Felipe Melo: as avaliações e os equívocos da diretoria

Felipe Melo
Cesar Greco / Ag.Palmeiras

Felipe Melo foi reintegrado ao elenco do Palmeiras. Depois de ter vazado um áudio em que dirigiu ao técnico Cuca palavras pesadas, o volante foi afastado dos treinos com o grupo por cerca de cinco semanas. Ontem, a decisão foi oficialmente revertida.

Em coletiva, o volante fez declarações confusas, ambíguas; não deixou de lado sua postura notoriamente arrogante e não se furtou nem a promover as redes sociais de seus filhos.

A trajetória de Felipe Melo no Palmeiras dura até agora cerca de nove meses, mas já tem mais manchetes, por exemplo, que a de Zé Roberto, que está prestes a completar três anos no clube e já levantou taça.

Certamente o desejo de toda a torcida é que essas manchetes fossem sempre valorizando suas performances dentro de campo, mas o que se vê é um atleta que se destaca muito mais por suas polêmicas, na maioria das vezes, negativas.

Avaliações

Felipe Melo foi objeto, até agora, de três avaliações por parte da diretoria e da comissão técnica: a que decidiu por sua contratação, a que chancelou seu afastamento, e a que determinou sua reintegração.

A contratação
Felipe Melo
REUTERS/Andres Stapff

Volante com Copa do Mundo no currículo, raçudo, com cara de Libertadores e muita técnica, parecia a escolha perfeita para substituir Gabriel, cujo empresário forçava a barra para transferi-lo para seu clube do coração. A despeito de sua conhecida tendência para atrair polêmicas, a esperança de todos no clube era a de que sua experiência prevalecesse e o nível técnico a ser exibido em campo compensasse um ou outro excesso.

A contratação foi aprovada por Eduardo Baptista, que via em Felipe Melo as características de um volante para jogar em seu esquema. O volante documentou sua chegada a São Paulo, de helicóptero, e publicou no Instagram. Em campo, Felipe Melo era um dos que se salvava em um time que evoluía a passos de cágado.

O fato mais marcante desta primeira fase do camisa 30 no clube foi a cilada sofrida por nossa delegação no Uruguai – situação cavada por ele mesmo em sua entrevista de apresentação. Sua performance na briga encheu os palmeirenses de orgulho.

O afastamento

Felipe MeloCom a troca de Eduardo por Cuca, Felipe Melo perdeu espaço entre os titulares. A ascensão de Thiago Santos e a chegada de Bruno Henrique ofuscaram ainda mais sua presença no elenco, algo que se agravou com a injusta suspensão imposta pela Conmebol.

Sua necessidade por holofotes fala muito alto. Relegado à condição de reserva, decidiu publicar um vídeo com suas preferências políticas. Personalidades públicas como Felipe Melo e Jair Bolsonaro, numa única pauta, é nitroglicerina pura.

Mas o pior ainda estava por vir. No final de julho, gravou o fatídico áudio no Whatsapp que atingiu Cuca e que obviamente vazaria. A diretoria precisou colocar na balança a gravidade da insubordinação com as consequências financeiras de um afastamento. Para preservar a autoridade de Cuca, confiando numa transferência que poderia atenuar as perdas financeiras, decidiu-se pelo afastamento. A escolha mostrou-se claramente equivocada, como veremos a seguir.

A reintegração

Diante da falta de ofertas concretas de outros clubes por seu futebol, os advogados do atleta, que passou a treinar em horários alternativos, ameaçaram o Palmeiras com uma ação por assédio moral.

Usando como aliado o poder que o tempo tem de amenizar os efeitos de declarações desastradas, a diretoria então ponderou novamente as consequências financeiras de manter o jogador afastado e decidiu reverter a decisão.

Não se sabe ao certo o valor que o Palmeiras busca resguardar diante da ameaça de ação jurídica. Não se sabe ao certo o grau de insatisfação de Cuca com a situação. Ninguém que não conviva no dia a dia da Academia de Futebol sabe avaliar as consequências desta decisão.

Equívocos

Felipe Melo
Divulgação

É muito fácil apontar os equívocos depois que as coisas dão errado. Mas à luz dos fatos, é inegável que a passagem de Felipe Melo é uma sucessão de erros. Sua contratação parecia boa, mas ele jamais correspondeu em campo de forma a fazer valer a pena sua avidez pelos holofotes e os efeitos negativos que vieram na carona.

Ao decidir por seu afastamento, a avaliação das consequências foram equivocadas: era necessário que ele fosse rapidamente negociado para evitar perdas financeiras com salários e uma ação jurídica, algo que não foi concretizado. E agora?

É bem pouco provável que Felipe Melo volte a vestir nossa camisa. Mas sua reintegração pode evitar que o clube seja penalizado em uma quantia monstruosa de dinheiro. Sua presença constante junto aos atletas, no entanto, pode gerar situações mais graves ainda. Se Felipe Melo não for rigorosamente vigiado, tem potencial para continuar fazendo estragos, mesmo que sua presença no elenco fique limitada a “reserva do Fabiano”.

Que a economia gerada por esta decisão se justifique, sem sacrificar a reação que o time está tendo ainda este ano, quando ainda sonha em buscar objetivos maiores no Brasileirão. Que esse dinheiro não vire pó perto de uma eventual deterioração da hierarquia e da autoridade de Cuca, o que pode prejudicar toda a temporada de 2018, para a qual já estamos nos preparando. Mas diante do histórico de avaliações e equívocos nesta trajetória, está difícil manter o otimismo. Só nos resta torcer.