A noite em que o time do Palmeiras foi mais bipolar que a torcida

Willian Bigode comemora
César Greco / Ag.Palmeiras

A bipolaridade que atinge freneticamente a torcida do Palmeiras nas redes sociais, ironicamente, justificou-se de forma plena na partida da última quarta-feira, quando o Palmeiras venceu de forma espetacular o Peñarol, em Montevideo. Depois de um primeiro tempo horrível em que o time tomou dois gols e foi amplamente dominado pelo time uruguaio, o time voltou com duas alterações do intervalo, fez três gols com certa facilidade – poderia ter feito mais – e conseguiu a virada épica.

Chega a ser engraçado ler a sequência de comentários de torcedores registrados durante o jogo, refletindo a situação no primeiro tempo, no intervalo, no segundo tempo e ao final da partida. A mudança da volátil opinião da torcida quase reflete o que o time produziu em campo. Uma diferença gritante – no caso, o time chegou a ser mais bipolar ainda que os próprios torcedores.

Eduardo Baptista entrou com o time num 5-4-1, que com a bola deveria se transformar em 3-6-1, e que na verdade não virou nem uma coisa, nem outra, proporcionando ao Peñarol dar um passeio em nosso time. Os sites uruguaios não conseguiram disfarçar a surpresa com que os aurinegros demonstraram no primeiro tempo, acreditando ter sido um grande mérito – não compreenderam que foi o Palmeiras, a exemplo do que aconteceu em Campinas, é que não havia entrado em campo.

As diferenças para o jogo de Campinas, no entanto, são claras: enquanto no Paulistão o erro do Palmeiras foi mental, de não ter conseguido virar a chavinha, ainda sob efeito da ressaca do jogo anterior contra o próprio Peñarol no Allianz Parque; o equívoco em Montevideo foi tático e técnico.

Tentativa e erro

Sob intensa pressão depois dos 3 a 0, Eduardo Baptista viu-se obrigado a tentar algo diferente. E tentou, ao ensaiar um esquema com três zagueiros no jogo de volta, deslocando Felipe Melo para a função e deixando Tchê Tchê como volante. Não funcionou mal, mas não foi suficiente para que o Palmeiras conseguisse reverter a vantagem campineira.

Nosso treinador, no entanto, deve ter visto alguma evolução diante do bombardeio imprimido sobre a área de Aranha e achou que valia a pena insistir para aprimorar o sistema. Podendo contar com a trinca de zagueiros, devolveu Felipe Melo ao meio-campo e sacou Tchê Tchê. No lugar de Dudu, suspenso, mandou Michel Bastos.

Na teoria, foi uma tentativa válida. É de se imaginar que nos treinos que aconteceram na segunda e na terça-feira, a despeito da viagem, o time tenha treinado para jogar nessa formação e tenha agradado ao treinador. Na prática, deu tudo errado.

Defensivamente, os três zagueiros não funcionaram como deveriam e a dupla de atacantes do Peñarol achou espaços livres para receber e finalizar. Na verdade, o esquema deveria prevenir até que as bolas chegassem a nossa área. Mas os jogadores pareciam não entender onde deveriam ficar e o que deveriam fazer. Com a bola, não conseguiam sair jogando e tentavam alcançar Borja de qualquer jeito, rifando a bola que invariavelmente e recuperada pelos uruguaios, que iniciavam um novo e perigoso ataque. Foi uma mudança muito radical para ser assimilada em tão pouco espaço de tempo e ser colocada em prática num jogo tão importante. A pressão explica – mas não justifica – a precipitação e as decisões erradas do treinador.

Tentativa e acerto

Eduardo, percebendo o equívoco, poderia simplesmente ter voltado para a configuração tradicional, colocando Tchê Tchê no lugar de Vitor Hugo. Mas o treinador foi além, puxando Michel Bastos para a lateral esquerda; sacando Egídio e mandando Willian a campo, que ora fez o papel do ponta esquerda, ora jogou como segundo centroavante. Bingo!

O encaixe foi perfeito e a virada veio de forma até suave – Roger Guedes ainda se deu ao luxo de perder um gol feito. Diante de um Peñarol razoavelmente relaxado pela ilusória vantagem (“2 a 0 é um placar perigoso”, dizem), o time voltou com muita garra, minou a confiança dos uruguaios com gols rápidos e esmagou o adversário.

Tchê Tchê voltou a ser aquele do ano passado, com sua conhecida onipresença e passes precisos; Guerra jogou o fino da bola, fazendo o papel de um legítimo camisa 10; Borja se posicionou bem, sempre puxando um ou dois zagueiros e abrindo os espaços que foram fundamentais para que Willian brilhasse nos toques de Jean, que deitou e rolou em cima do fraquíssimo Hernandez. Uma virada sensacional.

E agora?

O esquema que funcionou como uma máquina no segundo tempo no Uruguai pode ser, mas não é necessariamente o que deve funcionar melhor com o elenco do Palmeiras – até porque, o rendimento de cada combinação depende do encaixe com o adversário.

Dudu estará à disposição contra o Jorge Wilstermann. O dono da braçadeira de capitão, com convocações recentes para a seleção brasileira e com o temperamento explosivo, é um jogador difícil de ser sacado, caso Eduardo resolva manter a última formação para aprimorá-la. Nosso treinador vai precisar usar todo seu tato e aproveitar o momento de união intensa no grupo causado pelos acontecimentos pós-jogo para promover essa mudança, se for sua vontade. Pode sobrar um banco para Roger Guedes, e isso não terá nada a ver com nenhuma teoria conspiratória. Afinal, nosso treinador deixou claro que é “homem pra caralho”, se alguém ainda não entendeu.

É fato que Willian joga bem melhor com Borja em campo, jogando aberto e entrando em diagonal, e não como centroavante enfiado. Michel Bastos encaixou bem demais na lateral e precisa reaprender a gostar da nova-velha posição.

O fato é que Eduardo vem justificando o voto de confiança dado a ele por parte da torcida. Ao contrário de Marcelo Oliveira, que esgotou o repertório de tentativas e não mostrava nenhuma reação, nosso atual treinador não descansa e segue tentando encontrar a melhor combinação, a química perfeita, a tal da “liga”. Às vezes ela aparece rápido, às vezes demora mais. Enquanto ele estiver evoluindo, enquanto o time der sinais de que pode engrenar de vez e se tornar consistente, a manutenção do técnico é mandatória para que o tempo investido nos primeiros meses da temporada não sejam jogados no lixo.


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