O mundo acompanha online a busca pelo novo diretor: é muito Black Mirror

Mano Menezes e Alexandre Mattos

O Palmeiras encerrou o ano livre da nuvem negra que se abatia sobre o time com Mano Menezes, o padrasto, à beira do campo. Alexandre Mattos, tido por boa fatia da torcida como a razão de todos os problemas, também já não faz parte do corpo diretivo. Então está tudo certo? Longe disso.

O Palmeiras segue atolado em problemas internos, a começar pelos constantes vazamentos acerca da novela da contratação do próximo diretor de futebol. Num cenário correto, o anúncio já teria acontecido e o profissional seria oficialmente divulgado sem que nenhum jornalista ficasse sabendo antes.

Mas nosso ambiente está longe de estar protegido. Informações estratégicas vazam descontroladamente, como no tempo de Arnaldo Tirone. Conselheiros e aspones que não têm nenhuma função a não ser atrapalhar, pelo fato de carregarem votos importantes conseguem acesso a informações privilegiadas e as repartem com seus círculos de amigos – e um ou outro jornalista – para satisfazerem seus egos.

Assim, ficamos sabendo que a primeira opção para a substituição de Mattos, Tiago Scuro, recusou o convite do Palmeiras. Assim, ficamos sabendo que depois dessa recusa, nossa diretoria, esbanjando auto-suficiência, fechou em dois nomes como “finalistas” – Rodrigo Caetano e Diego Cerri. O primeiro foi execrado pela torcida em redes sociais e a escolha recaiu sobre o segundo – que também recusou. E assim o Palmeiras voltou à estaca zero.

Toco transmitido em tempo real

A quarta opção vazou imediatamente, logo após a recusa de Cerri, na noite de ontem: Anderson Barros, do Botafogo. É assustador como decisões tão importantes caem no domínio público tão rápido. Imagine que você está na balada procurando se dar bem e tem uma lente de contato com câmera transmitindo tudo pela internet. Com direito a legenda dos seus pensamentos. Todos os tocos que você levar ficam constrangedoramente registrados. Isso é muito Black Mirror.

Tão preocupante quanto os vazamentos são as razões pelas quais o time com o segundo maior orçamento do país está com tantos problemas para fechar com um diretor de futebol.

O que o Bragantino e o Bahia têm que o Palmeiras não tem? O que levaram profissionais escolhidos a dedo por um clube de ponta declinar dos convites para permanecerem em clubes secundários do cenário nacional?

Talvez esses clubes proporcionem algo que os profissionais sabem que não terão no Palmeiras atual: o ambiente sadio. A pressão da torcida sempre existirá, mas pode ser controlada se houver a devida blindagem – e temos exemplos recentes de que isso é possível. A ingerência pesada de pessoas com livre trânsito no círculo interno, ligadas política e financeiramente à direção, é outro problema que nenhum profissional sério gostaria de sofrer.

Frizzo e Tirone

O Palmeiras, mais cedo ou mais tarde, vai conseguir seduzir um profissional do mercado – mas a esta altura, a exposição aos tocos já levados evidenciará que não foi nem a primeira, nem a segunda opção, o que já é embaraçoso. E possivelmente, diante da urgência em definir os rumos da próxima temporada, o acordo tenha que ser feito com muitas concessões – no modelo de trabalho e nos termos financeiros.

Causa enorme aflição projetar, neste momento, o futuro do clube, no curto e no longo prazo, diante de tanto descontrole. Parece até que eles estão de volta.


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Guilhotina no Palmeiras deflagra uma nova corrida contra o tempo para planejar 2020

Mano Menezes
Cesar Greco/Ag.Palmeiras

O Palmeiras foi derrotado pelo Flamengo no Allianz Parque na tarde de domingo e, depois de três meses, Mano Menezes acabou demitido. Junto com ele, foi dispensado também o Diretor de Futebol, Alexandre Mattos, que já vinha sendo alvo de uma campanha contra si havia alguns meses.

A derrota, em si, talvez já fosse a gota d’água para ambos. Mas a maneira como o jogo transcorreu tornou a decisão de demitir Mano muito fácil. Ainda durante a partida, ele mesmo já sabia que era o fim da linha; sua expressão corporal à beira do gramado já deixava claro que ele estava ciente que não haveria sequência em seu trabalho.

