A ditadura da zoeira e o desejo de vaiar

TorcidaNuma dessas conversas de whatsapp no domingo, um palmeirense fez o relato: “ainda durante o jogo, uma menina do meu lado disse que ia ficar até o fim do jogo, para vaiar, porque eles estavam merecendo”.

A menina talvez não estivesse errada. Afinal, se existe um momento para as vaias, é exatamente após o jogo, não antes ou durante. E o termômetro para as vaias é extremamente pessoal, cada um tem o seu e esse direito é inalienável.

No meu termômetro, as vaias não eram merecidas. Ao contrário do que viram muitos torcedores – a maioria, ao que parece – não vejo nesse elenco um “time sem alma”. Vi jogadores correndo, suando, dando carrinho, brigando por todas as bolas. Vi um Palmeiras perdendo gols incríveis e um Sport extremamente preciso, colocando nas redes três dos quatro lances de perigo que criaram. Mas claro, cada um vê o jogo de um jeito.

Perder assim faz parte do futebol e é necessário a todo esportista – quem pratica e quem assiste – saber encarar esse tipo de derrota. É lugar comum: “futebol é o esporte em que o mais fraco tem mais chances de vencer o mais forte, e por isso é que é tão apaixonante”. Parece que essa paixão só funciona na torcida do Palmeiras quando o mais fraco somos nós.

Amendoim, com orgulho

TorcidaO que mais chama atenção na frase da menina é o desejo de vaiar. A certo ponto da partida, ela já estava decidida sobre o que fazer quando soasse o apito final. Algo que, para mim, não traduz exatamente o conceito de vaia que aprendi ao longo de quase 40 anos frequentando estádios: algo que surge no momento, que vem da alma e exatamente por isso é que é um direito inalienável.

No velho Palestra, gostava de ficar na curvinha que ligava as descobertas à ferradura ao final do jogo, perto da saída para o túnel do Palmeiras. Já consegui até pegar uma camisa de jogador numa dessas. Mas queria mesmo é ver bem de perto as expressões dos jogadores ao fim do jogo – era ali que eu julgava quem merecia e quem não merecia vestir nossa camisa, e eventualmente vaiava e gritava muito contra aqueles que aparentavam indiferença.

A vaia premeditada é um fenômeno moderno, talvez ligado ao comportamento de consumidor que nota-se no estádio nas arenas modernas. Menos mal quando a pessoa ainda tem a inteligência de esperar pelo fim do jogo – pior ainda são os que ficam esbravejando durante as partidas, no sentido exatamente contrário do conceito de torcida: que está ali para apoiar, para jogar junto, para empurrar e fazer pressão no adversário. Uma burrice que chega a doer.

Você já conhece o tipo: diz, durante a semana, orgulhoso: “Comprei o ingresso bem atrás do banco do técnico, só pra ficar gritando na orelha dele!” – há 20 anos, Felipão batizou esse pessoal de “turma do amendoim”, numa tentativa de fazê-los se tocarem. Funcionou ao contrário: eles assumiram a pecha com orgulho. Enchem a boca para dizer que se jogador não quer pressão, deveria jogar em time pequeno, que “aqui é Palmeiras”, essas baboseiras que, no fundo, só servem para justificar seus desejos patológicos de vaiar.

Ditadura da zoeira

XingandoUma das coisas mais interessantes desse novo comportamento, sobretudo nos últimos dois anos, é constatar que o grau de revolta de nossa torcida é diretamente proporcional ao resultado conquistado pelo SCCP. A volta da rivalidade extrema, que ganhou contornos de ódio mortal diante da forma com que eles nos roubaram os dois últimos campeonatos, faz com que o resultado deles influencie diretamente sobre o que o palmeirense acha do nosso time.

Este tipo de ocorrência ficou muito claro ontem: em pleno domingo-pós-derrota-para-o-Sport-em-casa, a cornetagem rolava solta nas redes sociais, áreas de comentários e whatsapp. O SCCP estava vencendo e era necessário desviar dos perdigotos que saíam da tela do celular, tamanha a revolta. Foi só o Inter virar o jogo que as críticas amainaram e já tinha gente vendo o copo meio cheio de novo.

