A praga dos ‘programas esportivos transgênero’ ataca de novo

Ontem aconteceu mais um achaque do programa Os Donos da Bola, da Bandeirantes, ao Palmeiras. O vespertino, comandado pelo humorista torcedor do SCCP Neto, plantou a ideia de que existiria um racha entre Felipão e Mattos. Simples assim. Do nada.

O que é dito por um humorista, claramente caracterizado como tal, não pode ser levado a sério. Mas quando a comunicação é feita por um programa em que a fronteira entre o entretenimento e o jornalismo é propositalmente maquiada, a confusão é inevitável.

A programação visual do programa remete a jornalismo. Além do âncora e do bobo da corte palmeirense, há jornalistas no estúdio, tornando a atração uma espécie de transgênero. Assim, fica difícil para o espectador distinguir o fato da ficção e nenhuma associação de classe de jornalistas parece se preocupar com isso.

E já que os jornalistas não se preocupam em zelar pela integridade da própria classe, o Palmeiras poderia se manter mais ativo diante desse tipo de ataque para deixar mais clara a linha do respeito que não pode se ultrapassada.

Má intenção

Não deveria haver dúvida de que o programa do Neto é entretenimento puro – mas, como já vimos, existem elementos que estimulam a confusão com jornalismo e que induzem o espectador a acreditar no que o programa veicula. Ontem, a necessidade de pauta os levou a inventar o tal racha. Sem a menor faísca, sem o mínimo fundo de verdade. Como roteiristas criativos usando suas mentes inventivas, produziram a ficção. E a escolha do tema deixa clara a má intenção do chefe.

O Palmeiras, então, precisa se posicionar. O site oficial não tem que passar o recibo para o Neto a cada vez que ele fizer uma molecagem com a de ontem. Mas é preciso manter a guarda alta para não permitir que elas causem efeitos colaterais indesejados. A saída talvez seja usar as redes sociais.

A linha de comunicação do Palmeiras nas redes se alinha mais com a sobriedade – o que parece correto. Os canais oficiais de comunicação do campeão brasileiro não podem se equiparar ao perfil zoeiro como o do Íbis, ou mesmo ao de clubes menores que precisam de atenção como o Paraná. Mas cada rede social tem sua característica e é possível notar uma certa leveza no perfil do Palmeiras no Twitter – mais uma vez, uma escolha correta.

Talvez o perfil do Twitter pudesse ser usado pelo clube para esse tipo de situações, usando de ironia inteligente para rebater e esclarecer qualquer tentativa mal intencionada de plantar crise na Academia de Futebol. Obviamente as respostas não podem ficar a cargo do estagiário – elas devem ser produto de uma cuidadosa escolha de palavras dos membros mais experientes da equipe de comunicação. Quem sabe, desta forma, os programas transgênero sintam-se menos confortáveis em usar o Palmeiras para ganhar seus pontos no Ibope.

Para deixar claro

Felipão e Mattos
Cesar Greco/Ag.Palmeiras

O tal racha, é claro, é ficção pura. A foto acima, capturada ontem pelas lentes de Cesar Greco, mostra Felipão e Mattos em total harmonia. A imagem poderia perfeitamente ilustrar um tweet do perfil oficial do clube, que nem precisaria mencionar o Neto ou a Bandeirantes explicitamente, para não dar-lhes o gosto do recibo.

Entre os programas de debate de sofá e os transgênero, prefira sempre a mídia palestrina, que tem abordagens de todos os tipos e muitas delas poderão agradar ao seu perfil. Mesmo aquelas que gostam de cornetar, pelo menos o fazem com o sangue verde.

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Velloso: de ídolo incontestável a bobo da corte do Neto

Velloso
Reprodução

A súbita aproximação de Palmeiras e Santos em relação ao líder do Brasileirão devolveu o interesse geral ao campeonato.

O título do rival, antes dado como favas contadas, agora é colocado em dúvida principalmente pela própria torcida deles. A imprensa está adorando: com a volta da disputa, a audiência sobe.

Os jogadores do Palmeiras já estão escaldados pelos efeitos que a expectativa exagerada por títulos pode causar. Boa parte das explicações que se encontrou para a perda dos títulos das copas este ano recaiu sobre a pressão que se colocou sobre os jogadores, pelo “investimento feito”.

Agora, o discurso aparentemente ensaiado é de que o objetivo do elenco para este fim de ano é conquistar uma vaga direta para a fase de grupos da Libertadores. É óbvio que se a diferença, que neste momento é de seis pontos, cair ainda mais, nossos jogadores serão obrigados a rever as expectativas – mas mesmo assim, sem jamais assumir o favoritismo, já que quem esteve com dezessete pontos de vantagem e tem a obrigação de conquistar a taça é o rival.

Arapuca

No programa Os Donos da Bola de terça-feira, nosso ex-goleiro Velloso, que hoje ataca de comentarista, caiu nas armadilhas de Neto, que é seu chefe, e acabou levantando uma taça preparada pela produção com o escudo do Palmeiras, enquanto o GC mostrava a legenda “Palmeiras Campeão Brasileiro de 2017”. Uma arapuca vergonhosa.

A manobra é clara: tentar tirar a pressão enorme que se impõe do outro lado e jogá-la para cá. Velloso foi avacalhado no ar por seu chefe e por Ronaldo, o frangueiro careca que também faz parte da seleta equipe. O vídeo é constrangedor. Se achar necessário, confira aqui, a partir de 11min00. Tome um dramin antes.

