Felipe Melo: um imponente pitbull na coleira ou uma granada sem pino?

Felipe Melo
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

O Palmeiras alcançou a quarta vitória em quatro jogos ao vencer o Bragantino neste domingo e segue liderando o Paulistão, com 100% de aproveitamento. Tão bom quanto os resultados é a tão sonhada evolução do grupo, finalmente presente após um ano inteiro de espera. A dupla de zaga surpreende positivamente; os laterais ainda estão se encontrando. Willian e Keno são realidades, Dudu desenferrujado é um monstro e Lucas Lima parece perfeitamente ambientado. Tchê Tchê e Borja lutam contra a irregularidade técnica, embora taticamente estejam perfeitos. O grupo parece muito homogêneo – nivelado, por cima.

Nesse crescimento todo, um jogador está se destacando além do esperado: Felipe Melo. Envergando a supostamente amaldiçoada camisa 30 que tanto desgosto nos trouxe nos últimos anos, o veterano parecia fadado a repetir as trajetórias de fracasso de quem a vestiu depois que a numeração dos jogadores passou a ser fixa, há pouco mais de dez anos.

De fato, 2017 foi um ano ruim para Felipe Melo. Desde que foi anunciado como reforço do clube, há pouco mais de um ano, usou e abusou das redes sociais e de declarações polêmicas para tentar cativar a predileção de nossa torcida. De parte dela, conseguiu.

Talvez Felipe Melo tenha sido o volante com melhor desempenho do elenco em 2017, mas mesmo assim ficou devendo. Na verdade, a avaliação mais adequada seria “menos ruim”. Apesar de momentos técnicos interessantes, o time não encaixou como necessário e parte disso se deve ao ambiente conturbado pelo qual ele foi um dos grandes responsáveis.

Uma granada sem pino?

Felipe Melo
Reprodução

Felipe Melo forçou demais a barra para se tornar um ídolo. Em vez de focar na bola e se tornar um ídolo naturalmente, buscou a popularidade de forma artificial. Os episódios polêmicos se sucederam: desde que chegou chegando de helicóptero, fazendo cara de mau, até sua reintegração após passar mais de um mês treinando em separado, tivemos episódios em que ele prometeu dar tapa na cara de uruguaio, mas com responsabilidade. Poucas semanas depois, deu soco na cara de uruguaio sem responsabilidade alguma.

Antes de trocar cusparadas com Clayson no último Derby do ano, em Itaquera, Felipe Melo brigou com Roger Guedes, fez vídeo apoiando político, tomou umas champanhes a mais e prometeu rasgar Cuca no meio, chamando-o de covarde e mau-caráter num áudio “vazado”. Para piorar, ofereceu-se ao Flamengo durante o afastamento.

Felipe MeloEste episódio foi o mais grave de todos. Aparentemente premeditado para fritar o treinador, com quem viveu seu pior momento técnico, o áudio que causou-lhe o exílio surtiu o efeito desejado: dois meses depois, Cuca foi demitido e Felipe Melo, reintegrado, venceu a queda-de-braço.

É difícil quantificar o grau de relação entre todos esses imbróglios e o fracasso na busca por títulos em 2017, mas é mais difícil ainda isentar Felipe Melo.

Tudo isso fez com que o volante dividisse opiniões de forma acalorada entre a torcida. Ninguém lhe ficou indiferente. Com sua personalidade forte e com o esforço midiático que fez, cativou uma legião de fãs perigosamente incondicionais. Outra porção da torcida viu seu potencial destrutivo e a comparação mais recorrente foi com uma granada sem pino: ninguém sabe quando, mas vai explodir e vai fazer um estrago. O que quase todos reconhecem é seu futebol de alto nível – a questão é se compensa.

Assim, compensa

Felipe Melo
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

Apostar em sua permanência para 2018 foi um risco gigantesco que a diretoria resolveu assumir. Não sabemos ao certo se por iniciativa própria ou se foi aconselhado por amigos e familiares; não sabemos se levou uma enquadrada da diretoria ou dos próprios companheiros: o fato é que Felipe Melo resolveu, finalmente, focar na bola. O resultado está aí.

Seu desempenho nesses primeiros movimentos da temporada tem sido primoroso. Muitos jogadores se sustentam na carreira apoiados em estatísticas que brigam com a feiúra do futebol exibido. O futebol de Felipe Melo agrada aos olhos tanto de quem gosta de jogo aguerrido, quanto de quem prefere a elegância. Tudo isso com números espetaculares. É tudo dele.