A importância que nossa torcida está dando para a eterna competição com o SCCP beira a esquizofrenia; é emburrecedora. O medo de “ser zoado” na segunda-feira faz com que a raiva emane de forma descontrolada. Se perdemos e eles ganharam, o mundo acaba porque a zoeira vai ser forte – afinal, ela não tem limites.

Na era dos memes, a tal da zoeira está impondo uma ditadura em que, mais do que nunca, o que importa são os resultados; se o time perdeu, precisam ser xingados para aliviar a frustração de estar sendo zoado. E a justificativa é sempre a mesma: o time não tem alma, falta raça, o técnico é burro e com ele não vamos a lugar nenhum, aquelas coisas de sempre. Poucos tentam realmente falam de futebol.

E se você tenta enxergar o trabalho num espectro a longo prazo, no sentido de dar tempo para que seja criada uma identidade de jogo, relativizando os defeitos, exercitando a paciência e controlando suas frustrações, você é um passador de pano, ou não tem vergonha de perder jogos fáceis, ou mesmo não sabe o que é ser palmeirense.

Tá chato, muito chato.


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Fogo amigo sobre Dudu pede nova intervenção da diretoria do Palmeiras

TJD-SPTribunais, Federação, arbitragens, concorrentes, imprensa… é pancada de todo lado. O Palmeiras chama atenção pelo sucesso administrativo financeiro e pelo forte elenco que conseguiu reunir para a disputa das últimas temporadas – e paga por isso.

Nosso elenco tem jogadores suspensos com extremo rigor pelos tribunais – no ano passado, Alecsandro chegou a ser suspenso preventivamente por um doping que depois foi provado que não existiu. Até tribunais trabalhistas estão nos prejudicando: Gustavo Scarpa, um dos maiores destaques do elenco, está impedido de exercer sua profissão por mesquinharia de um pequeno clube da zona sul do Rio, combinado com um suspeito tráfico de influência.

A imprensa, com desfaçatez, bate forte, distorcendo fatos e emitindo opiniões enviesadas escondida sob o manto da imparcialidade, manipulando a opinião das torcidas em geral e dos próprios palmeirenses.

Mesmo assim, o Palmeiras chega competitivo em todos os torneios – mas tem parado nas arbitragens, seja por atuação dentro ou fora das quatro linhas. Os dois últimos campeonatos erguidos pelo inimigo, ex-rival, tiveram de forma inequívoca a indispensável interferência dos homens do apito e de seus chefes.

Isso basta? Parece que não. Agora tem fogo amigo na jogada. Mais uma vez, uma parcela de nossa torcida resolveu atrapalhar ainda mais o clube, numa reação raivosa que combina a rasura intelectual manipulada por jornalistas desonestos, com a frustração de não conquistar os títulos, somada ao fato de ver a ORCRIM de Itaquera os conquistando.

Burrice tem limite?

Esses infelizes enxergam os jogadores como seus empregados e se dão o direito de descontar as frustrações de suas vidas provavelmente medíocres naqueles que, em suas limitadas visões, são os responsáveis pelo Palmeiras não estar conquistando todos os títulos, a única forma de se sentirem vencedores na vida. Mal sabem que, se um dia forem patrões de alguém, não deverão tratar os empregados do jeito que estão tratando quem defende as cores do Palmeiras em campo.

A estupidez chega ao ponto dos cidadãos se deslocarem até Buenos Aires, onde o Palmeiras faz um enorme clássico sul-americano contra o Boca Juniors, num dos estádios mais hostis do mundo, para xingar nossos jogadores na porta do hotel. É de se supor que uma pessoa que faz esse tipo de sacrifício para ver aquelas camisas verdes em campo queira que o time ganhe o jogo. Como ele espera que os jogadores deem seu máximo se, em vez de mostrarem seu apoio, o hostilizam em território inimigo? Qual o limite da burrice humana?

Por que o alvo é Dudu?

