Duas frentes de trabalho para acabar com a maldita sensação de déjà vu

Derby
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

O Palmeiras perdeu mais um Derby em Itaquera, no final-de-semana. Esta derrota perfez uma rara sequência de quatro seguidas no clássico – a última vez que eles nos impuseram isso na História foi entre 1983 e 1985. Assim, o placar de sequências de quatro ou mais vitórias foi igualado, com quatro para cada lado. A diferença é que o Palmeiras ostenta uma sequência de cinco e outra de seis triunfos.

A partida do último sábado traz uma desagradável sensação de déjà vu, já que guarda semelhanças com dois Derbies disputados no ano passado.

De certa forma, lembra o clássico disputado em 22 de fevereiro, pelo Paulistão, quando o Palmeiras, apesar do período de desenvolvimento do time em virtude de ter um treinador contratado na virada do ano, fazia melhor campanha no campeonato, enquanto o rival parecia bem mais longe, vindo de resultados ruins e ainda buscando encontrar um time titular confiável. Com um gol de Jô, no final do jogo, o Palmeiras foi derrotado pela contagem mínima.

Por outro lado, a partida do último sábado remete ao Derby de 5 de novembro, que terminou com o placar de 3 a 2 e que teve larga influência da arbitragem. Nos dois jogos, apesar da interferência dos homens do apito, o Palmeiras também mostrou falhas dentro de campo que precisam ser ajustadas.

Fomos roubados, mas claro que poderíamos ter jogado melhor

Instagram
Reprodução Instagram

A primeira reação do torcedor contra o próprio time é aquela que infelizmente já virou rotina de alguns anos para cá: achar que “faltou raça”. Daí a chamar este ou aquele jogador de vagabundo e pipoqueiro é um pulo. Daí para pior. Houve alguns episódios tétricos: torcedores procuraram o Instagram da esposa do Dudu e o xingaram – não pouparam nem uma foto em que aparece apenas um dos Duduzinhos. É caso de sociopatia gravíssimo.

Mesmo sem chegar a esses extremos, boa parte da nossa torcida canaliza a frustração da derrota contra nossos jogadores de forma exagerada. A necessidade de se achar culpados e de vociferar pelo teclado é um fenômeno alarmante. E não é justo.

Faltou atitude? Talvez, mas será que foi por falta de “tesão”? Será que foi por desinteresse? É bem pouco provável.

Nossos atletas no primeiro tempo, mesmo jogando ligeiramente melhor que o adversário, não conseguiram abrir o placar. A intensidade de jogo poderia ter sido maior, o time poderia ter atacado de forma mais compacta. Erros dos jogadores, talvez do técnico – jamais saberemos se o posicionamento equivocado dos nossos jogadores foi orientação do Roger ou se eles não executaram o que o treinador pediu. No final, mesmo com nossa defesa postada, um buraco na marcação e muita felicidade de Rodriguinho determinaram a abertura do placar.

Raphael Claus
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

No segundo tempo houve jogo por dez minutos, um massacre do Palmeiras, com muita atitude – tanto que Cássio aproveitou um choque com Borja para paralisar o jogo por três minutos para esfriar nosso time, sentindo o perigo. Assim que a partida recomeçou, uma bola vadia caiu no pé de Renê Júnior e o resto é o que já sabemos.

A partir desta sequência, o Palmeiras de fato morreu em campo e é impossível não relacionar este comportamento com as decisões da arbitragem. Nosso time se sentiu muito prejudicado e perdeu o foco, compreensivelmente – ao menos para quem tem a referência da prática de esportes de forma competitiva na vida. Quem não tem, fala que é vagabundagem.

Faltou aproximação entre os atletas com a posse de bola. Tchê Tchê estava fora de sintonia e não deu apoio a Felipe Melo, perdemos a disputa pelo meio de campo. Nosso time podia ter mais vibração no primeiro tempo – algo que 10% do estádio a nosso favor poderia providenciar, mas que o time deles, que da mesma forma não teve o apoio dos seus quando veio ao Allianz Parque em 2017, não se ressentiu – muito, mas muito provavelmente porque já estava se sentindo bem naquele jogo, coisa que nosso time não conseguiu.