Hashtag-tenso!

Felipe Melo
Divulgação

Todo o equilíbrio do time passa por Felipe Melo. Ele é o centro de gravidade do Palmeiras, dentro e fora do campo.

No gramado, protege a zaga, intimida adversários, desarma, faz a saída de bola e faz lançamentos magistrais que resultam em gols. Fora dele, basta um destempero seu para que o ambiente sempre inflamável do Palmeiras entre em combustão.

Ter Felipe Melo no elenco é garantia de fortes emoções. É #tenso. Ele está jogando muito e tê-lo no time dá um prazer enorme, some-se a isso a perspectiva de acontecer uma merda colossal a qualquer momento que torna tudo mais eletrizante. A sensação é ruim e boa ao mesmo tempo – pelo menos enquanto a granada não explode.

Uma granada sem pino VAI EXPLODIR. A questão é se a metáfora está bem empregada. Se explodir, estará confirmada. Mas o Felipe Melo de 2018, em vez de uma granada sem pino, pode estar mais para um pitbull com coleira, educado e bem treinado, sob controle, imponente e pronto para agir quando preciso. Aí sim!


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Felipe Melo: as avaliações e os equívocos da diretoria

Felipe Melo
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

Felipe Melo foi reintegrado ao elenco do Palmeiras. Depois de ter vazado um áudio em que dirigiu ao técnico Cuca palavras pesadas, o volante foi afastado dos treinos com o grupo por cerca de cinco semanas. Ontem, a decisão foi oficialmente revertida.

Em coletiva, o volante fez declarações confusas, ambíguas; não deixou de lado sua postura notoriamente arrogante e não se furtou nem a promover as redes sociais de seus filhos.

A trajetória de Felipe Melo no Palmeiras dura até agora cerca de nove meses, mas já tem mais manchetes, por exemplo, que a de Zé Roberto, que está prestes a completar três anos no clube e já levantou taça.

Certamente o desejo de toda a torcida é que essas manchetes fossem sempre valorizando suas performances dentro de campo, mas o que se vê é um atleta que se destaca muito mais por suas polêmicas, na maioria das vezes, negativas.

Avaliações

Felipe Melo foi objeto, até agora, de três avaliações por parte da diretoria e da comissão técnica: a que decidiu por sua contratação, a que chancelou seu afastamento, e a que determinou sua reintegração.

A contratação
Felipe Melo
REUTERS/Andres Stapff

Volante com Copa do Mundo no currículo, raçudo, com cara de Libertadores e muita técnica, parecia a escolha perfeita para substituir Gabriel, cujo empresário forçava a barra para transferi-lo para seu clube do coração. A despeito de sua conhecida tendência para atrair polêmicas, a esperança de todos no clube era a de que sua experiência prevalecesse e o nível técnico a ser exibido em campo compensasse um ou outro excesso.

A contratação foi aprovada por Eduardo Baptista, que via em Felipe Melo as características de um volante para jogar em seu esquema. O volante documentou sua chegada a São Paulo, de helicóptero, e publicou no Instagram. Em campo, Felipe Melo era um dos que se salvava em um time que evoluía a passos de cágado.

O fato mais marcante desta primeira fase do camisa 30 no clube foi a cilada sofrida por nossa delegação no Uruguai – situação cavada por ele mesmo em sua entrevista de apresentação. Sua performance na briga encheu os palmeirenses de orgulho.

O afastamento

Felipe MeloCom a troca de Eduardo por Cuca, Felipe Melo perdeu espaço entre os titulares. A ascensão de Thiago Santos e a chegada de Bruno Henrique ofuscaram ainda mais sua presença no elenco, algo que se agravou com a injusta suspensão imposta pela Conmebol.

Sua necessidade por holofotes fala muito alto. Relegado à condição de reserva, decidiu publicar um vídeo com suas preferências políticas. Personalidades públicas como Felipe Melo e Jair Bolsonaro, numa única pauta, é nitroglicerina pura.

Mas o pior ainda estava por vir. No final de julho, gravou o fatídico áudio no Whatsapp que atingiu Cuca e que obviamente vazaria. A diretoria precisou colocar na balança a gravidade da insubordinação com as consequências financeiras de um afastamento. Para preservar a autoridade de Cuca, confiando numa transferência que poderia atenuar as perdas financeiras, decidiu-se pelo afastamento. A escolha mostrou-se claramente equivocada, como veremos a seguir.