Dudu
Cesar Greco/Ag.Palmeiras

Dudu, especificamente, tem sido o principal alvo dessa gente, sabe-se lá por quê. No último domingo, ao marcar o gol da vitória do Palmeiras sobre o Inter, nosso capitão não se sentiu à vontade para comemorar efusivamente. Preferiu retornar ao campo de defesa em silêncio, em resposta aos ataques que recebeu no Instagram, onde até imagens de seus filhos pequenos foram alvo de alguns animais. Notem: ele não saiu xingando ou fazendo gestos; apenas se recolheu.

Na “visão” desses torcedores, não basta que o jogador seja bom, que marque o gol da vitória contra um adversário tradicionalmente duro num jogo em que a vitória era essencial. Para eles, o atleta precisa ser humilhado, aceitar e ainda ser um ator, mostrando uma alegria que não está sentindo. Ao ser autêntico, Dudu acaba desafiando seus detratores, que se juntam em bando, ou usam a distância da internet, para exercerem suas autoridades.

Há jogadores que conseguem lidar bem com esse tipo de pressão; outros, nem tanto. Dudu, de fato, mostra uma sensibilidade acima do normal para essas situações, o que é suficiente para que seja classificado como mimado e chorão – a eterna mania das pessoas em dar adjetivos para as pessoas com quem não concordam. Para reforçar seus argumentos, usam seu salário e a faixa de capitão para afirmar que ele merece a perseguição, tem que aguentar calado e só se manifestar, com muita alegria, quando cumpre sua obrigação de fazer os gols das vitórias. Resta saber por que essa perseguição começou – embora não seja muito difícil de imaginar para quem já acompanha futebol há algum tempo.

Mais um problema para a diretoria resolver

Alexandre MattosO clube precisa agir. Em tempos bicudos como os atuais, a blindagem precisa se estender às redes sociais, para proteger os jogadores e suas famílias de ataques deploráveis. Nossos jogadores infelizmente não podem se expor saudavelmente na internet como pessoas normais, sobretudo os que não lidam bem com esses tipos de ataque – que são cinicamente, classificados como meras “críticas” por quem os faz ou apoia.

Seria interessante também fazer um trabalho de mapeamento dos perfis mais hostis e identificar quais, realmente, são de palmeirenses pouco providos de inteligência, e quais são de identidades falsas, criadas sistematicamente com o único objetivo de tumultuar ainda mais nosso ambiente – estratégia que, numa escala muito maior, já ganhou até uma eleição nos Estados Unidos.

Dudu precisa de atenção especial. Um acompanhamento específico, com um bom profissional, para que ele continue crescendo mentalmente e amadurecendo. Quem lembra de seu comportamento em 2015 e o vê hoje percebe facilmente uma grande evolução, mas ainda há muito onde melhorar.

À medida que o mundo vai se tornando mais complexo e sofisticado, a direção de um clube de futebol que pretende se manter como o maior vencedor do país precisa estar atenta às novidades e se adequar a elas. Nossos jogadores precisam também de novas formas de blindagem e apoio, para, acreditem, não sermos vítimas de fogo amigo e podermos focar somente nos ataques externos, que nunca vão cessar. Segue o barco.


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Entres tantas certezas, apenas uma se sustenta: não foi a gritaria na internet

A sensacional vitória no clássico de ontem à noite voltou a encher os palmeirenses de certezas – como acontece em todos os jogos, seja na boa, seja na ruim. As de ontem foram, basicamente, que os xingamentos da torcida depois da derrota para o São Caetano funcionaram e os jogadores entraram com vergonha na cara; correram bastante e por isso venceram – simples assim.

Talvez isso seja uma meia-verdade, se é que isso existe.

Xingando muito no TwitterA atitude dos nossos jogadores foi a que sempre sonhamos e foi determinante para o resultado. O equilíbrio com que o Palmeiras tratou a disciplina tática e a chamada pilha, dosadas na combinação correta, temperadas com a incrível participação dos mais de 34 mil palmeirenses presentes, foi o que matou o SPFC.

A origem dessa mudança de atitude, entretanto, parece muito mais ligada ao significado de cada jogo do que às cobranças nas redes sociais que beiraram a histeria.

E-qui-lí-brio

São poucos os jogadores que conseguem entrar em todas as bolas com vitalidade sem perder a concentração, sem desligar do raciocínio que comanda a fundamental ocupação de espaços.

