MEMÓRIA: Longe dos gramados desde 1977, Ademir da Guia teve partida de despedida somente em 1984

Por Thell de Castro

Ademir da GuiaQueria abordar a época em que Ademir da Guia deixou o futebol, em 1977. Mas não consegui encontrar grandes fatos – ele teve problemas de saúde, ficou um bom tempo sem jogar, teve alguns empecilhos para renovar o contrato e encerrou sua carreira.

Mas o Divino só teve um jogo de despedida em janeiro de 1984, quando já tinha quase 42 anos. Trago hoje aqui uma reportagem especial de uma página da Folha de S. Paulo, assinada por Miguel de Almeida, com um perfil de Ademir da Guia, publicada no dia 15 de janeiro de 1984, alguns dias antes desse jogo.

Trago a matéria completa, que é grande, para que os palmeirenses mais jovens, como eu, que não o viram em campo, possam ter uma ideia do que perderam, e os mais antigos, que tiveram esse privilégio, possam relembrar esses tempos.

Ademir da Guia
Reprodução Folha de S.Paulo

Da Guia, ainda um menino de olhos tristes

Lá estava a fera, seis anos depois de ter abandonado o campo, não por vontade própria, e mais por uma maldita sinusite – lá estava o divino, de calção, sem camisa, voz de moleque dengoso, perto de completar 42 anos, ainda um menino de olhos tristes e verdes, talvez com a mesma aparência ingênua trazida do Bangu, bairro carioca onde nasceu. Lá estava Ademir da Guia, atrasado meia hora pra entrevista, e pedindo:

– Tem de esperar um pouco. Vou tomar uma ducha rápida.

E foi. Até os atletas padecem do calor mortal numa cotidiana tarde paulistana. Passada em um apartamento – quente – localizado nas Perdizes, bem próximo à PUC. Depois de seis anos afastado do futebol – ele saiu em setembro de 77, pensando que voltaria em seguida – Ademir da Guia deve pisar no campo da Portuguesa no dia 22 de janeiro, na pele de Seleção Paulista x Palmeiras.

Lá estava Ademir da Guia – no banho. Nada de luxo no apartamento de um homem cantado por três poetas brasileiro (João Cabral de Melo Neto, Décio Pignatari e Roberto Bicelli) – um privilégio que nem Édson Arantes do Nascimento, Pelé, teve em sua brilhante carreira (no entanto, ele tem a Xuxa: compensações).

Um sujeito de subúrbio carioca, outra lenda brasileira, incrível meio-campista, campeão 5 vezes pelo Palmeiras, acostumado às demonstrações mais carinhosas dos torcedores – e, sabemos, isso é difícil, por ser o torcedor pior do que mulher amada, sempre exigindo milagres em beiras de penhascos, além de ser a manifestação de amor mais próxima da faca de dois gumes: hoje, a glória; amanhã, nada.

O apartamento pouco tem de luxo, um equipamento de som no canto direito da sala, algumas gravuras pelas paredes, um conjunto de sofás bem simples, mesas de mármores – nada demais.

De repente, o homem. E uma lembrança também. Quando ele jogava – e como jogou – todos comemoravam seu estilo calmo e frio, feito diagnóstico, de tocar a bola. Poucos entendiam. Todos gostavam. Na verdade, Ademir da Guia é o Paulinho da Viola do futebol brasileiro – como o sambista tem de ser observado, porque não faz lances grosseiros, só percebido por pessoas demais de sensíveis, porque sutileza não acontece sempre, nem é manchete de jornal.

Ademir da GuiaLá estava o divino. De calção, sem camisa, meio largado no sofá, o admirável Da Guia foi logo dizendo:

– Me desculpe. É que me atrasei pela cidade. (A voz é pausada, os olhos soltos pela sala, jamais presos a um objetivo ou ponto definido). Sabe, ando até meio cansado. Quando você tá nessa vida de jogador, dá uma entrevista hoje, outra amanhã, tudo vai normal. Mas agora, estando fora, tudo fica meio cansativo. Por sorte, os amigos estão dando força, todo mundo ajudando. Tá tudo bem.

