem, tenacidade e um pouco de sorte… E, ao final, que tenham sucesso!


SAVÉRIO ORLANDI é advogado na capital paulista, sócio filiado e consultor jurídico da ABEX (Associação Brasileira dos Executivos de Futebol), Membro do Conselho Deliberativo e do Conselho de Orientação e Fiscalização, Ex-Diretor de Futebol (07/10) da Sociedade Esportiva Palmeiras, Pós Graduado em Direito Empresarial pela PUC-SP, onde também se graduou.

Caso Gustavo Scarpa: a derrota nos tribunais e os próximos passos

Na noite da última segunda-feira explodiu uma bomba que ninguém estava esperando: a juíza Dalva Macedo finalmente emitiu seu parecer a respeito do caso Gustavo Scarpa e surpreendentemente manteve o vínculo entre o jogador e o Fluminense.

O advogado Rafael Libertuci, especialista em direito desportivo e padrinho do Verdazzo, após estudar a decisão, redigiu um resumo de toda a situação, tentando, na medida do possível, resumir e traduzir o contexto do juridiquês para o português.

Apreciem!


POR RAFAEL LIBERTUCI

Todos foram pegos de surpresa na noite do dia 11.06.2018, quando a juíza do trabalho Dalva Macedo, titular da 70ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, julgou improcedente a ação movida pelo atleta profissional de futebol, Gustavo Scarpa, o qual tentava se desvincular do Fluminense Football Club (“Fluminense”).

Entenda o caso

No fim de 2017, o atleta Gustavo Scarpa requereu a rescisão indireta junto ao Fluminense, com pedido de tutela antecipada, alegando o atraso por 6 (seis) meses do pagamento do FGTS e por 3 (três) meses o pagamento do contrato de imagem, a fim de se ver livre do vínculo com o clube carioca e exercer sua profissão em outro clube.

A tutela antecipada, negada em um primeiro momento, foi deferida pelo Tribunal Regional do Trabalho da Primeira Região, oportunidade em que o Scarpa foi contratado para jogar na Sociedade Esportiva Palmeiras, porém, tal medida foi cassada após dois meses da nova contratação.

Por sua vez, em 11.06.2018, a Juíza do Trabalho julgou a ação trabalhista totalmente improcedente, bem como condenou o jogador no pagamento de custas processuais, no valor de R$ 22.583,20, e honorários de sucumbência em favor dos advogados do Fluminense Football Club, no valor de R$ 100.000,00.

Frise-se que o clube carioca quitou, após a propositura da ação, valores referentes ao FGTS, contribuição previdenciária e salários. Entretanto, o atleta não acusou os pagamentos a título de direito de imagem. Não se tem notícia, até o momento, da quitação desses valores.

O argumento utilizado por Dalva Macedo para afastar alegação de rescisão indireta foi fundamentado no princípio da imediatidade “segundo o qual o empregador, logo que tome conhecimento da prática de ato faltoso pelo empregado, deve providenciar a sua apuração e aplicação da penalidade, sob pena de, não o fazendo, ficar demonstrado o perdão tácito.”, situação esta que supostamente ocorreu no presente caso, uma vez que a “demora no ajuizamento da ação pelo empregado indica que a relação contratual ainda é tolerável, ficando demonstrado, de igual modo, o perdão tácito.”.

A magistrada entendeu, portanto, que o fato do atleta renovar o vínculo com o Fluminense, quando já havia valores atrasados, consistiu em perdão tácito, demonstrado que o atleta tolera o cenário dos atrasos.

Outro ponto destacado na sentença é no sentido de que o principal fundamento da ação trabalhista é a intenção do Scarpa deixar o Fluminense Football Club sem efetuar o pagamento da multa rescisória no valor de R$ 200.000.000,00, o que por certo caracterizaria no enriquecimento ilícito do atleta.

Quais são os próximos passos? E o Palmeiras nisso?

Contra essa decisão, o atleta poderá recorrer ao Tribunal Regional do Trabalho da Primeira Região, no Rio de Janeiro e requerer, ainda, liminar para atuar por outro clube.

