Borja: é preciso ouvi-lo mais e falar menos

por Douglas Monaco*
Borja
César Greco/Ag.Palmeiras

É fato que o desempenho de Miguel Angel Borja nestes primeiros meses após sua contratação pelo Palmeiras tem frustrado/preocupado a torcida e alimentado dois focos de negatividade contra o jogador: os (maus) profissionais da pretensa imprensa esportiva têm se esbaldado em criticar a contratação e em “profetizar” que Borja será um mico no clube; os políticos do clube têm exercido a habitual pressão contra os dirigentes que trouxeram o jogador, marcadamente o executivo de futebol, Alexandre Mattos.

Observando a coisa de fora desde a chegada dele, a impressão que dá que está faltando ouvi-lo mais. Tem muita gente dizendo o que é que ele tem de fazer para render bem. Mas não tenho certeza de que ele tem sido ouvido, de como ele tem recebido essa enxurrada de conselhos e de como ele tem convivido com tanta expectativa.

Mais à frente, explico melhor o que quero dizer, mas antes acho importante descrever o que vi nele desde a sua chegada.

O desempenho visível de Borja

Os primeiros minutos contra a Ferroviária foram apoteóticos, desde o frisson que antecedeu sua entrada no jogo vindo do banco até o golaço num contra-ataque que demonstrou força, velocidade, rapidez de raciocínio e perícia na finalização.

Depois, veio outro golaço numa sexta à noite contra o Red Bull em Campinas, também vindo do banco. Aí veio uma sequência que começou com aquela sensação de “uuuuhh” no jogo contra o Tucuman, lá, em que ele finalizou bem várias vezes, mas em todas, por pouco, a bola não entrou.

Borja
Marco Galvão/Estadão Conteúdo

A sequência seguiu com algumas oscilações de rendimento, pênalti perdido contra o Peñarol no Allianz Parque, reações espalhafatosas a substituições durante os jogos, bons jogos contra o Novorizontino, a debacle contra a Ponte Preta e a declaração um pouco controversa do então treinador sobre “Borja ter vindo a peso de ouro e sentir-se incomodado por não estar rendendo proporcionalmente”.

Tudo isso gerou uma nuvem de dúvida sobre ele: “vale tudo que custou”? “É um Obina gourmetizado”? “Foi contratado com base em pouca observação”? Parece que torcida e “emprensa” acabaram fomentando essas versões.

Trocou-se o treinador e logo na coletiva de apresentação de Cuca – o novo-antigo treinador – este prometeu mantê-lo nos jogos até o fim para ele se sentir à vontade. Na reestreia de Cuca, Borja pôs duas para dentro, foi mantido até o fim do jogo e a coisa parecia solucionada.

Mas com novas oscilações, substituições e até idas para o banco, as dúvidas voltaram; hoje, a grande colocação é que falta a ele assimilar ideias que Cuca requer de seus jogadores, inclusive o centroavante: movimentação, recomposição e bote no homem com a bola.

Suspeitas

Suspeita 1

Parece que o Borja está sem autoconfiança, errando passes e toques simples que um jogador da qualidade dele normalmente não erra. A sensação é que ele tem ouvido tanto sobre coisas em que tem de evoluir que passa por um autoquestionamento generalizado que o está inibindo até de fazer coisas básicas.

E essa inibição o atrapalha em momentos mais cruciais, como a escolha que fez na última quarta-feira na finalização defendida pelo goleiro, após jogada e passe geniais do Alejandro Guerra. Vendo o lance com atenção, percebe-se que havia espaço para ele fintar o goleiro para a direita e finalizar para o gol vazio. Ele tem habilidade e velocidade para isso, conforme demonstram as dezenas de gols feitos em 2016.

A impressão é que, ao invés de optar por um lance com um certo risco, mas que para ele com sua categoria, seria perfeitamente exequível, ele quis resolver logo e “se livrar da pressão”.

Suspeita 2: falta ouvi-lo

Borja
AFP

A impressão é que muito tem se falado com ele, mas pouco se tem ouvido dele. E às vezes, para algumas pessoas, o “ouvir” tem de ir além de perguntar “como vai” ou “vem cá e me conta o que está acontecendo”.

