O maior título da História do Palmeiras completa 25 anos

EvairO dia 12 de junho de 1993 entrou para a História. Naquele Dia dos Namorados, o coração de todos os palmeirenses explodiu de emoção.

A saga virou até filme. Foram mais de 16 anos de intenso sofrimento. Seguidas frustrações, de Beto Fuscão e Careca em 1978 a Aguirregaray em 1990, passando por Wilson Mano em 1985, Kita e Tato em 1986, Claudio Adão em 1989, entre tantas outras.

Parecia que a fila jamais teria fim, até que naquele sábado gelado o mundo mudou de cor. Uma goleada por 4 a 0 em cima dos então rivais – agora inimigos – fez o planeta Terra ficar verde por alguns instantes. Foi, sem dúvida nenhuma, o maior título destes 103 anos de História do Palmeiras. E provavelmente jamais será superado, nem com mais um titulo Mundial.

Para comemorar 20 anos da conquista, o Verdazzo fez em junho de 2013 uma entrevista com Evair, que contou muito de sua história e, claro, detalhes daquele dia tão especial. A entrevista foi realizada na TV Êxito e merece ser (re)vista com muito carinho pela torcida do Palmeiras. Divirtam-se!

O início do Paulistão de 1993 e a chegada de Edmundo ao Palmeiras

Por Thell de Castro

Depois de fechar o contrato de cogestão com a Parmalat e passar a nadar em dinheiro para grandes contratações, o Palmeiras montou um supertime em 1993 e iniciou o ano como favorito para as competições que disputaria. Mas ainda tinha que vencer a desconfiança da mídia, em virtude de que, nem sempre, o que é um esquadrão no papel vira um campeão em campo.

Após falar em Taffarel e Renato Gaúcho, entre outros, o Palmeiras contratou Edmundo, do Vasco, e nomes como Roberto Carlos, jovem relevação do União São João; Edilson, meia-atacante do Guarani; o zagueiro Antônio Carlos, do Albacete, da Espanha, entre outros.

A Folha de S. Paulo de 24 de janeiro de 1993 trouxe um guia sobre o Campeonato Paulista de 1993. Vou retratar aqui como time do Palmeiras foi visto para a competição e também alguns dias após a estreia. A primeira matéria é “Desafio às superpotências marca início do Paulistão”. No subtítulo: “SPFC mantém time campeão do mundo e Palmeiras investe US$ 5,2 mi; SCCP enfrenta o Bragantino no principal jogo do primeiro domingo”.

De cara, o Campeonato Paulista de 93 parece ser um segundo round da luta entre as duas superpotências do futebol brasileiro, o SPFC e o Palmeiras. O primeiro, vencedor do primeiro round, em 92, manteve a equipe campeã do mundo e sonha com um título inédito: o tricampeonato paulista. O segundo, vice em 92, quer a vingança e armou um megatime de US$ 7 milhões, US$ 5,2 mi só em 93.

Diante de SPFC e Palmeiras, com seus 14 jogadores de seleção e um punhado de promessas, os outros 28 times surgem como os índios de um faroeste. Só por SPFC e Palmeiras, esta edição tem tudo para ser a melhor em anos; mas há o ‘plus’ do desafio aos coadjuvantes. Se estes resolverem lutar pelo Oscar, será um evento seguramente antológico.

Na mesma edição especial, na página 2, um acontecimento histórico para nós. A nota, sem grande destaque, é “Edmundo quer um troféu”.

Repare que, naquela época, ninguém falava muito em SCCP e Santos. O primeiro estava em uma fase ruim depois do Brasileiro de 1990; o segundo, então, vivia uma draga desde os anos 1980. O grande adversário era o SPFC. Mas, como sabemos, a final daquele ano foi entre Palmeiras e SCCP. Melhor, impossível.

Em “Telê mantém time; Otacílio vai montar nova equipe”, o duelo tático de Palmeiras e SPFC.

Os técnicos dos grandes clubes da Capital travam, a partir de hoje, uma batalha tática. Telê Santana, do SPFC, Otacílio Gonçalves, do Palmeiras, e Nelsinho, do SCCP, enfrentam desafios diversos.

Otacílio Gonçalves segue por um terreno mais desconhecido. Com o time reforçado por seis contratações, o técnico terá a missão de montar a equipe com diversas estrelas que atuam na mesma função. Disposto a tirar Mazinho da lateral e escalá-lo no meio campo, Otacílio terá que acertar a função tática de Edílson, Zinho, Edmundo e César Sampaio. Devem ir para a reserva Jean Carlo e Daniel.

O desafio do técnico palmeirense é conseguir o entrosamento ideal para que Evair não fique sozinho na frente. As melhores alternativas são as descidas pelas pontas de Zinho e Edmundo.

