Doentes da arquibancada e comunicadores do culto ao ódio conduzem o futebol a um destino sombrio

Fabio Menotti/Ag.Palmeiras

Na última quarta-feira, feriado no estado de São Paulo, a base movimentou o Pacaembu com 3 finais estaduais sendo disputadas ao longo do dia. Logo cedo, o Sub-15 conquistou o terceiro título em quatro anos ao bater o Santos por 5 a 0, depois de empatar o jogo de ida na Vila Belmiro por 0 a 0.

A jornada teve sequência pouco depois e o time Sub-17 tinha uma dura missão: reverter o placar de 0 a 2 que o SPFC construiu na primeira partida, no Morumbi. Gabriel Veron, grande destaque da Copa do Mundo da categoria, estava em campo envergando a 10 e com a braçadeira de capitão; Henri, Garcia e Renan, companheiros de Veron na seleção, também jogaram.

Fabio Menotti /Ag.Palmeiras

A desvantagem foi anulada ainda no primeiro tempo, com dois gols de Gabriel Silva. Marcelinho fez o terceiro aos 22 do segundo tempo e a taça parecia estar chegando, mas Mineirinho diminuiu para o SPFC aos 31, levando a decisão novamente para os penais. Três minutos depois, Gabriel Silva fez o quarto gol, o terceiro dele, e tudo estava se encaminhando para um desfecho positivo, mas a arbitragem validou um gol ilegal do SPFC já nos acréscimos.

O título foi decidido na marca de tiros livres e o visitante levou a melhor. Atletas do SPFC então provocaram nossos jogadores e a torcida, composta unicamente por palmeirenses. Um legítimo quebra-pau teve início, sendo rapidamente controlado sem maiores consequências.

À tarde, o Sub-20

Fabio Menotti/Ag.Palmeiras

Envolvido também na disputa do Brasileirão da categoria, do qual é finalista e enfrentará o Flamengo, nosso time Sub-20 encarou o Red Bull, sensação do torneio, dono da melhor campanha e do melhor ataque, disparado.

O Palmeiras não inscreveu Angulo na competição e ainda se ressente muito da perda de Vitão para o futebol do exterior. Com falhas na defesa, o time acabou derrotado por 2 a 0 e terá uma difícil missão no jogo de volta, marcado para domingo às 10h em Bragança Paulista.

De forma inacreditável, algumas centenas de torcedores que se prestaram a sair de casa num feriado para assistir aos jogos da base, de graça, passaram a hostilizar nossos meninos do Sub-20:

– Ô Sub-20, vai se foder, o Sub-15 é melhor do que você!

Doença

Parte da torcida está gravemente doente. Temos visto diversas demonstrações de estupidez extrema da torcida em relação aos profissionais nos últimos anos – desde a agressão a Vágner Love em 2009, o cerco a João Vítor em 2011, passando pela “xicarada” que feriu a orelha de Fernando Prass em Buenos Aires, até os recentes episódios de apedrejamento do ônibus da delegação em dia de jogo da Libertadores e de ameaça de morte a Felipão.

Bruno Henrique teve que ouvir bobagens de um torcedor ávido por “representar a torcida” – pelo menos na cabeça dele. O incauto levou uma invertida da esposa do atleta, que foi filmada e viralizou. Pois outros torcedores inacreditavelmente cercaram e intimidaram a moça, dias depois, na Arena da Baixada, indignados com sua reação.

O desejo intenso, nocivo e irracional pela vitória é motivado, aparentemente, por alguns fatores – um deles é o que está sendo chamado de “zueirofobia”. As pessoas se apegam a seus times como bandeira para “zuar”, futebol está perdendo a essência e virando o determinante para quem vai “zuar” e quem vai “ser zuado”. E ai do time se perder e fizer com que o doente “seja zuado”.

Existe também a política do clube, claro, que desde 1914 tumultua o ambiente e é nosso pior inimigo, sempre que praticada com “p” minúsculo.

