O pensamento vivo de Mustafá

Mustafá Contursi
Keiny Andrade/Folhapress

Mustafá Contursi concedeu uma longa entrevista publicada ontem na Folha de S.Paulo. Nela, com a mesma habilidade com que manipulou o Conselho e reescreveu o estatuto do clube, o que lhe confere poder eterno no clube, nega tal influência. Crê piamente em seus conceitos claramente ultrapassados e atua fortemente para reimplantá-los no Palmeiras. O material completo pode ser lido aqui.

A entrevista começa com uma grande pérola. Perguntado sobre o que o clube precisa fazer nos próximos anos, crava: redução de 20% das despesas em todos os setores. Mustafá tem a percepção de que o clube está gastando muito sem ponderar que, pela primeira vez em décadas, o clube consegue ser superavitário ao mesmo tempo que consegue resultados expressivos. Em seu pensamento, não importa ter as contas equilibradas; o que não pode é gastar – mesmo que esse investimento seja o combustível para as receitas extraordinárias que o Palmeiras alcançou. Mustafá confunde austeridade com avareza.

A recomendação de cortar 20% em cada área é patética. Mustafá defende uma medida que não pode se aplicar nem em orçamento doméstico. Provavelmente deve achar que o investimento na implantação do SAP no clube foi dinheiro jogado fora. O papel de pão ainda deve lhe ser de grande valia.

Mustafá bombardeia o departamento de marketing e justifica, criticando uma suposta deficiência na força de vendas. Para isso, usa o fato da Crefisa ter batido na porta do Palmeiras para fechar o patrocínio, e não o contrário. Segundo Mustafá, os profissionais que desenvolveram dezenas de contratos de licenciamento e fizeram do Avanti um sucesso estrondoso usam o Palmeiras como cabide de emprego. Para ele, marketing é apenas sinônimo de “departamento comercial”.

Com todos esses conceitos, não é à toa que, quando o futebol do Palmeiras esteve de fato sob seu controle, tivemos um desempenho digno de uma Portuguesa. Não compreende que o futebol mudou, que novas metodologias foram desenvolvidas, que o mercado está muito mais dinâmico e que para se ter um elenco com 30 jogadores dignos de vestir nossa camisa, é necessário ter bem mais que isso sob contrato, pois jamais alguém acerta 100% das contratações. Hoje, jogador que não dá certo é realocado por empréstimo, e a fila anda. O que não pode é ter um monte de atleta disputando Bobinho Open em Guarulhos – ou colocá-los no Palmeiras B, uma de sua invenções que sangrou os cofres do clube por anos.

Alexandre Mattos é uma máquina de fechar contratos, seja para reforçar o Palmeiras, seja para aliviar nossa folha de pagamento com os jogadores que ficam fora dos planos. Para Mustafá, hoje no Palmeiras há muitos profissionais que trabalham apenas em interesse próprio. Incomoda demais ao velho cartola perceber que o setor mais importante do clube esteja nas mãos de um “forasteiro”.

Poder

Mustafá Contursi age nas sombras. Como um mestre da manipulação, construiu durante anos sua fortaleza de poder. Trilhou o caminho da presidência nos anos 70 e 80, para alcançá-la no início dos anos 90, no melhor momento possível: quando a Parmalat havia acabado de entrar no clube e exercia a co-gestão do futebol. Dinheiro não era problema, e os títulos mascaravam todo o resto.

Por resto, entenda-se uma enorme puxada de tapete: seguindo a sucessão de arranjos políticos da casta que comanda o clube há seis ou sete décadas, Seraphim Del Grande era o próximo da fila para assumir a presidência do clube após os dois mandatos de Mustafá. Mas aquela cadeira parece ter mel. Mustafá usou a influência que pode ter um presidente do Palmeiras para solidificar a lealdade eterna de dezenas de conselheiros. Deixou Seraphim na mão, passou por cima do estatuto e ficou na presidência o quanto quis – o tempo necessário para moldar o clube à sua imagem e semelhança. Todos os departamentos do clube social foram controlados por alguém indicado ou abençoado por ele. Os votos nas eleições eram direcionados nesses pequenos feudos aos candidatos de sua chapa.

