O mistério dos jogadores do Palmeiras com a camisa manchada

No exercício diário de coleta de imagens que comporão o Almanaque do Verdazzo, notamos uma particularidade curiosa.

Nas imagens capturadas quando os jogadores estavam ainda se preparando para iniciar a partida, dentro do campo, vários deles aparecem com o lado esquerdo do peito manchado.

Não parece ser suor, já que essa marca fica sempre do lado esquerdo, especificamente sobre o escudo do clube. Parece mais um líquido espirrado deliberadamente.

Não há padrão: são estádios diferentes, em épocas diferentes. Acontece com os piores bagres e com craques consagrados. Confira a galeria:

Sabemos que o futebol é um esporte cercado de mandingas. Nos anos 70 e 80, muito mais do que hoje.

Seria essa mancha algum tipo de água benta espirrada sobre o peito dos jogadores? Quem seria o autor desse ritual?

Isso também acontecia em outros clubes ou era só no Palmeiras?

Quem souber essa, pode esclarecer nos comentários. Vale perguntar para os mais velhos!

Chega ao fim a história de Luiz Felipe Scolari no Palmeiras

A diretoria do Palmeiras anunciou no final da noite de ontem a demissão de Luiz Felipe Scolari do comando técnico do time. A decisão vem depois de um grave declínio no desempenho da equipe após a parada para a Copa América.

Contando o amistoso contra o Guarani, foram 14 jogos, com apenas 3 vitórias, 6 empates e 5 derrotas. As vitórias vieram na Libertadores e na Copa do Brasil, competições em que o Palmeiras acabou eliminado. No Brasileirão, as sete partidas sem vitória custaram uma liderança folgada, com cinco pontos de margem.

Antes da intertemporada, o time atravessava uma fase brilhante. No primeiro semestre, foram 33 jogos, com 23 vitórias, 8 empates e apenas 2 derrotas.  O time bateu alguns recordes históricos e sustentou uma série invicta de 15 partidas, com 13 vitórias.

Felipão encerra sua terceira passagem com um saldo bastante positivo: foram 46 vitórias, 23 empates e apenas 10 derrotas (incluindo dois empates sob o comando de Paulo Turra). Um aproveitamento de 67,9%. Contando todas as passagens, foram 485 jogos no Palmeiras, o segundo técnico que mais dirigiu o clube. Aos 70 anos, dificilmente esta lenda voltará a comandar o Verdão.

Um Felipão evoluído

Paulo Turra, Felipão e Carlos Pracidelli
Divulgação

O estilo de Felipão nesta terceira passagem foi um tanto distinto do que acostumamos a ver em suas duas passagens anteriores pelo Palmeiras, e mesmo na seleção da CBF. Mais evoluído e atualizado do que nunca, o general trocou as observações de Murtosa, seu parceiro durante décadas, pela dupla Paulo Turra/Carlos Pracidelli, que inseriram metodologias modernas de treinamento e de definições de estratégia.

Com isso, o estilo “sargentão” mostrado principalmente em sua primeira passagem esteve bastante pálido. O aspecto tático nunca esteve tão presente em seu comando, em detrimento ao motivacional. Talvez isso tenha feito falta nos momentos derradeiros.

O que não mudou foi sua disposição em proteger o grupo para manter o comando no vestiário, outra de suas grandes marcas. Felipão sempre fez questão de isentar seus atletas diante dos insucessos, cometendo, com isso, alguns deslizes – o mais problemático foi a infeliz frase após a desclassificação na Copa do Brasil, nos pênaltis, diante do Inter. A expressão “ninguém morreu” tinha a intenção de manter o apoio da torcida aos atletas diante da perspectiva de outros dois campeonatos ainda em disputa, mas acabou ganhando a conotação de debochar da decepção dos torcedores, o que o desgastou bastante.

Outro aspecto que manteve uma marca da carreira de Scolari foi o estilo de jogo apoiado num sistema defensivo intransponível. Ao atrair os adversários para nosso campo de defesa, sempre muito bem protegido, Felipão abria espaços em nosso campo ofensivo, para que velocistas o aproveitassem em contra-ataques rápidos, com poucos e precisos passes, chegando rapidamente às finalizações.

A imprensa, como sempre, sua inimiga

Mesmo com um desempenho espetacular entre julho do ano passado e junho deste ano, quando comandou uma inesquecível arrancada rumo ao décimo Campeonato Brasileiro e esculpiu uma série invicta memorável, o Palmeiras de Felipão atraiu a antipatia da imprensa e, de forma incrível, de parte de nossa própria torcida.