Nossos jogadores conseguiram imprimir volume nos momentos-chave e souberam diminuir o ritmo quando necessário. O time respondeu, mais uma vez, à necessidade de vencer num jogo grande após um resultado frustrante. O que vimos foi um banho de bola.

Victor Luis vs. SPFC
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

O SPFC foi esmagado na parte mental logo que a bola rolou. O som ensurdecedor da torcida, somado com três ou quatro roubadas de bola surpreendentes logo nos minutos iniciais, minou a confiança dos adversários. A jogada de Dudu entrando na área conduzindo a bola rente à linha de fundo ilustra muito bem a postura de cada time em campo.

Mas não é possível jogar o tempo todo em intensidade máxima. O Verdão, então, soube jogar também nos momentos em que o SPFC tentou colocar a bola no chão e fazer valer sua condição de time grande. O máximo que permitiu foi uma bola na trave, num lance de rara felicidade de Shaylon e Trellez. Neutralizando e cansando o adversário, o Palmeiras voltou à carga e esteve bem mais próximo do terceiro do que o SPFC do primeiro – aliás, chegamos ao terceiro, que a péssima arbitragem nos subtraiu.

Torcida à beira de um ataque de nervos

Em jogos menores, em início de temporada, o time pode se dar ao luxo de fazer experiências. É até necessário. Nesses jogos, como o de segunda-feira, é natural que o foco esteja totalmente na parte tática e zero na intensidade. Ontem, ao contrário, pode ter sido apenas um jogo em que tudo deu certo, mas também pode ser sinal de que esse grupo pode estar atingindo a maturidade (até antes do esperado) ao exibir disciplina tática e pilha em quantidades corretas, nos momentos exatos.

Fabiano vs. São Caetano
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

Não podemos ter certeza de nada; o tempo dirá o quanto nosso elenco está evoluindo. A conta da derrota de segunda, é claro, é do treinador – o que não necessariamente é algo ruim. Roger pode ter arriscado os pontos em nome do desenvolvimento de peças que lhe parecem úteis. Ele provavelmente tirou lições importantes daquela partida. E pagou com o preço mais alto possível por essas informações: três pontos.

Transformar a frustração por uma derrota para o São Caetano num movimento de manada para derrubar a comissão técnica, condicionando a sequência do trabalho à vitória no clássico é um erro tão grosseiro quanto recorrente em nossa torcida, sempre à beira de um ataque de nervos. Felizmente a vitória veio, caso contrário estaríamos sujeitos à firmeza da diretoria – e sabe-se lá o quanto estava respaldado o trabalho da comissão técnica até ontem à noite. E não é possível que, em sã consciência, depois de tudo o que aconteceu no ano passado, um palmeirense ainda sustente que trocar de técnico seja sempre a solução.

Por isso, a única certeza que parece mesmo existir é a de que é melhor exercitar a paciência, evitar jogar gasolina em cima de uma pilha em que pode haver um braseiro escondido. O preço a ser pago pode ser bem maior que três pontos na fase de classificação do Paulista.


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Duas frentes de trabalho para acabar com a maldita sensação de déjà vu

Derby
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

O Palmeiras perdeu mais um Derby em Itaquera, no final-de-semana. Esta derrota perfez uma rara sequência de quatro seguidas no clássico – a última vez que eles nos impuseram isso na História foi entre 1983 e 1985. Assim, o placar de sequências de quatro ou mais vitórias foi igualado, com quatro para cada lado. A diferença é que o Palmeiras ostenta uma sequência de cinco e outra de seis triunfos.

A partida do último sábado traz uma desagradável sensação de déjà vu, já que guarda semelhanças com dois Derbies disputados no ano passado.

De certa forma, lembra o clássico disputado em 22 de fevereiro, pelo Paulistão, quando o Palmeiras, apesar do período de desenvolvimento do time em virtude de ter um treinador contratado na virada do ano, fazia melhor campanha no campeonato, enquanto o rival parecia bem mais longe, vindo de resultados ruins e ainda buscando encontrar um time titular confiável. Com um gol de Jô, no final do jogo, o Palmeiras foi derrotado pela contagem mínima.