Mas no caso específico deste episódio do Pacaembu, só muita frustração pessoal para fazer com que o torcedor se revolte a ponto de xingar ferozmente atletas da base. Os doentes veem a vitória do time como vitória deles próprios – talvez a única vitória possível em suas vidas miseráveis. Mesmo que sejam apenas meninos.

No limite, não parece tão absurdo imaginar que o comportamento desses lunáticos seja inconscientemente calculado, para estragar mesmo a carreira desses jovens que, caso se tornem atletas profissionais, certamente serão muito mais bem-sucedidos financeiramente que o frustrado e invejoso cidadão que está vociferando enlouquecido no alambrado.

É tudo culpa da emoção

Esse ciclo é renovado por comunicadores – profissionais e amadores – que estimulam o culto à “zoeira” ou ao ódio diante das derrotas. Hipocritamente, usam a emoção inerente ao futebol como justificativa para atitudes hediondas.

O futebol está mudando, em várias frentes. Mas o comportamento doentio da torcida, que sempre foi a razão da existência de todo o espetáculo, está direcionando o pacote para um destino cada vez mais sombrio. Está difícil se divertir no futebol, mesmo torcendo por um dos times dominantes.

Nossa equipe Sub-20 tem uma geração sensacional. Magrão, Esteves, Patrick de Paula, Gabriel Menino, Alan e Angulo têm condições de, no mínimo, serem testados no time de cima no ano que vem. A torcida clama por chances à base – mas não hesitam em detoná-los no primeiro tropeço, mesmo às vésperas de decidir o Brasileirão da categoria, e justo diante do Flamengo.

Precisamos de atitudes firmes das entidades que regulam o esporte e a sociedade. O incremento no nível da educação fundamental e da educação de torcedores parece ser o único caminho, de longo prazo, para que comunicadores e torcedores nos ajudem a desviar desse abismo para onde nos encaminhamos. O problema maior é que mudanças de longo prazo não reelegem ninguém.


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Planejamento para 2020 pede que o Palmeiras despreze o estadual e a copinha

Paulista 2020

A FPF definiu na terça-feira os grupos e o regulamento do campeonato paulista de 2020. A conquista do torneio estadual apenas cruza, de passagem, com as ambições do Palmeiras para a temporada e a forma como o clube encarará o torneio deve ser objeto de reflexão por parte de quem planejará o projeto do futebol do Verdão para 2020.

O regulamento mudou um pouco. Em vez de 18, o campeonato ocupará 16 datas; foram suprimidos os jogos de ida nas fases de quartas-de-finais e semifinais. O limite de 26 atletas na lista principal foi mantido; a tal “lista B”, com jogadores da base, é ilimitada – mas apenas 5 atletas desta lista poderão estar em campo simultaneamente.

Nada indica que a FPF tenha mudado sua disposição infinita de entregar um troféu ao SCCP, para garantir o circo anual da torcida mais numerosa da capital paulista. O mesmo acontece na Copa São Paulo, tradicionalmente.

Assim, o Palmeiras deve encarar as duas competições apenas como parte obrigatória do calendário, fazendo o planejamento com inteligência para poder usar os destaques da base da melhor forma possível.

Transformações

Wesley
Fabio Menotti / Ag.Palmeiras

O campeonato paulista, que já foi Paulistão, hoje obriga o Palmeiras a disputar nove partidas contra times pequenos, tradicionais, mas que nem de longe honram a História do que um dia foi o maior campeonato regional do mundo.

Já a Copa São Paulo, que reinou absoluta como principal competição das categorias de base por décadas, ganhou concorrentes de peso. A CBF instituiu o Campeonato Brasileiro Sub-20 e a Copa do Brasil Sub-20; a Federação Gaúcha desenvolve há alguns anos a Copa Ipiranga, que em seus primórdios era considerada o Campeonato Brasileiro da categoria.

