Eduardo se enfia num buraco, sozinho

A atuação do Palmeiras ontem em Itu deixou boa parte de nossa torcida de cabelo em pé. Depois de mais de 100 dias, o time de Eduardo Baptista voltou a perder um jogo; nossa torcida, mal acostumada pela arrancada espetacular no segundo turno do Brasileirão, viu o time jogar muito mal pela primeira vez desde sei lá quando – mesmo nos tropeços do segundo semestre de 2016, o Palmeiras não exatamente jogava mal; perdia pontos por mérito dos adversários e nossa torcida conseguia compreender isso.

No jogo do Novelli Junior, o Ituano não mostrou absolutamente nada que justificasse a inoperância do Palmeiras. Perdemos para nós mesmos, numa noite tecnicamente lamentável de quase todo o time, especialmente de Dudu. O time não conseguia trocar três passes, mesmo com Guerra mostrando sua classe em jogadas de muita criatividade.

Como atenuantes: depois de muito tempo, jogamos sem Moisés e Tchê Tchê. Por vários meses, um conseguia compensar a eventual falta do outro em campo, mas sem os dois, o cimento do meio-campo virou poeira e os tijolos desmoronaram. Além disso, uma desculpa surrada, mas sempre relevante, surge nesta época do ano: os jogadores, sem o preparo físico ideal, nem que estivessem extremamente coordenados conseguiriam ocupar os espaços da melhor maneira.

Na entrevista após o jogo, Eduardo demonstrou, de forma preocupante, que parece não estar enxergando o que está acontecendo. Disse que o time jogou bem, com a expressão assustada de quem está sentindo bastante a responsabilidade de estar vivendo o projeto mais importante de sua vida.

Ao definir o 4-1-4-1 como seu esquema principal, o treinador deveria insistir em aprimorá-lo antes de qualquer outra coisa, começando pelo posicionamento sem a bola. Felipe Melo está isolado, distante das duas linhas que o cercam, e quando vai para o bote, nem sempre chega a tempo; o adversário, ao passar por nosso volante, entra em velocidade e com opções de passe frente a uma dupla de zaga exposta. Sofremos contra a Ponte e contra o Botafogo. Em vez de trabalhar para compactar essas linhas, Eduardo resolveu alternar para o 4-2-3-1, que foi o esquema vencedor do ano passado.

Das duas, uma: ou Eduardo já está pensando em mudar sua rota inicial e fazer do 4-2-3-1 seu esquema principal, ou segue com o plano original e já começou a desenvolver um desenho alternativo para usar ao longo da temporada. Nenhuma das opções anima: se for a primeira, demonstra ter feito uma péssima análise preliminar das características do elenco – menos mal que detectou o alegado erro rápido e tentou corrigir; se for a segunda, temos um desastre completo – começou uma etapa sem terminar a anterior, interrompendo a evolução e confundindo os atletas, que naturalmente perdem confiança no comandante.

Eduardo Baptista ainda está dando seus primeiros tiros e é normal que erre vários deles enquanto calibra a mira. O problema é que até agora só está errando, e por muito. Pior: em vez de se aproximar da mosca, vai atirando cada vez mais longe.

Nosso treinador se enfiou sozinho num buraco, de forma desnecessária. A resistência da torcida a seu nome, que vem do “fator filho do Nelsinho”, parece mais forte do que parecia ser no início. A derrota, jogando muito mal, depois de três jogos pouco convincentes após as férias, causam arrepios na torcida, que começa a ter um déjà vu de 2016, quando o péssimo início de temporada de Marcelo Oliveira nos custou a Libertadores. A expectativa este ano, diante de todas as circunstâncias, é muito maior e já se nota em boa parte da torcida uma pressão por demitir Eduardo, para que a decepção não se repita.

A comparação com 2016 parece bastante injusta. Marcelo Oliveira já tinha conhecimento prévio da maior parte do elenco que iniciou os trabalhos no ano passado. Quando chegamos em março já era bastante nítido que o treinador tinha praticamente esgotado todas as suas tentativas de fazer o time jogar bem.

Provavelmente não ia sair mais nada daquele bagaço – mas a troca, no meio da primeira fase, não deu certo: nem Cuca conseguiu fazer a leitura do elenco e implantar um novo sistema a tempo de salvar a Libertadores. Menos mal que a preparação para o Brasileiro foi adiantada. Eduardo, por sua vez, tem a seu favor o fato de estar em início de trabalho. Não é nenhum absurdo imaginar que ele ainda pode encontrar uma boa fórmula para o magnífico elenco que tem em mãos.

Trocar de técnico só faria sentido se tivéssemos uma excelente alternativa disponível, e teria que ser AGORA. E também não seria garantia de nada; um mês de trabalho seria jogado fora e, diante do atraso, a Libertadores continuaria ameaçada. Para enterrar de vez essa opção, depois de uma rápida checagem, percebemos que neste momento o que há de melhor no mercado troca o S pelo X e gosta mesmo é de pojetos. Melhor não.

Então, como faz?

Eduardo Baptista precisa é de uma resposta rápida. O elenco precisa confiar em seu comando; ele precisa não apenas ser firme em seu planejamento, mas também precisa PARECER firme. Para o jogo de quinta-feira, contra o São Bernardo no Allianz Parque, ele vai precisar de um gol bem rápido se não quiser conhecer o inferno de perto. Qualquer resultado que não seja uma vitória, mesmo que jogue bem, vai resultar em guerra aberta entre torcida e treinador, gerando uma situação cada vez mais difícil de resolver.

Toda essa situação faz desta teoricamente entendiante partida-de-terceira-rodada-do-estadual-contra-time-pequeno uma decisão. E os jogadores sabem disso. A chave estará na postura dos atletas, que já sabem o que querem. Se confiam em Eduardo, darão a vida pelo técnico, farão um grande jogo, e mesmo se apoiando apenas em seus desempenhos técnicos individuais salvarão sua pele.

E será bom mesmo se estiverem pensando realmente assim.