Por outro lado, a partida do último sábado remete ao Derby de 5 de novembro, que terminou com o placar de 3 a 2 e que teve larga influência da arbitragem. Nos dois jogos, apesar da interferência dos homens do apito, o Palmeiras também mostrou falhas dentro de campo que precisam ser ajustadas.

Fomos roubados, mas claro que poderíamos ter jogado melhor

Instagram
Reprodução Instagram

A primeira reação do torcedor contra o próprio time é aquela que infelizmente já virou rotina de alguns anos para cá: achar que “faltou raça”. Daí a chamar este ou aquele jogador de vagabundo e pipoqueiro é um pulo. Daí para pior. Houve alguns episódios tétricos: torcedores procuraram o Instagram da esposa do Dudu e o xingaram – não pouparam nem uma foto em que aparece apenas um dos Duduzinhos. É caso de sociopatia gravíssimo.

Mesmo sem chegar a esses extremos, boa parte da nossa torcida canaliza a frustração da derrota contra nossos jogadores de forma exagerada. A necessidade de se achar culpados e de vociferar pelo teclado é um fenômeno alarmante. E não é justo.

Faltou atitude? Talvez, mas será que foi por falta de “tesão”? Será que foi por desinteresse? É bem pouco provável.

Nossos atletas no primeiro tempo, mesmo jogando ligeiramente melhor que o adversário, não conseguiram abrir o placar. A intensidade de jogo poderia ter sido maior, o time poderia ter atacado de forma mais compacta. Erros dos jogadores, talvez do técnico – jamais saberemos se o posicionamento equivocado dos nossos jogadores foi orientação do Roger ou se eles não executaram o que o treinador pediu. No final, mesmo com nossa defesa postada, um buraco na marcação e muita felicidade de Rodriguinho determinaram a abertura do placar.

Raphael Claus
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

No segundo tempo houve jogo por dez minutos, um massacre do Palmeiras, com muita atitude – tanto que Cássio aproveitou um choque com Borja para paralisar o jogo por três minutos para esfriar nosso time, sentindo o perigo. Assim que a partida recomeçou, uma bola vadia caiu no pé de Renê Júnior e o resto é o que já sabemos.

A partir desta sequência, o Palmeiras de fato morreu em campo e é impossível não relacionar este comportamento com as decisões da arbitragem. Nosso time se sentiu muito prejudicado e perdeu o foco, compreensivelmente – ao menos para quem tem a referência da prática de esportes de forma competitiva na vida. Quem não tem, fala que é vagabundagem.

Faltou aproximação entre os atletas com a posse de bola. Tchê Tchê estava fora de sintonia e não deu apoio a Felipe Melo, perdemos a disputa pelo meio de campo. Nosso time podia ter mais vibração no primeiro tempo – algo que 10% do estádio a nosso favor poderia providenciar, mas que o time deles, que da mesma forma não teve o apoio dos seus quando veio ao Allianz Parque em 2017, não se ressentiu – muito, mas muito provavelmente porque já estava se sentindo bem naquele jogo, coisa que nosso time não conseguiu.

Tudo isso ainda parece ter origem no atual estágio de desenvolvimento do time. Contra times fracos, os resultados vieram. Num ambiente extremamente hostil, contra um time mais ajeitado, e com a decisiva ajuda da arbitragem, o resultado não veio. Pensando friamente, não foi nenhuma zebra e já dizíamos antes do jogo, por todos esses motivos, que os favoritos eram eles.

Poderíamos ter jogado melhor, mas claro que fomos roubados

Roger Machado
Fabio Menotti/Ag.Palmeiras

Roger Machado ainda deve fazer ajustes no time titular. Nosso elenco é muito rico e ele tende a conseguir, com o tempo, achar a melhor combinação de jogadores e encontrar a melhor dinâmica de jogo para eles. Keno, Guerra e Gustavo Scarpa estão a postos para novas experiências. Diogo Barbosa é uma peça importante que ainda não estreou. Moisés é um craque cuja condição física ainda é uma incógnita. Roger ainda tem muito para evoluir com o time.

