Hora de olhar para a parte meio vazia do copo

Mosaico
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

Doeu bastante e ainda está doendo. A eliminação da Libertadores, nos pênaltis, machucou na alma. A quinta-feira do palmeirense foi tétrica. Enquanto tentávamos lidar com as feridas abertas, os analistas se dividiam entre o escárnio e a análise objetiva – e foi uma tarefa árdua pinçar um ou dois textos que realmente tivessem algo a acrescentar ao que o senso comum do torcedor já vem detectando.

Tragédia consumada, nos apegamos ao velho copo meio cheio para não entrar em depressão profunda. Os trilhões de euros investidos não se tornaram um time competitivo a tempo, mas formam uma base excelente. Se a política predatória do clube social não atrapalhar, Alexandre Mattos vai seguir sendo o comandante do futebol. Cuca também fica para o ano que vem e a pré-temporada de 2018 já começou. Estamos na pole position.

Mas desta vez, temos que olhar bastante para a parte vazia do copo se quisermos aproveitar bem esta boa posição de saída. Se não corrigirmos o que deu errado em 2017, patinaremos na largada e ficaremos novamente para trás.

O que deu errado?

A principal causa dos problemas deste ano foi a sequência de troca de treinadores. No Brasileirão, perdemos um Derby em casa. Ficamos a quatro pontos de uma meta razoável estabelecida no início do campeonato e a 15 do líder – uma vitória nesse clássico nos deixaria a apenas um ponto da meta e a nove do líder, uma distância reversível.

Nos mata-matas, fomos eliminados por Ponte Preta, Cruzeiro e Barcelona – o de Guayaquil, não o da Catalunha. Foram confrontos diferentes, mas que tiveram algumas características em comum.

Liderança dentro de campo
Felipe Melo
Divulgação

O Barcelona, a exemplo do Cruzeiro, usou a velha catimba para esfriar o jogo nos momentos em que nossa pressão tendia a nos levar aos gols da classificação, mas o Palmeiras não foi capaz de colocar a bola no chão e se impor.

Faltou ao Palmeiras um líder em campo. Felipe Melo, contratado no início do ano tendo essa como uma de suas supostas qualidades, não conseguiu conquistar o elenco para ser essa referência; sua personalidade forte apenas inibiu outras lideranças e o Palmeiras acabou órfão.

Dudu é dinamite, é coração, é energia pura; é o capitão do time, mas não tem o perfil inato da liderança. Para piorar, vimos nosso camisa 7 sair bruscamente do jogo com uma lesão muscular.

Essa lacuna pode ser ocupada agora por Moisés, que volta de longo período lesionado. Nos 20 minutos em que ele esteve em plena forma física contra o Barcelona, desequilibrou o jogo de forma assombrosa, tanto com a bola no pé quanto orientando o posicionamento do time. Caiu de rendimento assim que sua condição física o limitou, algo que deve deixar de acontecer ao longo das próximas partidas. Conseguirá?

Exigência física questionável
Cuca conversa com Dudu em 2016
César Greco / Ag.Palmeiras

O Palmeiras arriscou – e perdeu – os pontos da partida contra o Atlético-PR para que nossos titulares tivessem plenas condições de jogar contra o Barcelona. Mesmo assim, perdeu Dudu a 20 minutos do fim do jogo. Já estava sem Willian Bigode, artilheiro do time no ano. Não obstante, o time todo se mostrava exausto ao final da partida, a exemplo do que aconteceu contra o Cruzeiro, sem fôlego para buscar a pressão final. Tal situação leva o torcedor comum a desconfiar da preparação física.

Com raras exceções, ninguém conhece nada do assunto, mas todo mundo sabe dar palpite e questiona-se o suposto excesso de lesões musculares.

No rigor dos números, o time teve cinco contusões deste tipo no ano, um número aceitável: Fabiano, em fevereiro; Dudu, contra o Inter no jogo de volta da Copa do Brasil; Felipe Melo, contra o Fluminense; Willian Bigode, contra o Flamengo; e novamente Dudu.

