Lidando com as frustrações, sem perder a dignidade

Bandeira do PalmeirasO Paulistão acabou após 30 minutos desastrosos em Campinas, quando levamos três gols. Mais ou menos a mesma coisa aconteceu no Allianz Parque, há três semanas – com a diferença que o time conseguiu virar o placar para 4 a 3 no agregado e sofreu um gol a cinco minutos de conquistar a vaga para as semifinais da Copa do Brasil no Mineirão, num lance fácil de ser neutralizado.

Ficamos numa situação bastante difícil no Brasileirão após uma sequência ruim em três jogos relativamente fáceis – derrotas para Chapecoense, SPFC e Coritiba – além do revés em casa no Derby. Os esperados resultados desses jogos nos deixariam em condições de igualdade na disputa pelo título com o rival, mesmo com a campanha absurdamente destacada que eles estão conseguindo encaixar.

Oscilamos, e ficamos para trás. Ainda é possível, caso uma arrancada fenomenal se inicie amanhã, contra o Avaí, lutar pelo decacampeonato – mas alimentar tal esperança, a esta altura da temporada, não parece ser uma boa ideia.

O Palmeiras terminou o ano passado levantando o troféu do Brasileirão e despontou como o grande favorito para 2017. Com um elenco forte e um potencial gigante para reforçá-lo ainda mais, o Verdão era a aposta unânime entre jornalistas e torcedores em geral como o maior favorito a papar as taças que disputaria.

Potencial e realidade; “obrigação” e frustração

Coletiva Eduardo Baptista UruguaiOcorre que no futebol há muitas variáveis que se sobrepõem a qualquer planejamento. A interrupção do trabalho de Cuca nivelou o Palmeiras aos outros times. A tentativa com Eduardo Baptista nos fez perder tempo no desenvolvimento tático e ficamos bem mais sujeitos às intempéries típicas do futebol. Os jogos mencionados nos dois primeiros parágrafos provavelmente teriam tido resultados diferentes caso o trabalho iniciado em 2016 não tivesse sofrido essas rupturas.

Mas mesmo nivelado aos outros times, o Palmeiras segue sendo cobrado pelo potencial do início do ano. Os números que traduzem o investimento feito continuam impressos nos balancetes sem nenhum desconto; a imprensa clubista forja a “obrigação” que time nenhum no mundo deveria ter e boa parte da torcida compra, aumentando a já natural pressão e tendo como principal efeito colateral uma enorme frustração sobre todos.

A muleta da “falta de colhões”

Keno contra o Cruzeiro
César Greco / Ag.Palmeiras

O time apresenta falhas compatíveis com os percalços. A elevada qualidade técnica de nosso elenco ainda precisa ser temperada com a tal da “liga”, perdida em janeiro. Recuperar isso leva tempo.

Falta ainda uma espécie de inteligência emocional coletiva em determinados momentos, para controlar melhor o ritmo das partidas. O Cruzeiro, por exemplo, teve essa percepção nos três confrontos contra nós este ano. Revejam as partidas: provocações, bolinhos e atendimentos médicos foram frequentes, quebrando nosso ritmo e impedindo que marcássemos mais gols quando os momentos da partidas nos eram favoráveis.

A falta de resultados em clássicos é outra situação que afeta diretamente a relação da torcida com os jogadores. É nesse tipo de jogo que se acumula créditos importantes para os momentos de dificuldade, e este elenco está com o saldo negativo. Nos momentos ruins, tudo parece pior ainda.

Outro problema que salta aos olhos é a demora excessiva na adaptação de Borja ao nosso futebol. A dificuldade do colombiano se encaixar ao time, somada ao montante de recursos nele investido e a seu estilo pessoal em campo, faz com que parte da torcida recorra à velha muleta da falta de vergonha na cara, de colhões, e estende a suposição a todo o elenco – uma forma simplória de tentar identificar um problema. Ademir da Guia, com seu estilo clássico e elegante, seria abordado em hotéis e aeroportos por pessoas doentias com o dedo em riste se jogasse hoje.

Espírito esportivo e dignidade

LeicesterNão existe clube com obrigação de ganhar campeonato. O que existe é obrigação de ser competitivo e de manter a dignidade, e isto o Palmeiras está entregando. Seguimos sendo fortes e protagonistas. Não estamos lutando contra o rebaixamento. Não estamos sendo humilhados em campo. Estamos sempre na primeira página.

Do outro lado, existem times que podem não ter o mesmo potencial, mas que desenvolveram outras qualidades e estão sabendo transformar o desafio de nos enfrentar em ânimo extra. Isso é mérito dos adversários. Só sendo muito mimado para esquecer que existem onze caras do outro lado. Só sendo muito vulnerável a frustrações para ignorar tantos exemplos que o futebol nos dá de que nem sempre o time mais rico, organizado e poderoso vai ser campeão.

Ser eliminado por um time de camisa importante no futebol brasileiro, fora de casa, com um gol a cinco minutos do fim, não significa que está tudo errado nem que faltam colhões. Perder assim é desagradável, nos chateia demais, mas está muito longe de ser o fim do mundo. É preciso saber perder, o que é algo bem diferente de ser conformado. Quem não tem espírito esportivo para assimilar derrotas não terá dignidade para saborear as vitórias.

O cavalo vai passar selado de novo

Comemoração de gol contra o Sport
César Greco / Ag.Palmeiras

Como prêmio de consolação pela eliminação, o Palmeiras ganhou quatro semanas livres – um raro luxo a ser usado para recuperar o tempo perdido, corrigir as falhas, fazer o time finalmente atingir a superioridade planejada e assim aumentar as chances de alcançar o objetivo máximo deste ano. Estamos no páreo pela Libertadores e alimentar esta esperança não é loucura.

Em janeiro de 1995 o Palmeiras vinha de um Brasileirão magnífico, talvez o time mais competitivo da História do Palmeiras desde as Academias de Dudu e Ademir. Mas tudo deu errado naquele ano e nem por isso o mundo caiu – montamos o time mais espetacular do futebol brasileiro dos últimos 30 anos para a temporada seguinte, e as conquistas continuaram acontecendo – usando parte dos investimentos feitos em 1995.

Mesmo que o título não venha e passemos a temporada em branco, os investimentos deste ano continuam válidos para o ano que vem, quando novamente entraremos como um dos maiores favoritos, e desta vez nada indica que o trabalho sofrerá rupturas como as deste ano.

Passamos por muitas tormentas no início deste século. Anos como o de 2009 deixaram marcas profundas e ainda lidamos com a impressão de que se não pegarmos o cavalo selado, ele jamais passará novamente. Mas estamos num cenário bem diferente. Ainda podemos levantar a maior taça de todas em 2017, e mesmo se não conseguirmos, o cavalo vai passar selado ano que vem de novo. VAMOS PALMEIRAS!


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