Rivalidade, a alma do futebol

Cascão e Cebolinha - Derby
© MSP

Os constantes episódios de violência envolvendo torcedores fomenta campanhas de paz nos dias que antecedem os grandes clássicos. Às vezes as ações partem dos próprios clubes, às vezes das federações, às vezes da própria imprensa – ou de quem mais queira conciliar interesses comerciais com um propósito nobre.

Tais campanhas, talvez nas primeiras vezes, surtiram algum efeito. Com a perda do ineditismo, entretanto, esse tipo de ação caiu na vala comum e hoje é solenemente ignorado por quem aproveita a realização de clássicos para satisfazer a necessidade patológica de sair na mão – ou na barra de ferro – com alguém.

No último final de semana, em Salvador, o Ba-Vi foi promovido na semana que o antecedeu como o “Clássico da Paz”. Quem partiu para a violência foi quem menos se esperava em tempos de extremo profissionalismo: os atletas. Obviamente, o fogo se alastrou para as arquibancadas do Barradão e tivemos mais uma série de registros para o baú de cenas lamentáveis do futebol brasileiro. Mesmo com toda a campanha, que acabou se tornando ridícula.

Dado que essas estratégias de comunicação se tornaram completamente inócuas, talvez tenhamos atingido o ponto de se mudar o enfoque para diminuir ou mesmo remover a pancadaria do dicionário do futebol. A mídia não é mais um instrumento eficaz, o foco principal talvez deva ser a inteligência policial sobre os já conhecidos elementos infiltrados nas organizadas que fomentam os conflitos, sempre pré-agendados com data e local. “Se organizar direitinho, todo mundo dá porrada” – é a piada que corre.

O hooliganismo é um fenômeno sociológico e antropológico e tem suas particularidades em cada local onde é praticado – o movimento que teve muita força na Inglaterra até meados da década de 80 era bem diferente do que ocorre aqui no Brasil – mas também tem suas semelhanças. Lá, foi praticamente erradicado – o que não quer dizer que se forem aplicadas as mesmas medidas aqui, surtiriam o mesmo efeito. É um trabalho difícil, que precisa ser feito de forma séria por gente competente e não por promotores aventureiros que usam a visibilidade que o futebol proporciona para alavancar suas carreiras políticas.

Enquanto esse trabalho é feito de forma capenga por quem não está de verdade a fim de resolver, quem sofre é o torcedor comum. Como sempre.

Medidas inúteis

Os novos estádios vieram para ficar. A maioria deles, em sua concepção física, não permite mais grandes clássicos com torcida dividida meio-a-meio – normalmente existe um local reservado para a torcida visitante que corresponde a, no máximo, 10% da capacidade do estádio. Quem viu os grandes clássicos com seis gomos de cada lado, viu.

Mas mesmo com 10% de visitantes ainda existia o espírito de clássico. A sensação de estender um dedo médio e soltar alguns palavrões em direção à torcida adversária após ver o Palmeiras fazer um gol num clássico no Allianz Parque, embora não se compare a calar metade do estádio, ainda rendia pontos valiosíssimos no placar de objetivos a se atingir na vida. Agora, nem isso nos permitem, depois da instituição da torcida única – uma solução paliativa que consiste num atestado de incompetência das autoridades em controlar o problema em sua raiz.

Sobra até para a cerveja. Chega a ser inacreditável que, mesmo 10 anos após a proibição, um produto que gire tanto dinheiro não tenha tido um lobby eficiente para derrubar uma resolução tão estúpida.

Estas são apenas algumas atrações do circo armado pelo poder público para fingir à sociedade que estão buscando soluções reais para o problema. Os índices de violência não dão sinais de arrefecer e a parte mais sedutora de ir a um estádio num clássico, ou mesmo em jogos comuns, está com cada vez menos atrativos.

Rivalidade, a alma do futebol

Derby da PazEnquanto as autoridades desfilam suas hipocrisias pelo picadeiro, a mídia também inventa moda. Os dirigentes dos clubes combinam, junto com seus marqueteiros, ações bonitinhas nos dias que antecedem o clássico. O apelo é forte: a paz! Quem pode ser contra?

E dá-lhe logomarca do “clássico da paz” com coletiva conjunta. Os torcedores comuns – aqueles que não usam o futebol para satisfazer o vício na pancadaria, mas que incorporam o espírito da arquibancada e querem matar o adversáriono sentido figurado – são impelidos a reprimir o instinto de repulsa ao rival em nome da disposição geral para que ninguém saia do estádio machucado. E não adianta nada, porque se os caras quiserem brigar, eles vão brigar e não vai ser o Cebolinha nem o Cascão que vão impedir.

O pior de tudo é que, mesmo após uma série de ações conjuntas entre os clubes, nos bastidores o SCCP, de forma cínica, continua influenciando autoridades e arbitragens, ganhando estádio e campeonatos na mão grande, enquanto vemos imagens de personagens de gibis se abraçando enquanto vestem as camisas dos rivais seculares.

Já basta terem proibido a cerveja, as bandeiras, acabado com os clássicos 50-50 e inventado a torcida única. Deixem a rivalidade aflorar. Parem com esse papo de amizade que não impede treta nenhuma. Deixem-nos odiar nossos rivais e querer vê-los mortosmais uma vez, no sentido figurado. Nós, o grosso da torcida do Palmeiras, 99% dos que estão no estádio, odiamos os torcedores do SCCP, e adoramos odiá-los, sem meter a porrada em ninguém – e provavelmente o inverso também é verdadeiro. Isso é a rivalidade, a alma do futebol que não pode acabar.

No dia seguinte, nos esprememos no metrô ao lado deles e a vida segue.


Verdazzo é um projeto de independência da mídia tradicional patrocinado pela torcida do Palmeiras.

Conheça mais clicando aqui: https://www.padrim.com.br/verdazzo