O maior de todos os títulos do Palmeiras completa 26 anos

O palmeirense que nasceu em 1970, ou um pouco depois, é cascudo. Ser palmeirense naquela época, assim como hoje, era moleza; eram títulos atrás de títulos. Minhas primeiras lembranças futebolísticas datam de 1977, quando fui instruído por meu avô parmerista a torcer pela Ponte Preta na final do Paulista e pelo Galo na final do Brasileiro. Não deu certo. Mal sabíamos que aquilo era só o começo de uma saga.

As frustrações começaram a se acumular no Brasileiro de 78, quando o diretor de futebol Mustafá Contursi resolveu deflagrar uma crise às vésperas das finais por causa do bicho dos jogadores. Com 7 anos, depois do Beto Fuscão entregar o gol para o Careca, só perguntei para minha mãe se o segundo colocado também ganhava troféu. Ela disse que achava que sim, só para me confortar. Meus primos, um ou dois anos mais velhos, ainda contavam vantagem pelo título de 1976, ganho com um gol do Jorge Mendonça. Eu não via a hora de ser campeão também.

Veio 1979 e o Palmeiras pereceu nos pés de Falcão, no Morumbi lotado, num grande jogo. O Paulista foi manobrado por Vicente Matheus, e mesmo depois de ganhar os três turnos, um gol de canela de Biro-Biro nos tirou da luta.

Em 1980 começaria uma sucessão de times horrorosos, com personagens folclóricos. O símbolo da ruindade acabou sendo o zagueiro Darinta, de 1981 – um tanto injustiçado, que paga mais pelo nome incomum, já que não era pior que a maioria de seus companheiros de defesa, Benazzi, Deda e Jaime Boni.

Anos de luta – e mais frustrações

Um sopro de esperança surgiu em 1982, com um time montado com Baltazar e Enéas, que se juntaram a Luís Pereira, Aragonés e Jorginho. Sob a batuta do seo Minelli, o time não fez feio, mas perdeu. De novo. Assim como em 1983, quando fez duas semifinais duríssimas contra o SCCP, e acabou parando num gol solitário de Sócrates.

Em 1984 até deu orgulho. Depois de vacilar no Brasileiro (eliminado num grupo com Santos, CRB e Fortaleza, mesmo finalizando a campanha com três vitórias e um sonoro 7 a 0 no time alagoano), o time iniciou o Paulistão, por pontos corridos, voando. Mario Sérgio comandava o time que abriu frente na tabela, até pegarem nosso camisa 11 no exame antidoping. Cisco Kid foi suspenso por seis jogos, nossos pontos da vitória sobre o SPFC foram retirados (!!!) e o time sentiu demais a saída do craque doidão, despencando na tabela.

Em 1985 a palavra “fila” começou a aparecer nos noticiários e o Palmeiras perdeu o respeito que tinha imposto por anos e anos de conquistas. Viramos piada, coroada com a vexatória eliminação para o XV de Jaú, no Palestra lotado. Era só ganhar e ir para a semifinal contra a Lusa.

Mas com Edmar, Éder e Mirandinha, mais os garotos Gerson Caçapa e Edu Manga, sempre ao lado dos símbolos do time Jorginho e Vágner Bacharel, o time de 1986 virou uma semifinal roubadíssima sobre o SCCP com direito a gol olímpico, para perder o título para mais um time do interior: a Inter e Limeira, em dois jogos no Morumbi lotado de palmeirenses. A fila completava duas mãos cheias, e os moleques com 15 para 16 anos continuavam sem ver seu time campeão.

Agora vai? Não, não vai

Em 1987 o time enfileirou uma sequência de 12 jogos sem tomar gols, revelando o goleiro Zetti. Ganhou o primeiro turno e nossa torcida, carente, gritou “é campeão!”, para diversão dos rivais. Caímos na semi, num gol do meio da rua de Neto, então no SPFC, que entrou pelas canetas de Zetti. O Brasileiro – então “Copa União”, foi um fiasco, assim como a do ano seguinte, da qual só se aproveita a vitória nos pênaltis sobre o Flamengo, com o centroavante Gaúcho no gol.