Isto dito, não podemos jamais deixar de lado a influência que a arbitragem sofre para apitar jogos do SCCP. Em seu site, a RGT soltou uma matéria quase criminosa no sábado tamanha a intimidação que causou na arbitragem. Nos momentos que antecederam ao jogo, o bandeirão desfraldado pela torcida local continha, descaradamente, as logomarcas dos canais por assinatura da emissora. Após o clássico, quase em tom de escárnio, exibiu matéria com a mãe de Jailson na arquibancada do Itaquerão, uniformizada, torcendo por seu time e por seu filho.

Bandeirão SCCPÉ fato que a arbitragem tem medo de apitar contra o time de Itaquera. “Pênalti para o SCCP” é uma piada generalizada na Internet. O Palmeiras precisa, de alguma forma, se defender disso. Boa parte da torcida espera um pronunciamento do presidente Maurício Galiotte. Talvez seja necessário, talvez não – uma declaração forte pode até reforçar, mas jamais será suficiente para, por si só, impor o respeito que nossa camisa demanda.

Estamos sendo roubados sistematicamente – até na base os juízes nos prejudicam. É necessário agir nos bastidores de forma incisiva, e se nossa diretoria tem tentado fazer algo neste sentido, não está surtindo efeito algum e a estratégia precisa ser revista.

Nosso patrocinador tem um peso enorme nas receitas da RGT, o principal agente dessa pressão. Mas a presidente da Crefisa e conselheira do clube Leila Pereira é uma neófita e ainda não sabe como usar esse poder para agir nos bastidores e defender os interesses do time – algo que nosso presidente poderia incentivar e eventualmente mostrar o caminho, até porque, ela já declarou a intenção de um dia presidir o clube.

Duas frentes a se trabalhar

Maurício GaliotteFomos roubados e podíamos ter jogado melhor. As duas coisas não se excluem. Fechar os olhos para qualquer um desses aspectos é limitar a análise, é enxergar apenas uma parte do problema. Nossa torcida precisa perceber o cenário de forma ampla e apoiar, em vez de se converter em mais um problema.

Roger está em início de trabalho e, tanto quanto o elenco, precisa de blindagem. Se os resultados não vierem, será preciso muita força para suportar a pressão interna – o erro que comentemos no ano passado não pode se repetir. Já Maurício Galiotte está mais perto do fim do que do começo de seu mandato e já passou da hora de resguardar, de uma vez por todas, nossos interesses.

As duas coisas se resolvem com muito trabalho: o treinador, treinando; o presidente, presidentando. Só assim não termos novamente a mesma maldita sensação de déjà vu quando voltarmos a enfrentá-los, provavelmente nas finais do Paulistão.


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Rivalidade, a alma do futebol

Cascão e Cebolinha - Derby
© MSP

Os constantes episódios de violência envolvendo torcedores fomenta campanhas de paz nos dias que antecedem os grandes clássicos. Às vezes as ações partem dos próprios clubes, às vezes das federações, às vezes da própria imprensa – ou de quem mais queira conciliar interesses comerciais com um propósito nobre.

Tais campanhas, talvez nas primeiras vezes, surtiram algum efeito. Com a perda do ineditismo, entretanto, esse tipo de ação caiu na vala comum e hoje é solenemente ignorado por quem aproveita a realização de clássicos para satisfazer a necessidade patológica de sair na mão – ou na barra de ferro – com alguém.

No último final de semana, em Salvador, o Ba-Vi foi promovido na semana que o antecedeu como o “Clássico da Paz”. Quem partiu para a violência foi quem menos se esperava em tempos de extremo profissionalismo: os atletas. Obviamente, o fogo se alastrou para as arquibancadas do Barradão e tivemos mais uma série de registros para o baú de cenas lamentáveis do futebol brasileiro. Mesmo com toda a campanha, que acabou se tornando ridícula.

Dado que essas estratégias de comunicação se tornaram completamente inócuas, talvez tenhamos atingido o ponto de se mudar o enfoque para diminuir ou mesmo remover a pancadaria do dicionário do futebol. A mídia não é mais um instrumento eficaz, o foco principal talvez deva ser a inteligência policial sobre os já conhecidos elementos infiltrados nas organizadas que fomentam os conflitos, sempre pré-agendados com data e local. “Se organizar direitinho, todo mundo dá porrada” – é a piada que corre.