É necessário destacar que o atleta atuou de forma legítima pelo Palmeiras, já que a Lei Pelé, por meio do artigo Art. 31 § 5º , autoriza que atleta com contrato especial de trabalho desportivo rescindido fica autorizado a transferir-se para outra entidade de prática desportiva, inclusive da mesma divisão, independentemente do número de partidas das quais tenha participado na competição, bem como a disputar a competição que estiver em andamento por ocasião da rescisão contratual. Uma vez que o atleta detinha autorização judicial, não há o que se falar em qualquer ilegalidade a respeito da sua atuação pelo clube paulista.

Considerando a improcedência da rescisão indireta, caberá ao atleta a decisão de retornar ao Fluminense, negociar sua liberação junto ao clube, ou recorrer ao Tribunal Regional do Trabalho visando a reforma da decisão de primeiro grau.

Nesse momento, cabe ao Palmeiras aguardar a resolução do imbróglio. Por ora, considerando que a sentença não transitou em julgado, não há o que se falar em pagamento da cláusula indenizatória, sobre a qual o atleta e o Palmeiras são solidários.

Aguardemos os próximos capítulos.

Borja: é preciso ouvi-lo mais e falar menos

por Douglas Monaco*

Borja
César Greco/Ag.Palmeiras

É fato que o desempenho de Miguel Angel Borja nestes primeiros meses após sua contratação pelo Palmeiras tem frustrado/preocupado a torcida e alimentado dois focos de negatividade contra o jogador: os (maus) profissionais da pretensa imprensa esportiva têm se esbaldado em criticar a contratação e em “profetizar” que Borja será um mico no clube; os políticos do clube têm exercido a habitual pressão contra os dirigentes que trouxeram o jogador, marcadamente o executivo de futebol, Alexandre Mattos.

Observando a coisa de fora desde a chegada dele, a impressão que dá que está faltando ouvi-lo mais. Tem muita gente dizendo o que é que ele tem de fazer para render bem. Mas não tenho certeza de que ele tem sido ouvido, de como ele tem recebido essa enxurrada de conselhos e de como ele tem convivido com tanta expectativa.

Mais à frente, explico melhor o que quero dizer, mas antes acho importante descrever o que vi nele desde a sua chegada.

O desempenho visível de Borja

Os primeiros minutos contra a Ferroviária foram apoteóticos, desde o frisson que antecedeu sua entrada no jogo vindo do banco até o golaço num contra-ataque que demonstrou força, velocidade, rapidez de raciocínio e perícia na finalização.

Depois, veio outro golaço numa sexta à noite contra o Red Bull em Campinas, também vindo do banco. Aí veio uma sequência que começou com aquela sensação de “uuuuhh” no jogo contra o Tucuman, lá, em que ele finalizou bem várias vezes, mas em todas, por pouco, a bola não entrou.

Borja
Marco Galvão/Estadão Conteúdo

A sequência seguiu com algumas oscilações de rendimento, pênalti perdido contra o Peñarol no Allianz Parque, reações espalhafatosas a substituições durante os jogos, bons jogos contra o Novorizontino, a debacle contra a Ponte Preta e a declaração um pouco controversa do então treinador sobre “Borja ter vindo a peso de ouro e sentir-se incomodado por não estar rendendo proporcionalmente”.

Tudo isso gerou uma nuvem de dúvida sobre ele: “vale tudo que custou”? “É um Obina gourmetizado”? “Foi contratado com base em pouca observação”? Parece que torcida e “emprensa” acabaram fomentando essas versões.

Trocou-se o treinador e logo na coletiva de apresentação de Cuca – o novo-antigo treinador – este prometeu mantê-lo nos jogos até o fim para ele se sentir à vontade. Na reestreia de Cuca, Borja pôs duas para dentro, foi mantido até o fim do jogo e a coisa parecia solucionada.

Mas com novas oscilações, substituições e até idas para o banco, as dúvidas voltaram; hoje, a grande colocação é que falta a ele assimilar ideias que Cuca requer de seus jogadores, inclusive o centroavante: movimentação, recomposição e bote no homem com a bola.

Suspeitas

Suspeita 1

Parece que o Borja está sem autoconfiança, errando passes e toques simples que um jogador da qualidade dele normalmente não erra. A sensação é que ele tem ouvido tanto sobre coisas em que tem de evoluir que passa por um autoquestionamento generalizado que o está inibindo até de fazer coisas básicas.

