Abel Ferreira versus os puladores de polichinelo

Na parte final do século XIX, um jogo de caráter extremamente intuitivo foi inventado na Europa e algumas décadas depois cruzou o Atlântico. Virou febre na América do Sul. No Brasil, especialmente, se desenvolveu de forma notável, graças a um inexplicável talento dos locais para tratar a bola com os pés.

Teses antropológicas e sociológicas tentaram explicar por que o Brasil se tornou o “País do Futebol”. Depois de um período de viralatismo que durou até o início da década de 50 e que foi superado graças à conquista da Copa Rio por um certo clube brasileiro, o país dominou o esporte por aproximadamente meio século, praticamente imbatível. Só perdia para si próprio, quando a desorganização e os conflitos internos sabotavam a competitividade do time nacional.

A brincadeira se tornou tão apaixonante que foi natural que os meios de comunicação de massa se aproximassem cada vez mais – e com isso, um mercado rudimentar passou a ficar cada vez mais sofisticado e a movimentar uma quantidade de dinheiro cada vez maior.

Onde tem dinheiro, tem pesquisa e tem estudo. O preparo físico evoluiu, regras novas alteraram a dinâmica do esporte. E os inventores da brincadeira, cansados de serem derrotados, seguiram estudando para virar o jogo.

Enquanto isso, o País do Futebol permanecia deitado em berço esplêndido, coberto de louros e certo de que o talento natural faria com que o que já havia acontecido cinco vezes continuaria se repetindo misticamente por tempo indeterminado. Até que veio o Mineirazo. SETE A UM.

O Brasil finalmente acordou do sonho, percebeu que tinha ficado para trás, se organizou e tirou a diferença, certo? Claro que não. O simplório povo tupiniquim, conduzido por comunicadores atônitos, preferiu apontar dedos, procurar culpados, e seguiu sem buscar soluções.

A falta de compreensão da nova versão do jogo era latente; atletas brasileiros com experiências recentes em campos europeus alertaram para a diferença brutal entre os conceitos de futebol praticados. E alguns clubes decidiram tentar quebrar um tabu e trazer europeus para o país – desde que falassem português ou, pelo menos, espanhol.

Dois deles, Jorge Jesus e Abel Ferreira, cada um a seu modo, arrebataram os corações das torcidas de Flamengo e Palmeiras. O primeiro já tomou o caminho de volta sem deixar legado algum – ao contrário, plantou um sebastianismo que segue sufocando o clube carioca; o segundo segue em sua trajetória primorosa na Academia de Futebol e tenta passar suas mensagens não só para o sucesso do Palmeiras, mas para a evolução do futebol brasileiro.

Contagem Regressiva: Abel sempre parece ter um plano.
Cesar Greco

Abel é uma figura ímpar. Sem conhecê-lo pessoalmente, podemos, através de suas atitudes e discursos, tentar imaginar sua personalidade. E o que vemos remete a uma pessoa extremamente racional e focada, obcecada por processos, que alia o conhecimento à experiência como atleta, o que lhe deu a chance de desenvolver talento para liderança.

O resultado é um treinador que, em pouco mais de cinco anos de carreira, alcançou no Brasil em menos de um ano e meio o que muitos medalhões seguem perseguindo há mais de 30 anos.

Sua visão macro lhe permite entender facilmente o cenário. E o que vê, sete anos depois de uma humilhação sem precedentes, são brasileiros inertes, ainda apontando dedos uns para os outros no meio de um picadeiro, cercados por uma imprensa abobalhada. Deve ser uma visão muito pior que a que Cabral encontrou há cinco séculos.

Tudo o que Abel parece querer é repartir suas ideias para ajudar a transformar o meio em que vive atualmente em algo mais próximo do que ele já experimentou e que parece perfeitamente aplicável. O português fala de tática, de processos, de organização, de gramados, de calendário, de combate à violência.