O ano de 1989 começou promissor, com mais uma baciada de boas contratações. Leão iniciava sua carreira de técnico e alçou Velloso ao time principal. Edu Manga liderou uma campanha memorável, invicta, até o triangular semifinal – uma dolorosa derrota no Marcelo Stéfani criou o Bragantine’s 13 anos, mais uma piadinha que nos deu uma prolongada ressaca. E piorou no fim do ano, eliminados no Brasileiro por um gol de calcanhar de Claudio Adão.

O Palmeiras poderia ter se vingado do Bragantino em 1990 – bastava vencer a Ferroviária no Pacaembu lotado e ir à final – mas o empate por 0 a 0 classificou o Novorizontino, que assim fez uma inédita final caipira; o zagueiro Aguirregaray perdeu um gol incrível no último lance, piorando nossos pesadelos. Na sequência, a fraca campanha no Brasileirão fez a fila aumentar mais um ano. Mais dois, porque 1991 também foi um ano fraco, apesar do time ser guerreiro. Não tínhamos ideia do que significavam as chegadas de César Sampaio e Evair – à época, eram apenas mais duas entre tantas dezenas de tentativas.

Em 1992 o time seguia a sina de derrotas e eliminações, até que a co-gestão com a Parmalat foi iniciada. Chegaram os primeiros presentes – a começar pelo centroavante-sensação do Vasco, Sorato. No segundo semestre, chegaram Mazinho e Zinho. O time chegou, depois de seis anos, a uma final, mas não estava pronto para bater de frente com o forte SPFC de Telê Santana. Aquele vice-campeonato nem doeu tanto.

O ano da graça de 1993

Todo esse preâmbulo foi necessário para que os mais novos tenham a noção do quanto foi duro esse período de frustrações, sobretudo para a turma de 1970 e arredores. Com 22 para 23 anos de idade, continuávamos virgens de títulos, enquanto os rivais e inimigos nadavam em troféus. Mas com a chegada do quarteto composto por Antônio Carlos, Roberto Carlos, Edílson e Edmundo, a esperança se renovou, mais uma vez.

Otacílio Gonçalves montou a base e o time estava jogando bem, mas ainda oscilava. Uma sequência de três derrotas em abril – Vitória, pela Copa do Brasil, Mogi Mirim e SPFC, pelo Paulista – derrubou o bonachão treinador, mas a base estava pronta para que o novato Vanderlei Luxemburgo pudesse brilhar.

O Palmeiras ainda disputava a Copa do Brasil e acabou eliminado pelo Grêmio nos pênaltis, mas a torcida estava mesmo focada no Paulistão – e o Palmeiras voou no quadrangular semifinal, com seis vitórias em seis jogos contra Guarani, Ferroviária e Rio Branco. No outro grupo, o SCCP roubou o SPFC e veio para a final.

Nosso time era muito, muito melhor, mas o peso da fila era brutal. Todas as memórias descritas neste texto afloraram, mesmo nos corações dos palestrinos mais velhos. A imprensa, vestida de preto e branco, colocava toda a pressão que podia em nossos jogadores. Nas ruas, a pergunta que machucava: “você já viu seu time ser campeão?”. Não, seu FDP, nunca vi. Mas vou ver.

As finais

6 de junho, domingo. O SCCP tinha jogadores limitados, mas era comandado por Neto, que batia faltas de qualquer canto do gramado e resolvia. Nelsinho Baptista entendeu a limitação de seu elenco e montou um time consistente, no limite da capacidade. Nosso time era uma constelação, que brigava muito mais com os próprios fantasmas.

Numa partida muito nervosa, o SCCP abriu o placar aos 13 minutos, num gol do centroavante Viola, que se atirou na bola e, quase sem ângulo, escorou para o gol. A pressão sobre nossos jogadores foi na estratosfera, como acontece até hoje em Derbies, para qualquer lado. Até nosso time voltar para o jogo, já estava no segundo tempo. Martelamos, martelamos, mas o gol não saiu. A torcida deles vibrou no apito final. Parecia que a fila ia aumentar. Mas algo dizia, ainda no estádio, que as coisas iam mudar. E todos os palmeirenses, num fenômeno de esperança, juravam que estariam de volta no jogo seguinte.