Aliás, a fidelidade em Ademir da Guia é coisa notável. Em vinte anos como profissional, teve apenas dois times. O Bangu e o Palmeiras. Em São Paulo, chegou em 61 e daqui nunca mais saiu, espécie de patrimônio palmeirense e com lugar cativo no coração de outras torcidas também sensíveis. Por isso, por causa dessa natural fidelidade, a sua história não possui lances fora do habitual.

É assim: com quinze anos, entra para o Bangu, depois de correr campos aos subúrbios cariocas, em peladas que somente fizeram-no lapidar uma espécie de malemolência do toque de bola, da passagem e finalização das jogadas.

Depois, Palmeiras. De 61 a 63, ainda não é titular do meio de campo, mas se aperfeiçoa calmamente, numa lenta preparação. Titular em 63 – e dessa condição só sairia por vontade própria, forçado pela sinusite, em setembro de 77.

Linha de equilíbrio, trajetória de bala de longo alcance ou, como diz João Cabral de Melo Neto, “Ademir impôs com seu jogo o ritmo de chumbo (e o peso), da lesma, da câmara lenta, do homem dentro do pesadelo”. Nada mais certo.

Ademir da GuiaDa Guia diz estar contente com o jogo de despedida oficial. Fica chateado apenas como teve de abandonar o futebol, ele imaginando que os problemas surgidos no nariz fossem algo simples, de fácil solução. Não eram. Tanto que não tem certeza do que teve – ou ainda tem: a coisa não tá de todo resolvida.

Era setembro de 77 e o médio aconselhou uma operação. Aos 35 anos, em plena forma, da Guia calculou que voltaria no início de 78, para talvez encerrar a carreira aos quarenta anos – tudo indicava isso, da técnica aperfeiçoada ainda intacta ao preparo físico, à capacidade de correr um jogo inteiro.

Pois em setembro de 77 fez a sua primeira operação no nariz. Nada de melhorar. Outra operação. Também nada de melhora. No início de 78, já pela terceira operação, voltou ao campo. Correu, correu – e sentiu-se mal. Tinha de fato de sair, largar o futebol até encontrar uma solução. E por quase quatro anos – de 77 a 81 – sua vida resumiu-se a uma correria entre hospitais, remédios, farmácias e novas consultas.

Foi apenas no meio do ano passado, ali por julho, que da Guia de novo pisou num campo para correr, buscar a forma perdida, experimentar com vontade o gosto da bola no pé. E foi somente há duas semanas que entrou num joguinho besta, em um campo da cidade, sentindo a emoção de vestir a camisa de um time (não um time grande, como o Palmeiras, Corinthians). Mas foi importante – principalmente para dar a certeza de que ele poderá jogar em simples peladas pelo interior. Assim, deve participar dos jogos do “Milionários”, ainda este ano.

(Tudo isso quem diz é da Guia. Com voz pausada e numa malemolência de garoto. Garoto esperto. Em instante algum se diz ressentido ou chateado pelas situações. Ao contrário. Sempre acha explicações que melhore a coisa parecida piorada). Assim:

– É. Parar aos 35 anos não estava nos meus planos. Eu pensava que iria até os 40. Porque eu tava bem, me sentia legal. E, quando o médico me disse para fazer uma operação, não pensei em nada de muito ruim. Depois, a coisa não melhorando, eu sendo operado, deixei de pensar no futebol, porque o importante era a minha saúde. Tava certo, não? E então nem me preocupei em largar o futebol – porque não tinha largado. Sempre tava pensando em voltar, era minha vontade. A coisa ficando ruim. Fiquei meio assustado. O que eu tive? Foi nariz, sinusite, eu não sei ao certo o que eu tive.

Ademir da GuiaE então surge o admirável da Guia, com sua saída:

– Podia ser pior. Já pensei se eu tivesse isso aos 30 anos? Iria ser ruim. Graças a Deus, a coisa só foi acontecer aos 35 anos. Um tempo melhor, não tão no auge de uma carreira, né?