A imprensa brasileira, sobretudo a facção menos inteligente e mais nociva, que anda com um pé na canoa do jornalismo e outro na do clubismo, reage de forma agressiva, demonizando suas divagações, tratando-as como insultos vindos de quem teria sangue de colonizador. Até de supremacista, Abel Ferreira já foi chamado.

Abel Ferreira conversa com o elenco do Palmeiras durante treinamento, antes do início do treino tático e das atividades físicas, na Academia de Futebol.
Cesar Greco

Abel, como boa parte dos técnicos europeus de ponta, parte de um princípio simples: o objetivo do jogo é marcar mais gols que o adversário. Para isso, existem o sistema defensivo, o sistema ofensivo e as transições; o jogo com e sem a bola. Os dois sistemas são indissociáveis, influenciam um ao outro. Assim, uma defesa forte é tão importante quanto um ataque forte. A forma de jogar vem da característica dos jogadores.

O catenaccio, por aqui conhecido como “retranca”, foi um método eficaz de se conseguir resultados há algumas décadas, quando polichinelos eram usados para manter os jogadores em forma. Era um sistema predominantemente defensivo, físico, desenvolvido para nivelar o jogo entre equipes com grandes diferenças técnicas. Pouco se assemelha aos modernos sistemas do futebol atual.

A capacidade de compreensão de futebol desses comunicadores é semelhante à eficácia de polichinelos na preparação física. O máximo que conseguem fazer é reduzir um futebol extremamente eficiente a uma “retranca”. Criticam o modo como o Palmeiras de Abel vence usando parâmetros como “beleza” – ou a falta dela. Isso sem falar na sorte, já que além de vencer todos os jogos em lances fortuitos, ainda tem o vento a seu favor.

A imprensa tem um papel a cumprir para melhorar o futebol brasileiro – e não apenas os que falam com o público, mas principalmente os editores, que traçam a linha-mestra de cada redação. Por várias razões estruturais, infelizmente esse parece um desafio que poucos parecem aceitar. O público brasileiro, conduzido por comunicadores limitadíssimos, segue discutindo futebol reduzindo a pauta a “ofensivo x defensivo”. É o “jogo falado” a que se referiu Abel, bem distante do “jogo jogado”.

O que podemos fazer para ajudar a reverter esse cenário está na ponta de nossos dedos: o mouse, o controle remoto, a tela do celular. Escolha bem quem forma sua opinião. Se o profissional reduz Abel Ferreira a colonizador, retranqueiro, supremacista, ou outro adjetivo desse naipe, fuja. Se os números desses puladores de polichinelos despencarem, os verdadeiros profissionais, os que estudam futebol e ainda se preocupam em melhorar a discussão em torno do esporte, ganham espaço.

E o Palmeiras que trate de absorver ao máximo o conhecimento de Abel Ferreira para não repetir os erros que o Flamengo cometeu. Quando Abel seguir seu caminho, seu legado precisa ser aproveitado e nosso clube tem que estar pronto para seguir em frente. Algo está sendo feito nesse sentido?


O Verdazzo é um projeto de independência da mídia tradicional patrocinado pela torcida do Palmeiras.

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  • Conrado, me sinto orgulhoso em te lo como amigo, seu texto sintetiza com perfeição o que muitos não querem ou tem preguiça de enxergar. PARABÉNS MEU AMIGO.

  • Meu Deus! Que texto perfeito! É possível que um texto assim chegue ao Abel e a alguma parcela séria da imprensa? Se é que ela existe.

  • Parabéns pelo texto. Toca na raiz dos nossos problemas como nação sem ser enfadonho ou político, falando sobre quem assume a responsabilidade por atos e consequências versus quem terceiriza.
    No caso do Palmeiras é como vc disse, aproveitar o legado e continuar acompanhando e cobrando para continuarmos evoluindo, isso naturalmente forçará o resto a nos copiar e melhorar.