“Vigaristas, semianalfabetos e acomodados” – há quase 70 anos, Aymoré Moreira descrevia a imprensa

Aymoré Moreira foi um personagem gigante da História do futebol brasileiro. Atuou como goleiro na década de 30 e era tido como uma pessoa extremamente afável e bem-humorada em seus tempos de atleta. Fosse no século 21, seria uma espécie de Churry Cristaldo. Foi um goleiro mediano, tendo defendido a meta do Palestra entre 1934 e 1935, sendo campeão paulista em 1934.

Foi como treinador que Aymoré fez seu nome no futebol nacional, comandando a Seleção Brasileira na campanha vitoriosa da Copa do Mundo do Chile, em 1962, e o Palmeiras, na conquista do Robertão de 1967.
Em fevereiro de 1957, já como treinador, Aymoré não estava no mesmo humor de seus tempos de jogador, e concedeu uma entrevista em tom de desabafo ao jornal Folha da Tarde. Com habilidade, o repórter conseguiu extrair do então técnico do Palmeiras, que havia passado pela primeira vez pela Seleção Brasileira em 1953, toda a sua mágoa com a imprensa.
Fizemos ver a Aymoré Moreira que estava sendo um pouco amargo no seu julgamento da crônica esportiva de São Paulo, ao que ele retrucou prontamente.
“Rendo minhas homenagens aos justos. Sabe como classifico a crônica esportiva de São Paulo? Pois tome nota. Há 40% de cronistas autênticos, estudiosos, sensatos, sempre em dia com os problemas e com a evolução do futebol. Sabem o que dizem. Pensam antes de dizer as coisas, porque compreendem a importância da crítica; há 30% de vigaristas – e o termo é este mesmo – que invadiram a classe, vindo não se sabe de onde, sem nenhuma recomendação para o importante mister que escolheram. Só pensam em sensacionalismo barato e não se importam em destruir a carreira dos outros. Inventam histórias, fazem intrigas, só o que querem é estar em evidência. Há 20% de semianalfabetos, sem o necessário acervo de conhecimento para o exercício de tão delicada função, e que, no entanto, ditam cátedra, desprestigiando a sua classe e causando um mal tremendo ao esporte, pela influência nefasta que exercem junto à massa torcedora; e finalmente há os 10% de acomodados, que são os veteranos, com o nome já feito, que ficam nas suas escrivaninhas, doutrinando de longe, geralmente sem sentir os problemas como eles são.”

É assustador como a descrição de Aymoré se assemelha com o que vemos na imprensa de hoje. Entre vigaristas, semianalfabetos e acomodados, havia, segundo o treinador, 40% de bons profissionais. Só não sabemos se a mesma proporção pode ser aplicada ao cenário atual. O termo destacado em negrito só precisaria substituir a expressão “estar em evidência” por “buscar audiência ou engajamento”.
Seguiu Aymoré:
“É claro que reconheço o valor da crítica honesta e sincera, e é por reconhecê-la e por distingui-la que me revolto contra os arrivistas. E há ainda outro ponto que me parece condenável. “Refiro-me a aqueles que são estreitamente ligados a clubes, e que vivem na dependência dos clubes. Esses causam danos irreparáveis à seleção, pois não analisam os fatos em função do ‘scratch’. Procuram, tão somente, defender os ‘seus’ clubes, e são tanto mais nocivos porque não agem apenas nos seus jornais, mas também junto aos jogadores, nas concentrações.”
O fenômeno que verificamos hoje, de membros da imprensa que, disfarçadamente defendem interesses de determinados clubes, já existia há 70 anos. Atuando de forma promíscua, prejudicavam até o desempenho da Seleção Brasileira, na visão de Aymoré, que prosseguiu:
Há também aqueles que nos chamam de ‘varinhas mágicas’, zombando de táticas, e, no entanto, são os primeiros a discutir táticas. Só que discutem sem conhecimento de causa, porque ainda estão no tempo de Fausto Bianco, quando ainda se amarrava cachorro com linguiça. A estes é fácil meter o pau nos ataques e chamar de covardes os jogadores, porque não compreendem que o futebol de hoje é eminentemente defensivo e tático.
Os “pardais” de hoje são as “varinhas mágicas” de ontem. As críticas de Aymoré se encaixam perfeitamente ao que se vê hoje em canais do YouTube: jornalistas que pouco ou nada conhecem de tática, que se apoiam na retórica contra um suposto defensivismo, frequentemente associado à covardia, para reforçar seus discursos.
Como curiosidade, notamos a expressão “amarrar cachorro com linguiça”, também usada por Felipão na Seleção em 2001, motivo para a imprensa distorcer e causar mais estragos.

Completou Aymoré:
Felizmente, mais alto do que tudo, faz-se ouvir a voz sensata dos cronistas autênticos. Sei que, com essas declarações, me exponho à ira dos 30% citados no segundo item de minha classificação, os quais não hesitarão em apanhar a carapuça. Mas não faz mal, corro o risco certo de que estou contribuindo para corrigir os vícios de uma classe que, pela sua alta missão, precisa ser expurgada dos maus elementos, e não será fácil localizá-los.
Obrigado por nos inspirar, Aymoré. Esse é um dos porquês da existência do Verdazzo. Desde o nascedouro, este projeto de comunicação visa ser uma alternativa a esse tipo de jornalismo nefasto, já que expurgá-los parece ser uma solução impossível.
Aqui, respeitamos os homens que suam seus fardamentos com dignidade para defender nossas cores. Praticamos o clubismo, mas de forma autêntica, sem disfarçar – e por isso, não estamos manipulando nada ou enganando a ninguém.
É assim, como Aymoré, que vemos futebol. VAMOS PALMEIRAS!
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2 comentários em ““Vigaristas, semianalfabetos e acomodados” – há quase 70 anos, Aymoré Moreira descrevia a imprensa”
Ainda bem que existe o Verdazzo!
Triste avaliar que os 30% do Aymoré, hoje, devem ser maiores na proporção… Não acompanho imprensa desde 2012, obrigado Verdazzo!