Incluindo a partida contra o Atlético-MG em que o time foi dirigido pelo auxiliar Sidnei Lobo, foram 20 partidas com a comissão técnica de Mano Menezes, com 11 vitórias, 5 empates e 4 derrotas – três delas na sequência final do trabalho e decisivas: contra o Grêmio, Fluminense e Flamengo. A derrota por 3 a 1 para os rubro-negros foi a pior sofrida pelo Palmeiras em cinco anos de existência do Allianz Parque.

O aproveitamento final da trajetória de Mano no Palmeiras foi de 63%, marca que o coloca apenas dentro da média histórica geral do clube – o que, diante dos novos padrões estabelecidos e da ambição imposta por todos nós, é pouco. Mas não foram apenas os números: a ausência de padrão tático e a postura leniente da maioria dos atletas em campo sob seu comando tornaram a permanência do treinador, num momento de decisão para o projeto técnico-tático da próxima temporada, insustentável.

Mattos foi no embrulho

Alexandre Mattos
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

Não sabemos até que ponto a decisão de demitir Alexandre Mattos passou por discordâncias quanto a segurar ou não Mano Menezes. Era sabido que Mattos estava fechado com Mano e pode ter havido um impasse do tipo “se ele for, eu vou junto” – se houve, Mattos acabou fazendo um favor à direção, dando-lhe o argumento decisivo por sua demissão.

A pressão para demitir o Diretor de Futebol foi mais um produto desenvolvido pela fábrica de problemas que paira sobre o Palmeiras desde 1914. Em vez de pressionarem o presidente para ser menos permissivo com os maus negócios trazidos à mesa por Mattos, como acontecia até 2016, preferiram pedir a cabeça do subalterno e assim demonstram poder. No final, demore o quanto for, essas pressões sempre surtem efeito – pelo menos quando o comando não tem firmeza suficiente.

E agora?

Nós, torcedores, estamos perdidos. “Sabemos” o que não queremos, e normalmente não pensamos muito na hora de clamar por mudanças, mesmo sem ter a menor ideia da nova direção para que devemos remar depois.

Na entrevista coletiva concedida na noite de domingo, o presidente, ao menos aparentemente, mostrou estar na mesma situação. Sua noite de sono não deve ter sido das melhores.

Os rumos do Palmeiras para 2020 passam pela definição, pela ordem, da identidade de jogo que se quer implementar, e de quais profissionais comandarão essa nova implementação – a única coisa já sacramentada é que “a base será utilizada”.

Essas definições precisam ser rápidas, para organizar o roteiro de contratações e dispensas. Diante dos longos contratos a que quase todos os atletas do elenco estão vinculados, as dispensas demandarão tanto ou mais trabalho que as contratações, já que os jogadores precisam ser realocados por empréstimo.

O tempo está passando. Tic-tac.


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Reformulação 2020 – parte IV

Com a segunda derrota seguida, desta vez para o Fluminense, nossa torcida está com sede de sangue – nada mais natural. Além de uma enorme barca de jogadores, os palmeirenses clamam por substituições no comando. Protestos recentes, com ou sem encomenda política, pedem a saída do presidente Maurício Galiotte e do diretor de Futebol, Alexandre Mattos.

Eleito, o presidente só sai se acontecer um inédito processo de impeachment. Já o cargo de Diretor de Futebol, remunerado, é bem menos enraizado e basta uma canetada do presidente para determinar a mudança.

O clamor popular aponta também para técnico Mano Menezes, que está há 18 jogos no cargo e não conseguiu sequer chegar perto de imprimir um padrão de jogo satisfatório – tanto na competitividade, quanto na chamada “beleza” do jogo.

Hoje fecharemos a série iniciada na terça-feira, quando propusemos uma discussão acerca dos ajustes necessários para que a temporada de 2020 nos renda os títulos que faltaram na temporada que está por terminar.

