MEMÓRIA: Evair, de ‘elefante branco’ a ídolo da torcida

Por Thell de Castro

Careca e EvairNa coluna de estreia, falei sobre as ‘forças negativas’ que acompanhavam o time do Palmeiras em 1992, antes da chegada da Parmalat. Voltamos um pouco mais no tempo e, ainda naquela seca de títulos e ídolos, lembramos que a situação não era fácil.

No dia 10 de junho de 1991, a Folha de S. Paulo noticiou a chegada de um jogador conhecido por ser artilheiro por onde passou. “Palmeiras acerta a troca de Careca por Evair”. Trechos da matéria:

“O Palmeiras acertou a troca do atacante Careca [Bianchesi] por Evair, que estava na Atalanta, de Bergamo, da Itália. O negócio foi fechado no sábado depois de uma reunião entre Franco Previtalli, dirigente do clube italiano, e o jogador palmeirense. Os clubes já tinham feito o acordo.

A troca dependia do acerto dos jogadores com seus novos clubes. (…) O centroavante Evair, 25 (1,89 m e 80 kg), ficou três temporadas na Atalanta, onde formou ataque ao lado do argentino Cláudio Caniggia. Na temporada 1988/89, o ex-jogador do Guarani de Campinas jogou 25 partidas e marcou dez gols. (…) No último campeonato, o time não foi bem e a diretoria resolveu fazer mudanças. O desejo de Evair de voltar ao Brasil motivou a troca. Sua data de apresentação não está definida”.

No dia 12 de junho, a mesma Folha fez uma matéria sobre a apresentação de Evair e perguntou se a contratação era um bom negócio. Vamos aos trechos de “Evair se apresenta ao Palmeiras e fará exames durante cinco dias”:

Evair“O real estado clínico do centroavante Evair, que se apresentou ontem no Palmeiras, ainda é uma incógnita e sua contratação corre o risco de entrar para a galeria dos maus negócios do clube. O novo patrimônio do Palmeiras, avaliado em aproximadamente US$ 800 mil, veio do Atalanta”.

Em suma, a matéria dizia que Evair tinha problemas físicos, como uma hérnia de disco da época do Guarani que não se manifestou nas três temporadas em solo italiano. Um pouco antes, o time contratou Rubem, do Guarani, abriu mão dos exames médicos, o jogador tinha problemas no joelho, foi operado e acabou ficando meses fora dos gramados.

No dia 18 de junho, a Folha trouxe outra matéria, “Hérnia de disco de Evair aumenta os maus negócios do Palmeiras”. Tudo conspirava contra a contratação do jogador, que quase foi devolvido. Por curiosidade, vamos listar alguns trechos desta matéria de Mauro Teixeira, que cita péssimos negócios feitos pelo clube.

“A hérnia de disco detectada no atacante Evair vem coroar uma série de maus negócios feitos na gestão de Carlos Facchina Nunes na presidência do Palmeiras desde 89. (…) Evair custou US$ 1 milhão ao Palmeiras, que recebeu mais US$ 2 milhões pelo passe de Careca. Enquanto o ex-palmeirense serve à seleção brasileira que disputará a Copa América, o clube do Parque Antarctica terá de decidir o que fazer com o elefante branco que tem nas mãos.

A Folha apurou que o minucioso exame feito em Evair, que incluiu uma tomografia computadorizada, apontou a hérnia de disco. De salvador da pátria, Evair transformou-se num ‘jogador de risco’. O seu destino só será decidido na reunião marcada para o dia 24, quando ele volta de Crisólia (MG), onde acompanha o estado de saúde de seu pai.

A reunião contará com a presença do técnico Nelsinho e terá como pauta o relatório já entregue à diretoria pelo médico do clube, André Pedrinelli. Os dirigentes devem convocar ainda o procurador de Evair e poderão até tentar desfazer o negócio com o clube italiano. O parecer médico desaconselha a contratação do atacante e coloca a responsabilidade sobre os ombros dos dirigentes.

Caso o negócio seja desfeito, a frustração de torcedores e ‘corneteiros’ poderá colocar mais lenha na fogueira do agitado ambiente político do Palmeiras. Na tentativa de quebrar o jejum de 15 anos sem títulos, a diretoria do clube tem provocado frequentes crises com ‘negócios da China’”.

Veja você que “agitado ambiente político do Palmeiras” está (e estará) em todas as colunas que fizermos aqui no Verdazzo, seja em 1978, 1986, 1991, 1992, 2003, 2017, entre muitas outras matérias que estou pesquisando… Confira no quadro abaixo alguns dos negócios feitos por Facchina que foram enumerados pelo jornal.

Maus Negócios
Reprodução: Folha de S.Paulo

No dia 21 de junho, veio o “dia do fico” de Evair no clube. Confira trechos da matéria “Dirigentes do Palmeiras garantem a permanência de Evair no clube”:

Nelsinho Baptista e Evair“A cúpula do Palmeiras dedicou a tarde de ontem para os desmentidos. Ela formalizou que o futuro do centroavante Evair não está ameaçado no clube, que aproveitará o jogador no Campeonato Paulista mesmo com a constatação da hérnia de disco através de uma tomografia computadorizada. O médico André Pedrinelli negou que o atacante corre o risco de uma cirurgia.