Essas três competições já batem, de longe, a Copa São Paulo em importância. Inchadíssima, a copinha se arrasta durante as férias dos profissionais apenas para encher a grade do SporTV com times de qualidade técnica risível, em gramados paupérrimos e castigados pelas fortes chuvas do verão paulista, que também costumam derrubar as iluminações, precárias. Ainda assim, segue sendo uma festa para empresários, que precisaram incrementar suas redes para poder peneirar algum talento que realmente tenha algum futuro.

Por todas essas transformações, o Palmeiras precisa planejar bem o uso dos jogadores do sub-17 e do sub-20 nessa virada do ano, visando cumprir as férias dos jogadores depois de uma temporada tão puxada, e aproveitar nossos maiores talentos da melhor forma possível, desprezando as decadentes competições organizadas pela FPF.

Prioridades

Fabrício

A prioridade da base deve ser a “lista B” do estadual. Pelo menos dez jogadores, dentre os que tenham condições de aspirar a uma vaga no elenco principal, devem ser preservados da Copinha, para terem condições legais e físicas de fazer uma boa temporada em 2020.

Para isso, basta usar e abusar do uso dessa lista, principalmente nos nove jogos contra times pequenos – nos clássicos e na fase final, claro, a disputa tem um componente a mais que não pode ser desprezado e os testes podem ficar em segundo plano.

Mano Menezes – ou seja lá quem for o técnico em 2020 – pode observar essa molecada ao mesmo tempo que desenvolve o plano técnico-tático para a temporada. E os principais jogadores terão mais tempo para fazer o trabalho físico adequado, sem incorrer em desgastes exagerados logo no começo do ano.

Gabriel Verón
Fabio Menotti/Ag.Palmeiras

Atletas como Matheus Teixeira (G), Esteves (LE), Patrick de Paula (V), Gabriel Menino (V), Alan (M), Angulo (M), Gabriel Veron (A), Fabrício (A) e Guilherme Vieira (A), além de Papagaio (A, emprestado ao Goiás), vêm mostrando que merecem uma chance de serem observados no estadual.

Além deles, Matheus Rocha (LD – Vitória), Pedrão (Z – América), Léo Passos (Londrina – A) , Yan (Sport – A) e Artur (Bahia – A) também podem ser observados no estadual – afinal de contas, a justificativa para serem emprestados é exatamente pegarem cancha para serem avaliados e aproveitados depois. Todos já estouraram a idade e alguns deles podem fazer parte da lista “A”, ao menos na fase de classificação. Caso contrário, quando serão testados com nossa pesada camisa?

Equilíbrio

Carlos Eduardo
Cesar Greco/Ag.Palmeiras

O uso de atletas da base, desde que efetivamente mostrem requisitos técnicos para jogar em em alto nível, de forma compatível com a competitividade que queremos – inclusive nas competições mais cascudas como a Libertadores – não precisa ser completamente descartado em prol do uso de jogadores adquiridos no mercado, que por vezes são de qualidade duvidosa.

Ao contrário: ao dispor da base para preencher com qualidade algumas vagas do elenco, o clube pode redirecionar seus recursos de forma mais objetiva. Em vez de insistir na fórmula de investir em cinco ou seis apostas com “valor potencial de revenda alto”, o Palmeiras pode mirar em uma trinca de jogadores que cheguem para resolver, aproveitando a ótima espinha dorsal já existente. O restante do elenco pode ser preenchido com a peneira que o estadual pode proporcionar em nossa molecada da base.

Em nível nacional e continental, o sarrafo subiu mais ainda. Precisamos de mais resultado em campo. A balança das contratações está pendendo demais para o lado econômico e quase nada para o lado técnico. O equilíbrio precisa ser buscado. O uso da base, de forma planejada, pode contribuir bastante com isso. Desprezar a Copinha e o estadual é mandatório para que o planejamento passe por esse ajuste.

