Se o Flamengo quer ser o Real Madrid das Américas, o Palmeiras tem que ser o Barcelona

O atual cenário do futebol brasileiro, dentro e fora do campo, sugere que estamos a um passo da “espanholização” – dois clubes dominantes em meio a um mar de desafiantes. O Flamengo parece ter consolidado sua posição de destaque e o Palmeiras tenta ocupar de vez a outra vaga. A maior diferença entre os dois clubes, embora os resultados esportivos sejam semelhantes, ainda é o volume de cada torcida.
O contrato de patrocínio anunciado pelo Flamengo esta semana assustou o país. O presidente do Inter Alessandro Barcelos, depois de seu time ser amassado na Libertadores, fez um apelo comovente aos céus para que essa diferença financeira seja diminuída. Como que implorando por um milagre.
O futebol brasileiro, desde que os torneios nacionais passaram a ser disputados, sempre foi caracterizado por um intenso rodízio entre os times do chamado “G12” no domínio. Gestões amadoras faziam com que times bem encaixados exercessem domínio esportivo durante um, dois ou três anos, até acontecer o desmanche, raramente reposto à altura. E assim, todas as torcidas viviam períodos de felicidade fugaz.
Com cada vez mais dinheiro envolvido no esporte, que entrou de vez na grade de entretenimento dos grandes meios de comunicação, a profissionalização das gestões passou a falar alto. Técnicas nas mais variadas frentes foram sendo adotadas pelos clubes brasileiros. Qualquer ex-jogador dos anos 70 olha hoje para a estrutura oferecida aos jogadores atuais – e para os salários, até os dos medíocres – e apenas suspira.
Se finalmente o futebol brasileiro, na era das SAFs, virou um mercado altamente competitivo, os resultados serão diretamente proporcionais à qualidade das gestões. E o que vemos hoje são dois clubes, que saltaram à frente nesta virada de chave, dominando as conquistas não só no Brasil, mas na América do Sul. Já há um degrau acentuado entre Palmeiras e Flamengo e o resto dos clubes. O desempenho no Campeonato Brasileiro, por ser uma competição por pontos corridos, é o melhor termômetro.
Pontos acumulados no Brasileirão (2015-2024)
| 1 | Palmeiras | 698 |
| 2 | Flamengo | 678 |
| 3 | Atlético-MG | 615 |
| 4 | Corinthians | 587 |
| 5 | São Paulo | 570 |
| 6 | Internacional | 540 |
| 7 | Athletico-PR | 536 |
| 8 | Grêmio | 529 |
| 9 | Fluminense | 525 |
| 10 | Santos | 510 |
Aparições no G3 (2015-2024)
| 1° | 2° | 3° | TOTAL | |
| Palmeiras | 4 | 2 | 2 | 8 |
| Flamengo | 2 | 2 | 2 | 6 |
| Atlético-MG | 1 | 1 | 2 | 4 |
| Internacional | 2 | 1 | 3 | |
| Santos | 2 | 1 | 3 | |
| Corinthians | 2 | 2 | ||
| Grêmio | 1 | 1 | 2 | |
| Botafogo | 1 | 1 | ||
| Fluminense | 1 | 1 |
A posição destacada de Palmeiras e Flamengo no Campeonato Brasileiro deste ano é resultado de processos já consolidados de gestão esportiva. Há pelo menos dez anos, como exposto acima, os dois frequentam o topo da tabela. As outras posições de destaque ainda seguem o velho modelo amador, com os clubes se revezando. Não à toa, a dupla teve desempenho de destaque na Copa do Mundo de Clubes.
As campanhas de Botafogo e Fluminense nos Estados Unidos foram frutos, respectivamente, de uma bolha e do acaso. O modelo do clube comprado por John Textor está em xeque; o Fluminense estava apenas numa fase técnica muito boa, apoiada no desempenho individual de um atleta, que já deixou o clube. Flamengo e Palmeiras seguem cada vez mais distantes dos outros e vão disputar ponto a ponto o Brasileirão, com boas chances de fazerem mais uma final de Libertadores.
Outros clubes estão despertando e se organizando, inclusive alguns de fora do G12, como Bahia e Fortaleza. O clube baiano, adquirido pelo Grupo City, já subiu alguns degraus na hierarquia do futebol brasileiro e hoje está na segunda prateleira. Por outro lado, clubes tradicionais como Santos e Vasco parecem cada vez mais enrolados e perdendo espaço – e torcida.
Torcida: fator chave para o sucesso
“O maior patrimônio de um clube é sua torcida” – o mantra é verdadeiro, mais do que nunca. O Flamengo tem muita facilidade em seu projeto diante do volume de seus apoiadores, consolidado desde a década de 70. O Palmeiras lutou para se manter entre as 5 maiores torcidas do país, e aparentemente conseguiu, diante dos recentes troféus conquistados.
O resultado financeiro de se ter uma base ampla de torcedores faz a diferença final. O binômio [gestão + tamanho da torcida] ditou a nova hierarquia do futebol brasileiro e sul-americano. Subindo ano após ano, o Palmeiras precisa seguir aumentando sua fatia nas pesquisas, para conseguir retroalimentar esse processo, como já consegue o Flamengo.
Para isso, o clube precisa ter um departamento de Comunicação e Marketing cada vez mais eficiente, bem como incrementar as relações institucionais, sobretudo com a imprensa.
Sabemos das restrições intrínsecas dos meios de comunicação ao Palmeiras. A polarização com o Flamengo e a letargia de São Paulo e Corinthians dão a brecha que o clube precisa para reverter isto. A imprensa paulista precisa de um clube forte para apoiar, assim como a imprensa carioca já faz com o Flamengo.
E o tratamento do clube dedicado a seus apoiadores precisa melhorar. Há muito a ser explorado neste campo. O Palmeiras precisa encontrar o equilíbrio entre maximizar suas receitas, manter elenco e comissão técnica blindados, e aumentar o calor da relação com uma massa cada vez maior de torcedores.
Estes movimentos precisam ser feitos o quanto antes, aproveitando o momento em que só Palmeiras e Flamengo aparecem em pólos opostos. Se aparecer um Corinthians, um São Paulo ou um Vasco organizados, só para mencionar os outros três clubes com maiores torcidas do país, o que pode acontecer é as forças tornarem a se dividir e o Flamengo descolar de todos. Um clube dominante parece ser ainda pior que dois.
A espanholização talvez não seja o melhor dos caminhos para o futebol brasileiro, mas se tiver que acontecer, queremos que o Palmeiras seja um dos dois clubes dominantes, algo que o clube carioca, que quer ser o Real Madrid das Américas, aparentemente já conseguiu. O volume do contrato de patrocínio anunciado esta semana é inequívoco. O momento do Palmeiras se tornar o Barcelona é agora.

2 comentários em “Se o Flamengo quer ser o Real Madrid das Américas, o Palmeiras tem que ser o Barcelona”
Acredito que o Palmeiras precisa urgentemente focar em ações para a torcida fora da capital de SP. Em dias de jogos, poderiam organizar pontos em capitais e grandes cidades do interior para a torcida assistir junto, ainda que se cobrasse um ingresso (com um valor baixo, só pra cobrir os custos mesmo). Aumentar o engajamento de uma torcida nacional é fundamental. As pessoas de longe se sentem longe do Palmeiras. Ao se sentir longe, engajam-se menos.
com a leila na gestao, dificilmente vai acontecer