Os resultados magníficos não eram suficientes para calar as críticas, que apontavam sobretudo para a falta de toques na bola. Um sistema defensivo ultra-sólido não era bom. Chegar rápido ao gol adversário não era bom. Exigiam tabelas, passes vistosos.

A cruzada pelo “jogo bonito” nunca foi tão intensa, tendo sempre como antagonista o Palmeiras de Felipão, uma figura que jamais gozou de prestígio com os repórteres. Suas preferências políticas e estilo enérgico jamais foram bem digeridos pela classe.

Assim, a imprensa, que sempre se pautou pelos resultados, do nada passou a defender filosofias de jogo. Tomemos como exemplo o Santos: de forma inédita, os resultados decepcionantes do time de Sampaoli passaram a ser relativizados. Até um massacre de 4 a 0 no Pacaembu.

A força dos meios de comunicação minou a confiança de parte de nossa torcida e, na esteira, de parte de conselheiros do clube. A fase de oscilação, que foi entremeada por jogos em que as arbitragens nos roubaram abertamente, custou duas eliminações e a perda da liderança. Neste momento o resultadismo voltou a falar alto e a pressão sobre a diretoria foi grande. A cabeça do técnico e do Diretor de Futebol foram exigidas. Para sua própria proteção, Mattos decidiu demitir Felipão e assim aliviar a pressão sobre si.

Primeira prateleira

Felipão está, facilmente, na primeira prateleira dos ídolos históricos destes 105 anos de existência da Sociedade Esportiva Palmeiras. Sua saída do clube, provavelmente definitiva, implica em luto.

Tivemos o privilégio de testemunhar, mais uma vez, uma lenda viva entre nós. A trajetória de Luiz Felipe Scolari o faz um dos grandes personagens da História do Futebol. E sua imagem está indelevelmente ligada ao Palmeiras.

Só podemos desejar a Felipão o melhor. Um grande líder, um profissional exemplar, um homem excepcional. OBRIGADO POR TUDO, MESTRE!

Vamos em frente

A vida segue. O Palmeiras está vivo na disputa do Brasileirão e uma virada no comando sempre tem o poder de acelerar o tempo de recuperação.

Mas o Palmeiras, depois de mais uma grande lição aprendida, precisa pensar o que quer para seu futuro. Já não basta construir resultados brilhantes; para nós, é necessário encantar. Felipão estava construindo uma identidade vencedora, sem a menor preocupação com beleza. Objetivo, estava montando uma máquina que fazia mais gols do que tomava na maioria absoluta das partidas. A interrupção deste trabalho é uma chance de caminhar em direção à competitividade aliada à beleza.

É óbvio que queremos de ser campeões com um time jogando futebol esteticamente bonito sem deixar de ser competitivo. É possível. Mas se fosse fácil, todo mundo faria.

O desafio está à nossa frente: encontrar alguém capaz de extrair o máximo das qualidades que nosso elenco, inegavelmente, possui, ganhando títulos e encantando. Alguém com capacidade para comandar um elenco pesadíssimo e de suportar a pressão de ser o técnico de um clube, agora oficialmente, antipático.

O Palmeiras está atrás de um profissional que consiga montar uma identidade de jogo dentro desses conceitos, para ser aplicada por muitos e muitos anos e replicada em nossa base, para que os meninos possam ser integrados ao time de cima preparados da melhor forma.

Quem será o homem capaz de executar esta tarefa?


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Palmeiras faz 105 anos em meio a ressurgimento histórico

Fábio; Wendel, Lúcio, Tobio e Juninho Pampers; Marcelo Oliveira e Wesley; Mouche, Allione e Leandro Calopsita; Henrique Ceifador. No dia 23 de agosto de 2014, sob o comando de Ricardo Gareca, esse time encerrou o primeiro centenário do Palmeiras vencendo o Coritiba por 1 a 0, no Pacaembu.

A vitória só deve ter vindo por vontade dos tais deuses do futebol, que reconheceram a importância da data e nos deram de presente a vitória magra, com gol de Juninho Pampers. O Palmeiras vinha de três derrotas e também perderia os três jogos seguintes. A eliminação na Copa do Brasil com duas derrotas inapeláveis para o Atlético-MG, mais uma derrota em casa para o Inter, inauguraram o segundo centenário provocando a demissão do técnico argentino.

