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SPFC 2 × 3 Palmeiras

01/05/1994 Morumbi

O dia 1° de maio de 1994 é uma data inesquecível. Naquele domingo, feriado nacional, a cidade de São Paulo amanheceu sob a expectativa de um grande jogo: Palmeiras e São Paulo fariam um clássico decisivo para os rumos do Paulistão, que ainda era um campeonato de enorme prestígio.

Pela manhã, como era praxe, aconteceria mais uma etapa do Mundial de Fórmula 1 com a presença do herói nacional, Ayrton Senna, sendo mostrada em TV aberta para todo o país. A corrida em Ímola parecia ser apenas mais uma na disputa entre Senna e o novato Michael Schumacher, que havia vencido as duas primeiras corridas da temporada e colocava pressão no brasileiro.

A corrida acontecia enquanto as torcidas se reuniam nos pontos de encontro. A conta era razoavelmente simples: naquele campeonato por pontos corridos, em que a vitória ainda valia 2 pontos, o Palmeiras tinha 3 de vantagem sobre o São Paulo, com 5 jogos por fazer, incluindo o clássico. O São Paulo tinha 2 jogos a menos.

Assim, em caso de vitória do Palmeiras, abriríamos 5 pontos e o São Paulo teria mais 12 pontos para disputar – se o Palmeiras vencesse os 4 jogos restantes, (Mogi Mirim, Ituano, Santo André e Corinthians), já não poderia ser alcançado por ninguém. Em caso de empate, o São Paulo precisaria torcer para o Palmeiras perder 3 dos 8 pontos que teria para disputar. Portanto, para o time do Morumbi, só a vitória interessava. Ainda tinha o Corinthians nessa equação, que estava em situação semelhante à do São Paulo e só secava.

Enquanto fazíamos as contas, ainda pela manhã, a TV e as rádios davam a notícia: Ayrton Senna havia sofrido um grave acidente e estaria entre a vida e a morte num hospital na Itália. As informações eram desencontradas e uma enorme aflição tomou conta de todo o país. Todos rumaram para o Morumbi com o rádio ligado, em busca de informações.

A rivalidade entre Palmeiras e São Paulo estava em seu nível mais alto. As duas equipes estavam se enfrentando nas oitavas da Libertadores – o jogo de ida havia acontecido 4 dias antes, no Pacaembu, e o Palmeiras amassou o rival, com Zetti fazendo seguidos milagres para segurar o 0 a 0 – a segunda partida estava marcada para julho, depois da Copa do Mundo. Nesse jogo, Edmundo foi substituído e saiu de campo irritadíssimo, desrespeitando Vanderlei Luxemburgo, o que causou seu afastamento do elenco, gerando uma crise. O Palmeiras ia para o jogo decisivo sem um de seus jogadores mais importantes, por problemas causados por ele mesmo.

A torcida do Palmeiras chegava ao Morumbi envolvida pela expectativa pelo jogo, pela polêmica envolvendo Edmundo e Luxa, e pela aflição acerca do estado de saúde de Senna. Por volta de 14h15, veio a confirmação da morte do piloto, gerando enorme consternação. O público ia ocupando as arquibancadas, onde uma espécie de batalha de insultos entre as torcidas sempre acontecia nos momentos que antecediam aos clássicos, mas naquele domingo um clima diferente se abateu sobre todos. As equipes entraram em campo e o jogo foi iniciado. Aos 2 minutos, a partida foi interrompida para um minuto de silêncio diferenciado. Aos poucos, um coro crescente foi dominando o estádio: “Olê, olê, olê, olê; Senna, Senna”. Uníssono. Respeito máximo.

Quando a homenagem terminou, foi como se todos tivessem saído de um transe e voltassem para a realidade. Havia um clássico para ser ganho. Uma guerra. E valia, na prática, um título.

O Palmeiras, confirmado sem Edmundo, aceitaria o empate, mas sempre jogava pela vitória. O São Paulo, incomodado por ter sido dominado no meio da semana, mudava o esquema e jogava com 3 zagueiros, liberando Cafu e André Luiz para o ataque, tendo Leonardo como organizador e um ataque rapidíssimo com Palhinha, Müller e Euller. Telê Santana, como sempre, pressionou a Federação por conta da arbitragem; por isso, foi escalado o experiente juiz Juan Escobar, do Paraguai.

