Eduardo Baptista está fora; Cuca é o único alvo possível

Eduardo Baptista
Cesar Greco / Ag. Palmeiras

O Palmeiras anunciou no final da noite de ontem a queda de Eduardo Baptista do comando do time. Desde o meio de dezembro à frente do time, o treinador acumulou 23 jogos e teve um desempenho, ao menos nos números, muito bom: foram 14 vitórias, 4 empates e 5 derrotas, com 66,7% de aproveitamento.

Em campo, no entanto, a demora em dar padrão ao time fez com que a pressão por sua demissão vencesse. O clube, desta forma, descarta estes quatro meses de trabalho e parte do zero em busca dos títulos que ainda temos pela frente em 2017. Ou nem tanto do zero assim.

O mais cotado para substituir Eduardo é Cuca, o comandante que nos conduziu ao eneacampenato. É pouco provável que nossa diretoria tenha decidido pela troca da comissão técnica sem ter uma carta na manga. Serão nove dias de hoje até a estreia no Brasileirão, e cada hora de trabalho sem um treinador é uma hora desperdiçada. Se a decisão foi pela falta de padrão, temos que correr atrás disso imediatamente.

Por que “deu errado”?

Seguindo a filosofia que será eternamente defendida no Verdazzo, seria precipitado dizer que o trabalho de Eduardo deu errado. Todo treinador precisa de tempo para implementar seus métodos e sistemas de jogo. Alguns conseguem ter a sorte de contar com um elenco cujas características encaixam bem com seu sistema – este não parece ter sido o caso de Eduardo. Seu erro, neste caso, foi demorar para adaptar seu sistema às peças.

Nossa defesa, tão forte em 2016, desmoronou sob seu comando. A proteção à zaga não funcionou como necessário; a distância entre as duas linhas nunca foi a ideal e o time perdeu a compactação. Como resultado, sofremos muitos cruzamentos em nossa área e nem nossa fortíssima dupla deu conta. Sofremos um número alarmante de gols em bolas aéreas.

No ataque, Borja parece ser a maior causa do desgaste do treinador: um atleta sabidamente extra-classe, mas que não conseguia exibir seu potencial por estar nitidamente isolado. A dinâmica de saída do meio-campo para o ataque poucas vezes mostrou a necessária aproximação entre as peças. Uma das saídas que se mostraram viáveis foi a escalação de Willian e Borja juntos – algo que curiosamente o técnico relutou a colocar em prática.

Não vimos jogadas ensaiadas, tão importantes no futebol contemporâneo. Não vimos vibração em campo de forma constante – nosso time mostrou momentos de apatia inaceitáveis em momentos cruciais, e numa declaração infeliz, Eduardo transpareceu um certo desprezo pelo componente anímico dos atletas.

Tivemos momentos de brilho que sustentavam que poderia haver alguma saída. Mas a oscilação intensa do time quebrou a confiança da maior parte da torcida e da diretoria. No longo prazo, caso os jogadores se mantivessem fechados com o trabalho do treinador, o time tendia a engrenar. Mas a paciência e a ansiedade, no futebol, falam mais alto na maioria das vezes.

A pergunta que ainda paira no ar é: os jogadores ainda bancavam Eduardo, ou conversas reservadas no Centro de Excelência foram determinantes para a saída do treinador? Jamais saberemos a resposta.

E agora?

A perda da confiança por parte dos jogadores é o único fator que justificaria a demissão sem que Cuca, e somente Cuca, já esteja contratado. O comandante do ênea é o único que reassumiria o controle do grupo já com uma parte do caminho percorrida – ele teria apenas que readaptar alguns conceitos aos novos contratados.

Se Cuca decidir por se manter em seu retiro, o Palmeiras terá que recorrer a profissionais que neste momento não parecem estar mais qualificados que Eduardo Baptista – os nomes disponíveis no mercado mais conhecidos são Luxemburgo, Levir Culpi, Ricardo Gomes, Cristóvão Borges e Marcelo Oliveira.

Reinaldo Rueda, sonho fancy de parte de nossa torcida, seria um tiro no escuro – a experiência com Gareca e com vários técnicos estrangeiros que passaram recentemente por outros times brasileiros indica uma tendência de rejeição por parte dos nossos boleiros a quem não entende exatamente a cultura do futebol por aqui. Seria um risco enorme.

Por que tudo isto aconteceu?

Quando Marcelo Oliveira foi demitido, Cuca foi contactado e recusou a proposta do Palmeiras, alegando ter um compromisso familiar de passar um tempo fora do mercado. Mattos insistiu e convenceu o treinador a aproveitar a chance de treinar um elenco forte como o nosso. A oportunidade era rara e Cuca aceitou, com uma condição: sairia ao final do ano. Mattos obviamente não concordava com essa condição, mas apostou na certeza da conquistas: Cuca não largaria o osso numa maré de vitórias como a que se desenhava. Perdeu a aposta.

Esse passo se mostrou uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que nos rendeu um Brasileirão, jogou por terra o planejamento de 2017. Se o plano de Mattos tivesse dado certo e Cuca jamais tivesse saído do Palmeiras, este time atual, reforçado em relação ao do ano passado, estaria voando, demolindo adversários.

Sua volta diminuiria o efeito da interrupção brusca de trabalho e exigiria apenas alguma adaptação – se começar hoje, em nove dias já poderemos ver alguma coisa diante do Vasco.

Boa sorte, Eduardo

A Eduardo, que sai do clube pela porta da frente, só podemos desejar boa sorte. Apesar do trabalho inconsistente, diante de sua seriedade e profissionalismo, daria certo mais cedo ou mais tarde – provavelmente mais tarde. O Palmeiras não consegue esperar.

Seu momento de maior brilho certamente foi a coletiva em Montevideo. Que ele tire de sua curta, mas intensa passagem pelo Palmeiras, lições valiosas para seu desenvolvimento em todos os aspectos para que um dia tenha condições de, quem sabe, terminar o trabalho começado.