Quero dizer: é fundamental entender a história da pessoa a quem se quer ensinar algo, para que se possa formular o ensino levando em conta as premissas da pessoa, e até palavras a que a pessoa esteja acostumada.

Eu assistiria a muitos jogos dele do tempo pré-Palmeiras, buscaria informações sobre a trajetória da carreira, quais características dele foram valorizadas nos momentos em que ele foi subindo desde a base até ser eleito “Rei da América” em 2016.  Esse conhecimento possibilitaria dizer o que se quer dele hoje em palavras que ele entende e que refletem conceitos e práticas que foram fatores de seu sucesso.

Outro efeito importante dessa iniciativa seria que Borja ganharia mais confiança nos que o comandam, algo que, por sua vez, fortaleceria a sua autoconfiança.

Momentâneo pessimismo

Fiz questão de escrever este texto porque, francamente, neste momento sinto me um pouco pessimista quanto às reais chances de sucesso dele. Nem de longe por desconfiança quanto a ele ou quanto à comissão técnica, que entendo ser da maior competência, principalmente o treinador.

Mas, no contexto de nosso clube – zumbis do conselho, cornetagem da torcida, inveja da “emprensa” etc. -, não consigo enxergar condições de se dar tempo a ele para esse desenvolvimento.

Há algumas semanas, em “¿Qué pasa, Miguelito?”, o Verdazzo pedia à torcida do Palmeiras que tivesse mais paciência com Borja. Corretamente, o texto apontava para as qualidades do jogador como justificador dessa paciência.

Meu temor é que as condições para a concessão de tal paciência estejam se deteriorando.

Por isso é que uma atenção mais integral, mais detida na pessoa dele e em entendê-lo pode ser o fator decisivo – e urgente – em extrair desse grande profissional todo o potencial que ele tem para oferecer.

Que nosso treinador – que parece ser um cara muito humano, além de possuir extrema competência no trabalho – tenha essa sensibilidade e consiga falar com o Borja, “na língua do Borja”.

#ForzaCuca
#ForzaBorja

* Douglas Monaco é leitor e padrinho do Verdazzo.

Elenco forte ≠ time forte

Por Renato Sansão*

O título pode parecer contraditório, mas passa a fazer sentido quando saímos da teoria do papel e partimos para a prática dos gramados. Ter um elenco forte, equilibrado e competitivo não significa necessariamente ter um onze forte pelo simples motivo de que o time que sai jogando precisa se conhecer bem e ter mais química que Walter White e Jesse Pinkman juntos.

Breaking BadExplico: a montagem do elenco prevê um planejamento macro. Para jogar quatro ou cinco torneios no ano em alto nível é preciso construir um plantel que preveja, entre outros fatores, inevitáveis contusões, desgastes físicos e convocações para seleções. Ter três goleiros de confiança, cinco zagueiros seguros, ao menos dois laterais de cada lado que apoiem e fechem a jogada de fundo adversária, três ou quatro volantes com poder de marcação e saída de bola, dois ou três meias criativos, três ou quatro atacantes decisivos e dois centroavantes de área que têm como característica principal colocar a bola pra dentro é fundamental – e pouquíssimos elencos do país contam com essa diversidade que alia os fatores quantitativo e qualitativo.

Salvo raros problemas que o Palmeiras enfrenta por questões de idade ou venda recente de um grande número de jogadores da mesma posição – que precisam ser sanadas – não enfrentamos grandes problemas em termos de elenco. Só para usar nossos arquirrivais como exemplo: o reserva do Pablo é o Pedro Henrique ou o Vílson. O reserva do Thiago Mendes é o Wesley. O reserva do Jadson é o Giovanni Augusto. O reserva do Cueva é o Thomaz Wilstermann. O reserva do Jô é o Kazim.