Edmundo, Zinho e EvairNa página 5, uma matéria somente para os investimentos palmeirenses: “Parmalat investe para enfrentar SPFC”.

Entre os vários objetivos traçados pela Parmalat para este ano, um se destaca: a conquista do campeonato paulista pelo Palmeiras. Para atingir o objetivo, o time tem como principal rival o SPFC, campeão paulista, sul-americano e mundial interclubes.

A equipe investiu cerca de US$ 5,2 milhões nesta temporada em contratações. Somados aos US$ 1,8 milhão injetado no ano passado, a Parmalat gastou o que pretendia investir na contratação de Diego Maradona. Enquanto o título não é conquistado, a empresa apresentou um crescimento de 20% nas vendas, depois de assinar o acordo com o Palmeiras.

“O SPFC compete contra uma grande empresa”, analisou o presidente do clube, José Eduardo Mesquita Pimenta. No final do ano passado, antes de o Palmeiras perder o título para o SPFC, a Parmalat acertou a contratação do zagueiro Antônio Carlos, do Albacete espanhol, por US$ 1,5 milhão, e o lateral esquerdo Roberto Carlos, do União São João, por US$ 500 mil.

Enquanto o SPFC acertava a permanência de Raí por mais seis meses, a Parmalat investia em mais contratações. Depois de dois insucessos (Ricardo Rocha e Gerônimo), a empresa partiu para mais uma contratação de impacto: o meia Edmundo, do Vasco.

Com a demora do acerto, a Parmalat acertou outros três negócios. Contratou por empréstimo os pontas Marquinhos e Naná, do Andradina, por US$ 30 mil cada, e o meia Edílson, do Guarani, por US$ 1,3 milhão. Edmundo foi oficialmente contratado na sexta passada, por US$ 1,85 milhão. “Com ele, paramos durante um tempo de fazer negócios”, disse José Carlos Brunoro, diretor de esportes da empresa.

Edmundo é o sexto jogador da equipe que faz parte das convocações da seleção brasileira – os outros são Antônio Carlos, Roberto Carlos, César Sampaio, Evair e Zinho.

Na segunda, dia 25 de janeiro de 1993, além da derrota do SCCP na estreia para o Bragantino por 1 a 0, a Folha destacava na capa do caderno de esportes a contratação de Edmundo.

O meia Edmundo, 21, apresentou-se ao Palmeiras decidido a impressionar. O jogador despertou também a maior recepção entre os novos contratados: cerca de 100 pessoas esperaram por ele na tarde de sábado.

Inicialmente impressionado, Edmundo logo tentou desfazer dois conceitos que acompanham sua carreira: a fama de jogador temperamental e uma certa arrogância ao seu declarar sempre vencedor em todo time em que joga. Mas, à medida em que procurava derrubar a fama, Edmundo só conseguiu fortalecê-la, para alegria dos torcedores que o cercavam.

Destaque para a resposta para a pergunta “você acredita que o Palmeiras já consegue atingir o mesmo nível técnico do SPFC?”

– “É difícil ainda dizer isso. Na teoria, sim. Boa parte da seleção brasileira está agora no Palmeiras e no SPFC. Mas sei que vamos chegar na frente do São Paulo nesse ano. A equipe é excelente e já podemos nos preocupar com a comemoração na avenida Paulista”. Dito e feito!

Na quarta, dia 27 de janeiro, o Palmeiras estrearia contra o Marília, às 20h30, no Palestra Itália.

O time não decepcionou. Para 27.516 pagantes, com renda de Cr$ 1.506.465.000,00, e Edmundo Lima Filho como árbitro, o time saiu perdendo, mas buscou a virada ainda no primeiro tempo e venceu por 2 a 1 jogando com Veloso, João Luís (Maurílio), Antônio Carlos, Edinho Baiano e Roberto Carlos; César Sampaio, Mazinho, Edmundo (Jean Carlo) e Zinho; Edílson e Evair. O Marília perdeu com Júlio César; Amauri, Miranda (que foi expulso aos quatro minutos do primeiro tempo), Cavalcanti e Ailton; Tozin, Edilson, Guilherme e Nei (Cássio); Catatau e Vladimir (Paulo César), técnico José Carlos Serrão. Catatau fez aos 2 minutos, enquanto Evair marcou aos 23 e César Sampaio fez o segundo aos 26.

Dessa forma, iniciamos nossa trajetória vitoriosa no Campeonato Paulista de 1993, que culminou no jogo de 12 de junho, quando vencemos o SCCP por 4 a 0 e fomos campeões após 16 anos sem conquistas.