E essa inibição o atrapalha em momentos mais cruciais, como a escolha que fez na última quarta-feira na finalização defendida pelo goleiro, após jogada e passe geniais do Alejandro Guerra. Vendo o lance com atenção, percebe-se que havia espaço para ele fintar o goleiro para a direita e finalizar para o gol vazio. Ele tem habilidade e velocidade para isso, conforme demonstram as dezenas de gols feitos em 2016.

A impressão é que, ao invés de optar por um lance com um certo risco, mas que para ele com sua categoria, seria perfeitamente exequível, ele quis resolver logo e “se livrar da pressão”.

Suspeita 2: falta ouvi-lo

Borja
AFP

A impressão é que muito tem se falado com ele, mas pouco se tem ouvido dele. E às vezes, para algumas pessoas, o “ouvir” tem de ir além de perguntar “como vai” ou “vem cá e me conta o que está acontecendo”.

Quero dizer: é fundamental entender a história da pessoa a quem se quer ensinar algo, para que se possa formular o ensino levando em conta as premissas da pessoa, e até palavras a que a pessoa esteja acostumada.

Eu assistiria a muitos jogos dele do tempo pré-Palmeiras, buscaria informações sobre a trajetória da carreira, quais características dele foram valorizadas nos momentos em que ele foi subindo desde a base até ser eleito “Rei da América” em 2016.  Esse conhecimento possibilitaria dizer o que se quer dele hoje em palavras que ele entende e que refletem conceitos e práticas que foram fatores de seu sucesso.

Outro efeito importante dessa iniciativa seria que Borja ganharia mais confiança nos que o comandam, algo que, por sua vez, fortaleceria a sua autoconfiança.

Momentâneo pessimismo

Fiz questão de escrever este texto porque, francamente, neste momento sinto me um pouco pessimista quanto às reais chances de sucesso dele. Nem de longe por desconfiança quanto a ele ou quanto à comissão técnica, que entendo ser da maior competência, principalmente o treinador.

Mas, no contexto de nosso clube – zumbis do conselho, cornetagem da torcida, inveja da “emprensa” etc. -, não consigo enxergar condições de se dar tempo a ele para esse desenvolvimento.

Há algumas semanas, em “¿Qué pasa, Miguelito?”, o Verdazzo pedia à torcida do Palmeiras que tivesse mais paciência com Borja. Corretamente, o texto apontava para as qualidades do jogador como justificador dessa paciência.

Meu temor é que as condições para a concessão de tal paciência estejam se deteriorando.

Por isso é que uma atenção mais integral, mais detida na pessoa dele e em entendê-lo pode ser o fator decisivo – e urgente – em extrair desse grande profissional todo o potencial que ele tem para oferecer.

Que nosso treinador – que parece ser um cara muito humano, além de possuir extrema competência no trabalho – tenha essa sensibilidade e consiga falar com o Borja, “na língua do Borja”.

#ForzaCuca
#ForzaBorja

* Douglas Monaco é leitor e padrinho do Verdazzo.

Elenco forte ≠ time forte

Por Renato Sansão*

O título pode parecer contraditório, mas passa a fazer sentido quando saímos da teoria do papel e partimos para a prática dos gramados. Ter um elenco forte, equilibrado e competitivo não significa necessariamente ter um onze forte pelo simples motivo de que o time que sai jogando precisa se conhecer bem e ter mais química que Walter White e Jesse Pinkman juntos.

Breaking BadExplico: a montagem do elenco prevê um planejamento macro. Para jogar quatro ou cinco torneios no ano em alto nível é preciso construir um plantel que preveja, entre outros fatores, inevitáveis contusões, desgastes físicos e convocações para seleções. Ter três goleiros de confiança, cinco zagueiros seguros, ao menos dois laterais de cada lado que apoiem e fechem a jogada de fundo adversária, três ou quatro volantes com poder de marcação e saída de bola, dois ou três meias criativos, três ou quatro atacantes decisivos e dois centroavantes de área que têm como característica principal colocar a bola pra dentro é fundamental – e pouquíssimos elencos do país contam com essa diversidade que alia os fatores quantitativo e qualitativo.