Temos em nosso banco atletas que jogariam tranquilamente como titulares na maioria das equipes que disputam a série A do Brasileirão. Pensando nos reservas de hoje (amanhã tudo pode mudar), Jaílson, Juninho, Luan, Egídio, Felipe Melo, Rafael Veiga, Michel Bastos e Borja seriam anunciados com pompa em outras agremiações que se encontram em nossa frente da tabela. E é aí, amigos corcovados, que pretendo chegar: por que isso acontece? Seria o peso do manto alviverde? As forças sombrias que insistem em tumultuar o ambiente e puxar o Palmeiras pra baixo? Por que raios os jogadores saem daqui e passam a brilhar intensamente em outros times, meu Deus, por quê?

Começo pela última pergunta: isso não é verdade. Salvo Victor Luís, regular no regular Botafogo e Lucas Barrios, que teve praticamente 12 meses entre contusões sérias e recondicionamento físico – além da sagrada sombra de Gabriel Jesus – não vejo nossos ex-atletas fazendo grandes coisas em outros times. Para ficar em exemplos mais recentes: Rafael Marques estreou no Cruzeiro (onde Robinho é reserva) com a mesma bola que saiu do Palmeiras; Cleiton Xavier patina no Vitória; Alecsandro já andou perdendo pênalti decisivo pelo Coxa; Lucas segue em má fase no Fluminense; Gabriel é um Thiago Santos com menos presença física na volância gambá; Leandro Pereira não se firmou nem no Sport; Matheus Sales é reserva do Bahia – onde Allione + Régis fazem bons jogos na Fonte Nova contra adversários locais – o jogador mais decisivo do time é o desconhecido Zé Rafael.

Amores de ex e teorias conspiratórias de vestiários à parte, vamos ao ponto crítico do Palmeiras. Mesmo com tantas opções à disposição (o que paradoxalmente acaba sendo um problema pelo excesso de expectativa e cobranças), Cuca ainda não encontrou o time ideal para seu estilo vertical e insano de jogo. Podem puxar a ficha de todos os seus últimos times: nosso treinador gosta de contar com jogadores que aliem versatilidade, velocidade e uma disposição física fora do normal. Por isso a insistência/confiança em caras como Thiago Santos, Tchê Tchê, Dudu, Roger Guedes, Willian Bigode e até Erik.

Jogadores valiosos como Felipe Melo, Michel Bastos, Borja e Guerra, principalmente o último, podem até estar em campo e terem boas jornadas. Mas não cumprem os pré-requisitos básicos do Cucabol. O problema atual é que, se Guerra emula e até supera Cleiton Xavier, o mesmo não acontece com os outros atletas que chegaram em 2017 e se tornaram “responsáveis” por sermos considerados por muitos o melhor elenco do país. Recuperando a entrevista que Cuca deu quando falava exclusivamente de time, Gabriel Jesus e Moisés não têm substitutos à altura, Jean, Tchê Tchê, Roger Guedes e Dudu caíram muito tecnicamente e Zé Roberto conta os dias para sua sonhada e merecida aposentadoria. Nesse sentido, não é de se espantar que times que fizeram um primeiro semestre mais sólido estejam mais encaixados que nós.

O que o palmeirense espera ver daqui pra frente não é um clone do campeão brasileiro de 2016, mas o time de 2017 que ainda não foi encontrado. As laterais e a volância seguem com disputa de posição abertas, os atacantes pelas beiradas seguem isolados e o único centroavante de ofício claramente sentiu o ritmo de jogo e o fato de que precisa ser um atleta mais completo do que vem se mostrando até aqui.

Talvez seja o momento de aproveitar tantas boas opções na zaga e arriscar um 3-5-2/3-6-1. Talvez precisemos ir ao mercado buscar dois ou três jogadores para brigar pela titularidade, e não serem apenas mais peças do lego que compõe o elenco. E talvez Cuca, o atual campeão do Brasil, precise passar por cima de algumas superstições e rever seus conceitos para, jogo após jogo, encontrar a química e extrair o melhor do que tem em mãos – como outros treinadores muito menos assistidos e afortunados vêm fazendo.