O programa em questão é um circo e o apresentador é um palhaço, no sentido exato da palavra. A ideia da Bandeirantes é fazer entretenimento para quem gosta de assistir a esse tipo de “discussão” – e em nosso país, esse segmento não é pequeno.

O problema é que o apresentador usa seu circo para defender seu time e para isso faz tudo o que está a seu alcance. É uma espécie de Gambazzo na TV, com a diferença que não é formal ou assumidamente torcedor. A presença de jornalistas sérios como convidados eventuais camufla a evidente parcialidade. A linha entre jornalismo e entretenimento acaba desaparecendo. É perturbador ver uma emissora com décadas de tradição jornalística como a Bandeirantes permitindo isso em nome dos altos índices de audiência.

Velloso: a decepção

Já é desnecessário recomendar a nossa torcida que não assista a esse programa, que não repercuta seu conteúdo. O Verdazzo pede desculpas aos leitores por postar o link, mas neste caso, foi necessário disponibilizar todo o contexto da decepção com Velloso, um dos grandes ídolos da história recente do Palmeiras.

No vídeo, Velloso, que é o representante palmeirense encravado no meio de dois gambás, só faltou levar um tapão na nuca. Como um menino que tenta ser aceito no grupo dos caras mais fortes e legais da classe, ele aceitou a zoeira, mesmo que isso tenha significado ir contra ao que todos os nossos jogadores apregoam com muita clareza em todas as entrevistas.

Uma bela história, maculada

O time de 1989 tinha Velloso como grande revelação
O time de 1989 tinha Velloso como grande revelação

Quem tem mais de 35 anos provavelmente vai se lembrar de um amistoso entre Palmeiras e Flamengo, no Pacaembu, que abriu a temporada de 1989 e serviu para apresentar o novo time à torcida. Leão era um técnico em ascensão e o Verdão havia contratado um pacote interessante de jogadores. O Palmeiras perdeu por 2 a 1, mas a torcida saiu do estádio feliz em ver um time realmente promissor.

Estrearam como titulares Careca Bianchesi, Paulinho Carioca, Dario Pereyra, Júnior, além de Velloso e Neto, que marcou o gol do Palmeiras e subiu no alambrado enlouquecido. Gaúcho, que viria a ser um dos grandes nomes daquele ano, entrou no segundo tempo. Mas a jogada que não sai da mente de nenhum palmeirense que estava vivo naquela noite foi a defesa que o menino Velloso fez numa cabeçada mortal de Zico, à queima-roupa, dentro da pequena área.

Velloso nunca chegou a ser o ídolo máximo das grandes conquistas que participou. Em 93, sofreu com lesões e quem saiu nos pôsteres do Paulista foi Sérgio. Foi para o Santos e não ganhou o Brasileiro daquele ano, nem o Paulista de 94. Voltou ao clube para ganhar o Brasileirão de 94, num time que tinha Antônio Carlos, Cléber, Roberto Carlos, César Sampaio, Rincón, Rivaldo, Edmundo, Evair e Zinho.

Velloso faz mais uma ponte espetacular
Velloso faz mais uma ponte espetacular

Em meio a tantos craques, num time que era pouco atacado, conseguiu relativo destaque com intervenções espetaculares, como a defesa de mão trocada na final, numa falta batida por Belzebu. Velloso, aliás, é talvez o goleiro com os movimentos mais espetaculares em toda a História do clube. A “plástica” de seus saltos foi talvez a mais bonita entre todos os que já envergaram a mítica camisa 1 do Palmeiras.

Nas peladas, todo palmeirense que se aventurava a ir para o gol gritava “Veeellooooooso” ao fazer suas defesas. Foi titular em 1996, no espetacular time dos 102 gols – mas foi o responsável por perder a Copa do Brasil naquele ano na final contra o Cruzeiro, numa falha grosseira. Dois anos depois, redimiu-se e levantou essa taça como titular contra o mesmo adversário. Em 1999 lesionou-se num treino e viu Sérgio e Marcos saírem no pôster da Libertadores.

Pode ser que Velloso precise muito do emprego e que por trás do ambiente aparentemente descontraído do programa, exista uma hierarquia implacável onde quem não obedece ao chefe corre o risco de ser mandado embora. Ou pode ser que ele tenha aceitado a “brincadeira” simplesmente porque não acredita que ela possa influenciar em nada nos jogadores. Ou mesmo pode ser que Velloso seja apenas um bobão que pagava o lanche dos outros meninos na cantina da escola. De qualquer forma, é muito decepcionante.

Velloso era um cara que, por sua história no clube, quando nossos caminhos se cruzaram, sempre tratei com reverência – a mesma reservada a craques como Ademir, Dudu, Evair, Marcos, Luís Pereira, César Sampaio, Leão, entre tantos outros. Mas depois deste episódio, admito que ele perdeu essa aura. Mesmo sem maldade, acabou destruindo aos poucos a imagem de ídolo alviverde. Hoje ele é só o bobo da corte do Neto.

Aqui não cola

Apesar de alguns torcedores do Palmeiras já terem estupidamente embarcado no oba-oba, os jogadores permanecem firmes. Na coletiva de ontem, Moisés já disse que podem tentar jogar a pressão para cá, que não vai colar – provavelmente em alusão ao programa mencionado.

Enquanto a distância era longa, até cabia ligar a calculadora, conjecturar sobre as possibilidades, porque a probabilidade era pequena. Agora que a distância caiu e que a chance real volta a existir, tudo o que não precisamos é aumentar a ansiedade. A obrigação tem que permanecer toda do lado de lá. Nosso foco segue sendo o G4. Foco apenas no jogo contra o Cruzeiro. VAMOS PALMEIRAS!


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