A reintegração

Diante da falta de ofertas concretas de outros clubes por seu futebol, os advogados do atleta, que passou a treinar em horários alternativos, ameaçaram o Palmeiras com uma ação por assédio moral.

Usando como aliado o poder que o tempo tem de amenizar os efeitos de declarações desastradas, a diretoria então ponderou novamente as consequências financeiras de manter o jogador afastado e decidiu reverter a decisão.

Não se sabe ao certo o valor que o Palmeiras busca resguardar diante da ameaça de ação jurídica. Não se sabe ao certo o grau de insatisfação de Cuca com a situação. Ninguém que não conviva no dia a dia da Academia de Futebol sabe avaliar as consequências desta decisão.

Equívocos

Felipe Melo
Divulgação

É muito fácil apontar os equívocos depois que as coisas dão errado. Mas à luz dos fatos, é inegável que a passagem de Felipe Melo é uma sucessão de erros. Sua contratação parecia boa, mas ele jamais correspondeu em campo de forma a fazer valer a pena sua avidez pelos holofotes e os efeitos negativos que vieram na carona.

Ao decidir por seu afastamento, a avaliação das consequências foram equivocadas: era necessário que ele fosse rapidamente negociado para evitar perdas financeiras com salários e uma ação jurídica, algo que não foi concretizado. E agora?

É bem pouco provável que Felipe Melo volte a vestir nossa camisa. Mas sua reintegração pode evitar que o clube seja penalizado em uma quantia monstruosa de dinheiro. Sua presença constante junto aos atletas, no entanto, pode gerar situações mais graves ainda. Se Felipe Melo não for rigorosamente vigiado, tem potencial para continuar fazendo estragos, mesmo que sua presença no elenco fique limitada a “reserva do Fabiano”.

Que a economia gerada por esta decisão se justifique, sem sacrificar a reação que o time está tendo ainda este ano, quando ainda sonha em buscar objetivos maiores no Brasileirão. Que esse dinheiro não vire pó perto de uma eventual deterioração da hierarquia e da autoridade de Cuca, o que pode prejudicar toda a temporada de 2018, para a qual já estamos nos preparando. Mas diante do histórico de avaliações e equívocos nesta trajetória, está difícil manter o otimismo. Só nos resta torcer.

Possível volta de Felipe Melo agita os bastidores

Fernando Prass e Felipe Melo
Cesar Greco / Ag Palmeiras

Um inesperado movimento cresceu na semana que antecedeu ao clássico contra o SPFC: Felipe Melo, afastado por Cuca e pela diretoria nos primeiros dias do mês, deve ser reintegrado ao elenco do Palmeiras que disputa, até o fim do ano, o Campeonato Brasileiro. O jogador tem contrato com o Verdão até o fim de 2019.

O jogador entrou em rota de colisão com Cuca há pouco mais de um mês. Com seu estilo pouco discreto fora de campo, foi pouco a pouco sendo deixado de lado no time titular, sobretudo após a contratação de Bruno Henrique. Insatisfeito, passou a desempenhar por sua própria conta a função de “técnico auxiliar”, orientando e passando instruções aos jogadores à beira do campo.

Depois, deixou vazar um áudio no Whatsapp detonando Cuca, dizendo que “tem sacanagem” no elenco e que não trabalharia mais com o técnico, a quem chamou de mau caráter, entre outras coisas. Obviamente acabou afastado do grupo e desde então treina em horários alternativos.

Neste movimento de apaziguamento, uma trégua foi proposta entre os dois, para que o volante voltasse a ter clima para trabalhar junto ao grupo. Não se sabe como será recebido, nem exatamente por que a pacificação foi deflagrada, mas é provável que tenha sido por recomendação do departamento jurídico, prevendo complicações com os agentes do atleta, que não querem ver seu cliente sendo “depreciado” ao treinar em separado. Ou pode ser por outro motivo qualquer. Mas por carência no setor, que conta com Thiago Santos, Bruno Henrique, Tchê Tchê, Gabriel Furtado e em breve Arouca, é que não foi.

Como fica o Cuca?

Diante do climão criado pelo jogador que culminou em seu afastamento, é bem provável que Cuca tenha exigido algumas garantias para reabrir as conversas. Se quiser manter sua autoridade sobre o grupo, o treinador precisa ter duas cartas em seus bolsos: uma que lhe dê total liberdade para não escalá-lo ou mesmo não relacioná-lo se não desejar, e outra para reafastá-lo em caso de notar qualquer tipo de má influência de Felipe Melo sobre o grupo.