De lá para cá, muita coisa mudou na vida do Verdão. Na verdade, a mudança já havia começado, mas ainda era invisível aos olhos da imprensa e da grande torcida. O time que entrou em campo há cinco anos ainda era parte do remédio amargo que nosso clube foi obrigado a engolir para se curar de uma farra de dirigentes que durou quase 40 anos.

Após dois rebaixamentos na parte final de seu primeiro século de existência, o Palmeiras do segundo centenário, o pesadelo dos adversários, a pedra no sapato da imprensa, está de volta, mais protagonista do que nunca.

Anos difíceis

Na segunda metade da década de 2000, o Campeão do Século XX era apenas a quarta força do futebol paulista. Ainda se recuperando moralmente do primeiro rebaixamento, em 2002, o time fazia campanha sofríveis, relembrando os anos de chumbo da década de 80. O Palmeiras era inofensivo. Não incomodávamos ninguém e os adversários tinham até pena de fazer chacota.

Após uma reviravolta política pelas mãos de Affonso Della Monica e Luiz Gonzaga Belluzzo, o Palmeiras ensaiou um retorno, chegou a vencer um Paulista, mas para alçar voos mais altos o clube fez algumas loucuras. O all-in foi um fracasso e uma recessão tornou-se necessária.

A “Nova Arena”, que viria a se chamar Allianz Parque, estava sob construção. O Pacaembu, que hoje nos recebe de forma simpática e calorosa, era uma de nossas casas, ao lado do Canindé e da Arena Barueri. O Palmeiras não tinha estádio, não tinha identidade, não tinha dinheiro, e sofria.

Sob a caneta de Arnaldo Tirone, em vez de uma gestão austera para recuperar as apostas perdidas no fim da década de 2000, o que se viu foi o inverso. O clube esgotou sua capacidade de endividamento; a gestão do futebol foi a pior de nossa História e, mesmo com a mágica conquista da Copa do Brasil em 2012, veio o segundo rebaixamento.

Quando ressurge o alviverde imponente

A primeira gestão de Paulo Nobre reconstruiu o clube desde os alicerces. O remédio foi amargo. O time que jogou a segunda divisão em 2013 era ainda pior que o de 2014, que abriu este texto. Mesmo assim, ainda ameaçou fazer graça na Libertadores.

Mas o foco não podia ser o time, e sim a recuperação estrutural, financeira e moral. O futebol só precisava sobreviver mais um pouco. O Allianz Parque estava perto de ser concluído e Gareca parecia ser o comandante ideal para iniciar a trajetória do segundo centenário apontando para o alto.

A derrocada daquele time quase jogou tudo por terra. Não deu liga. Fernando Prass, um dos esteios técnicos e morais do time, lesionou-se com gravidade. Henrique e Alan Kardec deixaram o clube de forma polêmica. Wesley corria com o freio de mão puxado. Valdivia de vez em quando corria, mas logo levava a mão à cotcha. Da espinha dorsal idealizada para aquele grupo, só restava Lúcio, que àquela altura da carreira talvez servisse como complemento, não como pilar principal.

Quase veio o terceiro rebaixamento. Mas o Palmeiras sobreviveu graças a um gol do Ceifador, o primeiro no Allianz Parque – e a um insucesso do Vitória, naquela mesma tarde. E assim o alviverde imponente pôde ressurgir.

Uma nova era

A partir de 2015, com o recém-inaugurado Allianz Parque, iniciou-se uma nova era no clube. A torcida se engajou; o Avanti decolou e se tornou uma fonte de renda robusta e inédita entre clubes brasileiros, trazendo com ele rendas fantásticas. Tudo fruto da reconstrução administrativa dos dois primeiros anos.

Esse potencial foi enxergado por um conglomerado financeiro sólido, a Crefisa, que juntou-se ao time e tornou o Palmeiras ainda mais forte. Os resultados esportivos não demoraram e o Campeão do Século XX, que deu 14 anos de vantagem para os adversários, finalmente respondeu ao tiro de largada do Século XXI.

De cinco anos para cá, muita coisa mudou, agora a olhos vistos. Hoje o Palmeiras não é mais a quarta força do estado, o time de cuja torcida dava até dó de tripudiar. Somos o protagonista do futebol nacional, e por consequência, o mais odiado pelas outras torcidas nas redes sociais e pela imprensa. E estamos tirando a vantagem dos outros. Logo, os passaremos, para sermos o Bicampeão dos Séculos.