Salvo raros problemas que o Palmeiras enfrenta por questões de idade ou venda recente de um grande número de jogadores da mesma posição – que precisam ser sanadas – não enfrentamos grandes problemas em termos de elenco. Só para usar nossos arquirrivais como exemplo: o reserva do Pablo é o Pedro Henrique ou o Vílson. O reserva do Thiago Mendes é o Wesley. O reserva do Jadson é o Giovanni Augusto. O reserva do Cueva é o Thomaz Wilstermann. O reserva do Jô é o Kazim.

Temos em nosso banco atletas que jogariam tranquilamente como titulares na maioria das equipes que disputam a série A do Brasileirão. Pensando nos reservas de hoje (amanhã tudo pode mudar), Jaílson, Juninho, Luan, Egídio, Felipe Melo, Rafael Veiga, Michel Bastos e Borja seriam anunciados com pompa em outras agremiações que se encontram em nossa frente da tabela. E é aí, amigos corcovados, que pretendo chegar: por que isso acontece? Seria o peso do manto alviverde? As forças sombrias que insistem em tumultuar o ambiente e puxar o Palmeiras pra baixo? Por que raios os jogadores saem daqui e passam a brilhar intensamente em outros times, meu Deus, por quê?

Começo pela última pergunta: isso não é verdade. Salvo Victor Luís, regular no regular Botafogo e Lucas Barrios, que teve praticamente 12 meses entre contusões sérias e recondicionamento físico – além da sagrada sombra de Gabriel Jesus – não vejo nossos ex-atletas fazendo grandes coisas em outros times. Para ficar em exemplos mais recentes: Rafael Marques estreou no Cruzeiro (onde Robinho é reserva) com a mesma bola que saiu do Palmeiras; Cleiton Xavier patina no Vitória; Alecsandro já andou perdendo pênalti decisivo pelo Coxa; Lucas segue em má fase no Fluminense; Gabriel é um Thiago Santos com menos presença física na volância gambá; Leandro Pereira não se firmou nem no Sport; Matheus Sales é reserva do Bahia – onde Allione + Régis fazem bons jogos na Fonte Nova contra adversários locais – o jogador mais decisivo do time é o desconhecido Zé Rafael.

Amores de ex e teorias conspiratórias de vestiários à parte, vamos ao ponto crítico do Palmeiras. Mesmo com tantas opções à disposição (o que paradoxalmente acaba sendo um problema pelo excesso de expectativa e cobranças), Cuca ainda não encontrou o time ideal para seu estilo vertical e insano de jogo. Podem puxar a ficha de todos os seus últimos times: nosso treinador gosta de contar com jogadores que aliem versatilidade, velocidade e uma disposição física fora do normal. Por isso a insistência/confiança em caras como Thiago Santos, Tchê Tchê, Dudu, Roger Guedes, Willian Bigode e até Erik.

Jogadores valiosos como Felipe Melo, Michel Bastos, Borja e Guerra, principalmente o último, podem até estar em campo e terem boas jornadas. Mas não cumprem os pré-requisitos básicos do Cucabol. O problema atual é que, se Guerra emula e até supera Cleiton Xavier, o mesmo não acontece com os outros atletas que chegaram em 2017 e se tornaram “responsáveis” por sermos considerados por muitos o melhor elenco do país. Recuperando a entrevista que Cuca deu quando falava exclusivamente de time, Gabriel Jesus e Moisés não têm substitutos à altura, Jean, Tchê Tchê, Roger Guedes e Dudu caíram muito tecnicamente e Zé Roberto conta os dias para sua sonhada e merecida aposentadoria. Nesse sentido, não é de se espantar que times que fizeram um primeiro semestre mais sólido estejam mais encaixados que nós.

O que o palmeirense espera ver daqui pra frente não é um clone do campeão brasileiro de 2016, mas o time de 2017 que ainda não foi encontrado. As laterais e a volância seguem com disputa de posição abertas, os atacantes pelas beiradas seguem isolados e o único centroavante de ofício claramente sentiu o ritmo de jogo e o fato de que precisa ser um atleta mais completo do que vem se mostrando até aqui.

