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Campeonato Paulista 1993

O Palmeiras estava prestes a completar 17 anos sem títulos e a pressão sobre o elenco após a derrota no primeiro jogo das finais era enorme. O SCCP havia ganho por 1 a 0 e Viola, autor do gol, imitou um porco chafurdando. A semana da torcida do Palmeiras foi um inferno, mas a expectativa pela partida e esperança pelo fim do jejum superavam a aflição.

Sábado, 12 de junho de 1993. O Morumbi estava absolutamente abarrotado e dividido em duas partes iguais. Naquela tarde fria, o estádio foi palco de um dos maiores jogos de futebol de todos os tempos.

Ao Palmeiras, bastava marcar um gol, vencer no tempo normal (por qualquer placar) e forçar uma prorrogação, na qual jogaria pelo empate, por ter feito a melhor campanha em todo o campeonato.

Depois de quase dois meses fora, por lesão, Evair estava de volta ao time titular – o Matador havia entrado nos minutos finais do jogo anterior e já havia dado outra cara ao time.

E o Verdão começou com tudo: logo com um minuto de jogo, Roberto Carlos fez a jogada pelo corredor e cruzou por baixo; Edmundo fechou no segundo pau, quase debaixo das traves, mas escorou incrivelmente à esquerda do gol.

Com 15 minutos de jogo, o Palmeiras já havia finalizado pelo menos 8 vezes e dominava completamente a partida. Henrique, zagueiro do adversário, já havia recebido cartão amarelo e distribuía pontapés em quem aparecesse pela frente, sendo poupado da expulsão pelo árbitro.

De tanto insistir, o Verdão chegou ao gol aos 37 minutos: Evair tocou para Zinho, que entrou na área e, de direita, colocou no canto direito de Ronaldo – a bola ainda bateu na trave antes de entrar. Explosão do lado verde do Morumbi.

Pouco depois do gol, finalmente Henrique foi expulso, após entrada violenta em Edilson. Com um a mais em campo e já com o placar que precisava para chegar à conquista, o Palmeiras enchia a torcida de esperanças. Mas o peso da fila era imenso e, calejados pelos sucessivos fracassos do período, os palmeirenses misturavam a esperança com a aflição por uma nova desilusão.

No segundo tempo a superioridade do Palmeiras foi ainda maior. o SCCP praticamente não ameaçou o gol defendido por Sérgio em nenhum momento.

Aos 15 minutos, Tonhão (!) fez um lançamento primoroso para Edmundo, que entrou em velocidade pela intermediária, livre, e foi atropelado pelo goleiro Ronaldo, que claramente forçou sua expulsão, já ciente de que seu time não conseguiria reverter a desvantagem, para não estar em campo para ver a festa verde.

O árbitro José Aparecido de Oliveira, no entanto, pipocou no lance e deu um jeito de expulsar também Tonhão,  após Ronaldo ter simulado uma agressão do zagueiro palmeirense após a falta. Assim, a diferença entre os times permaneceu em apenas um jogador: 10 contra 9.

Com o campo mais vazio, o Palmeiras teve mais espaço ainda para o espancamento e marcou mais dois gols ainda no tempo normal. Aos 28 minutos, Mazinho fez grande jogada pela esquerda, infiltrou na área e rolou na pequena área para Evair apenas escorar para as redes.

Mesmo com toda a superioridade, foi só após o segundo gol, com um homem a mais, que a torcida do Palmeiras relaxou um pouco, já convencida de que a vitória no tempo normal viria – mas havia ainda toda uma prorrogação pela frente e a possibilidade de acontecer aquelas coisas inacreditáveis, que sempre aconteciam com o Palmeiras naquele período, ainda era um fantasma a ser espantado.

Edílson, aos 38 minutos, marcou o terceiro gol ao pegar rebote de um chute de Evair que bateu na trave. O que era uma vitória maiúscula virou goleada e soterrou ainda mais o moral do adversário, que precisava realmente de um milagre na prorrogação.

Luxemburgo 1993O tempo extra começou e ao Verdão, com um homem a mais, bastava não sofrer gols. O domínio era incontestável, mas o peso da fila fazia com que a cada vez que o adversário pegava na bola, um frio percorresse a espinha dos mais de 50 mil palmeirenses presentes ao estádio.

Aos 9 minutos, Viola pegou a bola e arrancou em direção à nossa área. Não havia perigo algum, a defesa estava muito bem postada e cortou o lance. Mas a mera possibilidade da bola chegar perto de nosso gol era motivo para apertar o coração de maneira sufocante.

Na sequência deste lance, o Palmeiras armou o ataque; Edmundo entrou na área, forçou em cima de Ricardo e foi agarrado, indo ao chão: pênalti marcado pelo árbitro, que foi peitado por Ezequiel e expulsou o volante adversário.

EvairO Morumbi parou. O mundo parou. Num ato desesperado, a metade preta e branca do estádio soprava apitos freneticamente, na tentativa de desconcentrar a batida do matador Evair. Nosso camisa 9 esperou o contato com o capitão César Sampaio, que lhe transmitiu a tranquilidade necessária. A metade verde e branca das arquibancadas deu as mãos, unida, em esperança, numa inacreditável corrente de fé. Evair correu para a bola com suas passadas ritmadas, características. Levou uma semana para chegar à bola. Na verdade, levou quase 17 anos. Wilson caiu para o canto esquerdo e Evair rolou a bola mansa para o canto direito: GOL DO PALMEIRAS!

Com dois jogadores a mais e a vantagem no placar, o Palmeiras só não seria campeão se sofresse dois gols. Àquela altura, todos já tinham a certeza do resultado, mas ninguém ousava soltar o grito. Evair foi substituído apenas para ser reverenciado; Alexandre Rosa entrou e aumentou o poder da defesa, só para garantir.

E os 20 minutos finais foram de purgação. Todo o filme, desde 1977, passou na cabeça da torcida. As derrotas para o Guarani em 1978; o gol do Chulapa em 1979; a fase tenebrosa entre 1980 e 1982 com duas disputas de Taça de Prata; o gol de Sócrates em 83; a sacanagem do caso Mario Sérgio em 84; o XV de Jaú em 85; a Inter de Limeira em 86; o frango do Zetti em 87; o Bragantine’s e o gol de calcanhar de Claudio Adão em 89; o chute do Aguirregaray na trave em 1990; o regulamento de 1991 que nos tirou da final; e as derrotas para o SPFC, naquele mesmo estádio, meses antes, nas finais de 92 – todas essas páginas foram viradas de uma só vez.

O palmeirense, ao apito final do árbitro, explodiu em emoção. Em alegria, em choro, em desabafo, em êxtase absoluto. Não havia ninguém mais feliz no planeta que a torcida do Palmeiras. Toda uma geração pôde, finalmente, ver o time levantar um troféu – que seria o primeiro de uma nova e longa série que viria na sequência.

Em 12 de junho de 1993, Evair comemora o gol do título paulista sobre o SCCP

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Ficha Técnica

104.401

Cr$ 18.154.900.000,00

José Aparecido de Oliveira

SCCP

Ronaldo
Leandro Silva
Marcelo Dijan
Henrique
Ricardo
Ezequiel
Marcelinho Paulista
Neto
Paulo Sérgio
Viola
Adil
Tupãzinho
Wilson
Nelsinho Baptista
TÉCNICO






  • Otimo pós jogo.
    Pequena correção de quem estava nas cadeiras atrás do gol onde o lance ocorreu: no primeiro lance do jogo, o chute de Edmundo saiu à esquerda do Giovaneli; não por cima do travessão.