Alexandre Mattos

O atual diretor de futebol tem como maior virtude uma notável capacidade de encontrar soluções criativas para que o elenco se mantenha forte pelo maior tempo possível – as negociações de Mina e de Gabriel Jesus, que renderam quantias respeitáveis a nossos cofres, mostraram o quanto Mattos pode contribuir para manter jogadores extra-classe vestindo nossa camisa pelo maior tempo possível sem prejuízo à transação.

Sua agenda telefônica não encontra barreiras e seu talento para a persuasão parece não ter limites. É um profissional que, com um bom orçamento, tem potencial para fazer estragos no mercado nacional – e já vimos isso acontecer, na prática, por cinco anos consecutivos.

É evidente que, num universo de mais de 80 contratações, cometeu erros. Alguns deles, quase imperceptíveis e inofensivos. Outros, grosseiros e quase inexplicáveis. Mas partindo de dezembro de 2014, seu saldo na balança é indiscutivelmente positivo.

Esse resultado final, no entanto, não impede de apontar problemas em seu trabalho. Suas contratações, quase sempre impecáveis no sentido de gerar caixa ao clube após o fechamento do ciclo (por ocasião da venda), não parecem equilibrar o aspecto financeiro com um projeto técnico consistente. Estamos atravessando a terceira temporada com graves problemas no comando do ataque, algo que só foi parcialmente corrigido com a contratação de Luiz Adriano.

 A contratação de Carlos Eduardo junto ao Pyramids-EGY foi anunciada no início do ano por algo em torno de R$ 22 milhões, apenas alguns meses depois de Keno ter sido vendido para o mesmo clube por R$ 37 milhões, na cotação da época. Os dois números, vistos de maneira isolada, são assustadoramente altos, mas não é preciso ser muito criativo para concluir que o que vale é a diferença: na prática, trocamos Keno por Carlos Eduardo e ficamos com R$ 15 milhões de troco. Diante do desempenho fraco do camisa 37, hoje é fácil concluir que a negociação, mesmo vista de forma casada, foi ruim, mas foi uma aposta de Mattos.

A posição de diretor de futebol é cheia de apostas; não há como ter certeza absoluta que uma transação dará certo ou errado. O ímpeto de fechar negócios é uma característica importante para um profissional nessa posição. Mas ele precisa ter dois freios: um técnico e outro financeiro. Se tiver toda a liberdade que deseja, pode causar grandes decepções, como foi o ano de 2019.

O treinador precisa ter mais voz na definição das contratações. Como existe uma cadeia de comando, talvez o que falte no Palmeiras é a figura de um diretor técnico de futebol, na mesma altura hierárquica que Mattos, respondendo ao presidente. Esse diretor seria o responsável pela prospecção de reforços no mercado, obedecendo a um plano técnico desenvolvido em conjunto com o treinador, cabendo a Mattos a importante missão de viabilizar os negócios.

Obviamente ainda precisa existir a aprovação final do presidente antes da redação final de cada contrato, cujos valores precisam ser condizentes, na pior das hipóteses, com uma aposta com alguma chance de dar certo.

A sanha por derrubar o diretor de futebol é um vício recorrente de parte da torcida. É o elo mais fácil de alvejar depois do técnico, já que é remunerado, não-estatutário, e está sempre exposto após maus resultados. Mas Alexandre Mattos é um talento que não pode ser desperdiçado; ele precisa é ter as funções restritas a seus pontos fortes. Mattos é uma Ferrari que precisa de regulagem nos freios.

Imaginem o estrago que ele, com os freios em ordem, pode fazer com um orçamento como o do Flamengo nas mãos.

Mano Menezes

O atual treinador chegou ao Palmeiras após um momento de instabilidade do time nas mãos de Felipão. O estilo de jogo do general não agradava à maioria dos palmeirenses, mas sua figura era e para sempre será idolatrada.

A forma como Felipão foi demitido, um semestre depois de levar o time a uma grande conquista tendo Borja e Deyverson como opções para o comando do ataque, deixou um vácuo no peito da maioria dos palmeirenses. Mano veio para tentar preencher, ao menos, parte desse vazio, mas seu passado como técnico do SCCP impõe dificuldades no processo de aceitação.