Mas mesmo que tenha essas duas prerrogativas, num primeiro momento, Cuca sai como derrotado na história, ao menos aos olhos da imprensa e do público. É preciso muito desprendimento e pensamento coletivo para aceitar tal sacrifício em nome de uma situação maior.

E o Felipe Melo?

Mesmo tendo passado boa parte de seu “castigo” postando belas paisagens no Instagram, Felipe Melo precisa mostrar que aprendeu a lição se ainda quiser contribuir com o Palmeiras. O período afastado tem que servir como Semancol, para que, em caso de sua reintegração ser confirmada, o jogador baixe a bola e se comporte como um atleta a mais, contratado para servir ao clube, e não como uma prima donna. Que tenha humildade para usar sua experiência, sua raça e sua técnica a favor da coletividade, não para sua promoção pessoal.

O movimento tem todo um jeitão de relacionamento com ex-namorada reatado. Uma atração de origens incertas insiste em envolver as duas partes, mesmo com o universo sabendo que é algo fadado a dar errado.

A tendência é que Cuca dê a Felipe Melo a mesma importância no elenco que tem, por exemplo, Fabiano. Vai entrar uma vez a cada oito ou dez jogos – e temos apenas 16 partidas pela frente. Muitas vezes não será nem relacionado. E o temperamento do jogador, mais uma vez, será posto à prova.

Isso só não acontecerá se o jogador mostrar nos treinos e nas partidas que vai jogar como se fosse o César Sampaio. Se reconquistar a confiança de todos e a posição entre os titulares, se tiver um comportamento exemplar dentro e fora do campo, de forma natural e discreta. Se entregar ao Palmeiras aquilo que se espera dele, nem mais, nem menos. Se tudo isso acontecer, Cuca verá seu sacrifício ser não apenas reconhecido, mas recompensado.

Torcemos muito por isso. Mas alguém coloca fichas?


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Epílogo: o erro de cálculo de Felipe Melo

Felipe Melo
Reprodução/ESPN

Felipe Melo jogou a pá de cal em sua passagem pelo Palmeiras ao gravar um áudio desastrado no Whatsapp que chegou a público na noite de ontem. A ESPN entrou em contato com o jogador, que não colocou a culpa no primo e admitiu ser dele mesmo a voz no arquivo.

No áudio, Felipe Melo disse entre outras coisas que com Cuca não trabalha mais, que o treinador é covarde, mau-caráter e mentiroso e que quando falar vai “rasgar ele no meio”.

O jogador ainda revelou que há vários times interessados em seu futebol e diz que basta o Flamengo querer que ele vai para a Gávea. O áudio foi gravado no final de semana.

Já para a ESPN, ontem à noite, Felipe Melo tentou contemporizar. Disse que nem se lembrava para quem havia mandado o áudio e que tinha bebido um pouco a mais para comemorar o aniversário da esposa. Aqui, no site da ESPN, toda a performance de Felipe Melo no epílogo de sua passagem pelo Palmeiras.

Erro de cálculo

Felipe MeloFelipe Melo não parece bêbado no áudio original. O que ele mostra claramente é que estava muito magoado com o afastamento e que não se furtaria a fazer declarações que prejudicassem a Cuca – e por extensão, seus ex-companheiros. Alimentou seu ego ao mencionar um suposto apoio da torcida a si e mencionando interesse de outros clubes. No final, praticamente se atirou pra cima do Flamengo.

Aparentemente, tudo intencional. Um passo calculado para se vingar de seus desafetos, pular de barco – justo para seu clube de coração, em sua cidade natal e um dos grandes rivais do Palmeiras. Um golpe de mestre, deve ter imaginado. Mas ao forjar o “vazamento”, Felipe Melo confiou demais em sua capacidade de calcular.

Ao ver todo o mercado desmentindo publicamente o interesse em seu futebol e sem ter para onde correr, deu aquela velha desculpa, na linha do velho “foi mal, tava doidão”. Pediu para que o áudio fosse desconsiderado. Apertou o botão desfazer e torceu. Mais com o rabo entre as pernas que isso, impossível.

Só que desta vez não vai rolar, Felipe. A vida real não tem botão desfazer. Nem o Flamengo vai te querer. Mas veja pelo lado bom: você não vai ter a inglória missão de disputar a posição com o Marcio Araújo.

Fã-clubes

Puta falta de sacanagemQue o episódio sirva para que os torcedores que gostam de formar fã-clubes informais em redes sociais deixem essa prática patética de lado e compreendam que, de uma vez por todas, não existe jogador maior que o Palmeiras.