O que pode estar contribuindo, tanto para a fadiga quanto para as lesões musculares, é a exigência tática de fazer os jogadores de ataque darem piques que atingem muitas vezes 80 metros para perseguir as descidas dos laterais adversários. Esse problema decorre de uma preferência tática de nosso treinador.

Porco Doido sem apoio
Mina
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

A marcação alta que visa as roubadas de bola não está funcionando por dois fatores. Se a pressão é bem-sucedida, o passe buscando um finalizador bem colocado não está saindo como no ano passado: com a lesão de Willian, nem Borja, nem Deyverson conseguiram encontrar o melhor posicionamento para aproveitar esta arma – o segundo, ao menos, ainda tem a justificativa de ter acabado de chegar.

Mas o que preocupa mesmo é quando a pressão não dá resultado e o adversário tem um longo espaço entre a primeira e a segunda linhas do Palmeiras para articular seu ataque. Plantados no campo defensivo, nossos zagueiros e laterais ficam expostos a contra-ataques rápidos e nossos goleiros estão sendo bombardeados enquanto nossos atacantes correm desesperados para tentar fechar o espaço, caindo no problema já mencionado de correr demais sem necessidade.

Vazamentos
Treino Palmeiras Allianz Parque
Twitter – @b_ferri

O Barcelona levou tão a sério a questão de esconder a escalação que divulgou, de forma oficial, três formações diferentes nas horas que antecederam a partida. Essa informação, em tempos de duelos táticos cada vez mais ferozes, é muito valiosa, a despeito que opiniões que minimizam a situação.

No Palmeiras isto não vem sendo levado a sério. O time que Cuca iria levar a campo vazou mais uma vez na véspera do jogo. Guillermo Almada agradeceu.

Enquanto um grande número pessoas alheias ao futebol entre conselheiros, patrocinadores e “amigos” seguirem tendo livre acesso ao ambiente sagrado do vestiário, à Academia de Futebol em geral e aos ônibus e hotéis, vai ficar difícil estancar esses vazamentos.

Furos no elenco
Egídio
Cesar Greco/Ag.Palmeiras

O tema foi tratado aqui no Verdazzo no início da semana e os erros individuais que provocaram a eliminação apenas esquentaram ainda mais a discussão.

Egídio era o jogador mais contestado do elenco e mesmo assim, com muita coragem, foi para a batida. Falhou e possivelmente encerrou sua passagem pelo clube (injusta, caso se confirme) de forma trágica.

Jean e Fabiano estavam à disposição para substituir Mayke, mas foi Tchê Tchê quem fez a lateral direita.

E a enormidade que Moisés jogou nos faz questionar quem deveria ter feito esse papel, mesmo sem a mesma qualidade, em sua ausência. Nenhum jogador de nosso elenco chegou nem perto – o que mais se aproximou foi Guerra.

Mattos que prepare a carteira, pois precisamos ir ao mercado – de preferência já nos próximos meses. Em outubro de 1995, ano que começou cercado de altíssimas perspectivas e que terminou sem nenhum título, o Palmeiras anunciou dois jovens reforços contatados junto ao Guarani para 1996: Djalminha e Luizão. Os negócios não precisam ser sacramentados tão cedo como há 22 anos, mas já podem muito bem ser encaminhados nos bastidores.

E veio o dia 10

Assim como em 1995, o ano de 2017 tende a passar em branco. O mundo não acabou na quarta-feira, e depois do dia 9 veio o dia 10, como Cuca havia previsto. 2018 é logo ali, mas para que as decepções deste ano não se repitam – e aí as consequências seriam bem mais catastróficas – o Palmeiras precisa olhar com muita seriedade para as questões apontadas acima no que diz respeito ao ambiente de trabalho, à formação de elenco e ao projeto técnico. Gostamos de olhar o copo meio cheio, mas a parte vazia precisa de muita atenção.

O presidente Maurício Galiotte terá muito trabalho pela frente nos próximos dias.