As mesas redondas da vida ainda tentam achar um meio de atacar o profissionalismo que sempre defenderam, e que para suas desgraças, foi aplicado com excelência justo pelo Palmeiras, que hoje puxa a fila da administração moderna no futebol. O clube-modelo não é mais o SPFC, que era apenas aquele que tinha um olho em terra de cego. As parcerias picaretas do SCCP, tão exaltadas, já não são suficientes e o clube deve até pra tia das marmitas. Apenas o Flamengo é quem está conseguindo imitar com algum sucesso nosso modelo de administração, tendo como fonte principal de renda a televisão, e não a torcida.

É por tudo isso que temos que ter muito orgulho de nosso clube, que hoje completa 105 anos e deu uma volta por cima impressionante no destino. A política interna ainda apronta das suas; o que há de pior na natureza humana segue acontecendo nas alamedas, feridas seguem abertas e o futuro é incerto. Mas a onda do futebol é positiva e tende a durar mais alguns bons anos, mesmo se tudo der errado na política.

Hoje, o nosso quarto centroavante, que é um bom jogador, é o mesmo que era titular e destaque do time de cinco anos atrás. Nada mais simbólico.

Parabéns Palmeiras!


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O maior de todos os títulos do Palmeiras completa 26 anos

O palmeirense que nasceu em 1970, ou um pouco depois, é cascudo. Ser palmeirense naquela época, assim como hoje, era moleza; eram títulos atrás de títulos. Minhas primeiras lembranças futebolísticas datam de 1977, quando fui instruído por meu avô parmerista a torcer pela Ponte Preta na final do Paulista e pelo Galo na final do Brasileiro. Não deu certo. Mal sabíamos que aquilo era só o começo de uma saga.

As frustrações começaram a se acumular no Brasileiro de 78, quando o diretor de futebol Mustafá Contursi resolveu deflagrar uma crise às vésperas das finais por causa do bicho dos jogadores. Com 7 anos, depois do Beto Fuscão entregar o gol para o Careca, só perguntei para minha mãe se o segundo colocado também ganhava troféu. Ela disse que achava que sim, só para me confortar. Meus primos, um ou dois anos mais velhos, ainda contavam vantagem pelo título de 1976, ganho com um gol do Jorge Mendonça. Eu não via a hora de ser campeão também.

Veio 1979 e o Palmeiras pereceu nos pés de Falcão, no Morumbi lotado, num grande jogo. O Paulista foi manobrado por Vicente Matheus, e mesmo depois de ganhar os três turnos, um gol de canela de Biro-Biro nos tirou da luta.

Em 1980 começaria uma sucessão de times horrorosos, com personagens folclóricos. O símbolo da ruindade acabou sendo o zagueiro Darinta, de 1981 – um tanto injustiçado, que paga mais pelo nome incomum, já que não era pior que a maioria de seus companheiros de defesa, Benazzi, Deda e Jaime Boni.

Anos de luta – e mais frustrações

Um sopro de esperança surgiu em 1982, com um time montado com Baltazar e Enéas, que se juntaram a Luís Pereira, Aragonés e Jorginho. Sob a batuta do seo Minelli, o time não fez feio, mas perdeu. De novo. Assim como em 1983, quando fez duas semifinais duríssimas contra o SCCP, e acabou parando num gol solitário de Sócrates.

Em 1984 até deu orgulho. Depois de vacilar no Brasileiro (eliminado num grupo com Santos, CRB e Fortaleza, mesmo finalizando a campanha com três vitórias e um sonoro 7 a 0 no time alagoano), o time iniciou o Paulistão, por pontos corridos, voando. Mario Sérgio comandava o time que abriu frente na tabela, até pegarem nosso camisa 11 no exame antidoping. Cisco Kid foi suspenso por seis jogos, nossos pontos da vitória sobre o SPFC foram retirados (!!!) e o time sentiu demais a saída do craque doidão, despencando na tabela.

Em 1985 a palavra “fila” começou a aparecer nos noticiários e o Palmeiras perdeu o respeito que tinha imposto por anos e anos de conquistas. Viramos piada, coroada com a vexatória eliminação para o XV de Jaú, no Palestra lotado. Era só ganhar e ir para a semifinal contra a Lusa.