Dinheiro Ademir da Guia ganhou. Não ganhou muito, ele confessa. Porque para ganhar bastante, raciocina, só em dólar, jogando fora do Brasil. Funcionário do Palmeiras, nos dois últimos anos treinou os times amador e infantil do clube. Como bico, trabalhava como vendedor para a fábrica de um amigo, localizada em Araraquara. Vendas? Como vendas? Diz, em ritmo de chorinho:

– É, eu gosto de vendas. Não é uma coisa presa, ali, você podendo viajar bastante. É gostoso porque você conversa com muitas pessoas. Não dá é pra ficar preso.

De novo, liberdade e prazer. Do futebol, da Guia guarda muitas boas lembranças. Como a entrada em um estádio lotado, as finais, as viagens. Alguma irritação? Ah, da Guia, o homem do equilíbrio, provocador do desequilíbrio alheio, é fatal.

– O treino, aquela rotina dos treinamentos, tudo aquilo era muito cansativo. A preparação cansava, cansava bastante. Isso cansava. Na segunda-feira, tudo começava de novo. Você lá batendo ponto. Se chegasse atrasado, sendo multado. Isto não é diversão. Diversão é o jogo em si, a partida do domingo. Agora, o treino, levantar cedo (da Guia tem cara de quem gosta de dormir), isso com tempo vai dando um cansaço enorme.

A arte, no caso o futebol, sob o regime da indústria. A criatividade, no caso os dribles, passes e gols, sob a face crua e ruim do cotidiano. E é difícil entrar e sair bem cedo dos campeonatos jogados entre cidades distantes, ligadas por ônibus, concentrações, aviões.

Ademir da Guia– Não, nunca entrei em campo cansado, sem vontade. Porque jogar é a compensação. Pra aquilo tudo que a gente se prepara. O mais fácil de tudo é o jogo. Saudades? Tenho saudades apenas dos jogos, não dos treinos. Mas quando parei, eu estava cansado. Os campeonatos começavam ali por janeiro, fevereiro. Perto de setembro, outubro, não aguentava muito mais, não. Ficava pensando em férias. Descansar – descansar daqueles treinos, muita concentração. Não dos jogos, disso nunca fiquei cansado, porque disso sempre gostei, ainda gosto – vai dizendo da Guia, sempre em voz calma.

A fase boa é a fase de total inspiração. Mas a fase ruim, aquela de toques errados, um estranho cansaço – essa fase é demais de ruim até com os supercraques, qualidade em que Ademir da Guia está colocado com bons pontos. E, por isso, por ser o totem no meio do campo, uma má fase acaba ampliada por várias lentes. Daí, a coisa dói. Dói na vaidade e na falta de resposta. Diz o sempre calmo da Guia:

– A coisa é curiosa. Tem fases que tudo vai bem. Outras, não. (N.R.: filosofia popular). Então sai técnico, muda jogador. Não tem explicação. No fundo, é onze contra onze. As vezes, um jogador te marca melhor. Ou é um goleiro que pega tudo – mas tudo mesmo. Ou então você fica pensando: será que o juiz marcou algo errado (N.R.: percebam a natural inocência do meio-campista). Existem mil coisas em uma derrota – ou que possam dar numa derrota.

E quando você esteve em uma má fase, qual o sentimento disso? O calmo da Guia ajeita a pergunta e chuta:

– Você fica mais preocupado, quando sai porque está mal, como sujeito que entra no seu lugar – fica de olho se ele está bem. Você está mal: joga uma partida, ok. É normal. Joga a segunda ruim, ok, não é incomum isso. Mas, a partir da terceira, a torcida já fala, a imprensa quer saber: Ademir, o que há que você tá jogando mal? Eu não sei, respondo. E não dá pra saber. Se você diz que está cansado, vão na pele do preparador físico. É assim. Agora, você tem de ter calma.

Calma. Tudo bem. As duas palavras de maior frequência no vocabulário de da Guia. E calma ele continua quando perguntado se não foi injustiçado ao não ir para a seleção – ir como devia, não aquela idazinha em 74, um único jogo, como se fosse uma bondade do inábil Zagalo. Então, da Guia, como convém ao seu estilo (de jogo e de fala), diz:

– Não fui injustiçado, não. É que na minha época existiam quatro bons jogadores (na verdade, três): Gérson, Dirceu Lopes e Rivelino. Eu e Dirceu Lopes não tivemos muitas chances. O Gérson jogava bem. O Riva foi lá e também jogou bem. No Brasil, por essa época, tínhamos 3, 4 jogadores bons para cada posição.