A troca de Felipão por Mano se assemelha à trajetória de um padrasto chegando à família. Um estranho que vem para ocupar o lugar de alguém muito querido e insubstituível.

Sabemos que há vários casos de figuras que vêm de fora que conseguem conquistar suas novas famílias. Com sabedoria, fazem a leitura do novo ambiente, entendem seus limites e cumprem seus papéis, conquistando, aos poucos, a aprovação de todos. Jamais substituirão o original por inteiro, mas podem achar a posição mais adequada, dentro do contexto.

Mano Menezes tentou fazer o certo. Sua estratégia de comunicação foi adequada: discreto, sem frases de efeito, pasteurizado, procurou apenas não errar nas entrevistas – e nisso foi bem-sucedido. Seus exercícios de media training deram o resultado perfeito.

Mas faltou o principal para amolecer a comunidade palmeirense: fazer o time jogar bem e ter perspectiva de mostrar um futebol competitivo. E por mais sede de sangue que tenhamos, não seria correto julgar o trabalho de Mano Menezes pela evolução mostrada dentro de campo este ano – ou pela falta dela.

Não foi Mano quem desenvolveu o plano de jogo para 2019. Não foi Mano quem escolheu as peças deste elenco – nenhuma delas. Ele não tem obrigação de fazer o time dar liga ainda em 2019 e provavelmente foi com esse respaldo que ele aceitou o desafio de treinar o Palmeiras.

Cuca chegou no meio de 2016 e fez o time campeão. O mesmo aconteceu com Felipão no ano passado. No Flamengo, o português Jorge Jesus passou por cima de uma série de obstáculos e conseguiu fazer o time atingir um padrão de jogo admirável – é verdade que teve bons reforços que o ajudaram nessa missão. Mas essa não é a regra. O fato de termos alguns exemplos de times bem sucedidos mesmo após trocas no meio do caminho não significa que existe a obrigação.

Sendo assim, como a diretoria deve decidir, mesmo com um eventual respaldo, se demite ou não Mano Menezes?

Essa avaliação deve passar:

1) pelas informações coletadas nestes quase três meses no que diz respeito ao relacionamento construído no vestiário e

2) pelo plano para 2020 que ele deve ter entregue a seus superiores – ou pelo menos, já deveria ter-lhe sido exigido um.

A falta de pegada do time em campo nos últimos jogos não pode ser apenas atribuída ao “abatimento” pela falta de objetivos. Um bom treinador, que sabe que depende sempre de resultados, sabe que precisa manter seus atletas sempre motivados e Mano vem falhando grosseiramente neste aspecto. Existe alguma razão maior para que os atletas estejam trotando em campo, como ficou claro na partida de ontem no Maracanã? Mano será capaz de fazer o grupo correr por ele?

Além da confiança do grupo, Mano apresentou um bom projeto técnico para a próxima temporada? O que ele vislumbra diante do elenco que tem, mais um pacote de reforços que terá à disposição nesta janela? Como vai jogar o Palmeiras de Mano Menezes em 2020?

Essas perguntas, só quem pode responder é quem está dentro dos muros da Academia de Futebol. Nossa sede de sangue é grande, mas nós não temos a responsabilidade de tomar a decisão. Somos como filhos pequenos que têm toda sorte de desejos; queremos tudo, mas só o chefe da família é quem sabe até onde pode atendê-los e por qual razão. Principalmente se for um chefe com a mão firme e o compromisso primordial com o bem estar dessa família.

A nós, só resta torcer para que essas avaliações e decisões sejam feitas da forma mais sábia e honesta possível.

***

Abaixo, um mapa geral das possíveis reformulações propostas pelo Verdazzo nesta série:


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Por que a base do Palmeiras precisa fornecer mais jogadores para o time de cima

Palmeiras Campeão Brasileiro 2016

O Palmeiras é hoje o protagonista do futebol brasileiro e sul-americano graças a um meticuloso processo de recuperação financeira iniciado em 2013, que permitiu que o clube conseguisse se manter competitivo sem recorrer a adiantamentos de receitas, seja junto a bancos, a federações ou a emissoras de TV. Isto, você já sabe.

