Leila Pereira, Frank Underwood e o Palmeiras

Frank UnderwoodUm dos assuntos que têm preocupado nossa torcida neste início de temporada é a volta da efervescência política nas alamedas do clube. O presidente Maurício Galiotte vem enfrentando, logo de saída, problemas sérios para conter as tensões que precedem as eleições para o Conselho Deliberativo, que acontecem no próximo dia 11. As primeiras decisões de Galiotte desagradaram a Paulo Nobre e os dois já não estão em harmonia como nos últimos quatro anos.

Do ponto de vista de governabilidade, o afastamento entre os dois não deve influenciar a gestão de Galiotte. Apesar de ser um comportamento recorrente na política do Palmeiras, Paulo Nobre não faz o tipo que sabota seus adversários políticos, se é que as diferenças os levaram a esse patamar. Se Nobre não vai ajudar, muito menos vai atrapalhar. A tendência é que, com o tempo, os dois se reaproximem; o tom apocalíptico da imprensa acerca do tema se deve à falta de pauta típica do mês de janeiro.

Houve dois episódios que conduziram a este cenário: a votação para punição de Arnaldo Tirone, esvaziada por partidários de Mustafá Contursi e seus novos aliados, a União Verde e Branca; e a impugnação da candidatura de Leila Pereira ao Conselho, último ato de Nobre enquanto presidente.

O pedido deu-se porque Leila não tem condições estatutárias para concorrer ao cargo. Numa manobra de Mustafá Contursi, foi-lhe dada essa condição baseada num título emérito supostamente concedido em 1996, nunca propriamente documentado.

Mustafá, mesmo ainda com muita força nos CD e no COF, resultado de mais de 40 anos de atuação política no clube, vem perdendo conselheiros a cada eleição. Sua influência política junto aos sócios está em queda livre e sua bancada só não míngua de vez porque tem a reserva dos vitalícios que lhe são fieis – outra de suas manobras que visa estender ao máximo sua influência.

O sistema eleitoral do Palmeiras é semelhante ao da Câmara dos Deputados em Brasília; os partidos – ou chapas – elegem tantos deputados – ou conselheiros – quanto a proporcionalidade do total de votos recebidos determina. Isto permite que candidatos muito populares, com votações expressivas, puxem outros candidatos com votações pífias, como acontece com Tiririca em Brasília. Leila goza de extrema popularidade pelo fato de ser uma das donas da Crefisa e Mustafá visa usar essa condição para puxar mais quatro ou cinco conselheiros para sua chapa na eleição.

Leila está sendo usada e parece não se importar. Teve a promessa de que o título seria concedido de forma retroativa, mas não esperava a intervenção de Nobre, o que também enfureceu Mustafá. A solução foi pressionar Galiotte dos dois lados em busca de uma canetada que legitime o documento: Mustafá o ameaça com a ingovernabilidade e Leila com a retirada do patrocínio. Com a faca no pescoço, Galiotte prometeu atender ao pedido. Obviamente muito insatisfeito com a situação em que Paulo Nobre o meteu, daí o afastamento.

Paulo Nobre está de volta a sua vida normal, depois de quatro anos, curtindo um descanso, resignado. Leila terá seu mandato de conselheira, o que lhe abre as portas para uma candidatura a presidência num futuro próximo, sua grande aspiração. Mustafá consegue mais poder e uma aliada de peso, enquanto lhe for útil. E Maurício tem caminho livre para governar, com recursos financeiros garantidos. Aparentemente todos estão felizes.

Ao contrário do que partidários de Paulo Nobre apregoam, a Crefisa não é inimiga do Palmeiras. É um grande parceiro e patrocinador, e manter um bom relacionamento com a empresa que valorizou sobremaneira a visibilidade de nossa camisa e permite que o clube tenha grandes vantagens competitivas em relação aos rivais é muito importante. Mas a forma como tudo se desenrolou é que preocupa.

No curto prazo, não se sabe até que ponto Galiotte garantiu o prosseguimento dos valores fundamentais da gestão anterior, que não mediu esforços financeiros para que o clube tivesse toda a estrutura para atingir os resultados esportivos. Mustafá é adepto do corte de despesas, e já vimos este mês o afastamento das equipes de comunicação, médica e de fisioterapia, e não se sabe se a medida foi estratégica, administrativa ou financeira. Os diretores do último biênio continuam trabalhando, à espera do anúncio da nova diretoria para 2017/18, a ser feito após o dia 11. Se Maurício trocar os principais diretores, colocando em suas posições nomes indicados por Mustafá, o castelo de profissionalismo que começou a ser construído nos últimos quatro anos terá sérios abalos em suas fundações.

No longo prazo, a canetada abre precedentes seriíssimos. Leila Pereira conquistou todos os bens materiais que um ser humano pode desejar e os novos desafios de sua vida talvez se relacionem com poder. Ser a patrocinadora de uma camisa tão poderosa como a do Palmeiras parece ter-lhe aberto novos horizontes, e ela enxergou no clube uma maneira de percorrer esse desafio. Ela tem todo o direito de aspirar à presidência do clube para satisfazer a esse desejo, mas precisa percorrer o mesmo caminho de qualquer associado: oito anos como associada, e mais oito anos como conselheira, sem atalhos conseguidos na base do prestígio, que por sua vez advém de sua condição financeira.

Uma ascensão baseada simplesmente no poder econômico transforma o Palmeiras num clube vendido, semelhante ao que aconteceu com grandes clubes europeus como PSG, Manchester City e Chelsea, ou, melhor comparando em nosso próprio mercado, com o SCCP/MSI ou o Fluminense/Unimed. Isto não é motivo de orgulho para ninguém, o Palmeiras tem que manter o respeito a suas regras intocado. Além disso, uma ascensão acelerada torna a administração desprotegida, dependente de uma relação com alguém frágilmente alheio aos meandros das alamedas. Por isso é necessário percorrer toda a estrada política; o poder precisa estar nas mãos de alguém com raízes fortes no solo do clube, algo que só o tempo confere. Dinheiro nenhum compra isto.

O casal Crefisa é muito bem sucedido em seu ramo de atividade, onde o estilo agressivo costuma dar resultados consistentes. Mas num clube de futebol essa postura não é a mais indicada, sobretudo num ambiente em que a palavra não vale muita coisa. Na política do Palmeiras, quem odeia hoje, ama amanhã. A bandeira da UVB nos últimos 20 anos foi de ódio a Mustafá Contursi, o discurso sempre foi pessoal e virulento– não estamos falando apenas de oposição política. Na primeira oportunidade de lucro político, tudo caiu por terra e os conselheiros da UVB obedeceram à manobra de Mustafá para inocentar Tirone.

Leila Pereira não tem o menor traquejo, por enquanto, para se meter no meio dessas cobras criadas e sustentar seu prestígio da única forma que conhece. Se não aprender a fazer política, se optar por percorrer o caminho mais curto, será miseravelmente traída por quem hoje acha que a protege.

Quotes

Algumas citações de Frank Underwood, legendário personagem da espetacular série House of Cards, da Netflix, podem inspirar Leila nesta caminhada:

“Money is the Mc-mansion in Sarasota that starts falling apart after 10 years. Power is the old stone building that stands for centuries. I cannot respect someone who doesn’t see the difference.”

“Power is a lot like real estate. It’s all about location, location, location. The closer you are to the source, the higher your property value.”

“The road to power is paved with hypocrisy, and casualties.”

E para terminar, a maior das pérolas:

“Democracy is so overrated.”