Ademir da GuiaMas, o da Guia, não dava raiva sair a convocação e você não ter o seu nome lá, anotado?

– É. Fazia falta. Mas não me magoava. Quando eu fui em 74, foi ótimo. Se nunca tivesse ido, teria ficado chateado. Era a única coisa que faltava na minha carreira. Claro, queria era participar de uma Copa do Mundo. E participei. Não ficava chateado. Esperava. Não saía, tudo bem. Seleção é uma coisa complicada. Também a coisa é difícil: não iria conversar com o Rivelino, que é meu amigo, e, quando ele entrasse em campo, torcer para ele sair e eu entrar – não dava, né? Não era uma coisa legal.

Cutucando a onça com vara curta, ele acaba soltando algo não muito frio, destituído de emoção. Ele recorda:

– Quando o Zagalo disse que eu iria entrar, naquele jogo contra a Polônia, eu fiquei contente. Porque tava lá e pensava: será que não vou jogar uma única vez? Vim aqui e não vou entrar? Bem, mas ganhar ou perder – a coisa é outra nesse caso.

O bom Ademir da Guia passou por vários desafios. Quase todos, venceu. Ao chegar em São Paulo, no distante ano de 61, muitos disseram que aquele seu estilo de jogar não daria certo. Mas, era, por que? Pelo simples fato de que o futebol paulista sempre foi corrido e da Guia seguida calmo, mas com régua e compasso. De novo, o poeta. Da Guia nega a apologia dos camaleônicos pela simples matemática dos artistas que adaptam o tempo à sua maneira – e não vice-versa.

Da Guia, você é calmo ou é também muito triste? Ele não sorri. Entende que não é ironia a pergunta, mas algo sério.

Ademir da Guia e Sócrates– Sou calmo… Desde pequeno… Acho que não vou mudar.

Mas da Guia se abre, de novo, e conta:

– Em 74, quando o Palmeiras foi campeão, estavam todos já pulando de alegria. Eu passei, andando, calmo. Todos: essa não, isso é demais. É que eu tava cansado mesmo, de tanto correr no jogo.

Ele conta o caso e se cala, mas de novo se revela:

– Às vezes sou contente ou um pouco triste. Sou assim.

No dia 22 de janeiro, um domingo, a Folha estampou, com chamada de capa, a despedida do Divino. Já na segunda, dia 23, a cobertura da vitória dos Amigos de Ademir por 2 a 1 sobre o Palmeiras. O ex-jogador ficou em campo por 36 minutos e desfilou sua tradicional elegância em campo.

Ademir da Guia jogou 36 minutos, pegou 18 vezes na bola, chutou duas vezes a gol e deu alguns passos errados. Estava cansado e feliz, quando desceu o vestiário para tirar as chuteiras que ele só pretende voltar a calçar para defender o time de veteranos do Palmeiras, clube no qual jogou de 1961 a novembro de 1977.

Ontem cedo, no Canindé, no intervalo da partida entre o Palmeiras e a Seleção dos Amigos do Ademir, o Divino ganhou de tudo: troféus, medalhas, uma salva de prata das mãos do presidente Paschoal Giuliano – que discursou agradecendo a tudo o que ele fez pelo clube – um diploma da Confederação Brasileira de Futebol, outorgando-lhe o Belfort Duarte, Cr$ 500 mil do Sindicato dos Atletas Profissionais, dez milhões de seu amigo-ausente Pelé, Cr$ 12.430.500,00 do pouco mais de 11 mil torcedores que foram à sua festa de despedida.

Enfim, essa foi a despedida oficial de Ademir da Guia, que muito fez pelo Palmeiras.

Como fiz na matéria sobre Marcos, também agradeço a esse craque por todas as alegrias. No meu caso, e de muitos outros, as alegrias que proporcionou ao meu saudoso pai e milhões de palmeirenses que o viram jogar. Obrigado, Ademir da Guia.


Thell de Castro é palmeirense, jornalista e editor do site TV História