Thell de Castro é palmeirense, jornalista e editor do site TV História

MEMÓRIA: O dia em que o Palmeiras representou a Seleção Brasileira e deu um baile no Uruguai

Por Thell de Castro

Folha de S.Paulo
Folha de S.Paulo

Além da gloriosa história, recheada de conquistas dos mais variados títulos – afinal de contas, o futebol não começou nos anos 1990, como muitos pensam – um dos maiores orgulhos da torcida palmeirense foi ter enviado seu time completo para representar a Seleção Brasileira.

O fato aconteceu no dia 7 de setembro de 1965. Era a inauguração do Mineirão, em Belo Horizonte, e o Palmeiras, com sua primeira “Academia”, teve sua equipe toda convocada para representar o Brasil. Do goleiro ao atacante, com todos os reservas, além de técnico – argentino Filpo Núñez, massagista, roupeiro e tudo mais.

Para um público de quase 100 mil pessoas, o Brasil venceu o Uruguai por 3 a 0, com gols de Rinaldo, aos 27, Tupãzinho, aos 35 do primeiro tempo, além de Germano, aos 29 do segundo tempo.

O Brasil jogou com Valdir de Moraes (Picasso); Djalma Santos, Djalma Dias e Ferrari; Dudu (Zequinha) e Valdemar (Procópio); Julinho (Germano), Servílio, Tupãzinho (Ademar Pantera), Ademir da Guia e Rinaldo (Dario).

O Uruguai perdeu com Taibo (Fogni), Cincunegui (Brito), Manciera e Caetano; Nuñes (Lorda) e Varela; Franco, Silva (Vingile), Salva, Dorksas e Espárrago (Morales). O árbitro foi Eunápio de Queiroz.

Gazeta Esportiva
Gazeta Esportiva

Logo na capa da edição de 8 de setembro de 1965, a Folha estampa em letras garrafais: Palmeiras venceu o Uruguai por 3 a 0. Leia a chamada:

 “Em prosseguimento às festas de inauguração do Estádio Estadual Minas Gerais, o Palmeiras, com a camisa da seleção brasileira, enfrentou ontem em Belo Horizonte uma seleção do Uruguai, derrotando-a pelo escore de 3 a 0 (2 a 0 no 1º tempo), gols de Rinaldo (penal). Tupãzinho e Germano. O conjunto brasileiro foi superior em todos os sentidos e na fase final substituiu seis de seus jogadores, sem que os adversários conseguissem colocar em risco o resultado”.

Isso é que era elenco! Poder substituir seis jogadores e manter a qualidade do time.

No dia 9 de setembro, a Folha trouxe outra reportagem sobre o confronto. Em “Djalma encarna o futebol”, o jornal mostrou opiniões do técnico do Uruguai sobre o jogo e o Palmeiras.

“O técnico Juan Lopez, preparador das seleções uruguaias de 50, 58 e 62, declarou hoje ao embarcar no Galeão de volta a Montevidéu, que o plantel de bons jogadores no Uruguai é igual ao de 1950, quando levantaram a Copa do Mundo. Juan Lopez será o preparador também para a Copa de 66, em Londres.

 “O Palmeiras me pareceu um bom conjunto. Difícil mesmo de ser vencido, embora com o quadro mais descansado. Todavia, se houvesse pelo menos um dia de repouso, poderíamos surpreender”, afirmou.

 Lopez fez questão de chamar a atenção para o exemplo do jogador Djalma Santos. “Joga tão bem como há 15 anos”, tecendo os maiores elogios ao veterano craque, em que os jovens de hoje deveriam ver o “espírito verdadeiro do futebol”.

Para fechar em grande estilo e comprovar a hombridade do time que “sabe ser brasileiro, ostentando a sua fibra”, vale ressaltar que havia uma taça simbólica em disputa na partida. Ao final da partida, o Palmeiras, entendendo que o troféu pertencia à CBD (antecessora da CBF), pois estava apenas representando-a, deixou o mesmo com a Comissão Organizadora e retornou a São Paulo.

Mas, em 1988, 23 anos depois, foi descoberto que o troféu continuava no Mineirão, já que a CBD também não requisitou. Assim, ficou decidido que o Palmeiras deveria, honrosamente, ficar com a lembrança, que estaria sendo exposta no memorial da Sociedade Esportiva Palmeiras se ele tivesse sido disponibilizado pela WTorre, mas isso é outra história.

Gazeta Esportiva
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Thell de Castro é palmeirense, jornalista e editor do site TV História

MEMÓRIA: Longe dos gramados desde 1977, Ademir da Guia teve partida de despedida somente em 1984

Por Thell de Castro

Ademir da GuiaQueria abordar a época em que Ademir da Guia deixou o futebol, em 1977. Mas não consegui encontrar grandes fatos – ele teve problemas de saúde, ficou um bom tempo sem jogar, teve alguns empecilhos para renovar o contrato e encerrou sua carreira.