Um dos maiores apelos de Felipe Melo era “representar o torcedor” da arquibancada – justo um jogador que é assumidamente torcedor do Flamengo que acabou de chegar. Essa parcela de nossa torcida comprou o midiático jogador muito fácil e passou por cima de outros atletas com muito mais serviços prestados ao Palmeiras como Zé Roberto, Dudu, Fernando Prass e Jailson.

Não é difícil imaginar que sejam os mesmos torcedores que até outro dia endeusavam Valdívia, que recentemente admitiu que precisou largar o álcool para voltar a render bem em campo – algo que escancara o que todos já sabíamos: que o chileno era um baita cachaceiro quando nos “roubou” por cinco anos, o que prejudicou muito a recuperação de suas infinitas lesões. Aí, dava uma coletiva, fazia beicinho e o fã-clube se derretia todo.

A maldição

A camisa 30, usada por Felipe Melo, parece não dar sorte para quem a usa. Conheça a lista de craques que já a vestiram desde 2007, quando a numeração fixa passou a ser usada pelo Palmeiras.

Felipe Melo demitido: o Pitbull com o rabo entre as pernas

Felipe Melo
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Uma bomba caiu sobre o Palmeiras na noite de sexta-feira: Felipe Melo teria sido afastado do elenco após uma divergência com Cuca, que teria tomado a decisão furioso. Ainda segundo os relatos iniciais, o Pitbull teria dito que “tem sacanagem” no time e nosso treinador, ao ficar sabendo, imediatamente tomou a medida.

Outra corrente, menos ruidosa, atribuiu o afastamento a uma decisão meramente técnica: Felipe Melo não se encaixaria no esquema de marcação idealizado pelo treinador. Ao jogar mais posicionado, característica que desenvolveu após anos de carreira em clubes europeus, deixava espaços importantes para os meias adversários, ao contrário dos outros volantes do elenco que não tinham problemas em fazer a marcação individual desejada por Cuca.

No dia seguinte, sábado, teve jogo. O Palmeiras não apenas ganhou, como jogou bem, o que diminuiu bastante a pressão acerca dessa tomada de decisão. A crise foi muito bem contornada: foi comunicado durante o dia que o assunto seria devidamente abordado após a partida, para que o foco dos atletas e comissão técnica não se perdesse. Na coletiva, Cuca conduziu o assunto com autoridade, não permitindo perguntas e fazendo uma declaração simples e direta que durou cerca de três minutos, e encerrou o assunto.

Nesse comunicado, prevaleceu a versão da escolha técnica. Cuca recorreu à mesma situação que permitiu liberar Alecsandro e Rafael Marques: que trata-se de um jogador que não tinha espaço na configuração tática desejada, e que por ser “muito bom” não pode ser apenas uma opção de banco.

“Opção tática”

Cuca
Divulgação

A justificativa de Cuca faz sentido até a página dois. Se o Palmeiras deseja ter um elenco forte, que não sofra com as inevitáveis lesões que o calendário impõe, precisa ter jogadores “muito bons” no banco sem chiadeira. O perfil de jogadores a serem contratados inclui um forte espírito de grupo e maturidade profissional para saber que nem sempre serão titulares – algo bem mais comum nos clubes europeus do que no Brasil, onde ainda prevalece a cultura do “time titular”.

Felipe Melo foi contratado com o aval de Eduardo Baptista e de fato foi um dos grandes pilares técnicos do time no período em que o treinador esteve no comando do Verdão, após um começo difícil. Mas também é fato que acabou sendo um ponto vulnerável após a mudança de treinador e a chegada de Bruno Henrique foi um sinal claro de que isso foi detectado por Cuca logo após as primeiras movimentações.

O temperamento do Pitbull

Felipe Melo
Reprodução

Felipe Melo é um cara midiático. Construiu um personagem, que só quem o conhece de perto sabe dizer se corresponde ou não à realidade. Abraçou a personalidade do jogador durão e raçudo, notoriamente um perfil que agrada a qualquer torcida. Sabe que só pode fazer isso sem ser execrado pela imprensa brasileira quem tem bola no pé – isso ele tem, e bastante.

Ganhou música da torcida sem sequer ter estreado e passou rapidamente a ser tratado como um dos destaques do elenco pela imprensa – muito mais pelo potencial de cliques e audiência do que por seu desempenho em campo.