Mas com Edmar, Éder e Mirandinha, mais os garotos Gerson Caçapa e Edu Manga, sempre ao lado dos símbolos do time Jorginho e Vágner Bacharel, o time de 1986 virou uma semifinal roubadíssima sobre o SCCP com direito a gol olímpico, para perder o título para mais um time do interior: a Inter e Limeira, em dois jogos no Morumbi lotado de palmeirenses. A fila completava duas mãos cheias, e os moleques com 15 para 16 anos continuavam sem ver seu time campeão.

Agora vai? Não, não vai

Em 1987 o time enfileirou uma sequência de 12 jogos sem tomar gols, revelando o goleiro Zetti. Ganhou o primeiro turno e nossa torcida, carente, gritou “é campeão!”, para diversão dos rivais. Caímos na semi, num gol do meio da rua de Neto, então no SPFC, que entrou pelas canetas de Zetti. O Brasileiro – então “Copa União”, foi um fiasco, assim como a do ano seguinte, da qual só se aproveita a vitória nos pênaltis sobre o Flamengo, com o centroavante Gaúcho no gol.

O ano de 1989 começou promissor, com mais uma baciada de boas contratações. Leão iniciava sua carreira de técnico e alçou Velloso ao time principal. Edu Manga liderou uma campanha memorável, invicta, até o triangular semifinal – uma dolorosa derrota no Marcelo Stéfani criou o Bragantine’s 13 anos, mais uma piadinha que nos deu uma prolongada ressaca. E piorou no fim do ano, eliminados no Brasileiro por um gol de calcanhar de Claudio Adão.

O Palmeiras poderia ter se vingado do Bragantino em 1990 – bastava vencer a Ferroviária no Pacaembu lotado e ir à final – mas o empate por 0 a 0 classificou o Novorizontino, que assim fez uma inédita final caipira; o zagueiro Aguirregaray perdeu um gol incrível no último lance, piorando nossos pesadelos. Na sequência, a fraca campanha no Brasileirão fez a fila aumentar mais um ano. Mais dois, porque 1991 também foi um ano fraco, apesar do time ser guerreiro. Não tínhamos ideia do que significavam as chegadas de César Sampaio e Evair – à época, eram apenas mais duas entre tantas dezenas de tentativas.

Em 1992 o time seguia a sina de derrotas e eliminações, até que a co-gestão com a Parmalat foi iniciada. Chegaram os primeiros presentes – a começar pelo centroavante-sensação do Vasco, Sorato. No segundo semestre, chegaram Mazinho e Zinho. O time chegou, depois de seis anos, a uma final, mas não estava pronto para bater de frente com o forte SPFC de Telê Santana. Aquele vice-campeonato nem doeu tanto.

O ano da graça de 1993

Todo esse preâmbulo foi necessário para que os mais novos tenham a noção do quanto foi duro esse período de frustrações, sobretudo para a turma de 1970 e arredores. Com 22 para 23 anos de idade, continuávamos virgens de títulos, enquanto os rivais e inimigos nadavam em troféus. Mas com a chegada do quarteto composto por Antônio Carlos, Roberto Carlos, Edílson e Edmundo, a esperança se renovou, mais uma vez.

Otacílio Gonçalves montou a base e o time estava jogando bem, mas ainda oscilava. Uma sequência de três derrotas em abril – Vitória, pela Copa do Brasil, Mogi Mirim e SPFC, pelo Paulista – derrubou o bonachão treinador, mas a base estava pronta para que o novato Vanderlei Luxemburgo pudesse brilhar.

O Palmeiras ainda disputava a Copa do Brasil e acabou eliminado pelo Grêmio nos pênaltis, mas a torcida estava mesmo focada no Paulistão – e o Palmeiras voou no quadrangular semifinal, com seis vitórias em seis jogos contra Guarani, Ferroviária e Rio Branco. No outro grupo, o SCCP roubou o SPFC e veio para a final.

Nosso time era muito, muito melhor, mas o peso da fila era brutal. Todas as memórias descritas neste texto afloraram, mesmo nos corações dos palestrinos mais velhos. A imprensa, vestida de preto e branco, colocava toda a pressão que podia em nossos jogadores. Nas ruas, a pergunta que machucava: “você já viu seu time ser campeão?”. Não, seu FDP, nunca vi. Mas vou ver.