Mas o Divino só teve um jogo de despedida em janeiro de 1984, quando já tinha quase 42 anos. Trago hoje aqui uma reportagem especial de uma página da Folha de S. Paulo, assinada por Miguel de Almeida, com um perfil de Ademir da Guia, publicada no dia 15 de janeiro de 1984, alguns dias antes desse jogo.

Trago a matéria completa, que é grande, para que os palmeirenses mais jovens, como eu, que não o viram em campo, possam ter uma ideia do que perderam, e os mais antigos, que tiveram esse privilégio, possam relembrar esses tempos.

Ademir da Guia
Reprodução Folha de S.Paulo

Da Guia, ainda um menino de olhos tristes

Lá estava a fera, seis anos depois de ter abandonado o campo, não por vontade própria, e mais por uma maldita sinusite – lá estava o divino, de calção, sem camisa, voz de moleque dengoso, perto de completar 42 anos, ainda um menino de olhos tristes e verdes, talvez com a mesma aparência ingênua trazida do Bangu, bairro carioca onde nasceu. Lá estava Ademir da Guia, atrasado meia hora pra entrevista, e pedindo:

– Tem de esperar um pouco. Vou tomar uma ducha rápida.

E foi. Até os atletas padecem do calor mortal numa cotidiana tarde paulistana. Passada em um apartamento – quente – localizado nas Perdizes, bem próximo à PUC. Depois de seis anos afastado do futebol – ele saiu em setembro de 77, pensando que voltaria em seguida – Ademir da Guia deve pisar no campo da Portuguesa no dia 22 de janeiro, na pele de Seleção Paulista x Palmeiras.

Lá estava Ademir da Guia – no banho. Nada de luxo no apartamento de um homem cantado por três poetas brasileiro (João Cabral de Melo Neto, Décio Pignatari e Roberto Bicelli) – um privilégio que nem Édson Arantes do Nascimento, Pelé, teve em sua brilhante carreira (no entanto, ele tem a Xuxa: compensações).

Um sujeito de subúrbio carioca, outra lenda brasileira, incrível meio-campista, campeão 5 vezes pelo Palmeiras, acostumado às demonstrações mais carinhosas dos torcedores – e, sabemos, isso é difícil, por ser o torcedor pior do que mulher amada, sempre exigindo milagres em beiras de penhascos, além de ser a manifestação de amor mais próxima da faca de dois gumes: hoje, a glória; amanhã, nada.

O apartamento pouco tem de luxo, um equipamento de som no canto direito da sala, algumas gravuras pelas paredes, um conjunto de sofás bem simples, mesas de mármores – nada demais.

De repente, o homem. E uma lembrança também. Quando ele jogava – e como jogou – todos comemoravam seu estilo calmo e frio, feito diagnóstico, de tocar a bola. Poucos entendiam. Todos gostavam. Na verdade, Ademir da Guia é o Paulinho da Viola do futebol brasileiro – como o sambista tem de ser observado, porque não faz lances grosseiros, só percebido por pessoas demais de sensíveis, porque sutileza não acontece sempre, nem é manchete de jornal.

Ademir da GuiaLá estava o divino. De calção, sem camisa, meio largado no sofá, o admirável Da Guia foi logo dizendo:

– Me desculpe. É que me atrasei pela cidade. (A voz é pausada, os olhos soltos pela sala, jamais presos a um objetivo ou ponto definido). Sabe, ando até meio cansado. Quando você tá nessa vida de jogador, dá uma entrevista hoje, outra amanhã, tudo vai normal. Mas agora, estando fora, tudo fica meio cansativo. Por sorte, os amigos estão dando força, todo mundo ajudando. Tá tudo bem.

Aliás, a fidelidade em Ademir da Guia é coisa notável. Em vinte anos como profissional, teve apenas dois times. O Bangu e o Palmeiras. Em São Paulo, chegou em 61 e daqui nunca mais saiu, espécie de patrimônio palmeirense e com lugar cativo no coração de outras torcidas também sensíveis. Por isso, por causa dessa natural fidelidade, a sua história não possui lances fora do habitual.

É assim: com quinze anos, entra para o Bangu, depois de correr campos aos subúrbios cariocas, em peladas que somente fizeram-no lapidar uma espécie de malemolência do toque de bola, da passagem e finalização das jogadas.

Depois, Palmeiras. De 61 a 63, ainda não é titular do meio de campo, mas se aperfeiçoa calmamente, numa lenta preparação. Titular em 63 – e dessa condição só sairia por vontade própria, forçado pela sinusite, em setembro de 77.

Linha de equilíbrio, trajetória de bala de longo alcance ou, como diz João Cabral de Melo Neto, “Ademir impôs com seu jogo o ritmo de chumbo (e o peso), da lesma, da câmara lenta, do homem dentro do pesadelo”. Nada mais certo.