Confira aqui a agenda de transmissões da base no final de semana


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Agenda de transmissões da base para o final de semana

Atenção para a agenda de transmissões das categorias de base do Palmeiras no próximo fim-de-semana. Os campeonatos das cinco categorias vão chegando ao funil e o Palmeiras segue forte, avançando sempre como primeiro colocado em todas as chaves.

Sub-11

O Palmeiras visita o Audax, no jogo de ida das semifinais. A partida acontece no domingo às 9h e terá transmissão MyCujoo/Verdazzo. A outra semifinal é entre Santos e SPFC.

Sub-13

O Sub-13 do Palmeiras, sensação da base em todas as categorias do campeonato paulista, vai a Cotia enfrentar o SPFC, no jogo de ida das semifinais. A campanha invicta registra 15 vitórias e um empate, 90 gols marcados e 5 sofridos em 16 partidas.

A partida acontece no domingo às 10h30, com transmissão MyCujoo/Verdazzo. O outro confronto das semis é entre Marília e Santos.

Sub-15

Depois de vencer a Ponte Preta por 1 a 0 em Águas de Lindoia, as crias da Base recebem os campineiros no jogo de volta das quartas-de-finais, em mais um jogo com transmissão MyCujoo/Verdazzo. O jogo será no sábado às 9h

Sub-17

Mesmo bastante desfalcados pelos atletas que servem à seleção brasileira que disputa o Campeonato Mundial, nossos meninos venceram o Audax por 2 a 1 em Osasco e agora recebem o adversário no CT II, no sábado, às 11h com transmissão MyCujoo/Verdazzo.

Sub-20

No domingo, às 14h, com transmissão pela TV Band, o time visita o Cruzeiro pelas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro, jogo de ida.

No campeonato paulista, o time passou ontem pelo Botafogo no Pacaembu por 1 a 0 (depois de vencer na ida por 3 a 0) e avançou às semifinais.

Quadro-resumo:

“O Palmeiras não usa a base” é um mito; discussão precisa melhorar

Academia de Futebol II, em Guarulhos

O uso da base – ou a falta dele – vem sendo usado como argumento para bombardear a gestão de Alexandre Mattos à frente do futebol palmeirense. De fato, o atual diretor de futebol tem cometido alguns erros à frente do departamento e não está nem um pouco livre de receber críticas. E a forma de aproveitamento da base talvez seja mesmo um deles.

A despeito da atuação de Mattos nos últimos anos, o Palmeiras é criticado há décadas por ser um time que não aproveita a base no time de cima.

Será que a fama é justa? E por que será que a maioria dos meninos que conseguem alguma chance não vingam no time de cima?

O objetivo deste post é desmistificar a fama de nosso clube de não usar a base e apresentar elementos para promover uma discussão um pouco mais ampla sobre o aproveitamento de jovens no Palmeiras.

Vamos aos dados

Gabriel Jesus

Vinicius; Taylor (Mailton), Thiago Martins (Vitão), Nathan (Pedrão) e Victor Luis (Esteves); Gabriel Furtado, Matheus Sales (Jobson), Juninho Silva e Vitinho; Gabriel Jesus e Fernando (Yan, Papagaio, Artur, Iacovelli ou Léo Passos).

Este time totalmente oriundo de nossa base já entrou em campo de 2015 para cá, já sob a gestão Mattos. Todos já tiveram alguma chance – é claro, não ao mesmo tempo.

Convenhamos: tirando o extra-classe Gabriel Jesus, ficaríamos bem pouco empolgados caso qualquer um deles fosse contratado no mercado. Tirando alguns poucos que poderiam (ou ainda podem) evoluir bastante na carreira, a lista contém vários flops. Parece um time dos tempos em que viramos coadjuvantes.