As finais

6 de junho, domingo. O SCCP tinha jogadores limitados, mas era comandado por Neto, que batia faltas de qualquer canto do gramado e resolvia. Nelsinho Baptista entendeu a limitação de seu elenco e montou um time consistente, no limite da capacidade. Nosso time era uma constelação, que brigava muito mais com os próprios fantasmas.

Numa partida muito nervosa, o SCCP abriu o placar aos 13 minutos, num gol do centroavante Viola, que se atirou na bola e, quase sem ângulo, escorou para o gol. A pressão sobre nossos jogadores foi na estratosfera, como acontece até hoje em Derbies, para qualquer lado. Até nosso time voltar para o jogo, já estava no segundo tempo. Martelamos, martelamos, mas o gol não saiu. A torcida deles vibrou no apito final. Parecia que a fila ia aumentar. Mas algo dizia, ainda no estádio, que as coisas iam mudar. E todos os palmeirenses, num fenômeno de esperança, juravam que estariam de volta no jogo seguinte.

Aquela semana foi um inferno. A imprensa deitou. Rasgaram os diplomas e exageraram nas provocações, sobretudo porque Viola, ao marcar o gol, ficou de quatro e imitou um porco chafurdando. Aquilo foi sabiamente usado por Luxemburgo, que deixou nossos jogadores na pilha certa. Todas as provocações se transformaram em força para ser usada no dia 12 de junho.

Aquela tarde de sábado foi gloriosa. O empate era deles. Ao Palmeiras, com as sagradas e infalíveis meias brancas, bastava vencer o jogo por qualquer placar, para provocar uma prorrogação – nesta, o empate passaria a ser nosso. E o Verdão começou a 200 por hora, sufocando o adversário.

O gol de Zinho, com a perna direita, aos 36 do primeiro tempo, nos deu pela primeira vez em 17 anos a condição de estar com a mão na taça – bastaria não levar mais nenhum gol. Seguramente, até hoje, foi o gol mais gritado e comemorado pela geração 70. Uma sensação de alívio, de começar a tirar das costas o peso acumulado: o Guarani, o XV de Jaú, a Inter de Limeira, a Ferroviária, o Bragantino, o Biro-Biro, o Claudio Adão e a PQP.

O jogo acabou 3 a 0 e eles estavam com um a menos – deveriam ser dois, mas o juiz expulsou Tonhão injustamente. Mesmo com a vantagem, o fantasma da fila ainda assombrava a metade verde do Morumbi. Nada indicava que perderíamos aquela prorrogação, mas as seguidas frustrações pesavam demais.

A bola rolou de novo. A noite caía na capital paulista, mas ninguém sentia frio. Todos em pé, empurrando o time e os ponteiros do relógio. Até que aos dez minutos, Ricardo fez pênalti em Edmundo. Ezequiel reclamou, xingou, e acabou expulso. Evair pegou a bola e colocou na cal.

Era moda distribuir apitinhos de plástico na entrada do estádio. A metade preta do Morumbi soprava aquilo com todas as forças. Do nosso lado, fé. Uma corrente humana se formou. Por seis gomos, todos os palmeirenses lacrimejavam, de mãos dadas, enquanto Evair esperou a bênção do capitão César Sampaio.

Evair

Evair sempre bateu pênaltis de sua forma peculiar, controlando as demoradas passadas, induzindo o goleiro a cair para um lado uma fração de segundo antes dele direcionar a bola para o outro lado – um talento único. Naquele pênalti, esse ritual parece ter durado mais dezessete anos. Wilson de um lado, bola do outro, e o urro gutural da libertação foi finalmente ouvido.

Foram mais 20 minutos de catarse completa, em compasso de espera. Ninguém se atreveu a antecipar nenhum grito, mas a sensação de vitória era iminente. O outro lado começou a deixar o estádio, o Verdão tocava a bola diante de um adversário morto.

Quando o jogo acabou, finalmente a torcida palmeirense voltou a encher o peito. O placar eletrônico mostrava nosso escudo e a palavra CAMPEÃO rolava da direita para a esquerda. Era um sonho que enfim se realizava.

Nas ladeiras da Vila Sônia, a pergunta voltou, desta vez em tom de galhofa: “você já viu seu time ser campeão?”, ao que todos respondiam, entre risos e lágrimas: “JÁ, PORRA!”

