Sem uma identidade definida, pouco importa quem será nosso novo técnico

Alberto Valentim
Cesar Greco/Ag.Palmeiras

O resultadismo continua dando as cartas no futebol brasileiro. Diretoria, técnicos e jogadores servem ou deixam de servir contando apenas com os últimos resultados – às vezes, apenas o último.

Alberto Valentim, de forma corajosa, afirmou ontem após a partida que não quer mais seguir como auxiliar e que pretende seguir a carreira como técnico principal. É pouco provável, justo após uma derrota para o Avaí, que seu desejo seja atendido no Palmeiras.

O problema maior para Valentim é que, embora o desempenho ofensivo esteja bastante satisfatório, a defesa segue tomando muitos gols e não dá segurança alguma ao torcedor. A linha alta proposta pelo treinador tem sido presa fácil até para ataques pífios como o do Sport e o do Avaí, que havia marcado apenas 25 gols em 35 jogos. E não há sinais claros de evolução, ao menos por enquanto. A seu favor, Alberto pode argumentar que não teve tempo para isso.

Um time sem identidade em campo

A questão maior é que o Palmeiras quer definir seu técnico, mas ainda não definiu exatamente o que quer. 4-1-4-1, Porco Doido, linha alta – são todos esquemas ou detalhes circunstanciais que não obedecem a escola alguma. O Palmeiras não tem uma identidade futebolística.

Após atingir a excelência fora de campo, com alto poderio econômico e instalações completíssimas, o clube ainda não se estabeleceu como escola de futebol. O time profissional é mutante: joga com a cara de seu treinador, que costuma durar, em média, cinco meses.

Essa situação contrasta, por exemplo, com a do nosso maior rival, que mesmo com problemas financeiros tem uma identidade de campo muito bem definida, implantada por Tite em 2010 e adaptada por seus sucessores – Mano Menezes, o próprio Tite, de volta, e Fábio Carille. Cristóvão Borges tentou mudar essa identidade e teve vida curtíssima. Pode-se questionar a beleza dessa fórmula em campo, mas não sua eficiência. Mesmo mudando os técnicos e com jogadores de nível técnico apenas satisfatório, tendo Tite como referência o time chega aos resultados.

Tempo e respaldo

Coletiva Eduardo Baptista Uruguai
Reprodução

É muito claro que os resultados serão consequência da implantação dessa identidade. Para isso, é necessário tempo. Mesmo com os resultados não aparecendo, o técnico precisa ser mantido até essa identidade se consolidar.

Como exemplo, temos Eduardo Baptista, que tinha um desempenho superior a 60% e estava, lentamente, implantando um sistema de jogo que poderia hoje estar bastante sólido. Mudamos o treinador após a eliminação no Paulista, no desespero de ganhar taças ainda em 2017. Perdemos tempo de desenvolvimento de identidade e os campeonatos não vieram do mesmo jeito.

Não há certezas no futebol. Eduardo Baptista poderia ter feito um excelente trabalho no longo prazo e poderíamos estar com um time voando neste final de ano – possivelmente ganhando mais um Brasileirão. Ou ele poderia continuar empacado na procura do equilíbrio entre ataque e defesa e, quem sabe, estaríamos lutando pelas últimas vagas da primeira fase da Libertadores – ou mesmo pior. Jamais saberemos.

O que está claro é que para nos estabelecermos como grande potência do futebol brasileiro, precisamos de uma identidade dentro de campo para representar todo o poderio conquistado fora das quatro linhas. Uma identidade que deve servir como espelho até mesmo para as categorias de base. E isso só virá quando um treinador tiver tempo para implantar essa identidade. Às vezes ela vem rápido e com conquistas logo de cara. Às vezes, demora mais. E às vezes não vem e é preciso recomeçar do zero – o ponto onde estamos neste exato momento.

Quem, então?

“Cascudo”, “moderno”, “paizão”, “estudioso”, “disciplinador” – os adjetivos que dividem os técnicos em castas são patéticos. O Palmeiras precisa de um profissional que defina uma identidade para o clube, de preferência condizente com os grandes times de nossa História e que tenha respaldo da diretoria, que precisará resistir politicamente às pressões estúpidas de conselheiros que ainda enxergam futebol como na década de 80, e da torcida, que vai na onda de uma imprensa que não pensa muito diferente das múmias que vagam pelas alamedas. Mas quem?

