A hora de trocar de técnico

Eduardo BaptistaÉ recorrente em qualquer torcida, mas aparentemente na do Palmeiras, corneteira por natureza, o fenômeno é mais intenso: se os resultados em campo não correspondem à expectativa, o remédio é óbvio – basta demitir o treinador.

A prática não é privilégio dos palmeirenses nem do futebol brasileiro; bastam alguns minutos de pesquisa na internet para verificar que o Brasil, dentre os grandes centros, é o país onde os técnicos menos tempo permanecem no cargo – este estudo de 2015, por exemplo, mostra o quanto a paciência dos dirigentes brasileiros é curta com os comandantes.

É claro que a decisão não passa apenas por uma reflexão sobre o projeto técnico. Muitas vezes o dirigente opta por sacrificar o treinador para dar uma satisfação a sua diretoria, à oposição e à torcida, que em vez de questionar a mudança, costuma aprovar, e muito.

Se o time não alcança o objetivo, parece ser necessário que alguém leve a culpa. Alguma cabeça tem que rolar, sangue deve escorrer. É como uma compensação que o torcedor recebe pela frustração. E essa cabeça é em 99% das vezes a do técnico, o que serve também para limpar a barra da diretoria com relação à montagem elenco. Todo mundo gosta de demitir o treinador – até eles, que têm o grosso de seus rendimentos não nos salários, mas nas rescisões de contrato.

Tudo isso vai na contramão de uma gestão esportiva moderna e responsável. É evidente a relação entre um alto nível rendimento e baixo índice de oscilações com o tempo de permanência do treinador à frente do time. Quanto mais tempo o técnico está no comando, mais os jogadores assimilam seu modelo de jogo e mais sólido é o desempenho.

É normal que um time sofra oscilações no primeiro ano do trabalho de qualquer treinador – notem que estamos falando de anos num país em que a média de permanência do técnico é de cinco meses.

Eduardo Baptista

Nosso treinador chegou em dezembro. Com quatro meses no cargo, ainda está abaixo da média nacional de permanência. Trouxe no pacote uma série de características que desagradam a nosso torcedor – o time de origem, o currículo com poucas páginas e o parentesco com uma figura com histórico problemático – convenhamos, nada que justifique racionalmente tamanha rejeição. Com a eliminação no Paulista, esse conjunto se juntou à sede de sangue e o que se vê hoje pelas redes sociais é um desejo ardente pela vingança. A cabeça de Eduardo traria uma sensação imediata de compensação ao torcedor pela frustração.

Quem tem obrigação de pensar o futebol do Palmeiras é a diretoria, que se optar por fazer moral com a torcida, chama o treinador na salinha e faz as contas, como quem gere uma lanchonete. Felizmente os tempos de bananadas em nosso clube passou e hoje temos profissionais muito competentes avaliando a todo momento o desempenho do grupo e que são pagos também para suportar pressões momentâneas e manter o plano, que é de longo prazo, em andamento com o mínimo de sobressaltos.

Existe um macroprocesso. Estamos em abril e apenas uma das quatro competições que ocupam toda a temporada se foi – a menos importante de todas. O projeto técnico não chegou ainda na fase mais madura e ainda é natural que o time oscile – infelizmente isso aconteceu perto da final de um campeonato no qual nosso grupo parecia bem superior a todos os outros. Nosso maior rival tende a levantar o troféu diante de nossa falha. Temos que lidar com isso e seguir em nosso caminho, que inclui conquistar a Copa do Brasil, o Brasileiro e a Libertadores.

Para alcançar esses objetivos muito maiores, que chegarão a suas fases decisivas no final do ano, o time precisa maturar, para oscilar menos e ter menos chances de apresentar 30 minutos desastrosos como os de Campinas. Demitir o treinador agora significa voltar à estaca zero, e conviver com as oscilações por mais tempo. Isso sem mencionar que o mercado não oferece grandes alternativas disponíveis que estejam à altura de nossas aspirações.