Inevitavelmente, quem ganha holofotes de forma tão rápida sem mostrar um futebol compatível desperta um certo desconforto no grupo – para usar um termo bem suave. O jeito de Felipe Melo se comportar no dia-a-dia, com desentendimentos com Omar Feitosa e Roger Guedes, bem como sua iniciativa de atuar como “segundo técnico” à beira do campo quando não está jogando, não o ajudaram em nada.

Talvez os episódios de desentendimento tenham sido considerados normais pelo grupo e superados; talvez não.

Talvez Cuca tenha lidado bem com o fato de ter “ganho” um novo auxiliar; talvez não.

Felipe MeloDe qualquer forma, parece certo que faltou Semancol ao volante, que se não fez inimigos em sua passagem pelo clube, pouco provavelmente fez grandes amigos.

Mesmo a imprensa, que tinha em Felipe Melo uma fonte abundante de polêmicas e de audiência, não conseguiu digerir os posicionamentos pessoais do jogador, construindo uma indisfarçável antipatia.

Cabe a ressalva: é importante mencionar que a imagem truculenta que o jogador fez questão de construir em torno de si não era traduzida dentro de campo. Suas disputas de bola eram de fato duras, mas sempre leais. Não houve um episódio sequer em que ele deu margem para que adversários saíssem de campo revoltados com a forma com que ele disputava as jogadas ou discutia em campo. Claro, houve o episódio o Uruguai, em que ele acabou sendo vítima de sua própria autopromoção. Curioso constatar que ele foi encurralado no canto do gramado e ninguém foi em seu socorro – mas também não há como cravar que isso seja consequência de um isolamento do atleta.

Foi bom ou foi ruim?

Felipe MeloHá muita especulação em torno do caso, muito diz-que-me-diz, e o torcedor é quem escolhe em que versão acreditar. Diante da falta de informações seguras, o mais sensato parece ser deixar todas as possibilidades em aberto e virar a página. Mas mesmo com toda essa cautela, é possível se posicionar.

Tecnicamente, Felipe Melo era um jogador importante. Taticamente, não se encaixava para ser titular, mas era uma ótima opção de banco para situações específicas. É pouco provável que Cuca tenha aberto mão de ter um jogador experiente e talentoso no banco, a não ser que tenha detectado algum problema em potencial – algo que ele declarou na coletiva após o jogo. Essa é a hipótese menos apocalíptica, para quem não se convence dos relatos de brigas, como já andou saindo por aí.

Cuca já tomou decisões semelhantes no passado e o tempo mostrou que ele estava correto. Robinho e Lucas eram atletas que tinham bom desempenho com Marcelo Oliveira, mas que não se encaixaram no modelo desenvolvido por Cuca e rapidamente foram envolvidos numa troca com o Cruzeiro que à época causou revolta.

Cabe à torcida passar por cima da adoração sobre o jogador, seja ela legítima ou artificial, e confiar nas decisões de nosso treinador. Cuca não é infalível e também comete erros, mas tem uma boa pilha de créditos e ainda goza de muito moral para tomar uma decisão importante como esta.

E agora?

Felipe Melo
Cesar Greco / Ag. Palmeiras

Já começaram a aparecer matérias destacando o volume de recursos que o Palmeiras investiu para ter Felipe Melo. Sentindo aquele prazer sádico pela demissão do atleta, já que desenvolveram por ele antipatia pessoal, a imprensa tenta tumultuar o ambiente batendo mais uma vez na tecla do desperdício de dinheiro.

É melhor pecar por excesso do que por falta. O Palmeiras acumulou recursos com méritos próprios e os aplica como bem entender. Diante das ambições traçadas para 2017, investiu de acordo com elas. Acerta-se e erra-se. A incompatibilidade tática de Felipe Melo com Cuca, bem como a de vários outros jogadores contratados no início deste ano, já foi vastamente discutida no Verdazzo e sempre caímos na mesma origem: a necessidade de Cuca fazer seu período sabático, previamente acordada. Todas as dificuldades decorrem dessa ruptura.

Resta ao Palmeiras tentar diminuir o prejuízo ao máximo e direcionar a sequência da carreira do jogador para um clube do exterior. Com apenas cinco jogos disputados o Brasileiro, Felipe Melo pode reforçar um rival direto nesta disputa. Sendo demitido da forma como foi, o Pitbull sai com o rabo entre as pernas e com muita vontade de mostrar em seu próximo clube que Cuca estava errado. Pelo menos no começo, vai jogar muito e fazer qualquer coisa que seu próximo técnico pedir. Não parece ser uma boa ideia tê-lo como adversário.