O estatuto e a bolsa de grife

Bolsa Chanel de Leila Pereira, que quer mudar o estatuto do Palmeiras.
Crédito: Sergio Ortiz

A janela de fim de ano é um período que normalmente traz polêmicas em torno de especulações de compra e venda de jogadores, e esta não será diferente: basta circular um pouco pelas redes sociais e já somos tomados pelas “bombas” dos aventureiros de sempre.

Mas este mês de dezembro também está sendo marcado por uma questão mais fundamental: uma proposta de mudança no estatuto para alterar o número de mandatos do presidente do clube. Este item já foi alterado em 2018; antes, a duração máxima era dois mandatos de dois anos; foram alterados para dois mandatos de três anos. Agora, Leila Pereira articula proposta para alterar para três mandatos de três anos.

Entre os argumentos da atual mandatária, surgem comparações com Florentino Pérez, do Real Madrid, que está à frente do clube madrilenho há duas décadas, e frases de efeito sobre uma auto-proclamada competência.

Leila Pereira forçou, nos bastidores, a última mudança de estatuto de forma casuísta. Explicando: se a eleição após o segundo mandato de Mauricio Galiotte, eleito em 2016 e reeleito em 2018, fosse em 2020, ela não teria “tempo de casa” suficiente para concorrer à presidência. A alteração para três anos foi pensando em empurrar a eleição para 2021, quando ela atingiria essa condição. E foi o que aconteceu.

A atual presidente nunca havia pisado num estádio até ser patrocinadora do clube em 2015. Entrou no futebol e em tempo recorde conseguiu o que dezenas de conselheiros sonham a vida inteira: sentar-se na cadeira de presidente do Palmeiras. Por ser uma novata no meio, naturalmente levantou muitos receios.

É fato que Leila, apesar dos meios usados para atingir o poder, conseguiu manter um time forte e competitivo sem perder o equilíbrio nas finanças – uma equação que nove entre dez dirigentes brasileiros falham em resolver. É a esta competência que Leila se refere, com relativa razão.

Mas a presidente vem falhando grosseiramente, ano após ano, numa variável que não existe no mundo corporativo, peculiar ao futebol, que são os bastidores. Por mais que haja equivalências e similaridades, ter presença constante nos corredores das entidades do futebol e usá-la de forma efetiva para proteger os interesses do Palmeiras é uma atividade na qual Leila nunca conseguiu sequer chegar perto de ter sucesso. Logo ela, tão hábil nos bastidores do clube para conseguir seus objetivos pessoais.

Estatuto é sobre o clube, não sobre pessoas

Independentemente de ser ou não competente, a proposta de Leila Pereira é uma armadilha mortal da qual o clube precisa fugir a todo custo. Porque ao defender uma mudança estatutária, Leila o faz defendendo apenas seus próprios interesses, mais uma vez, de forma casuísta, ignorando os efeitos devastadores que tal regra causaria ao clube, do qual ela inevitavelmente se desligará nos próximos anos.

Um potencial mandato triplo que totalize nove anos pode ser uma catástrofe em mãos erradas – já vivemos este inferno na década de 2001 a 2010 e sabemos o quanto a política do Palmeiras é ardilosa; a envergadura moral de 90% dos membros do Conselho Deliberativo é notoriamente curta. Não é nada difícil, após a saída de Leila Pereira, que caiamos nas mãos de um tresloucado, de um pavão, ou de um picareta.

Nossos três rivais tradicionais atualmente estão pagando o preço dessa mesquinhez e temos tudo para estabelecer uma hegemonia inédita no estado. Errar é humano, aprender com os próprios erros é ok, não aprender com os erros dos vizinhos é uma burrice de proporções galácticas.

Leila Pereira deveria se dedicar mais a proteger o clube que ela jurou defender em sua posse atuando de forma mais firme nos bastidores em vez de responsabilizar 100% os jogadores pela falta de conquistas. A presidente, se teve méritos nas conquistas dos anos anteriores, precisa assumir suas responsabilidades num ano em que não saímos vitoriosos. “Eu ganhei, nós empatamos, eles perderam” pega muito mal no futebol.

O estatuto é o documento magno do clube e sua função é definir regras para proteger e garantir a sustentabilidade do clube. Não se muda o texto de um estatuto por interesses pessoais. Estatuto não é como uma bolsa de grife, que se troca quando convém. Os conselheiros e sócios do Palmeiras, se não estiverem mais uma vez seduzidos por pizzas, shows e novos bares na sede social, entre outros paparicos, não podem permitir que isto aconteça.

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