*  Renato Sansão é padrinho do Verdazzo desde 1982 e nas horas vagas emula Jesse Pinkman 


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Escalando os alambrados: de Oséas a Roger Guedes

Roger Guedes escala o alambrado em Novo Horizonte* por Renato Sansão

O assunto já tem 72 horas, e é bem sabido que uma rotação nas redes sociais equivale a uma translação de mundo real. Mas ainda assim eu gostaria de falar um pouco mais sobre a comemoração seguida de expulsão do Roger Guedes, quando o Palmeiras marcava seu terceiro gol no jogo e dava um passo gigantesco rumo às semifinais do Paulistão 2017.

Poucas profissões nesse mundo dão a oportunidade de EXTRAVASAR, com caixa alta mesmo. Contadores, comerciantes, feirantes, enfermeiros, bibliotecários, economistas, jornalistas, psicólogos, administradores e mesmo engenheiros, publicitários, médicos e advogados vivem suas vidas profissionais em escritórios, consultórios, salas comerciais e meios de transporte variados e presos no trânsito caótico de _________ (complete aqui com o nome de sua cidade).

Atores, atrizes, rock stars e atletas são um ponto fora da curva. Seja nos palcos, quadras, octógonos, sets de gravação ou ginásios lotados, essas pessoas têm a oportunidade de colocar pra fora cada milímetro de angústia que estava preso em suas entranhas. As contas e impostos atrasados, os quilos a mais, um ente querido distante ou acometido por doença grave, colegas de trabalho que insistem em puxar seu tapete, corações partidos: por um momento que vale uma eternidade, tudo é resolvido com uma serenidade Evairesca ao cobrar um pênalti.

Por tudo isso, é inadmissível que a FIFA, o Darth Vader do mais popular dos esportes, proíba que um jogador de futebol extravase ao comemorar um gol. Seja colocando a mão atrás das orelhas, o dedo à frente da boca pedindo silêncio, fazendo careta, atirando com a metralhadora imaginária, fingindo chororô, colocando uma máscara, dançando alucinadamente ou subindo no alambrado: intrometer-se entre o momento máximo do futebol e seu protagonista do momento é uma afronta. Um coito interrompido.

Oséas no alambradoHá 22 anos, comecei a acompanhar o centroavante parrudo de trancinhas que jogava pelo Atlético Paranaense. Não apenas pelo faro de gol, impulsão assombrosa ou pela dupla que fazia com seu fiel escudeiro Paulo Rink, mas pela forma como comemorava seus gols. Ao ver a bola no fundo das redes, Oséas saía correndo como uma besta indomável e subia com impressionante destreza por alguns bons metros de alambrado para extravasar com sua torcida. Um ano depois, o Palmeiras o contrataria e o resto deixo para a História e o Almanaque do Verdazzo contarem.

Comemorações de gols censuradas, cervejas e bandeiras banidas, arredores de estádio sitiados, hino nacional banalizado, torcida única, incontáveis domingos sem ver seu time entrar em campo. Não há nada mais sã que a lucidez contida em alguns tipos de loucura, por isso não surpreende que venha de Felipe Melo o discurso resumido na incontestável verdade: estão acabando com a graça do futebol.

E como sem torcida não existe bola rolando, é dela – e não de federações, redes de televisão, patrocinadores e atletas – que deveria partir seu resgate. O respeito e a tolerância com opiniões contrárias são um bom começo: as pessoas não têm culpa se você, ao contrário do expulso Roger Guedes, não tem a oportunidade de extravasar suas dores e decepções.

* Renato Sansão é leitor do Verdazzo, padrinho do site e escalador de alambrados


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Palmeiras-Parmalat: revisitando as características da parceria

* por Douglas Monaco

Antônio Carlos e EdmundoUma questão que, neste começo de 2017, tem chamado atenção do público do esporte em geral e de nós palmeirenses em particular é a aparente iminência de ascensão dos patrocinadores – Crefisa/FAM – a patamares mais elevados de investimento e proeminência no clube.

Um ponto de destaque é a inserção da proprietária das empresas na vida política do clube: tornou-se sócia, tem encaminhada uma candidatura ao Conselho Deliberativo e, segundo se diz, tem plano de eleger-se presidente do clube.