Praticamente livre de despesas bancárias, o clube desfruta dessa vantagem conquistada e monta elencos extremamente fortes. “Atraso no pagamento” é uma expressão que jogador do Palmeiras só ouve falar pelas notícias. O que há de melhor no mercado brasileiro hoje veste verde.

Claro, não somos a última bolacha do pacote. O talento inato do jogador brasileiro permite que outros clubes também montem elencos com jogadores de muita qualidade. As disputas pelo Brasileirão e principalmente pelos mata-matas estão completamente abertas.

Mas a competição contra os grandes europeus no Mundial em dezembro praticamente não existe. O que acontece é o cumprimento do protocolo. Os times sul-americanos por vezes nem chegam à final e dependem de um jogo encaixado, de um goleiro inspirado, do desdém do adversário e de muita sorte para poderem levantar o Mundial. Se um clube top sul-americano jogar dez vezes contra um campeão europeu, vai triunfar uma ou duas vezes, no máximo. E essa inferioridade se reflete na seleção brasileira: antes temida, hoje é mera coadjuvante na Copa do Mundo.

Os pilares da transformação

Academia de Futebol

São três os pilares em que os clubes brasileiros precisam se apoiar para que nosso futebol torne a ser temido: 1) saúde financeira; 2) profissionalização e modernização do departamento de futebol; e 3) departamento de base forte.

A saúde financeira é algo que precisa ser buscado pelos endividados clubes às custas de medidas recessivas. Enquanto os dirigentes insistirem em adiantar verbas em contratações ruidosas, mas de pouca efetividade, em nome de sustentação política, vão continuar como hamsters correndo na roda. O Palmeiras puxou a fila de 2013 para cá e já vemos alguns clubes vindo na esteira – o principal deles é o Flamengo. Os outros ainda seguem no ciclo vicioso de tomar empréstimo, arriscar tudo em nome de um título e de uma premiação, para depois viver anos de recessão, pagando juros. Com o tempo, tendem a aprender o modelo – alguns sobreviverão e se fortalecerão, outros “virarão Portuguesa”.

A ciência proporcionou o aumento da capacidade física dos atletas. Com jogadores que correm mais e ocupam melhor os espaços, o leque de possibilidades táticas se abriu como nunca. O jogo, que há algumas décadas era simples e decidido no talento por atletas que guardavam posição e se davam ao luxo de serem fumantes(!), agora requer muito mais estudo e dedicação de comissões técnicas e atletas, que precisam estar inseridos num ambiente cada vez mais moderno e profissional. E isso exige instalações planejadas, equipamentos de ponta e profissionais capacitados. Mais uma vez, o Verdão está na frente dos concorrentes, sobretudo depois da inauguração do Centro de Excelência. Aguardem as cópias.

Sanar a economia e desenvolver a estrutura são passos fundamentais, mas não trarão todos os resultados desejados se o terceiro pilar não estiver a pleno: as categorias de base. E o Palmeiras vem conquistando títulos como nunca nas categorias menores. Falta ainda acertar a transição do sub-20 para o profissional, para que os meninos que estejam perto de estourar a idade tenham condições de integrar o elenco principal, coisa que ainda não acontece com a frequência que gostaríamos.

Base: não tem esse nome à toa

As categorias de base são fundamentais à medida que fornecem matéria-prima para os dois outros pilares. Não é à toa que tem esse nome.

É em casa que se forma atletas de ponta, com fundamentos de jogo desenvolvidos e com estrutura mental para suportar uma carreira de enorme pressão como a de um jogador profissional.

Quando todos os principais clubes tiverem sanado suas finanças e concluído suas estruturas, algo que é apenas questão de tempo, a base será a diferença entre um clube protagonista e um coadjuvante.

Atletas extra-classe formados em casa podem subir para o time principal, gerando ganho técnico a custo baixo, para posteriormente gerar altos lucros com futuras transferências – como aconteceu com Gabriel Jesus.

Além disso, preenchem lacunas no elenco e evitam que o clube precise recorrer ao mercado para melhorar todas as posições, sobrando mais recursos para investir em necessidades específicas. Em vez de comprar 4 ou 5 jogadores nota 7 em nível mundial, será possível trazer um par de jogadores de primeiro nível. E assim o time sobe muito de patamar e passa a sonhar em bater de frente com as maiores potências mundiais.