Por falar nesse tempo, temos mais uma penca de jogadores da base usados de 2010 para cá, antes da chegada de Mattos, que desmentem a fama de não aproveitarmos os pratas-da-casa. Com exceção de Marcos, a sensação ao verificar a lista não é positiva. Talvez o único dessa lista que tem ou teve uma carreira interessante foi o lateral Gabriel Silva.

GOLEIROS
Bruno
Deola
Fábio
Raphael Alemão

LATERAIS
Bruno Oliveira
Léo Cunha
João Pedro
Luís Felipe
Gabriel Silva

ZAGUEIROS
Wellington
Gualberto
Luiz Gustavo
Marcos Vinicius

VOLANTES
Renato
Souza
Bruno Turco
Gabriel Dias
João Denoni
Fernando

MEIAS
Felipe
Bruno Dybal
Índio
Patrik
Bruno Oliveira
Diego Souza Xavier
Edílson
Joãozinho
Patrick Vieira

ATACANTES
Chico
Vinishow
Caio Mancha
Émerson
Erik
Miguel Bianconi

É possível usar os links* para tentar reconhecer pela foto alguns deles, que tiveram pouquíssimas participações e poucos torcedores lembram sequer de suas existências, apontando apenas pelos nomes.

Em compensação, outros como Deola, Vinishow e Patrik vestiram nossa camisa por mais de 100 vezes. E nenhum deixou saudades.

Ao todo, foram citados 55 jogadores de nossa base, que tiveram alguma chance de 2010 para cá, no time principal. Definitivamente, não dá para dizer que “o Palmeiras não usa a base”.

O que é histórico é que nossa base, até 2012, sempre foi uma excrescência. Mal gerida, usada como balcão de negócios, fatiando os direitos econômicos dos atletas sempre que possível para agradar a uma ou outra figura de bom relacionamento com nossas diretorias, com um trabalho de formação pobre e atrasado, nossas categorias menores só produziram talentos como Marcos por fenômenos estatísticos.

Usa a base, mas usa mal

Souza

O problema do Palmeiras não é não usar a base, mas sim como a usa. Até 2012 era mero remendo: o clube recorria à molecada para emergencialmente preencher lacunas no elenco, e muitas vezes, como vimos, usava meninos com sérias deficiências na formação e/ou na transição.

Isso mudou a partir de 2013, quando a gestão foi remodelada em todos os aspectos. Hoje o Palmeiras é um devorador de títulos nas categorias de base. O clube já produz jogadores que podem eventualmente compor o elenco principal, ao menos como terceira opção. Um dos problema no uso atual da base é que a transição para o profissional ainda parece precisar de um aprimoramento.

A tática usada com alguns, como Arthur, Pedrão, Gabriel Furtado, Matheus Rocha, Vitinho, Léo Passos e Papagaio, é emprestá-los a times com menos pressão para que possam pegar rodagem jogando. Funcionou bem com Victor Luis.

A questão é que quando o contrato se aproxima do fim, tendo como concorrência em nosso elenco atletas contratados a altos valores no mercado, os agentes preferem recolocá-los onde tenham mais oportunidades de jogar, imediatamente.

Fernando, do sub-20

Outros, por pressa ou por oportunidades, acabam nos deixando muito cedo, como recentemente Vitão e Fernando. Outros partem sem ao menos estrear, como Luan Cândido. Todos foram negócios muito bons em termos financeiros para o clube.

Mas será que a avaliação entre vender ou segurar; liberar ao final de contrato ou promover, está sendo feita da melhor forma? Quais são os critérios objetivos usados para esse processo de tomada de decisão?

O uso da base é precioso demais para ser usado apenas como argumento (falacioso, como pudemos ver) para atacar o diretor de futebol do Palmeiras, uma das cadeiras mais cobiçadas do país por qualquer profissional da área comercial. A discussão precisa melhorar. Com os dados acima, esperamos contribuir para isso.