À parte as discussões de legalidade e pertinência do processo, ouvem-se comparações entre este momento presente e a Era Parmalat. As alegações são que o caso atual teria na Parceria com a Parmalat um precedente que o legitimaria.

O objetivo deste texto não é validar ou contestar o momento atual. O propósito é meramente recuperar as características do acordo entre Palmeiras e Parmalat que vigorou entre abril de 1992 e dezembro de 2000. A premissa do exercício é que, tendo-se passado tanto tempo, a lembrança da coisa não é tão viva e as comparações ficam prejudicadas.

Por, além de ser palmeirense, eu ter cumprido uma obrigação acadêmica em 1996[1] escrevendo sobre o “Caso Parmalat”, tenho um registro forte de tudo o que se passou, dai aventurar-me a recuperar as informações da época.

A Parceria

Em linhas gerais, a Parceria teve as seguintes características.

  1. Pelo acordo, a Parmalat pagava ao Palmeiras uma verba regular de patrocínio e, simultaneamente, disponibilizava ao clube jogadores qualificados, sem custo para o clube;
  2. Na venda de jogadores, o Palmeiras tinha direito à “taxa de vitrine”, uma porcentagem sobre o lucro. O número declarado à época era 20%;
  3. As propriedades comerciais básicas cedidas pelo Palmeiras eram ligadas ao futebol e, por um tempo, ao voleyball: estampava-se a marca da empresa isolada no peito da camisa desses dois esportes, o que hoje se chama de patrocínio máster;
  4. Havia também propriedades comerciais sediadas no estádio: a publicidade estática foi, por um bom tempo do contrato, exclusivamente cedida à Parmalat; somente na fase final do contrato, esse espaço foi compartilhado com outras marcas;
  5. O acordo impunha também uma coisa chamada cogestão do futebol: a cogestão impunha decisões colegiadas relativas ao departamento de futebol profissional do clube: a palavra final sobre organização, planejamento, direção e controle do futebol seria sempre dada por dois participantes do clube e dois da Parmalat;
  6. Os números[2] à época eram astronômicos para o mercado brasileiro que, no início do acordo, ainda vivia a fase final da hiperinflação, só debelada em 1994 com a criação da moeda Real
    • O patrocínio regular trazia 750 mil cruzeiros mensais ao Palmeiras: até aí, um número razoável;
    • Mas, as contratações de jogadores eram vultosas: em 1992, Sorato, Cuca, Maurílio, Zinho e Mazinho; em 1993, Roberto Carlos, Antônio Carlos, Edilson, Edmundo e Cléber; em 1994, Rincón, Rivaldo, Alex Alves e Paulo Isidoro; em 1995, Cafu, Mancuso, Muller, Nilson, Djalminha e Luizão; em 1996, Junior, Sandro, Viola e a volta de Rincón; em 1997, Oséas, Euller, Alex, Zinho de volta; em 1998, Arce, Paulo Nunes e Júnior Baiano; em 1999, voltas de César Sampaio e Evair, Asprilla …. A lista é comprida.
    • O custo médio das contratações oscilava entre 1,5 e 3,5 milhões dólares. Zinho e Roberto Carlos custaram perto de 700 mil dólares cada, Antônio Carlos 1,4 milhões, Edilson 1,3 milhões, Edmundo 1,8 milhões, Rivaldo 2,5 milhões, Cafu 3,5 milhões (mais a multa, dada a triangular feita com o Zaragoza da Espanha que o teve por um semestre até ele poder jogar aqui em meados de 1995, algo imposto por cláusula de venda entre SPFC e Zaragoza em dezembro de 1994); Djalminha e Luizão custaram juntos perto de 5,5 milhões, Paulo Nunes pouco mais de 3 milhões, etc.
  7. Os resultados foram marcantes: 3 campeonatos paulistas, 2 brasileiros, 2 Rio-São Paulo, uma Copa do Brasil, uma Copa Mercosul, uma Copa Libertadores; 10 títulos em 8 anos.

Análise e fundamentos teóricos

Mas, além de dados e informações, é importante também recuperar-se o significado do acordo para seus parceiros, i.e., o que ambos ganhavam com a Parceria, que os motivava a manterem-se na mesma.