Paramos no tempo

Os jogadores brasileiros, hoje, seguem tendo o talento natural que brota nas ruas e nos campos de várzea, ainda que cada vez mais raros diante do constante crescimento do setor imobiliário.

Enquanto o futebol ainda era decidido apenas pelo talento, o Brasil sobrava. Mas o jogo mudou e a profissionalização de todos os setores fez com que novas potências emergissem. Quem ficou parado no tempo, como Brasil, Argentina, Uruguai e Itália, foi ficando para trás. Quem diria que até a Inglaterra chegaria tão bem cotada ou até melhor que esses países para uma Copa do Mundo?

O talento natural precisa ser potencializado com novos conceitos desenvolvidos nos últimos anos. Se todos os clubes brasileiros profissionalizarem seus departamentos de base, colherão frutos. E isso surtirá efeito também na seleção, já que voltaremos a ter jogadores que superem os destaques dos outros países. Hoje, mesmo nossos melhores jogadores, não “engraxam a chuteira” dos grandes expoentes da Copa do Mundo, que já são frutos de uma geração desenvolvida com conceitos modernos de formação de atletas.

Nosso país ainda chora tragédias e tenta escrever leis para regulamentar os alojamentos dos departamentos de base. Estamos muito atrasados, no geral. O Palmeiras tenta, mais uma vez, puxar a fila.

Falta ainda ao Verdão melhorar o último passo: a lapidação dos meninos, que brilham nas categorias menores e levantam inúmeros troféus, para virarem jogadores de verdade. Se chegassem aos 20 anos realmente prontos, provavelmente seriam utilizados pelo time principal, mas isso ainda não acontece.

E depois?

Fernando e Papagaio

Ter atletas da base no elenco principal não é apenas uma questão de capricho, de gosto em ver um prata-da-casa brilhando. É uma questão de competitividade. Precisamos de um Gabriel Jesus a cada dois ou três anos. Precisamos de pelo menos dois Fernandos, todo ano.

A distância financeira entre o Palmeiras e os maiores clubes do mundo ainda é grande. Em 2018, estaríamos inseridos no top 30 mundial entre as maiores receitas, com quase € 160 milhões. Já conseguimos segurar um Dudu, que tem 27 anos, mas as ofertas por jovens de pouco mais de 20 anos ainda são impossíveis de cobrir.

Com a base funcionando a pleno, seremos capazes, no longo prazo, de ter recursos para competir com os maiores até na questão dos salários. O Palmeiras, em vez de ser a melhor vitrine, o trampolim mais alto para um jogador chegar à Europa, pode passar a ser o objetivo final de carreira. E aí bateremos de frente com qualquer um. É nessa direção que temos que remar.

É muito difícil, claro. Mas quem diria que estaríamos onde estamos hoje no final de 2012?


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Na era Allianz Parque, Palmeiras sobra no Brasileirão

Depois de quase amargar mais um rebaixamento em 2014, ano em que, em novembro, o Allianz Parque foi inaugurado, o Palmeiras vem desenhando uma trajetória ascendente bastante sólida.

Após um 2015 de reformulação e crescimento, premiado no final com a conquista da Copa do Brasil, o Palmeiras atingiu em 2016 um patamar de excelência, que se repetiu nos anos seguintes – com direito a oscilações, como todo time de ponta.

É comum na história recente do futebol brasileiro um time impor um curto período de dominação – algo que dura de dois a três anos – para depois voltar para o “bolo” e dar vez a outro. Normalmente isso acontece às custas de algum sacrifício financeiro, e é exatamente isso que faz com que após algumas conquistas o cetro de time dominante mude de mãos. SCCP, Cruzeiro, Fluminense e SPFC são os últimos exemplos.

Com o Allianz Parque a pleno funcionamento, além do ótimo patrocínio da Crefisa, o Palmeiras conseguiu subverter essa regra e inaugurou uma era de desempenho sustentado, sem recorrer a adiantamentos que condenam os clubes a se retrair após um período de títulos. Podemos constatar isso nos desempenhos nas últimas edições do Brasileirão.