Ele garantiu que Evair está apto a jogador futebol sem a necessidade de um tratamento especial. Na verdade, não havia outra alternativa aos dirigentes senão assumir a permanência no Palmeiras. Se ele tivesse uma lesão mais grave que comprometesse sua atividade normal, dificilmente o clube conseguiria repassá-lo para outra equipe pela repercussão negativa do fato.

O triunvirato de diretores que acompanhou o ‘caso Evair’ – Adriano Beneduce, Jorge Adamo e Gilberto Cipullo – se debruça no argumento de que Evair jogou três temporadas no Atalanta, da Itália, sem nada sentir. (…) O trio desmentiu, ainda, que o zagueiro Luís Eduardo, contratado na segunda-feira, tenha um problema no púbis. ‘É mentira’, afirmou Adamo. Ele revelou que o departamento médico obteve informações do Grêmio, ex-clube de Luís Eduardo, dando conta que ele jamais teve essa lesão”.

No dia 25 de junho, Evair se apresentou novamente, treinou durante 40 minutos, não sentiu nada e prometeu que ficaria em forma física para a disputa do Campeonato Paulista, em julho.

Evair estreou no Palmeiras no dia 7 de julho de 1991, em amistoso contra o Mogi Mirim, quando o Verdão foi goleado por 4 a 2. “Foi a primeira derrota do técnico Nelsinho desde que assumiu a direção do time palmeirense. Demétrio (2), Givanildo e Afrânio marcaram para o Mogi, enquanto o estreante Evair e Betinho anotaram para o Palmeiras, ambos em cobrança de pênalti”, informou pequena nota da Folha de 8 de julho.

No dia 10 de julho, o Palmeiras acertou a contratação de César Sampaio junto ao Santos. Desta forma, vemos que alguns dos ídolos do esquadrão de 1993/1994 já chegaram ao clube em 1991.

O tempo passa…

EvairPara finalizar, abaixo trechos de reportagem de 10 de novembro de 1991, “Palmeiras desafia primeiros sinais de crise”:

“O clássico de hoje é decisivo para o Palmeiras, apesar de o técnico Nelsinho afirmar o contrário. O time já começa a dar sinais de instabilidade emocional, ocasionada pela necessidade imediata de conquistar um título. A perda da liderança do grupo Verde para o Corinthians, na fase de classificação, e a precipitação do departamento médico em liberar alguns jogadores abriram feridas que não suportam uma derrota.

O problema mais grave está no ataque, o ponto fraco da equipe. Sem Evair, em recuperação de uma contusão no pé esquerdo há 50 dias, o Palmeiras não encontrou um substituto. Os médicos alteraram os métodos de tratamento, passam a adotar infiltrações de analgésicos e acreditavam que ele poderia jogar hoje. Evair chegou a pedir ao técnico para ficar pelo menos no banco de reservas. ‘É um absurdo. Você não está curado’, foi a resposta de Nelsinho”.

Posteriormente, em 1992, durante outra crise na equipe, como já falei no primeiro texto aqui no Verdazzo, Evair foi afastado da equipe por Nelsinho, por ‘deficiência técnica’ e por problemas disciplinares, como em entreveros com o companheiro de equipe Betinho. Cogitou-se até a negociação do jogador. Com a chegada de Otacílio Gonçalves, ele foi reintegrado e, com a ajuda da equipe milionária montada pela Parmalat, fez gols decisivos, foi um dos líderes da equipe e nos deu muitas alegrias, se transformando em um grande ídolo.

Enfim, Evair Aparecido Paulino ficou no Palmeiras entre 1991 e 1994, depois voltando para a vitoriosa campanha na Libertadores de 1999. Fez 245 jogos com a camisa alviverde e marcou 126 gols, uma média superior a 0,5 por jogo.

Evair
Daniel Guimarães/Folhapress

O que seria um “elefante branco”’, como disse a Folha, se transformou em um excelente negócio. Como sabemos, Careca Bianchesi sumiu e, provavelmente, não nos daria tantas alegrias quanto Evair. Isso mostra que, muitas vezes, é preciso arriscar – mesmo que, neste caso, como as matérias mostraram – foi mais pelo medo do ‘mico’ do que uma aposta verdadeira.

Só nos resta agradecer a Evair por tudo que fez em sua passagem pelo Palmeiras, particularmente a atuação de gala, por exemplo, na final do Paulistão de 1993, entre tantas outras.


Thell de Castro é palmeirense, jornalista e editor do site TV História

  • Só eu que ainda acho que o Dudu vai alcançar esse Status de ídolo se permanecer no Palmeiras mais alguns anos?

  • Algumas considerações:

    1) Que texto maravilhoso…. parabéns para o autor, que venham mais elucidações assim!