Não havia democracia. O grupo que se insurgiu contra ele, o Muda Palmeiras, capitaneado por Seraphim Del Grande e Luiz Gonzaga Belluzzo, não podia nem usar camisetas de ordem pelo clube: quem ousasse protestar, tinha o adereço retirado e era expulso do quadro associativo. Uma lista negra foi construída por seus pequenos passarinhos, que espionavam os fóruns de internet e anotavam os nomes de torcedores que representavam um potencial perigo. Quando estes palmeirenses tentavam ficar sócios do clube, eram barrados. Marcos Kleine, guitarrista do Ultraje a Rigor, é o exemplo mais famoso – mas há dezenas de casos.

Na base do terror, Mustafá cravou suas garras no clube, e só perdeu o poder quando provou de seu próprio veneno, quando Affonso Della Monica o surpreendeu e se aliou à oposição para conseguir seu segundo mandato. As portas para o Muda Palmeiras se abriram, e o Palmeiras finalmente  conseguiu montar bons times entre 2008 e 2009. Mas passou rápido e foi infrutífero.

Apesar de palmeirenses legítimos com grande preocupação com o futebol, a Muda Palmeiras, que deu origem à chapa UVB, tem quadros também muito fracos; o máximo que conseguiram foi um Paulistão. Pior: no mandato seguinte, Belluzzo não conseguiu recuperar os investimentos pesadíssimos, não os converteu em mais títulos e teve um seriíssimo problema de saúde, deixando o clube com um enorme vácuo de poder. Como resultado de tudo isso, Mustafá voltou com tudo, recuperou facilmente o apoio dos conselheiros que o haviam traído e conseguiu colocar na cadeira o presidente mais incapaz possível: Arnaldo Tirone, também conhecido como Pituca, o Loiro.

“O MEU clube”

Mesmo com todo esse histórico, Mustafá teve a desfaçatez de declarar à Folha que não tem apego à política do clube. Diz que se deixou envolver e que agora tem responsabilidades, como se não tivesse escolha. Quem circulou por muitos anos pelas alamedas e mais de uma vez o ouviu se referir ao Palmeiras como “o MEU clube”, em discursos que transbordavam ostentação de poder, tem sérias dúvidas sobre essa declarada falta de apego.

A última demonstração de poder foi a mudança de data de associação de Leila Pereira, dona da Crefisa. Mustafá usou o gosto pela publicidade de Leila para acolhê-la em sua chapa – com o marido, José Roberto Lamacchia, na aba. Os dois emplacaram suas eleições e puxaram mais de dez conselheiros para a chapa de Mustafá, que assim ampliou consideravelmente sua base de poder, que diminuía eleição após eleição.

Mustafá só respeita o dinheiro. Foi assim que Paulo Nobre conseguiu habilmente impor o profissionalismo no clube – na hora da discussão, as operações financeiras propostas pela equipe de Nobre, e conseguidas com seu prestígio financeiro, eram irrefutáveis.

Maurício Galiotte não tem esse prestígio financeiro e parece não ter envergadura política para manter a roda girando. Mustafá, com sua meta de 20%, já está manipulando a troca da competente diretoria que nos levou ao topo do futebol brasileiro pela turma do papel de pão. Inclua nesse bolo, quem diria, a UVB, aquela que lhe jurou ódio eterno em nome do amor ao Palmeiras. Como vemos, o amor era mesmo ao poder.

Coragem

Os frutos que colhemos em campo hoje foram plantados na gestão passada. Os ótimos resultados, como nos anos 90, cegam os associados e a torcida para o que acontece nos bastidores.

Toda uma estrutura está prestes a ser desmontada e a tendência é voltarmos ao estágio de 15 anos atrás – com a diferença que as receitas continuarão a ser enormes, mas não serão direcionadas ao futebol. Afinal, Mustafá defende claramente o fortalecimento do “quadro associativo” – seu grande curral eleitoral. Para sustentar esse enorme elefante, nada melhor que o dinheiro que mantém a hoje magnífica estrutura do futebol. Mas para Mustafá, é simples: “é só mandar gente embora”.

Pelo bem do Palmeiras nos próximos anos, precisamos que Maurício Galiotte encontre um jeito de manter a máquina funcionando. Além de habilidade política para compensar a falta de estofo financeiro, vai precisar de bastante coragem. Terá?