Consumidores, voltem para seus barzinhos na Vila Olímpia

Santos 0x1 Palmeiras
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

Chegou ao conhecimento público nesta quarta-feira a notícia de que três torcedores que compareceram ao Allianz Parque para assistir ao jogo entre Palmeiras x Santos, válido pelo Campeonato Brasileiro, estão processando a WTorre, o Palmeiras e a CBF. Eles pedem, além do ressarcimento do valor dos ingressos, a quantia de R$ 20 mil cada um. O motivo? Água caindo sobre suas cadeiras.

Naquela noite, chovia demais na capital paulista e um rápido apagão aconteceu no estádio antes da partida começar – o único registrado em mais de três anos de atividade do Allianz Parque.

A drenagem não aguentou e gramado ficou encharcado, fazendo com que o jogo de bola pelo chão do Palmeiras fosse prejudicado. O Santos acabou vencendo por 1 a 0.

Os torcedores têm razão de ficar chateados. Afinal, pagaram caro (dois ingressos de R$ 100, meia-entrada, e um de R$ 200) e tinham o direito de permanecerem secos. Mas vamos com calma.

Tá chovendo no meu assento, e agora?

Fosso Palestra
George de Barros

Ao longo dos anos, cansamos de tomar hectolitros de chuva em jogos no velho Palestra e continuamos a tomar em vários estádios do país. Agora, temos a primazia de ter a cobertura do Allianz Parque para nos livrar desse incômodo – a não ser que você seja o azarado que está bem debaixo de uma goteira que a WTorre deixou se criar.

Nessa situação, há várias coisas a se fazer. A primeira delas é chamar um steward e tentar arrumar outro lugar, antes que o jogo comece. Você arruma outro lugar, que pode ser melhor ou pior que o que você comprou. Mas assiste ao jogo, seco.

Às vezes a equipe de apoio não é eficiente e não resolve o problema. Ou a goteira pode começar durante o jogo. Você realmente não está com sorte. Resta a você tentar chegar mais para o lado para não se molhar. Ou procurar outro lugar por sua conta – muitas vezes a solução é a escada. É chato, mas o que importa mesmo é apoiar o Palmeiras.

Com o fim do jogo, você pode simplesmente dar uma torcida na sua camisa encharcada e ir para casa, lamentando a derrota e a má sorte de pegar bem o lugar “premiado”. Ou pode ir na Ouvidoria do estádio e registrar formalmente reclamação, ou fazer uma queixa no Reclame Aqui – e quem sabe até ganhar um mimo do clube mais tarde. Mas pode também ir além e exigir seus direitos, processando a WTorre, que é a responsável pela manutenção do estádio.

Nessa última opção, o advogado vai lhe dizer que o acionado será a WTorre, mas que a CBF e o Palmeiras serão “solidários”, ou sei lá qual o melhor termo jurídico para definir terceiras partes que, por algum motivo, podem dividir a responsabilidade com o requerido principal.

É nesse momento que os torcedores mostram do que são feitos. Um consumidor, um sujeito feito de nada, diz ao advogado: “sem problemas”.

Já um palmeirense legítimo, de sangue verde, que tem o “P” tatuado na alma, se levanta, coloca o dedo na cara do advogado e diz claramente: “não tô nem aí pra WTorre e pra CBF, mas se for para processar o Palmeiras, não tem ação”.

Não se trata de direito

Torcida Allianz ParqueNessas discussões, sempre aparece alguém com o viés legal, ponderando que os caras “têm o direito” de procurar a Justiça caso tenham se sentido prejudicados. Mas é claro que têm o direito. Não é isso que está sendo discutido.

Os novos estádios atraíram um novo público ao estádio, e nem é preciso frequentá-los para constatar isso: basta verificar os números do crescimento da média de público. E entre esses novos frequentadores, temos os “consumidores”, que chegaram cheios de direitos. Exigem, inclusive, espetáculo em campo. EXIGEM.

São pessoas que vão ao futebol como forma de entretenimento. Pessoas que, em três anos de operação da nova “casa de espetáculos”, ainda não conseguiram entender o que é torcer de verdade por uma camisa como a do Palmeiras. É aquele tipo de cara que aproveita que está numa multidão e desconta todas suas frustrações no atleta que errou um passe ganhando trinta vezes mais do que ele – esse tipo, você que frequenta o Allianz Parque sabe, está muito comum.

São exatamente esses que dizem “sem problemas” para o advogado. É esse tipo de idiotas que devem ser combatidos nas arquibancadas. A cada xingamento ao Tchê Tchê ou ao Bruno Henrique, esses caras têm que ser reprimidos pelos torcedores até entenderem que estão entrando num lugar sagrado, com um código de conduta, e que o valor pago no ingresso não lhes permite subvertê-lo.

Voltem para seus barzinhos na Vila Olímpia

Rei do CamaroteO Palmeiras precisa exigir da WTorre que nunca mais caia uma gota de chuva nos assentos, bem como combater todos os eventuais pontos cegos causados pelas divisórias, seja de grade ou de acrílico.

Mas, muito mais do que isso, o Palmeiras precisa mesmo é de torcedores que o tratem como um dos membros mais queridos da família.

Quando alguém que amamos pisa na bola com a gente, podemos até ficar bem bravos. Ficamos de mal. Mas passa.

Não precisamos nos comportar como gado e aceitar tudo em nome do amor. Se comprarmos ingresso para um lugar com problemas, reclamamos. Tentamos resolver antes do jogo, achamos um lugar aceitável. E bola pra frente.

Os “consumidores” que deram o azar de comprar um assento com goteira preferiram processar o Palmeiras. Eles têm até o direito, mas não podiam. Jamais.

Se for para ser assim, que voltem todos para os barzinhos da Vila Olímpia de onde vieram. Nossa renda e público médios podem até cair um pouco, mas todo mundo que pertence ao estádio de futebol vai se sentir melhor.


ATUALIZAÇÃO: A torcida do Palmeiras investigou e descobriu que os tais torcedores que processaram o clube não eram palmeirenses, e sim rivais infiltrados. Isso anula boa parte da argumentação do post, o que nos deixa de certa forma aliviados: a gourmetização da arquibancada não chegou a esse extremo.

De qualquer forma, fica a reflexão sobre o comportamento de “consumidor” que, inequivocamente, está assolando nossa torcida no estádio – mesmo que o absurdo de processar o próprio time não tenha sido atingido.