* Os dados estatísticos estão contando a partir de janeiro de 2010. Isto se deve ao fato de que esses dados estão sendo adicionados manualmente em nosso banco e o processo é minucioso e longo. Neste momento os dados de 2009 estão sendo inseridos. A previsão para que todos os dados, desde 1915, de todos os jogadores, estejam disponíveis é final de 2021.

Por que a base do Palmeiras precisa fornecer mais jogadores para o time de cima

Palmeiras Campeão Brasileiro 2016

O Palmeiras é hoje o protagonista do futebol brasileiro e sul-americano graças a um meticuloso processo de recuperação financeira iniciado em 2013, que permitiu que o clube conseguisse se manter competitivo sem recorrer a adiantamentos de receitas, seja junto a bancos, a federações ou a emissoras de TV. Isto, você já sabe.

Praticamente livre de despesas bancárias, o clube desfruta dessa vantagem conquistada e monta elencos extremamente fortes. “Atraso no pagamento” é uma expressão que jogador do Palmeiras só ouve falar pelas notícias. O que há de melhor no mercado brasileiro hoje veste verde.

Claro, não somos a última bolacha do pacote. O talento inato do jogador brasileiro permite que outros clubes também montem elencos com jogadores de muita qualidade. As disputas pelo Brasileirão e principalmente pelos mata-matas estão completamente abertas.

Mas a competição contra os grandes europeus no Mundial em dezembro praticamente não existe. O que acontece é o cumprimento do protocolo. Os times sul-americanos por vezes nem chegam à final e dependem de um jogo encaixado, de um goleiro inspirado, do desdém do adversário e de muita sorte para poderem levantar o Mundial. Se um clube top sul-americano jogar dez vezes contra um campeão europeu, vai triunfar uma ou duas vezes, no máximo. E essa inferioridade se reflete na seleção brasileira: antes temida, hoje é mera coadjuvante na Copa do Mundo.

Os pilares da transformação

Academia de Futebol

São três os pilares em que os clubes brasileiros precisam se apoiar para que nosso futebol torne a ser temido: 1) saúde financeira; 2) profissionalização e modernização do departamento de futebol; e 3) departamento de base forte.

A saúde financeira é algo que precisa ser buscado pelos endividados clubes às custas de medidas recessivas. Enquanto os dirigentes insistirem em adiantar verbas em contratações ruidosas, mas de pouca efetividade, em nome de sustentação política, vão continuar como hamsters correndo na roda. O Palmeiras puxou a fila de 2013 para cá e já vemos alguns clubes vindo na esteira – o principal deles é o Flamengo. Os outros ainda seguem no ciclo vicioso de tomar empréstimo, arriscar tudo em nome de um título e de uma premiação, para depois viver anos de recessão, pagando juros. Com o tempo, tendem a aprender o modelo – alguns sobreviverão e se fortalecerão, outros “virarão Portuguesa”.

A ciência proporcionou o aumento da capacidade física dos atletas. Com jogadores que correm mais e ocupam melhor os espaços, o leque de possibilidades táticas se abriu como nunca. O jogo, que há algumas décadas era simples e decidido no talento por atletas que guardavam posição e se davam ao luxo de serem fumantes(!), agora requer muito mais estudo e dedicação de comissões técnicas e atletas, que precisam estar inseridos num ambiente cada vez mais moderno e profissional. E isso exige instalações planejadas, equipamentos de ponta e profissionais capacitados. Mais uma vez, o Verdão está na frente dos concorrentes, sobretudo depois da inauguração do Centro de Excelência. Aguardem as cópias.

Sanar a economia e desenvolver a estrutura são passos fundamentais, mas não trarão todos os resultados desejados se o terceiro pilar não estiver a pleno: as categorias de base. E o Palmeiras vem conquistando títulos como nunca nas categorias menores. Falta ainda acertar a transição do sub-20 para o profissional, para que os meninos que estejam perto de estourar a idade tenham condições de integrar o elenco principal, coisa que ainda não acontece com a frequência que gostaríamos.