O nome do treinador não é tão importante assim. Para definir essa identidade, o Palmeiras pode implementar um diretor técnico, um cargo a ser ocupado a longuíssimo prazo por um profundo conhecedor do futebol, que seja a linha-mestra para os treinadores que terão seus ciclos no clube – não de cinco ou seis meses, mas de dois ou três anos. Uma figura que seja a referência para a montagem dos elencos e para a forma de montar o time em campo. Algo semelhante ao que Paulo Autuori faz no Atlético-PR, ou ao que Tite, mesmo sem cargo formal, segue sendo no SCCP. Com esta figura definida, a importância do técnico será bem menor – assim como a pressão sobre ele.

Nomes, nomes, nomes!

Segundo a cultura resultadista vigente, dentre todos os nomes hoje só um técnico presta: Fábio Carille, que até o Derby era duramente contestado pela torcida rival. Pelas circunstâncias, é impossível tirá-lo do rival – e mesmo que fosse viável, não teria aceitação por aqui sem um período prévio rodando por outros clubes, para tirar a casca preta e branca de sua pele.

Caso ganhe a Libertadores, Renato Portaluppi se transformará, como uma gata borralheira, num técnico de ponta – ele, que até outro dia, era folclórico, falastrão e boleirão. Ganhando, não sai do Grêmio nem por decreto; perdendo, o relógio baterá doze vezes e ele voltará a ser o que sempre foi.

Reinaldo Rueda é um profissional muito interessante que atravessa problemas no Flamengo. O colombiano vem enfrentando bastante resistência dos atletas devido às diferenças culturais. Se sobreviver à falta de resultados – a pequena Copa Sul-Americana parece ser sua tábua de salvação – pode avançar no projeto de implantação de uma identidade ao time carioca, que com seu bom elenco tem condições de se estabelecer com uma das maiores forças do nosso futebol em 2018.

Seja Rueda, ou qualquer outro nome, virá cercado de desconfiança pelo peso de não ter ganho nada relevante em 2017.  Luxemburgo, Felipão, Carpegiani, Jair Ventura e Abel – nenhum dos cinco nomes mais sugeridos por nossa torcida consegue chegar a 30% de aprovação – o que significa que terão resistência de mais de 70%, assim como Alberto Valentim. Quem quer que seja o escolhido, vai pegar uma bucha de respeito e precisará de muito respaldo para tentar implantar uma identidade ao Palmeiras.

Se quisermos realmente nos transformar no bicho papão do futebol brasileiro, nosso próximo treinador precisará de tempo. Nem que isso tenha como custo ser eliminado do campeonato paulista pela Ferroviária, num cenário em que o processo de ajuste esteja lento e que a enfrentemos numa tarde infeliz – como aconteceu em Campinas, no último domingo de Páscoa. O objetivo maior, neste momento, é estabelecer a identidade.

Alberto Valentim está à frente de todos os outros, porque já começou o trabalho. Começou errado, pelo ataque, e está com problemas na defesa – mas com o tempo, tende a acertar. Tem o apoio declarado do elenco e tem mais chances de conseguir resultados rápidos que alguém que comece do zero em janeiro, o que lhe daria mais tranquilidade quando as dificuldades reais da temporada começarem a aparecer, em meados de março. Além disso, não é filho de alguém que a torcida não gosta nem tem o fantasma de nenhum ex-técnico o assombrando. Parece ser a melhor escolha.

Mas seja quem for o eleito, será muito melhor se esteja subordinado a alguém em nível de diretoria que pense o futebol do clube, que defina a linha-mestra e que monte o elenco de acordo com ela. E esse alguém, parece claro, não pode ser Alexandre Mattos, cujo talento a ser explorado é seu fabuloso tino comercial. Sem uma identidade definida, sem tempo para implantação e sem respaldo, pouco importa quem será nosso novo técnico. Ele cairá na primeira sequência negativa ou eliminação, e todo nosso poderio estrutural e financeiro permanecerá subutilizado.


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