Tudo isso ainda parece ter origem no atual estágio de desenvolvimento do time. Contra times fracos, os resultados vieram. Num ambiente extremamente hostil, contra um time mais ajeitado, e com a decisiva ajuda da arbitragem, o resultado não veio. Pensando friamente, não foi nenhuma zebra e já dizíamos antes do jogo, por todos esses motivos, que os favoritos eram eles.

Poderíamos ter jogado melhor, mas claro que fomos roubados

Roger Machado
Fabio Menotti/Ag.Palmeiras

Roger Machado ainda deve fazer ajustes no time titular. Nosso elenco é muito rico e ele tende a conseguir, com o tempo, achar a melhor combinação de jogadores e encontrar a melhor dinâmica de jogo para eles. Keno, Guerra e Gustavo Scarpa estão a postos para novas experiências. Diogo Barbosa é uma peça importante que ainda não estreou. Moisés é um craque cuja condição física ainda é uma incógnita. Roger ainda tem muito para evoluir com o time.

Isto dito, não podemos jamais deixar de lado a influência que a arbitragem sofre para apitar jogos do SCCP. Em seu site, a RGT soltou uma matéria quase criminosa no sábado tamanha a intimidação que causou na arbitragem. Nos momentos que antecederam ao jogo, o bandeirão desfraldado pela torcida local continha, descaradamente, as logomarcas dos canais por assinatura da emissora. Após o clássico, quase em tom de escárnio, exibiu matéria com a mãe de Jailson na arquibancada do Itaquerão, uniformizada, torcendo por seu time e por seu filho.

Bandeirão SCCPÉ fato que a arbitragem tem medo de apitar contra o time de Itaquera. “Pênalti para o SCCP” é uma piada generalizada na Internet. O Palmeiras precisa, de alguma forma, se defender disso. Boa parte da torcida espera um pronunciamento do presidente Maurício Galiotte. Talvez seja necessário, talvez não – uma declaração forte pode até reforçar, mas jamais será suficiente para, por si só, impor o respeito que nossa camisa demanda.

Estamos sendo roubados sistematicamente – até na base os juízes nos prejudicam. É necessário agir nos bastidores de forma incisiva, e se nossa diretoria tem tentado fazer algo neste sentido, não está surtindo efeito algum e a estratégia precisa ser revista.

Nosso patrocinador tem um peso enorme nas receitas da RGT, o principal agente dessa pressão. Mas a presidente da Crefisa e conselheira do clube Leila Pereira é uma neófita e ainda não sabe como usar esse poder para agir nos bastidores e defender os interesses do time – algo que nosso presidente poderia incentivar e eventualmente mostrar o caminho, até porque, ela já declarou a intenção de um dia presidir o clube.

Duas frentes a se trabalhar

Maurício GaliotteFomos roubados e podíamos ter jogado melhor. As duas coisas não se excluem. Fechar os olhos para qualquer um desses aspectos é limitar a análise, é enxergar apenas uma parte do problema. Nossa torcida precisa perceber o cenário de forma ampla e apoiar, em vez de se converter em mais um problema.

Roger está em início de trabalho e, tanto quanto o elenco, precisa de blindagem. Se os resultados não vierem, será preciso muita força para suportar a pressão interna – o erro que comentemos no ano passado não pode se repetir. Já Maurício Galiotte está mais perto do fim do que do começo de seu mandato e já passou da hora de resguardar, de uma vez por todas, nossos interesses.

As duas coisas se resolvem com muito trabalho: o treinador, treinando; o presidente, presidentando. Só assim não termos novamente a mesma maldita sensação de déjà vu quando voltarmos a enfrentá-los, provavelmente nas finais do Paulistão.


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