Números incontestáveis

Nos últimos quatro anos, com o Allianz Parque a pleno funcionamento, o Palmeiras se consolidou como o clube a ser batido no país. Mesmo com oscilações, o Verdão conquistou dois campeonatos e ficou com um vice. Nenhum outro clube tem campanhas tão consistentes – os que mais se aproximam são SCCP, Grêmio e Flamengo.

O Palmeiras iniciou o ressurgimento em 2015, após uma reformulação radical no elenco. Os resultados no Brasileirão foram discretos, sobretudo porque, na reta final, todas as atenções foram voltadas para a Copa do Brasil. Os 53 pontos ficaram até abaixo do que aquele time poderia ter produzido.

Em 2016, sob o comando de Cuca, o Verdão foi dominante e conquistou o Brasileirão com 80 pontos. Mas uma interrupção forçada no trabalho do treinador atrapalhou bastante o planejamento para 2017, ano em que o Palmeiras, apesar da força do elenco, não encontrou um padrão de jogo suficiente para manter o domínio, ficando com o vice-campeonato – sempre é bom lembrar, com interferências decisivas das arbitragens.

No ano passado, após mais um começo irregular, o Verdão se firmou com Felipão e sobrou no segundo semestre, ganhando o Brasileirão com folga. Ao manter a comissão técnica em 2019, o time se coloca mais uma vez como forte candidato à conquista.

As ameaças à hegemonia

Outros clubes começaram a seguir nosso exemplo para buscar a sustentação financeira sem depender de adiantamentos e podem, em alguns anos, equiparar suas forças no mercado à que o Palmeiras exibe hoje. Flamengo, Grêmio e Inter tentam trilhar esse caminho, também apoiados em ótimos estádios. Mesmo assim, com exceção do time carioca, que tem uma ajuda desigual vinda dos contratos da televisão, nenhum clube parece ter o mesmo fôlego nas receitas.

Nos balanços de 2018 divulgados pelos clubes, o montante final do Palmeiras foi de R$ 653,9 milhões – uma cifra um tanto turbinada por vendas vultosas. É possível que esse montante não se repita em 2019, mas mesmo assim deve orbitar em torno dos R$ 600 milhões. O segundo colocado em 2018, o Flamengo, registrou a entrada de R$ 542,8 milhões em seus cofres, mais de R$ 100 milhões atrás do Verdão. Os outros clubes sequer atingiram a marca de R$ 470 milhões.

O Palmeiras tem tudo para seguir auferindo receitas superiores e tendo o principal combustível para manter times competitivos nos próximos anos, fazendo a hegemonia perdurar bem mais que os tradicionais dois ou três anos.

Mas cofres cheios, sabemos, não obrigatoriamente fazem um time campeão – a história é pródiga em supertimes recheados de medalhões que naufragam clamorosamente.

Só grana não basta

Os recursos financeiros precisam satisfazer a um modelo de administração esportiva complexo, a ser seguido de forma rígida. O Palmeiras construiu seu conjunto de diretrizes a partir de 2013 e o vem aperfeiçoando ao longo dos anos.

A fórmula para se manter no topo passa pelos detalhes. Além de seguir o atual modelo e mantê-lo em constante evolução, conciliar as vicissitudes da política do clube com a blindagem ao elenco e ao local de trabalho é fundamental. Tornar e manter o clube forte politicamente para não ser prejudicado pelas arbitragens podem ser os diferenciais sobretudo nas Copas, que não conquistamos há já incômodos três anos e meio.

Com tudo isso fluindo, o resto se resolve dentro das quatro linhas. Há quem diga até que houve algum retrocesso de gestão nos últimos dois anos, mas por enquanto isso não se refletiu no campo.

O que nos mantém em constante apreensão é não saber o que está sendo feito para que nossos próximos dirigentes estejam aptos a receber a caneta sem deixar que tudo o que foi construído com tanto esforço se esvaia pelo ralo. Futebol não é um negócio como outro qualquer e para ser um bom dirigente são necessários anos de vivência e um preparo específico. Saberemos nos manter no topo?


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