O Palmeiras iniciou o jogo melhor e ameaçava o gol de Zetti, mas foi o São Paulo quem abriu o placar: Euller tentou a jogada de velocidade pela direita e foi contido com falta por Cleber. Leonardo suspendeu a bola na área e Euller escorou de cabeça; a bola bateu na trave e morreu nas redes de Gato Fernández.

O gol claramente foi obra do acaso e o Verdão não se intimidou, chegando ao empate 5 minutos depois: após escanteio da esquerda, Zetti tirou de soco mas a bola caiu com Zinho, que disparou da meia-lua; Zetti deu rebote e a bola foi empurrada para o gol.

O São Paulo era um time muito forte e, mesmo sendo dominado, encaixava boas jogadas. E aos 34 pulou de novo à frente, com Müller aproveitando uma bola rebatida por Cleber, após cruzamento da esquerda de André. Não era prudente dar chances para o time de Telê, que veio para jogar em velocidade.

A partir daí o jogo travou e as duas defesas levavam vantagem sobre os ataques. O clima esquentou quando Antônio Carlos e Válber se desentenderam e houve troca de sopapos, com o árbitro se fingindo de cego. O Palmeiras se ressentia de mais movimentação e Rincón não fazia um bom jogo, sendo cobrado e vaiado pela torcida. Aos 29 minutos, Luxemburgo mandou o ponta Maurílio para a beira do campo e toda a torcida esperava que subisse a placa com o número 10, mas Luxa preferiu tirar o lateral Cláudio para deixar o time mais ofensivo e a torcida, impaciente com o colombiano, xingou o técnico de burro.

No primeiro lance com Maurílio em campo, Mazinho cobrou escanteio da esquerda; César Sampaio escorou no primeiro pau e a bola sobrou exatamente para Maurílio, que em seu primeiro toque na bola chutou forte de canhota para vencer Zetti e decretar o empate.

Esse lance entrou para o folclore da torcida de forma equivocada. A história que se repete até hoje é que Luxa foi chamado de burro por colocar o Maurílio – algo reforçado pelo fato do próprio técnico ter se levantado do banco em comemoração batendo no peito, cobrando a torcida. Só que a bronca não era por quem tinha entrado, e sim por quem tinha saído. Quem estava nas arquibancadas, sabe. Mas isso pouco importa.

O empate já era um bom resultado para o Verdão. Telê Santana, inconformado, levantou-se do banco para reclamar, ou para pressionar o árbitro, ou para dar instruções, ou tudo isso. A torcida do Palmeiras, em êxtase, não perdoou: “Senta Telê, o São Paulo vai perder!”

A torcida sabe das coisas. O São Paulo se lançou à frente de forma desordenada e deixou espaços que o Palmeiras sabia muito bem como aproveitar. Aos 37, num contra-ataque, Maurílio ia colocar na frente e sair na cara de Zetti, mas foi derrubado por Gilmar, na meia direita. Evair cobrou a falta com maestria, por cima da barreira, e colocou no cantinho de Zetti, que desta vez não conseguiu fazer mais nenhum milagre.

Daí até o final, o Palmeiras segurou o jogo até o apito final de Juan Escobar, que foi comemorado como um título pela torcida. E de fato, o Palmeiras nem precisou vencer todos os jogos que restavam, porque o São Paulo tropeçaria novamente e o título viria com uma rodada de antecedência, na vitória contra o Santo André no ABC. Mas o grande jogo do campeonato foi este inesquecível clássico de 1° de maio.

Ficha Técnica

58.103

CR$ 485.601.000,00

Juan Francisco Escobar

Escalações

SPFC

Zetti
Cafu
Júnior Baiano
Nem
Gilmar
André Luiz
Válber
Doriva
Leonardo
Euller
Palhinha
Juninho Paulista
Müller
Telê Santana

Melhores momentos