Talvez seja o momento de aproveitar tantas boas opções na zaga e arriscar um 3-5-2/3-6-1. Talvez precisemos ir ao mercado buscar dois ou três jogadores para brigar pela titularidade, e não serem apenas mais peças do lego que compõe o elenco. E talvez Cuca, o atual campeão do Brasil, precise passar por cima de algumas superstições e rever seus conceitos para, jogo após jogo, encontrar a química e extrair o melhor do que tem em mãos – como outros treinadores muito menos assistidos e afortunados vêm fazendo.

*  Renato Sansão é padrinho do Verdazzo desde 1982 e nas horas vagas emula Jesse Pinkman 


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Escalando os alambrados: de Oséas a Roger Guedes

Roger Guedes escala o alambrado em Novo Horizonte* por Renato Sansão

O assunto já tem 72 horas, e é bem sabido que uma rotação nas redes sociais equivale a uma translação de mundo real. Mas ainda assim eu gostaria de falar um pouco mais sobre a comemoração seguida de expulsão do Roger Guedes, quando o Palmeiras marcava seu terceiro gol no jogo e dava um passo gigantesco rumo às semifinais do Paulistão 2017.

Poucas profissões nesse mundo dão a oportunidade de EXTRAVASAR, com caixa alta mesmo. Contadores, comerciantes, feirantes, enfermeiros, bibliotecários, economistas, jornalistas, psicólogos, administradores e mesmo engenheiros, publicitários, médicos e advogados vivem suas vidas profissionais em escritórios, consultórios, salas comerciais e meios de transporte variados e presos no trânsito caótico de _________ (complete aqui com o nome de sua cidade).

Atores, atrizes, rock stars e atletas são um ponto fora da curva. Seja nos palcos, quadras, octógonos, sets de gravação ou ginásios lotados, essas pessoas têm a oportunidade de colocar pra fora cada milímetro de angústia que estava preso em suas entranhas. As contas e impostos atrasados, os quilos a mais, um ente querido distante ou acometido por doença grave, colegas de trabalho que insistem em puxar seu tapete, corações partidos: por um momento que vale uma eternidade, tudo é resolvido com uma serenidade Evairesca ao cobrar um pênalti.

Por tudo isso, é inadmissível que a FIFA, o Darth Vader do mais popular dos esportes, proíba que um jogador de futebol extravase ao comemorar um gol. Seja colocando a mão atrás das orelhas, o dedo à frente da boca pedindo silêncio, fazendo careta, atirando com a metralhadora imaginária, fingindo chororô, colocando uma máscara, dançando alucinadamente ou subindo no alambrado: intrometer-se entre o momento máximo do futebol e seu protagonista do momento é uma afronta. Um coito interrompido.

Oséas no alambradoHá 22 anos, comecei a acompanhar o centroavante parrudo de trancinhas que jogava pelo Atlético Paranaense. Não apenas pelo faro de gol, impulsão assombrosa ou pela dupla que fazia com seu fiel escudeiro Paulo Rink, mas pela forma como comemorava seus gols. Ao ver a bola no fundo das redes, Oséas saía correndo como uma besta indomável e subia com impressionante destreza por alguns bons metros de alambrado para extravasar com sua torcida. Um ano depois, o Palmeiras o contrataria e o resto deixo para a História e o Almanaque do Verdazzo contarem.

Comemorações de gols censuradas, cervejas e bandeiras banidas, arredores de estádio sitiados, hino nacional banalizado, torcida única, incontáveis domingos sem ver seu time entrar em campo. Não há nada mais sã que a lucidez contida em alguns tipos de loucura, por isso não surpreende que venha de Felipe Melo o discurso resumido na incontestável verdade: estão acabando com a graça do futebol.

E como sem torcida não existe bola rolando, é dela – e não de federações, redes de televisão, patrocinadores e atletas – que deveria partir seu resgate. O respeito e a tolerância com opiniões contrárias são um bom começo: as pessoas não têm culpa se você, ao contrário do expulso Roger Guedes, não tem a oportunidade de extravasar suas dores e decepções.

* Renato Sansão é leitor do Verdazzo, padrinho do site e escalador de alambrados


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