Ademir da GuiaDa Guia diz estar contente com o jogo de despedida oficial. Fica chateado apenas como teve de abandonar o futebol, ele imaginando que os problemas surgidos no nariz fossem algo simples, de fácil solução. Não eram. Tanto que não tem certeza do que teve – ou ainda tem: a coisa não tá de todo resolvida.

Era setembro de 77 e o médio aconselhou uma operação. Aos 35 anos, em plena forma, da Guia calculou que voltaria no início de 78, para talvez encerrar a carreira aos quarenta anos – tudo indicava isso, da técnica aperfeiçoada ainda intacta ao preparo físico, à capacidade de correr um jogo inteiro.

Pois em setembro de 77 fez a sua primeira operação no nariz. Nada de melhorar. Outra operação. Também nada de melhora. No início de 78, já pela terceira operação, voltou ao campo. Correu, correu – e sentiu-se mal. Tinha de fato de sair, largar o futebol até encontrar uma solução. E por quase quatro anos – de 77 a 81 – sua vida resumiu-se a uma correria entre hospitais, remédios, farmácias e novas consultas.

Foi apenas no meio do ano passado, ali por julho, que da Guia de novo pisou num campo para correr, buscar a forma perdida, experimentar com vontade o gosto da bola no pé. E foi somente há duas semanas que entrou num joguinho besta, em um campo da cidade, sentindo a emoção de vestir a camisa de um time (não um time grande, como o Palmeiras, Corinthians). Mas foi importante – principalmente para dar a certeza de que ele poderá jogar em simples peladas pelo interior. Assim, deve participar dos jogos do “Milionários”, ainda este ano.

(Tudo isso quem diz é da Guia. Com voz pausada e numa malemolência de garoto. Garoto esperto. Em instante algum se diz ressentido ou chateado pelas situações. Ao contrário. Sempre acha explicações que melhore a coisa parecida piorada). Assim:

– É. Parar aos 35 anos não estava nos meus planos. Eu pensava que iria até os 40. Porque eu tava bem, me sentia legal. E, quando o médico me disse para fazer uma operação, não pensei em nada de muito ruim. Depois, a coisa não melhorando, eu sendo operado, deixei de pensar no futebol, porque o importante era a minha saúde. Tava certo, não? E então nem me preocupei em largar o futebol – porque não tinha largado. Sempre tava pensando em voltar, era minha vontade. A coisa ficando ruim. Fiquei meio assustado. O que eu tive? Foi nariz, sinusite, eu não sei ao certo o que eu tive.

Ademir da GuiaE então surge o admirável da Guia, com sua saída:

– Podia ser pior. Já pensei se eu tivesse isso aos 30 anos? Iria ser ruim. Graças a Deus, a coisa só foi acontecer aos 35 anos. Um tempo melhor, não tão no auge de uma carreira, né?

Dinheiro Ademir da Guia ganhou. Não ganhou muito, ele confessa. Porque para ganhar bastante, raciocina, só em dólar, jogando fora do Brasil. Funcionário do Palmeiras, nos dois últimos anos treinou os times amador e infantil do clube. Como bico, trabalhava como vendedor para a fábrica de um amigo, localizada em Araraquara. Vendas? Como vendas? Diz, em ritmo de chorinho:

– É, eu gosto de vendas. Não é uma coisa presa, ali, você podendo viajar bastante. É gostoso porque você conversa com muitas pessoas. Não dá é pra ficar preso.

De novo, liberdade e prazer. Do futebol, da Guia guarda muitas boas lembranças. Como a entrada em um estádio lotado, as finais, as viagens. Alguma irritação? Ah, da Guia, o homem do equilíbrio, provocador do desequilíbrio alheio, é fatal.

– O treino, aquela rotina dos treinamentos, tudo aquilo era muito cansativo. A preparação cansava, cansava bastante. Isso cansava. Na segunda-feira, tudo começava de novo. Você lá batendo ponto. Se chegasse atrasado, sendo multado. Isto não é diversão. Diversão é o jogo em si, a partida do domingo. Agora, o treino, levantar cedo (da Guia tem cara de quem gosta de dormir), isso com tempo vai dando um cansaço enorme.

A arte, no caso o futebol, sob o regime da indústria. A criatividade, no caso os dribles, passes e gols, sob a face crua e ruim do cotidiano. E é difícil entrar e sair bem cedo dos campeonatos jogados entre cidades distantes, ligadas por ônibus, concentrações, aviões.