Para a Parmalat, o Palmeiras significava:

  1. Visibilidade acelerada: um patrocínio convencional – sem a colocação de jogadores qualificados – traria um grau de exposição significativamente menor do que a atenção incandescente que o acordo produziu à época. A empresa de assessoria de imprensa visitada à época do trabalho relatava que o número de citações de “Parmalat” equivalia a 20 vezes o valor de anúncios pagos nos respectivos órgãos de comunicação.
  2. Posicionamento da marca: o logo Parmalat e seus atributos passaram a ser lidos de maneira qualificada pelo mercado em geral de consumidores e de empresas de comunicação.
  3. Impacto no crescimento geral da empresa: o aumento acentuado da captação de leite e a aquisição de fábricas dentro do país foram viabilizados pela visibilidade acelerada e pelo novo posicionamento da marca Parmalat.
  4. Impacto nas vendas: leite e derivados produzidos pela empresa tiveram crescimento de vendas vertiginoso.
  5. O futebol como centro de lucro: com o tempo, as compras e vendas de jogadores passaram a gerar caixa líquido para a empresa. Segundo se sabia, parte desse caixa líquido era reinvestido na própria Parceria.

Para o Palmeiras, a Parmalat significava

  1. Recurso físico: jogadores com que o clube jamais poderia sonhar à época e eram trazidos pela empresa.
  2. Fonte de renda: a verba de patrocínio mais a taxa de vitrine.
  3. Impacto na arrecadação do clube: bilheteria, quotas de televisão e receitas em geral do futebol foram ampliadas dado o patamar técnico – condizente com sua tradição – que o time pode retomar em consequência da Parceria.
  4. Capacidade gerencial: a experiência da Parmalat em gerir exportes era muito mais qualificada do que o Palmeiras possuía. No âmbito da Parceria, essa competência foi posta à disposição do clube.
  5. Separação do futebol: a Parceria permitiu que a atividade futebol fosse isolada administrativamente das outras atividades do clube SE Palmeiras. Com isso, pode-se reduzir o impacto da atividade política – natural de uma entidade de associados – sobre a gestão do futebol.
  6. Controle por um blockholder: na atividade empresarial em geral, a figura do controlador – blockholder – é vista com fator potencialmente positivo na governança corporativa. Coloquialmente, tal fato é dado pela expressão “o olho do dono é que engorda o porco”. Para o futebol de clubes, essa figura do blockholder não é natural dado que os administradores atuam por mandatos e mesmo a cúpula diretiva máxima não é “dona” do clube. A cogestão permitiu que se emulasse essa situação conferindo às decisões um potencial maior de alinhamento aos propósitos máximos do futebol, i.e., vencer e convencer.

Essa reciprocidade de ganhos entre os parceiros é identificada pela Economia dos Contratos como um quadro de dependência bilateral, situação em que Parceiros, por meio de um contrato, têm condições de extrair ganhos contínuos de um relacionamento sem que incorram numa integração formal entre as partes.

Conclusão

Como se viu na discussão acima, a Parceria Palmeiras-Parmalat marcou-se por uma lista explícita de direitos e obrigações entre as partes, manteve intactos os fundamentos legais de cada parceiro, tinha fundamentos teóricos para existir e teve resultados palpáveis para ambas as partes.

Quaisquer comparações que se queiram fazer com a situação presente envolvendo Palmeiras e Crefisa/Fam têm de levar em conta as características acima listadas.


[1] Entre 1996 e 2000, cursei mestrado strictu-sensu no departamento de administração da FEA-USP. No segundo trimestre de 1996, fui recebido pelo próprio José Carlos Brunoro – executivo da empresa que liderou o processo junto ao clube – no escritório central da Parmalat, então sediada na Vila Olímpia em São Paulo. Nessa conversa, ele esclareceu vários detalhes práticos que, analisados à luz do referencial teórico da disciplina – Economia dos Contratos – possibilitaram o trabalho final.

[2] Números estão citados de memória e estão sujeitos a uma revisão de base documental.

*Douglas Monaco é leitor e padrinho do Verdazzo