    2) Faz-se do texto uma analogia com as cornetas nada profissionais da nossa torcida. Parte da torcida amendoin mandaria embora (de graça, talvez) cada jogador que errasse um passe! É uma coisa insana e que só traz malefícios ao time, mas eles teimam em não mudar. Parecem torcer pra que tudo dê errado só pra dizer que tinham razão… Precisamos investigar o raciocinio do dna desse povo!
    Eu queria muito que eles assistissem jogos antigos dos melhores times que eles têm na cabeça. Ctz que nunca fizeram isso. Pelé errava pra cacete, mas a gente só vê os lances geniais… Então a comparação é essa. Ou vc faz um lance genial ou vc é um lixo e não presta pra nada…. Isso, continue agindo assim q vc vai longe colega!!

    3) Toda contratação é de risco! Ninguém consegue prever o futuro.

    4) Paciência e trabalho num ambiente profissional dão resultado. O resto é papo furado e casuísmo.

    5) Essa camisa da Coca-Cola foi a camisa mais marcante da minha vida!! E o melhor presente que já ganhei.

    6) Evair é ídolo em nível incontável.

    7) Se vc é palmeirense e não teve a oportunidade na vida de vivenciar a final Palmeiras x Gambás do paulista de 93. Por favor, tire um tempo, abra uma cerveja e assista no youtube. E tente contextualizar que estavamos 17 anos sem um título!!!! Aquele dia valeu por uma vida…

    Abraços a todos os amigos que vivem essa paixão diária de Palmeiras!!!!

  • 12 de Junho de 1993
    28 min 2°T
    G0000000000000000000000000000000000000000000ooooooooooooooooooooooo00000000000LLLLLLl !!! Mazinho passa por dois gambazenses e toca na pequena área para Evair fazer o segundo do Verdão!

  • Não me lembro qual era o narrador…
    Mas era de arrepiar:

    EVAIR… EVAIR… ÊÊÊÊ VÁÁÁÁ IRRRR jaqueta nove!!!

  • Na epoca o Cesar Sampaio veio em troca do Ranieli e do Serginho Fraldinha. Será que a Folha também achou mau negócio?

  • É muito gostoso ler essas matérias. Meu primeiro ídolo foi o Edu Marangon. Achava aquela canhota espetacular.

    • Saiu quando tinha atingido seu melhor estágio no clube.

      Uns dias antes de ser dispensado, fez uma jogada de craque fintando 2 adversários e quase fazendo o gol, num amistoso contra o Parma no próprio Palestra. O jogo foi 2×0 e, se não me engano, um dos gols foi do Betinho (o outro não lembro nada).

      no seu primeiro jogo depois de ter saído, re-estreando pelo NPS< exatamente contra nós no Porcambu, foi efusivamente ovacionado pela Mancha antes do jogo começar.

      O jogo terminou 2×0, um gol de Galeano de cabeça e o outro não lembro.

      Foi um dos últimos jogos nossos treinados pelo Nelsinho, já na fase que Evair estava afastado há meses.

  • Afastado por deficiência técnica, cogitado para negócios, reintegrado por outro treinador… Parece até que estou lendo notícias de jogador de hoje em dia.

    Instabilidade política por conta da fila e a obrigação de ganhar um título imediatamente… Parece até que estou lendo notícias sobre o elenco desses dias atrás.

    Imprensa pondo lenha na fogueira e nos crucificando… Essa daqui parece notícia de hoje mesmo.

    Engraçado como algumas coisas se repetem.

  • A primeira lembrança de atuação destacada foi um 3&0 no Novprizpntino, lá. Ele fez um golaço em q conduzia a bola e fintava o goleiro. Depois, contra Bragantino no Parque, outro golaço, matando no peito um passe longo e alto do Marangon e batendo colocado, na saída do goleiro; no q hoje é Gol Norte.

    Antes desses 2, tinha havido o golaço de falta na Vila: batemos o NPS< 1×0, mas ele não se destacou no jogo, fez "só o gol"…. (até comentamos esse jogo no WhatsApp Padrinhos, sábado passado).
    No mais, além da brilhate passagem, os problemas iniciais, o afastamento e o apogeu — tudo bem destacado pelo Thell — uma coisa acabou marcando a carreira de EVAIR conosco: as contusões. Em 91, 92 e 93, sua presença nas fases finais do Paulista se viram bem ameaçadas e ocorreram c muito sacrifício. Em 91, vi ao vivo no Parque qdo ele se machucou numa queda tentando aproveitar um escanteio contra a Ferroviária. Em 92, se machucou pela seleção num amistoso q precedeu a prim perna da semifinal contra o InterRS CdBr. Em 93, não lembro qdo foi a contusão, mas foi bem complicada: ele só voltou na final.
    Claro q o profissionalismo e o empenho de EVAIR fizeram toda diferença nesses 3 casos.
    Uma lembrança q não gostaria de ter: te-lo visto c o traje Jd Leonor.
    Mas, td bem: saudações a um dos maiores, mais completos e memoráveis jogadores de nossa história.

    #VivaEvairElMatador

  • Grande Evair! Superou todas as dificuldades possíveis no Palmeiras e se tornou um grande ídolo do Verdão! Seremos eternamente gratos a ele! Obrigado por tudo Evair Aparecido Paulino!