Ademir da Guia– Não, nunca entrei em campo cansado, sem vontade. Porque jogar é a compensação. Pra aquilo tudo que a gente se prepara. O mais fácil de tudo é o jogo. Saudades? Tenho saudades apenas dos jogos, não dos treinos. Mas quando parei, eu estava cansado. Os campeonatos começavam ali por janeiro, fevereiro. Perto de setembro, outubro, não aguentava muito mais, não. Ficava pensando em férias. Descansar – descansar daqueles treinos, muita concentração. Não dos jogos, disso nunca fiquei cansado, porque disso sempre gostei, ainda gosto – vai dizendo da Guia, sempre em voz calma.

A fase boa é a fase de total inspiração. Mas a fase ruim, aquela de toques errados, um estranho cansaço – essa fase é demais de ruim até com os supercraques, qualidade em que Ademir da Guia está colocado com bons pontos. E, por isso, por ser o totem no meio do campo, uma má fase acaba ampliada por várias lentes. Daí, a coisa dói. Dói na vaidade e na falta de resposta. Diz o sempre calmo da Guia:

– A coisa é curiosa. Tem fases que tudo vai bem. Outras, não. (N.R.: filosofia popular). Então sai técnico, muda jogador. Não tem explicação. No fundo, é onze contra onze. As vezes, um jogador te marca melhor. Ou é um goleiro que pega tudo – mas tudo mesmo. Ou então você fica pensando: será que o juiz marcou algo errado (N.R.: percebam a natural inocência do meio-campista). Existem mil coisas em uma derrota – ou que possam dar numa derrota.

E quando você esteve em uma má fase, qual o sentimento disso? O calmo da Guia ajeita a pergunta e chuta:

– Você fica mais preocupado, quando sai porque está mal, como sujeito que entra no seu lugar – fica de olho se ele está bem. Você está mal: joga uma partida, ok. É normal. Joga a segunda ruim, ok, não é incomum isso. Mas, a partir da terceira, a torcida já fala, a imprensa quer saber: Ademir, o que há que você tá jogando mal? Eu não sei, respondo. E não dá pra saber. Se você diz que está cansado, vão na pele do preparador físico. É assim. Agora, você tem de ter calma.

Calma. Tudo bem. As duas palavras de maior frequência no vocabulário de da Guia. E calma ele continua quando perguntado se não foi injustiçado ao não ir para a seleção – ir como devia, não aquela idazinha em 74, um único jogo, como se fosse uma bondade do inábil Zagalo. Então, da Guia, como convém ao seu estilo (de jogo e de fala), diz:

– Não fui injustiçado, não. É que na minha época existiam quatro bons jogadores (na verdade, três): Gérson, Dirceu Lopes e Rivelino. Eu e Dirceu Lopes não tivemos muitas chances. O Gérson jogava bem. O Riva foi lá e também jogou bem. No Brasil, por essa época, tínhamos 3, 4 jogadores bons para cada posição.

Ademir da GuiaMas, o da Guia, não dava raiva sair a convocação e você não ter o seu nome lá, anotado?

– É. Fazia falta. Mas não me magoava. Quando eu fui em 74, foi ótimo. Se nunca tivesse ido, teria ficado chateado. Era a única coisa que faltava na minha carreira. Claro, queria era participar de uma Copa do Mundo. E participei. Não ficava chateado. Esperava. Não saía, tudo bem. Seleção é uma coisa complicada. Também a coisa é difícil: não iria conversar com o Rivelino, que é meu amigo, e, quando ele entrasse em campo, torcer para ele sair e eu entrar – não dava, né? Não era uma coisa legal.

Cutucando a onça com vara curta, ele acaba soltando algo não muito frio, destituído de emoção. Ele recorda:

– Quando o Zagalo disse que eu iria entrar, naquele jogo contra a Polônia, eu fiquei contente. Porque tava lá e pensava: será que não vou jogar uma única vez? Vim aqui e não vou entrar? Bem, mas ganhar ou perder – a coisa é outra nesse caso.

O bom Ademir da Guia passou por vários desafios. Quase todos, venceu. Ao chegar em São Paulo, no distante ano de 61, muitos disseram que aquele seu estilo de jogar não daria certo. Mas, era, por que? Pelo simples fato de que o futebol paulista sempre foi corrido e da Guia seguida calmo, mas com régua e compasso. De novo, o poeta. Da Guia nega a apologia dos camaleônicos pela simples matemática dos artistas que adaptam o tempo à sua maneira – e não vice-versa.

Da Guia, você é calmo ou é também muito triste? Ele não sorri. Entende que não é ironia a pergunta, mas algo sério.

Ademir da Guia e Sócrates– Sou calmo… Desde pequeno… Acho que não vou mudar.

Mas da Guia se abre, de novo, e conta:

– Em 74, quando o Palmeiras foi campeão, estavam todos já pulando de alegria. Eu passei, andando, calmo. Todos: essa não, isso é demais. É que eu tava cansado mesmo, de tanto correr no jogo.