Base: não tem esse nome à toa

As categorias de base são fundamentais à medida que fornecem matéria-prima para os dois outros pilares. Não é à toa que tem esse nome.

É em casa que se forma atletas de ponta, com fundamentos de jogo desenvolvidos e com estrutura mental para suportar uma carreira de enorme pressão como a de um jogador profissional.

Quando todos os principais clubes tiverem sanado suas finanças e concluído suas estruturas, algo que é apenas questão de tempo, a base será a diferença entre um clube protagonista e um coadjuvante.

Atletas extra-classe formados em casa podem subir para o time principal, gerando ganho técnico a custo baixo, para posteriormente gerar altos lucros com futuras transferências – como aconteceu com Gabriel Jesus.

Além disso, preenchem lacunas no elenco e evitam que o clube precise recorrer ao mercado para melhorar todas as posições, sobrando mais recursos para investir em necessidades específicas. Em vez de comprar 4 ou 5 jogadores nota 7 em nível mundial, será possível trazer um par de jogadores de primeiro nível. E assim o time sobe muito de patamar e passa a sonhar em bater de frente com as maiores potências mundiais.

Paramos no tempo

Os jogadores brasileiros, hoje, seguem tendo o talento natural que brota nas ruas e nos campos de várzea, ainda que cada vez mais raros diante do constante crescimento do setor imobiliário.

Enquanto o futebol ainda era decidido apenas pelo talento, o Brasil sobrava. Mas o jogo mudou e a profissionalização de todos os setores fez com que novas potências emergissem. Quem ficou parado no tempo, como Brasil, Argentina, Uruguai e Itália, foi ficando para trás. Quem diria que até a Inglaterra chegaria tão bem cotada ou até melhor que esses países para uma Copa do Mundo?

O talento natural precisa ser potencializado com novos conceitos desenvolvidos nos últimos anos. Se todos os clubes brasileiros profissionalizarem seus departamentos de base, colherão frutos. E isso surtirá efeito também na seleção, já que voltaremos a ter jogadores que superem os destaques dos outros países. Hoje, mesmo nossos melhores jogadores, não “engraxam a chuteira” dos grandes expoentes da Copa do Mundo, que já são frutos de uma geração desenvolvida com conceitos modernos de formação de atletas.

Nosso país ainda chora tragédias e tenta escrever leis para regulamentar os alojamentos dos departamentos de base. Estamos muito atrasados, no geral. O Palmeiras tenta, mais uma vez, puxar a fila.

Falta ainda ao Verdão melhorar o último passo: a lapidação dos meninos, que brilham nas categorias menores e levantam inúmeros troféus, para virarem jogadores de verdade. Se chegassem aos 20 anos realmente prontos, provavelmente seriam utilizados pelo time principal, mas isso ainda não acontece.

E depois?

Fernando e Papagaio

Ter atletas da base no elenco principal não é apenas uma questão de capricho, de gosto em ver um prata-da-casa brilhando. É uma questão de competitividade. Precisamos de um Gabriel Jesus a cada dois ou três anos. Precisamos de pelo menos dois Fernandos, todo ano.

A distância financeira entre o Palmeiras e os maiores clubes do mundo ainda é grande. Em 2018, estaríamos inseridos no top 30 mundial entre as maiores receitas, com quase € 160 milhões. Já conseguimos segurar um Dudu, que tem 27 anos, mas as ofertas por jovens de pouco mais de 20 anos ainda são impossíveis de cobrir.

Com a base funcionando a pleno, seremos capazes, no longo prazo, de ter recursos para competir com os maiores até na questão dos salários. O Palmeiras, em vez de ser a melhor vitrine, o trampolim mais alto para um jogador chegar à Europa, pode passar a ser o objetivo final de carreira. E aí bateremos de frente com qualquer um. É nessa direção que temos que remar.

É muito difícil, claro. Mas quem diria que estaríamos onde estamos hoje no final de 2012?


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