A festa seguiu em toda a cidade – e provavelmente em todo o Brasil. A Avenida Paulista foi invadida e aquele sábado, Dia dos Namorados, só acabou na segunda-feira. O dia 12 de Junho de 1993, por tudo isso, foi – sem a menor sombra de dúvida – o dia do título mais importante de toda nossa gloriosa História, e por isso mesmo, a cada ano, toda esta trajetória deve ser sempre lembrada e reverenciada.

Hoje é mais um 12 de Junho. Se você se lembra dessa conquista, ligue agora para as pessoas com quem você dividiu aqueles momentos e se cumprimentem. E se você tiver o privilégio de encontrar qualquer um dos heróis daquele título, agradeça-o efusivamente. Eles merecem muito. PARABÉNS PALMEIRAS!


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Defesa do Palmeiras iguala recorde e faz História

Weverton
Cesar Greco/Ag.Palmeiras

Elogiar o atual sistema defensivo do Palmeiras, hoje, é fácil. Difícil foi chegar a este ponto, equilibrando uma defesa que ninguém passa com um ataque que resolve os jogos.

Todos os méritos desse nível de jogo são dos jogadores e da comissão técnica, que resistiram às pressões da imprensa e da própria torcida para implementar no Verdão uma identidade de jogo que o torna o time mais “chato” de se enfrentar no futebol brasileiro.

Com a vitória de ontem sobre o Sampaio Corrêa, o time de Felipão igualou um recorde histórico: é a maior sequência de vitórias sem tomar gols em todos os 104 anos de História do Palmeiras.

Em 1992, Otacílio Gonçalves conseguiu a mesma marca, ao comandar um time que venceu  consecutivamente Noroeste, Bragantino, SPFC, Atlético-PR, SCCP, Guarani e Mogi Mirim, marcando 11 gols. A atual sequência do Palmeiras, que ainda pode aumentar, tem 12 gols marcados.

Números

Waldemar Carabina

Outros técnicos conseguiram boas sequências sem tomar gols. O recorde é de Waldemar Carabina, que ficou 12 jogos (8V 4E) sem levar gols no Paulistão de 1987 – a sequência foi quebrada num empate por 1 a 1 contra o Santo André – e o gol do Ramalhão foi justamente de Luiz Pereira.

O Palmeiras ficou 9 jogos “clean sheet” por 3 vezes na História:
– em 1969 com Filpo Nuñez (5V 4E) – quatro desses jogos foram no Torneio Início, comandado por Julinho Botelho;
– em 1973 com Oswaldo Brandão (6V 3E);
– em 2018, logo após a saída de Roger Machado, com Wesley Carvalho, Paulo Turra e Felipão (6V 3E).

Em 1965, Filpo Nuñez conseguiu manter a defesa invicta por 8 jogos (5V 3E).

Oswaldo Brandão

Por cinco vezes, o Verdão ficou 7 jogos sem tomar gol:
– 1971 – Oswaldo Brandão (4V 3E)
– 1978 – Jorge Vieira (4V 3E)
– 1989 – Leão (4V 3E)
– 1992 – Otacílio Chapinha (7V)
– 2019 – Luiz Felipe Scolari (7V)

Fazendo História

Gómez
Cesar Greco/Ag.Palmeiras

Até hoje, quem viveu o Palmeiras no ano de 1987 se lembra da sequência impressionante do limitado time de Waldemar Carabina – os méritos recaem muito sobre o goleiro Zetti, que vivia uma fase espetacular. Os números daquele time entraram para o imaginário eterno da torcida, mesmo fracassando na busca por títulos.

O que esta equipe de Felipão está fazendo pode superar tudo: além de se manter no caminho para bater o recorde de 1987, pode conquistar troféus até o fim do ano, o que coroaria a trajetória extremamente promissora do time atual e escreveria o nome destes atletas no livro eterno da memória palmeirense.

Os próximos jogos do Palmeiras são contra a Chapecoense (F), Athletico-PR (C) e Avaí (C). Felipão sinalizou em coletiva que “um ou dois” amistosos poderão ser marcados na intertemporada, o que totalizariam os 12 jogos. Dá pra alcançar a marca.

Para bater o recorde e chegar a 13, seria necessário manter a defesa zerada no primeiro jogo das quartas-de-final da Copa do Brasil, já após a parada.

Mas isso pode mudar se o STJD resolver remarcar o jogo contra o Botafogo, diante da suposta irregularidade cometida pelo árbitro para consultar o VAR no jogo disputado em Brasília. Até isso o choro do pequeno clube carioca pode estragar.


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