Confissões de um ex-viciado: o longo caminho até a libertação

Muhammad AliFoi muito cedo: com cerca de 6 anos de idade, me tornei um viciado em programas esportivos. Tudo o que podia consumir de esportes na televisão, fazia sem pensar duas vezes. Tenho lembranças vagas até da olimpíada de Montreal, em 1976 – o nome “Nadia Comaneci” foi uma das primeiras lendas do esporte que me lembro, junto com “Muhammad Ali”, “Emerson Fittipaldi”, e, claro, “Pelé”, que jogava num tal de Cosmos. A disputa entre a Ferrari de Niki Lauda e a McLaren de James Hunt pareceu mesmo épica, como no filme.

Lembro-me bem de torcer pelo Inter na final do Brasileiro de 76, pela Ponte na final do Paulista de 77 e pelo Galo na final do Brasileiro de 77, que invadiu 1978. Da Copa da Argentina, lembro-me nitidamente. E claro, das derrotas do Palmeiras para o Guarani na final do Brasileiro daquele ano. Mario Andretti foi campeão com uma Lotus preta e dourada espetacularmente linda, após a morte na pista de seu companheiro de time, Ronnie Peterson. E tudo o que veio nos anos seguintes está cada vez mais límpido na memória.

Léo BatistaO que fazia com que a atração pelos esportes ficasse mais forte ainda – além do fato de jogar bola no campinho ao lado de casa, no bairro do Trujillo, em Sorocaba, todo santo dia no final da tarde – eram os programas esportivos que passavam na hora do almoço: começava como Record nos Esportes, comandado por Ronny Hein, passava pelo É Hora de Esporte, na TV Cultura (com uma equipe espetacular: Cicarelli, Zanforlin, José Góes, Noriega pai, Orlando Duarte e os repórteres Dudu e Gurian), e terminava com o Globo Esporte, comandado por Léo Batista ou Fernando Vanucci. Alguns anos mais tarde, Osmar Santos comandou o programa provavelmente em seu auge, antes de passar a ser direcionado para teens.

Com 19 anos de idade, mudei-me para a capital paulista e passei a ter contato com outro formato de programa: os debates esportivos que resenhavam sobre a rodada de domingo, cujo embrião foi o Mesa Redonda da TV Gazeta, comandado por Roberto Avallone. Depois surgiu o Cartão Verde, na Cultura, que à época parecia um ótimo programa, mesmo reunindo Juca Kfouri, José Trajano e Flávio Prado na mesma bancada – donde podemos concluir que com 20 e poucos anos a gente é burro pra caramba.

Vício frenético

Super TécnicoA Globosat lançou o SporTV em 1991, mas o acesso da população à TV a cabo ainda era muito restrito, seja pelo preço, seja pelo alcance da rede, ainda limitado. Os programas na TV aberta ainda reinavam, e Milton Neves passou a dominar as noites de domingo na Record, depois na Bandeirantes, quando adaptou seu estilo do rádio para as telas, enquanto o Palmeiras dominava o futebol brasileiro com a Parmalat no peito.

Depois da virada do século, o serviço de TV a cabo finalmente se popularizou, até chegarmos aos dias atuais, quando temos à nossa disposição pelo menos cinco emissoras com onze canais exclusivos de esportes. Infelizmente eles não conseguem preencher suas grades com transmissões ao vivo e precisam recorrer à velha fórmula da mesa redonda, que ficou quadrada, retangular, ou mesmo sumiu, dando lugar a modernos sofás.

Donos da BolaNo horário do almoço, com exceção do Globo Esporte, que sobrevive, os noticiários da TV aberta deram lugar ao debate – da pior qualidade, diga-se de passagem. Rasteiro, sensacionalista, apelativo. Quando terminam, entram os bate-papos vespertinos das TVs fechadas. E os programas se sucedem, tarde afora. Acaba um, começa outro.

É papo que não acaba mais. Horas e horas de conversa fiada. Com isso, o vício por programas esportivos perdeu, de certa forma, o encanto. Provavelmente uma das graças de assistir aos debates, lá atrás, era sua raridade: uma hora e meia de programa por semana, e falavam do Palmeiras por cerca de dez ou quinze minutos, e olha lá. Era obrigatório assistir. Agora, com a banalização, perdeu a graça. Os caras não têm o que falar em tanto tempo – aí acabam apelando.

Piorou também porque o perfil do jornalismo esportivo mudou. Não que os mais antigos fossem santos – ao contrário, sempre foram raposas felpudas – mas não havia tanta interferência dos departamentos comerciais nas pautas. Hoje, o Palmeiras é o principal adversário no campo dos dois clubes que, somados, representam quase 50% da população do país. Não é à toa que temos depoimentos como este aqui, feito na semana passada pelo jornalista Luiz Ademar, que permanece sem resposta da emissora acusada até hoje.

A libertação

Era um comportamento, sem dúvida nenhuma, viciado: chegar em casa, ligar a TV e procurar o melhor programa de debates que estivesse passando – a qualquer horário, sempre há pelo menos duas opções. Quando o que estava na tela se tornava irritante, por estarem tratando o Palmeiras com desrespeito – ou mesmo apenas insultando a inteligência ou o bom gosto – era só mudar de canal e colocar no outro debate.

Chegamos a um ponto em que mudar o canal não resolvia por mais que 5 minutos, antes de precisar mudar de novo, e de novo. Nenhum se sustentava mais. Nenhum prestava. Não dava mais. O vício, de bom companheiro, passou a ser um tormento.

Botão desligaA única solução que restou foi o temido botão desliga. No início, há cerca de dois anos, decidi enfrentar todo o meu medo e apertá-lo. Não foi fácil, afinal, eram quase 40 anos consumindo tudo. Mas a internet ajudou. Para me manter informado, o ótimo trabalho dos setoristas passou a fazer seu papel, e muito bem.

Para opinião, optei pela mídia palmeirense independente. Elegi meus preferidos, que balizam meu pensamento antes de expô-lo aqui no Verdazzo. E assim o botãozinho vermelho passou a ser usado mais e mais, até a libertação completa.

Hoje, nós, palmeirenses, temos uma nova forma de consumir Palmeiras: através de nós mesmos. Informação direto da fonte com opinião puro-sangue palmeirense. Com respeito ao Verdão e à inteligência de quem lê. A TV, agora, só serve mesmo para os jogos do Palmeiras – e se não for hora de jogo e o sofá estiver realmente convidativo, é só mudar para as maravilhosas plataformas de streaming e escolher seu filme ou série preferida.

Meu nome é Conrado, do Verdazzo, e estou limpo há 12 meses. Se eu consegui, você também consegue. Força, guerreiro!


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