O hooliganismo é um fenômeno sociológico e antropológico e tem suas particularidades em cada local onde é praticado – o movimento que teve muita força na Inglaterra até meados da década de 80 era bem diferente do que ocorre aqui no Brasil – mas também tem suas semelhanças. Lá, foi praticamente erradicado – o que não quer dizer que se forem aplicadas as mesmas medidas aqui, surtiriam o mesmo efeito. É um trabalho difícil, que precisa ser feito de forma séria por gente competente e não por promotores aventureiros que usam a visibilidade que o futebol proporciona para alavancar suas carreiras políticas.

Enquanto esse trabalho é feito de forma capenga por quem não está de verdade a fim de resolver, quem sofre é o torcedor comum. Como sempre.

Medidas inúteis

Os novos estádios vieram para ficar. A maioria deles, em sua concepção física, não permite mais grandes clássicos com torcida dividida meio-a-meio – normalmente existe um local reservado para a torcida visitante que corresponde a, no máximo, 10% da capacidade do estádio. Quem viu os grandes clássicos com seis gomos de cada lado, viu.

Mas mesmo com 10% de visitantes ainda existia o espírito de clássico. A sensação de estender um dedo médio e soltar alguns palavrões em direção à torcida adversária após ver o Palmeiras fazer um gol num clássico no Allianz Parque, embora não se compare a calar metade do estádio, ainda rendia pontos valiosíssimos no placar de objetivos a se atingir na vida. Agora, nem isso nos permitem, depois da instituição da torcida única – uma solução paliativa que consiste num atestado de incompetência das autoridades em controlar o problema em sua raiz.

Sobra até para a cerveja. Chega a ser inacreditável que, mesmo 10 anos após a proibição, um produto que gire tanto dinheiro não tenha tido um lobby eficiente para derrubar uma resolução tão estúpida.

Estas são apenas algumas atrações do circo armado pelo poder público para fingir à sociedade que estão buscando soluções reais para o problema. Os índices de violência não dão sinais de arrefecer e a parte mais sedutora de ir a um estádio num clássico, ou mesmo em jogos comuns, está com cada vez menos atrativos.

Rivalidade, a alma do futebol

Derby da PazEnquanto as autoridades desfilam suas hipocrisias pelo picadeiro, a mídia também inventa moda. Os dirigentes dos clubes combinam, junto com seus marqueteiros, ações bonitinhas nos dias que antecedem o clássico. O apelo é forte: a paz! Quem pode ser contra?

E dá-lhe logomarca do “clássico da paz” com coletiva conjunta. Os torcedores comuns – aqueles que não usam o futebol para satisfazer o vício na pancadaria, mas que incorporam o espírito da arquibancada e querem matar o adversáriono sentido figurado – são impelidos a reprimir o instinto de repulsa ao rival em nome da disposição geral para que ninguém saia do estádio machucado. E não adianta nada, porque se os caras quiserem brigar, eles vão brigar e não vai ser o Cebolinha nem o Cascão que vão impedir.

O pior de tudo é que, mesmo após uma série de ações conjuntas entre os clubes, nos bastidores o SCCP, de forma cínica, continua influenciando autoridades e arbitragens, ganhando estádio e campeonatos na mão grande, enquanto vemos imagens de personagens de gibis se abraçando enquanto vestem as camisas dos rivais seculares.

Já basta terem proibido a cerveja, as bandeiras, acabado com os clássicos 50-50 e inventado a torcida única. Deixem a rivalidade aflorar. Parem com esse papo de amizade que não impede treta nenhuma. Deixem-nos odiar nossos rivais e querer vê-los mortosmais uma vez, no sentido figurado. Nós, o grosso da torcida do Palmeiras, 99% dos que estão no estádio, odiamos os torcedores do SCCP, e adoramos odiá-los, sem meter a porrada em ninguém – e provavelmente o inverso também é verdadeiro. Isso é a rivalidade, a alma do futebol que não pode acabar.

No dia seguinte, nos esprememos no metrô ao lado deles e a vida segue.


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