Ele conta o caso e se cala, mas de novo se revela:

– Às vezes sou contente ou um pouco triste. Sou assim.

No dia 22 de janeiro, um domingo, a Folha estampou, com chamada de capa, a despedida do Divino. Já na segunda, dia 23, a cobertura da vitória dos Amigos de Ademir por 2 a 1 sobre o Palmeiras. O ex-jogador ficou em campo por 36 minutos e desfilou sua tradicional elegância em campo.

Ademir da Guia jogou 36 minutos, pegou 18 vezes na bola, chutou duas vezes a gol e deu alguns passos errados. Estava cansado e feliz, quando desceu o vestiário para tirar as chuteiras que ele só pretende voltar a calçar para defender o time de veteranos do Palmeiras, clube no qual jogou de 1961 a novembro de 1977.

Ontem cedo, no Canindé, no intervalo da partida entre o Palmeiras e a Seleção dos Amigos do Ademir, o Divino ganhou de tudo: troféus, medalhas, uma salva de prata das mãos do presidente Paschoal Giuliano – que discursou agradecendo a tudo o que ele fez pelo clube – um diploma da Confederação Brasileira de Futebol, outorgando-lhe o Belfort Duarte, Cr$ 500 mil do Sindicato dos Atletas Profissionais, dez milhões de seu amigo-ausente Pelé, Cr$ 12.430.500,00 do pouco mais de 11 mil torcedores que foram à sua festa de despedida.

Enfim, essa foi a despedida oficial de Ademir da Guia, que muito fez pelo Palmeiras.

Como fiz na matéria sobre Marcos, também agradeço a esse craque por todas as alegrias. No meu caso, e de muitos outros, as alegrias que proporcionou ao meu saudoso pai e milhões de palmeirenses que o viram jogar. Obrigado, Ademir da Guia.


Thell de Castro é palmeirense, jornalista e editor do site TV História

MEMÓRIA: A ‘quase’ venda de Marcos para o Arsenal em 2003

Por Thell de Castro

Palmeiras2003A situação do Palmeiras era crítica em 2003. O time disputaria a segunda divisão do Campeonato Brasileiro, tínhamos poucas estrelas no elenco, levamos uma surra do Vitória em casa na Copa do Brasil, entre outros vexames.

Para desespero da torcida palmeirense, no dia 22 de janeiro de 2003, a Folha trouxe na capa do caderno de esportes, em letras garrafais: “Por US$ 4 mi, Palmeiras cede Marcos ao Arsenal”, anunciando a venda do santo ao time inglês. Trechos da matéria:

“O goleiro Marcos embarcou ontem para Londres para acertar sua transferência por 2,5 milhões de libras (US$ 4 milhões) para o Arsenal, time que conta com outro pentacampeão, Gilberto Silva.

 Desde o meio de 2001, Marcos assumiu o gol da seleção sonhando com a ida para o futebol europeu. A negociação, porém, só veio agora, após a desastrosa campanha do Palmeiras no Brasileiro 2002 – acabou rebaixado.

 Essa informação não escapou à imprensa britânica. “Depois da impressionante atuação na Copa do Mundo, Marcos sofreu um retrocesso com o descenso do seu time, o Palmeiras”, descreveu o serviço on-line da rede BBC.

 Oficialmente, o Arsenal não comenta o caso. Por seu lado, o Palmeiras divulgou um comunicado dizendo que o jogador foi liberado para viajar e negociar com “um clube inglês” e “com a condição de retorno para São Paulo até no máximo sexta-feira”.

 Marcos vai ficar dois dias em Londres conversando com os dirigentes do Arsenal para acertar um contrato de quatro anos. Ele quer se apresentar de vez no segundo semestre. Porém o clube, que tem dois goleiros reservas contundidos, quer o jogador lá.

 “Preciso de um tempo para arrumar minhas coisas e me acertar com meus pais e meu filho”, argumenta. Sua mãe, Dona Antônia, já aceita trocar a pacata Oriente (cidade natal de Marcos, a 465 km a noroeste de São Paulo) por Londres. “Vou e depois convenço meu marido a ir também, afinal, Londres não é o fim do mundo”.

 O goleiro de 29 anos quer se despedir do time jogando o Paulista, a Copa do Brasil e o Brasileiro. Depois terá a missão de substituir David Seaman, titular do gol do Arsenal e da seleção inglesa. Mesmo com a pretensão do goleiro de 39 anos de jogar mais uma temporada, todos dão como certa sua aposentadoria no meio do ano.

 Revelado no Palmeiras, Marcos começou como reserva de Velloso e se firmou no time titular no fim de 1998. Seu maior feito foi a conquista da Taça Libertadores 99, defendendo pênaltis, o que lhe valeu o apelido de “São Marcos”.