Aquela semana foi um inferno. A imprensa deitou. Rasgaram os diplomas e exageraram nas provocações, sobretudo porque Viola, ao marcar o gol, ficou de quatro e imitou um porco chafurdando. Aquilo foi sabiamente usado por Luxemburgo, que deixou nossos jogadores na pilha certa. Todas as provocações se transformaram em força para ser usada no dia 12 de junho.

Aquela tarde de sábado foi gloriosa. O empate era deles. Ao Palmeiras, com as sagradas e infalíveis meias brancas, bastava vencer o jogo por qualquer placar, para provocar uma prorrogação – nesta, o empate passaria a ser nosso. E o Verdão começou a 200 por hora, sufocando o adversário.

O gol de Zinho, com a perna direita, aos 36 do primeiro tempo, nos deu pela primeira vez em 17 anos a condição de estar com a mão na taça – bastaria não levar mais nenhum gol. Seguramente, até hoje, foi o gol mais gritado e comemorado pela geração 70. Uma sensação de alívio, de começar a tirar das costas o peso acumulado: o Guarani, o XV de Jaú, a Inter de Limeira, a Ferroviária, o Bragantino, o Biro-Biro, o Claudio Adão e a PQP.

O jogo acabou 3 a 0 e eles estavam com um a menos – deveriam ser dois, mas o juiz expulsou Tonhão injustamente. Mesmo com a vantagem, o fantasma da fila ainda assombrava a metade verde do Morumbi. Nada indicava que perderíamos aquela prorrogação, mas as seguidas frustrações pesavam demais.

A bola rolou de novo. A noite caía na capital paulista, mas ninguém sentia frio. Todos em pé, empurrando o time e os ponteiros do relógio. Até que aos dez minutos, Ricardo fez pênalti em Edmundo. Ezequiel reclamou, xingou, e acabou expulso. Evair pegou a bola e colocou na cal.

Era moda distribuir apitinhos de plástico na entrada do estádio. A metade preta do Morumbi soprava aquilo com todas as forças. Do nosso lado, fé. Uma corrente humana se formou. Por seis gomos, todos os palmeirenses lacrimejavam, de mãos dadas, enquanto Evair esperou a bênção do capitão César Sampaio.

Evair

Evair sempre bateu pênaltis de sua forma peculiar, controlando as demoradas passadas, induzindo o goleiro a cair para um lado uma fração de segundo antes dele direcionar a bola para o outro lado – um talento único. Naquele pênalti, esse ritual parece ter durado mais dezessete anos. Wilson de um lado, bola do outro, e o urro gutural da libertação foi finalmente ouvido.

Foram mais 20 minutos de catarse completa, em compasso de espera. Ninguém se atreveu a antecipar nenhum grito, mas a sensação de vitória era iminente. O outro lado começou a deixar o estádio, o Verdão tocava a bola diante de um adversário morto.

Quando o jogo acabou, finalmente a torcida palmeirense voltou a encher o peito. O placar eletrônico mostrava nosso escudo e a palavra CAMPEÃO rolava da direita para a esquerda. Era um sonho que enfim se realizava.

Nas ladeiras da Vila Sônia, a pergunta voltou, desta vez em tom de galhofa: “você já viu seu time ser campeão?”, ao que todos respondiam, entre risos e lágrimas: “JÁ, PORRA!”

A festa seguiu em toda a cidade – e provavelmente em todo o Brasil. A Avenida Paulista foi invadida e aquele sábado, Dia dos Namorados, só acabou na segunda-feira. O dia 12 de Junho de 1993, por tudo isso, foi – sem a menor sombra de dúvida – o dia do título mais importante de toda nossa gloriosa História, e por isso mesmo, a cada ano, toda esta trajetória deve ser sempre lembrada e reverenciada.

Hoje é mais um 12 de Junho. Se você se lembra dessa conquista, ligue agora para as pessoas com quem você dividiu aqueles momentos e se cumprimentem. E se você tiver o privilégio de encontrar qualquer um dos heróis daquele título, agradeça-o efusivamente. Eles merecem muito. PARABÉNS PALMEIRAS!


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