Eduardo tem grande parte da responsabilidade pela eliminação. Após a derrota em Campinas, ele teve cinco dias para recompor o grupo e traçar um plano mais eficiente que o demonstrado na partida de sábado, em que vencemos por um placar menor que o necessário. Mas é consenso até entre os que pedem sua cabeça que perdemos mesmo a classificação no jogo de ida, graças a 30 minutos de péssimo futebol – e essa oscilação, por sua vez, está intimamente ligada à batalha que ocorreu quatro dias antes e que nos proporcionou a maior euforia do ano até agora. Circunstâncias de uma longa temporada.

O torcedor brasileiro diz adorar o mata-mata e amaldiçoa as competições de pontos corridos. Diz, com razão, que as competições eliminatórias trazem uma emoção que raramente é vista num jogo do Brasileirão, a não ser quando, por muita sorte, a tabela determina para a rodada final um jogo exatamente entre os dois pretendentes ao título. Esse gosto pela emoção do mata-mata está intimamente ligado à possibilidade de um time mais modesto eliminar um mais poderoso. Mas quando o Palmeiras, superior à Ponte Preta, acaba eliminado, os torcedores esquecem completamente essa realidade, não digerem a frustração e exigem a compensação, mergulhados no poço de incoerência e irracionalidade que ainda domina as emoções humanas.

Eduardo para sempre, então?

Todo treinador tem um ciclo. Alguns são maiores, gigantescos, como o de Alex Ferguson no Manchester United ou o de Arsène Wenger no Arsenal; outros nem tanto – mas todos devem durar, no mínimo, dois anos para exibirem elementos concretos para avaliação. No primeiro ano, o técnico implementa sua filosofia, e no segundo, já como o elenco moldado, é que o time tende a voar em campo. Era para estarmos vivendo este momento agora, em 2017, com Cuca, mas o treinador atendeu a outras prioridades de vida. Tivemos que recomeçar.

Os erros táticos que qualquer torcedor enxerga (ou acredita enxergar) são observações subjetivas, que nem sempre correspondem ao que realmente aconteceu porque quem apenas assiste aos jogos desconhece os planos de jogo e o que foi dito nas preleções. Embora possamos imaginar, nunca se sabe ao certo até que ponto as coisas não funcionaram por causa do plano ou da execução.

Mandar embora um técnico porque o time “está jogando errado” é uma prática emocional, normalmente desencadeada por um resultado frustrante, que vai na direção oposta do que esperamos hoje de nossa diretoria profissionalizada.

O processo de troca de comando técnico, antes de dois anos, só pode ser admitido numa sequência negativa de resultados, quando o desempenho do time em campo é sofrível e não há sinais de evolução, seja por que o treinador esgotou seu potencial criativo/estratégico, seja porque os jogadores perderam a confiança nos métodos do treinador e não conseguem se sentir estimulados a executar os planos de jogo. Kleina, Gareca, Oswaldo e Marcelo estavam claramente neste estágio.

Neste momento, entretanto, nenhuma das condições acima está sequer perto de ser satisfeita. Os resultados do time sob o comando de Eduardo Baptista como um todo são bastante positivos, a despeito do nível dos adversários do Paulistão: 12 vitórias, 4 empates e 4 derrotas em 20 jogos, com um aproveitamento de 66%.

Apesar da frustração pela eliminação, o grupo permanece bastante focado na temporada como um todo e aparenta seguir bastante confiante de que no final do ano o resultado será recompensador. Se os atletas não depositassem confiança no comando do treinador, veríamos demonstrações claras – o destempero de Borja ao ser substituído mais uma vez no sábado pode até ser uma delas e deve observado de perto: tanto pode ser uma frustração consigo mesmo quanto o início de um processo que levará a uma rota de colisão.

Felizmente o Paulistão é um campeonato peso-leve. O início da semana está sendo bem chato, mas na quarta-feira já temos jogo pela Libertadores; a Copa do Brasil e o Brasileirão estão na iminência de começar e logo, logo, a sede de sangue vai passar. Pelo menos até o próximo mau resultado.