O jogador tinha contrato até julho de 2004 com o Palmeiras, mas sua transferência deve lhe render US$ 400 mil (10% da transação).

 O temor palmeirense é que Marcos repita agora o que fez no fim de 2002, quando chegou a pedir para não jogar e depois se contundiu – atualmente, está lesionado. A venda de Marcos foi anunciada um dia após a saída oficial do lateral Arce”.

MarcosNa mesma página da matéria, uma curiosidade daquelas que o Palmeiras era campeão em gerar naqueles tempos: o time anunciou a contratação do atacante Carlos Castro, 32 anos, que jogava no Necaxa, do México. “O clube informou que o colombiano foi indicado pelo técnico Jair Picerni”, dizia o texto.

Na Folha do dia seguinte, ao contrário da manchete arrebatadora em letras garrafais, uma pequena nota dizia que existia um impasse na contratação do goleiro.

“Marcos não deve cumprir a promessa de se reapresentar na sexta-feira ao Palmeiras. Segundo seu empresário, Claudio Guadagno, ainda há um impasse para a assinatura. O goleiro visitou instalações do clube e conversou com dirigentes. A imprensa inglesa saudou sua ida. “Seaman treme com Marcos voando para Londres” foi a manchete do diário londrino Guardian.

 No dia 24 de janeiro, nova reportagem do jornal, na capa do caderno de esportes, mas sem o mesmo destaque da manchete principal de dois dias atrás. “Marcos é esperado no Palmeiras, mas não pelo técnico do Arsenal”.

 O goleiro Marcos, titular da seleção na Copa, é esperado hoje no Palmeiras, e não no Arsenal. A negociação do jogador com o clube inglês não foi definida. O técnico do Arsenal, Arséne Wenger, disse em entrevista ao site oficial do time que Marcos é só uma opção e que nada está acertado. (…)

 Quando saiu do Brasil, o ídolo palmeirense planejava defender o time do Parque Antarctica até o meio do ano, juntando-se ao Arsenal apenas em junho. O valor da transação entre os clubes seria, na verdade, um pouco inferior a US$ 4 milhões (US$ 3,8 milhões), mas esse não seria o problema. A questão é que o Arsenal não está certo da aquisição do goleiro do penta – quer um jogador que possa atuar desde já e por muito tempo no clube. (…)

 Marcos, que não joga há quase três meses, já admite se apresentar agora ao clube londrino. (…) Quando Marcos embarcou, a negociação parecia certa. O empresário Cláudio Guadagno, o ex-diretor palmeirense Marcos Bagatella e o executivo Dick Law viajaram com ele para a Inglaterra”.

Folha - Marcos
Reprodução – Folha de S.Paulo

No sábado, dia 25, véspera da estreia do time no Paulistão contra o Mogi Mirim, a Folha destacou na terceira página do caderno de esportes: “Marcos fica no Brasil até o meio do ano”.

“Saí daqui jogador do Palmeiras e voltei jogador do Palmeiras”. Marcos está de volta mesmo ao time do Parque Antarctica. O goleiro se apresentou ontem ao clube após a sua viagem de negócios à Inglaterra, onde planejava acertar contrato com o Arsenal, treinou com os seus companheiros em uma tarde chuvosa e disse em uma coletiva que fica pelo menos até o meio do ano no Palmeiras.

 “Acho que todo jogador de linha pensa em se destacar e ir para a Europa. Goleiro quase não tem mercado lá. Então nem pensava em me transferir. Fui pego de surpresa com tudo isso. Tenho muita coisa para resolver aqui e não teria como ir agora”, disse, Marcos, sobre a negociação frustrada.

Estadão - Marcos
Reprodução – O Estado de S.Paulo

Após essa reportagem, o burburinho diminuiu e foi sumindo da mídia. No dia 1º de fevereiro, uma pequena nota no jornal disse que Marcos ainda estaria negociando com o time inglês, que havia contratado o goleiro francês Warmuz.

Para sorte do torcedor palmeirense, Marcos ficou. Foi um dos líderes do time na Série B, ganhou o Paulista de 2008 e passou por tudo que aconteceu nesses anos sem arranhar sua imagem de ídolo.

Teve problemas, lesões, ficou fora de muitos jogos, vimos ainda Sérgio, Diego Cavalieri, Bruno e Deola jogarem em seu lugar, mas continuou no elenco, se salvando em meio a vários jogadores que, nitidamente, não tinham comprometimento com o clube, até se despedir dos gramados, em dezembro de 2012.

Enfim, enorme azar do Arsenal e grande sorte nossa que você ficou. Obrigado, São Marcos, por tudo o que fez por nós.

Marcos


Thell de Castro é palmeirense, jornalista e editor do site TV História