Patrocinador forte num clube fraco não adianta nada

Lamacchia, Mustafá e Leila PereiraO Palmeiras viverá na noite desta segunda-feira uma noite crucial para os próximos anos de sua trajetória. O Conselho Deliberativo votará a chamada “emenda Leila”, uma modificação no estatuto do clube que contemplará, entre outras alterações, a mudança na duração do mandato do presidente do clube de dois para três anos.

É evidente que a mudança, por si só, seria benéfica ao clube. O mandato de dois anos amarra o presidente à política do clube, sempre efervescente. Com três anos de mandato, é possível projetar uma gestão mais sólida e não se perde tanto tempo fazendo política. Esta questão é praticamente ponto pacífico.

Ocorre que a mudança que está sendo proposta visa ter efeito já nas próximas eleições, marcadas para novembro deste ano na qual o atual presidente, Maurício Galiotte, concorrerá. A proposta seria válida se Galiotte não pudesse ser candidato. Os três anos de mandato são muito bem-vindos, mas só a partir da eleição marcada para novembro de 2020. Aplicadas ao atual presidente, configura casuísmo.

Mas toda essa discussão é apenas cortina de fumaça. Tanto os que defendem o “avanço político”, quanto os que previnem sobre o “casuísmo”, estão discutindo sobre o nada – e sabem disso – porque, na verdade, a alteração tem por único objetivo acelerar a chegada de Leila Pereira à presidência do clube. Nossa patrocinadora não está medindo esforços para chegar a esse posto, para acumular as funções de fornecer recursos ao Palmeiras e decidir o que é feito com esses recursos.

Estamos prestes a cometer um erro gravíssimo

Leila Pereira em campanha
Sergio Barzaghi/Gazeta Press

A força do Palmeiras vem da solidez de suas instituições: a torcida, o quadro associativo, a diretoria executiva e os órgãos colegiados. Estes últimos, sabemos, não costumam ser tão sólidos assim. É exatamente na mão de um desses órgãos, o Conselho Deliberativo, que está uma das decisões mais importantes para o futuro próximo do clube.

Leila Pereira mostra uma avidez pelo poder inédita na História do clube. Além de, na condição de patrocinadora, já participar da tomada de decisões no que diz respeito ao andamento do Departamento de Futebol, acelerou de forma incrível sua trajetória política, tornando-se sócia em 2015 (alegadamente, em 1996), conselheira em 2017 e candidata não assumida para o pleito que, caso a emenda que leva informalmente seu nome seja aprovada, será realizado em novembro de 2021.

A conselheira vem proporcionando agrados a dezenas de conselheiros, bancando viagens e jantares sem constrangimento, tudo para cooptá-los a aprovar a emenda que tanto deseja. Seu avião particular, onde costuma dar carona a colegas do Conselho para assistir aos jogos fora do Allianz Parque, é chamado à boca pequena de “aeroestatuto”.

Leila na cadeira de presidente em 2021 é errado duplamente: primeiro, por forçar o clube a alterar a regra no meio do jogo, dando três anos de mandato a uma reeleição que estava prevista para ter apenas dois; e segundo, e muito mais preocupante, por concentrar poder demais nas mãos de apenas uma pessoa, uma empresária de grande sucesso no ramo financeiro, mas que tem um preocupante histórico de impulsividade e que não entende nada de futebol  – e não se trata aqui das quatro linhas, mas sim de tudo o que envolve as atividades de um presidente de clube da grandeza do Palmeiras. A solidez do Palmeiras, apoiada no equilíbrio entre suas instituições, ficará abalada por essa abrupta concentração de poder.

Aeroestatuto
Leila Pereira dá carona a conselheiros do clube, entre eles Wlademir Pescarmona e César Maluco, para assistir ao jogo contra o Atlético-PR (reprodução: Twitter)

A Crefisa não é a Parmalat

Um dos principais argumentos dos defensores da escalada de Leila é que o Palmeiras tratou muito mal a Parmalat na virada do século; a multinacional italiana, ainda com muito por contribuir com o Palmeiras, foi impelida a sair do clube, que mergulhou num caos completo, culminando com o rebaixamento em 2002.

Tal argumento é completamente falacioso. As relações entre Palmeiras e Parmalat, sob um modelo de cogestão, respeitavam a soberania do clube no processo de tomada de decisões. O leitor Douglas Monaco resgatou os fatos históricos e descreveu com precisão neste post como era a dinâmica equilibrada e harmoniosa entre as duas partes – pelo menos até Mustafá Contursi resolver acabar com tudo.

Se rejeitar a aceleração do processo de condução de Leila à presidência significa afastar a Crefisa e todo seu potencial financeiro do clube, pode-se concluir que Leila Pereira não quer exatamente o bem de nosso Palmeiras enquanto patrocinadora, e sim que ela usa o patrocínio apenas como fator de pressão para um dia ser alguém que concentrará muito poder, criando uma dependência temerária.

Muito respeito ao patrocínio

Mauricio Galliote e Leila PereiraA Crefisa é a melhor patrocinadora que um clube poderia ter no cenário nacional. Não se pode confundir a necessidade de proteger as instituições palmeirenses com alegados maus tratos à patrocinadora, semelhante ao que ocorreu há cerca de duas décadas, quando Mustafá colocou a Parmalat para correr do Palmeiras.

Precisamos muito de um patrocinador forte, mas de nada adiantará se o clube se enfraquecer em suas instituições, revivendo o modus operandi exatamente de quem Leila Pereira hoje se declara inimiga: o próprio Mustafá. Estaremos trocando um modelo onde as fontes de receita são bem equilibradas por outro onde a origem dos recursos estará concentrada nas mãos da presidente-patrocinadora, tornando o Palmeiras, na prática, uma espécie de Crefisa FC – exatamente como desdenham hoje nossos invejosos adversários.

A única condição para que Leila Pereira se torne uma presidente que respeita o equilíbrio entre as instituições do clube seria, ironicamente, retirando o patrocínio ao se sentar na cadeira. E isso, ninguém quer – nem ela mesma.

Leila acena com a retirada do patrocínio se o Palmeiras eleger outro presidente ao fim do ano que não seja seu atual aliado, Maurício Galiotte. Há quem diga até que a Crefisa saia do clube em caso da “emenda Leila” não passar – terrorismo puro.

Perder a Crefisa ao fim deste ano seria um golpe duro ao clube, mas que teríamos que superar. A melhor forma de Leila Pereira demonstrar, de fato, seu amor e respeito pelo Palmeiras é mantendo o patrocínio e apoiando a gestão que o quadro associativo, através da Assembleia Geral, vier a escolher em todas as eleições, já que o retorno às marcas de suas empresas é mais do que evidente conforme ela mesma declarou várias vezes.

O Palmeiras não pode viver com a faca no pescoço e ser dependente de quem quer que seja. Patrocinadores vêm e vão; o Palmeiras precisa seguir forte e independente. Patrocinador forte, num clube fraco, não adianta nada.


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